Cabeça de múmia egípcia é analisada na Universidade de Melbourne

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

A tecnologia e a Arqueologia caminham lado a lado desde sempre. Esta disciplina aplicou em vários momentos ferramentas como balões, máquinas fotográficas, bússolas, computadores, GPS, Raio-x, etc. Recentemente pesquisadores e alunos da Universidade de Melbourne utilizaram esta vantagem para analisar um único artefato: uma cabeça humana mumificada que está sob sua posse.

Múmias que foram criadas por mãos humanas — a exemplo das próprias egípcias — são consideradas artefatos (saiba mais assistindo ao vídeo Descobrindo o Passado: o que são múmias e 8 curiosidades sobre múmias egípcias) e como tal necessitam ser estudadas tanto do ponto de vista biológico, como cultural.

O projeto da Universidade de Melbourne possui um caráter multidisciplinar, onde agrega a faculdade de Medicina, Odontologia e Ciências da Saúde, que por sua vez combina pesquisas médicas, Ciências Forenses, tomografia computadorizada, CT Scan, Impressora 3D, Egiptologia e Arte. O time produziu a reconstrução facial do crânio, cuja idade e sexo foram identificados através da análise da sua morfologia craniana: esta pessoa foi uma mulher que faleceu entre seus 18 a 25 anos de vida.

Egiptóloga forense Dra. Foto: Paul Burston.

“A ideia do projeto é pegar essa relíquia e em um sentido trazê-la de volta para a vida com o uso de todas as novas tecnologias”, disse a Dra. Varsha Pilbrow, bioarqueóloga que ensina anatomia no Departamento de Anatomia e Neurociência. “Dessa forma, ela pode tornar-se muito mais do que um objeto fascinante para ser colocado em exposição. Através dela, os alunos serão capazes de aprender como diagnosticar a patologia marcada na nossa anatomia e aprender como os grupos populacionais inteiros podem ser afetados pelo ambiente em que vivem.”

Vídeo (em inglês) falando sobre a pesquisa.

Como a cabeça mumificada da jovem moça foi adquirida pela Universidade é um mistério. A possibilidade é de que tenha sido através de um professor chamado Frederic Wood Jones (1879-1954), que chegou a escavar no Egito. Sem informações acerca da sua aquisição e nem o registro do contexto arqueológico, logo não se sabe qual foi o nome desta mulher durante a antiguidade, o que levou aos pesquisadores da atualidade a nomearem de “Meritamon”, que na nossa língua significa “Amada de Amon”.

A origem do projeto foi a preocupação do curador do museu, o Dr. Ryan Jefferies, de que a cabeça estivesse se deteriorado internamente sem que ninguém fosse capaz de perceber. Como remover as ataduras — processo chamado de autópsia e que nos dias de hoje não é um método aconselhado, exceto em situações muito especificas como: descobrir a coloração de determinados tecidos, olhar tatuagens ou olhar materiais orgânicos tais como tampões — não era uma opção, então foi optado pelo o uso da tomografia computadorizada que consequentemente abriu a oportunidade para uma pesquisa colaborativa.

A análise da tomografia apontou que Meritamon possui abscessos dentários e indicações de anemia, perceptíveis através de manchas específicas nos ossos. A sugestão é de que essa anemia tenha sido resultante de doenças tais como a malária ou esquistossomose. Apesar da ausência do restante do corpo — que poderia fornecer mais dados —, acredita-se que a severa anemia foi a responsável por sua morte ou ao menos um dos fatores principais.

Por hora não será realizado nenhum exame de DNA da múmia por ser um tipo de análise muito cara e que está acima do orçamento do projeto. No entanto, a pesquisa contará como o estudo dos átomos de carbono e nitrogênio que poderá lançar uma luz acerca do que ela comeu durante a sua vida e até sobre o local em que viveu.

Paralelamente, um molde em 3D do crânio foi feito para então realizar uma reconstituição facial, que foi realizada pela escultora Jennifer Mann. Na Arqueologia, as reconstituições faciais têm sido utilizadas para enxergar fenótipos e humanizar as pessoas há muito falecidas. Esse método pode incorrer ao erro — já que não dará detalhes sobre cor da pele, olhos, cabelos, formato do nariz e orelhas —, mas, ainda assim, tende a ser efetivo. No caso de Meritamon ela foi representada com uma cor que eles definiram como dark olive hue, que, pelo o que eu entendi, aqui no Brasil é chamada de “pele oliva”, o que realmente lembra a de muitas iconografias faraônicas.

E ainda uma datação por Carbono-14 será utilizada para dar uma ideia de em qual período ela viveu. Em palavras simples, esse tipo de datação é obtida através da medição da quantidade de C14 disponível em um material orgânico.

Fonte:

Brought to life, 2000 years later. Disponível em < https://pursuit.unimelb.edu.au/articles/brought-to-life-2000-years-later  >. Acesso em 21 de agosto de 2016.

AUFDERHEIDE, Arthur. The Scientific Study of Mummies. Nova York: University of Cambridge, 2010.

Márcia Jamille

Arqueóloga formada pela UFS com a monografia “Egito Submerso: a Arqueologia Marítima Egípcia” e mestra em Arqueologia também pela UFS com a pesquisa “Arqueologia de Ambientes Aquáticos no Egito: uma proposta de pesquisa das sociedades dos oásis do Período Faraônico”. É administradora do Arqueologia Egípcia e autora do livro "Uma viagem pelo Nilo". [Leia seu perfil]