Uma criança morta no sítio arqueológico. E agora?

Acho um absurdo (e esta é uma opinião estritamente minha) que as pessoas achem bacana ver múmias e ossos, que queiram tirar uma foto ao lado destes indivíduos mortos e mostrar para os amigos o quanto aquilo é legal. Definitivamente a morte, apesar de natural, não é legal, principalmente quando ela vem tão cedo.

Curiosidade acerca deste assunto eu acho normal, gosto de tentar entender os processos de mumificação e identificação dos corpos e principalmente dar para aquela pessoa uma história, mas acho uma total falta de noção e bom senso tratarem o corpo daquele ser como se fosse uma peça da indiscrição e o que me mata é a dissimulação ou falta de sensibilidade. Alguém que fala que se importa com os sentimentos de um filho que perdeu o pai na guerra, mas achar super engraçado e até empolgante encontrar um cemitério com corpos de mais de 3 000 anos para mim só tem um nome: hipocrisia.

Fingir que se importa com um (mas fazer descaso do outro) porque tem que dar satisfação para um familiar… Só eu ou mais alguém acha isto estranho? (Nota: imagem de uma das criptas de Palermo – Itália).

Lamentavelmente ao questionar algumas pessoas sobre isto (por que desta diferenciação de tratamento) eu sempre recebia a resposta “É que alguém se importa”, “Ele tem parentes vivos”, mas tenho péssimas notícias para quem ainda olha a situação por esta perspectiva: existem grupos hoje que reivindicam os corpos de seus antepassados (por mais longínqua que seja a sua ligação com eles).

Durante uma de minhas viagens eu estava na reserva técnica de um museu e contaram sobre indígenas da América do Norte (se não me falha a memória) que estavam exigindo “mais respeito” com o trato do corpo dos seus antepassados (os quais tinham morrido centenas de anos antes), fato que culminou na exigência de não expor ao público os ossos daquelas pessoas.

Corpo de bebês sempre (ao menos nunca vi uma reação contraria) despertam algum tipo de sensibilidade, mas é uma sensibilidade que vergonhosamente não se estende para os adultos. Estranhamente a Arqueologia, que deveria prezar pela humanidade, por vezes acaba desumana. Onde ficou a nossa capacidade de reconhecer um individuo morto há centenas de anos como aquele que outrora foi filho de alguém? Que alguma pessoa pode ter chorado a sua morte? Não sou uma religiosa, mas eu acredito no respeito pela lembrança do próximo, mesmo que ela seja ínfima e impalpável.

Apesar desta compaixão com os pequeninos ironicamente são os corpos deles os que

Múmia de Rosalia Lombardo (Palermo, Itália). Não só o fato de ter morrido muito jovem, mas por parecer que dorme esta múmia muitas vezes desperta o lado emotivo das pessoas.

mais somem nos sítios arqueológicos, isto devido os maus tratos com os seus sensíveis ossinhos, assunto que inclusive acabou sendo discutido na SAB 2009 em uma mesa de comunicações que falava justamente da presença de ossos de crianças no sítio arqueológico e porque que esta ocorrência é parcialmente rara: devido a falta de atenção por parte do arqueólogo. Os pequenos ossos podem estar tão frágeis que em uma colherada o corpo do pequenino passa despercebido.

As múmias de bebês também sofrem bastante, a exemplo nas meninas encontradas na KV-62 (tumba de Tutankhamon): é totalmente visível a mudança causada pela forte degradação causada em grande parte pelo o tratamento que elas receberam ao longo das décadas: as crianças foram guardadas em uma caixa sem nenhum cuidado adicional em uma estante competindo o espaço com livros e outros objetos.

Por um lado somos sensíveis aos corpos de criança, mas do outro parece que temos mais cuidado no trato com os adultos, assim, penso, talvez esteja faltando por parte de muitos dos profissionais um pouco de “auto-análise” da forma como estão gerindo o sítio e aqueles que nele trabalham. Muitos chegaram à Arqueologia com a velha obsessão por tumbas, mas vale lembrarmos sempre que aquele indivíduo sepultado ali já foi a criança de alguém, independente da idade que tinha no dia de sua morte.

 

Você pode ler:

Para ler: - The Juvenile Skeleton de Louise Scheuer e Sue Black.

– The Juvenile Skeleton de Louise Scheuer e Sue Black da editora Elsevie:

Trabalhar com ossos de crianças é extremamente complicado, principalmente quando precisamos definir o sexo e a idade. Este livro busca dar um auxílio para aqueles que planejam trabalhar com este tipo de material. Ele é indicado tanto para os bioarqueologos como para quem planeja trabalhar com pediatria.

 

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Este post é uma homenagem a Erick Carvalho Marinho, aluno do curso de Artes Visuais da UFS, que faleceu ontem no horário da noite aos 24 anos de idade (idade que vou fazer amanhã). Ele era colega da minha irmã mais nova.

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Arqueóloga formada pela UFS com a monografia “Egito Submerso: a Arqueologia Marítima Egípcia” e mestra em Arqueologia também pela UFS com a pesquisa “Arqueologia de Ambientes Aquáticos no Egito: uma proposta de pesquisa das sociedades dos oásis do Período Faraônico”. É administradora do Arqueologia Egípcia.

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