A Estranha Tribo dos Arqueólogos

Infelizmente não consigo lembrar o nome do arqueólogo que escreveu isto, mas ele tinha um blog bem interessante, é uma pena que tenha fechado a página. O endereço era http://colunistas.ig.com.br/indianasilva/ e exista um texto, inclusive, em que ele falava da diferença entre os homens e as mulheres em campo e as relações dos arqueólogos (as) com suas famílias ao longo dos anos. Eram artigos com visões pessoais das quais algumas eu não concordava, mas eram divertidos de ler.

O texto abaixo é o único que deixei salvo, ele fala um pouco sobre os “novatos” em campo e as aspirações de jovens no mundo “louco” da Arqueologia:

A Estranha Tribo dos Arqueólogos

Todos os anos, em verdade a cada semestre, centenas de jovens em idade universitária desembarcam no centro oeste do país, nas florestas amazônicas, no sertão nordestino, nas praias de Santa Catarina. Seu objetivo imediato: passar algumas semanas numa escavação arqueológica de verdade, entre trincheiras, sondagens, aparelhos GPS, pás, peneiras, baldes, trenas, metros, barro e mosquitos, muitos mosquitos.

Aqueles que estão ali pela segunda vez talvez tenham aprendido algumas lições práticas e tenham providenciado também roupas longas – mesmo sob o sol escaldante – largos chapéus de palha, protetor solar, repelente de insetos, botas resistentes, capas de chuva, aparelhos tocadores de MP3.

Mas boa parte deles estará ali pela primeira vez e, mesmo com os demais sabendo do sofrimento alheio, terão de passar sozinhos pelas provações de seu primeiro campo.

Por incrível que pareça as garotas – em geral mais inteligentes do que os rapazes – gostam tanto dessa experiência quanto eles e chegam em quantidade equivalente. Todas muito meninas, tanto quanto os rapazes (embora alguns exibam vastas cabeleiras e barbas, conquistadas a custo durante seus primeiros anos de curso universitário em humanidades).

Com algum tempo vão aprender também que barbas e cabelos longos tem benefícios e desvantagens. Se estiver sendo atacado por insetos ou sob um sol de rachar mamona a barba e o cabelo vão te proteger e diminuir a área exposta. Por outro lado, o calor será maior e se trombar com um cacho de formigas, carrapatos, micuins ou qualquer coisa que entranhe em seus pelos se arrependerá amargamente de não ter raspado até o último fio do seu corpo.

Pergunto a um deles: O que te fez buscar a arqueologia?

“Nenhuma outra atividade me ofereceria a oportunidade de conhecer lugares tão distantes sem ter de gastar nada, aprendendo e ainda ganhando alguma coisa. Além do mais os campos de arqueologia são o mais próximo que você terá de uma experiência comunitária com gente da sua idade.”

A verdade é que alguém que sobreviva aos dois primeiros anos da arqueologia tem grandes chances de se tornar um grande conhecedor do país e mesmo de lugares mais distantes, como América Latina, Oriente Médio, Grécia. E isso sem ter que depender dos recursos familiares.

Mas há sempre num acampamento de arqueólogos – ou mesmo numa pensãozinha pouco recomendável perdida no oco do mundo – muita gente que foi atraída pelos filmes de aventura. Tesouros, templos escondidos, canibais e coisas do tipo ainda povoam as cabecinhas juvenis de muitos que chegam as salas de aula de arqueologia, mas, mesmo depois de um ou dois semestres de aula, os sonhos não se dissipam totalmente. Nunca vi nenhum destes jovens não ficar absolutamente eufórico diante da escavação de uma urna funerária, de um enterramento. Sem contar os que se dedicam à arqueologia clássica, à egiptologia ou à subaquática, escavando navios afundados, resgatando “tesouros de pirata” (embora não possam ficar com um dobrãozinho sequer).

Eles levantam de manhã, por volta das seis da matina, põem roupa surrada, tomam café, passam protetor nas partes expostas, arruma ma roupa de modo a não deixar espaço para insetos entrarem, tomam um banho de repelente, arrumam a mochila, preparam o lanche, conferem o equipamento pessoal, as anotações, metem o chapéu na cabeça e vão para o transporte coletivo, em geral uma Kombi caindo aos pedaços. Muito tempo sacolejando até o ponto mais próximo da escavação, dividindo espaço com trabalhadores braçais contratados na região, para fazerem o esforço mais bruto. Chegam ao lugar, e então mais uma longa caminhada, que pode durar até hora ou mais. Por volta das oito ou nove da manhã estão finalmente escavando.

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Dicas para escolher um bom livro de Egiptologia

O Brasil possui um sério problema no que diz respeito a títulos de livros ligados a Arqueologia Egípcia. O nosso país é extremamente inexperiente no ramo e são poucos os títulos escalados para fazerem parte do nosso repertório nacional e para variar, em sua maioria, não são de cunho acadêmico.

Particularmente já comprei livros muito ruins, mas isto é porque me vejo na obrigação de conhecer sobre o tipo de escrita de cada autor, porém nem todos se encontram nesta minha situação e nem podem esbanjar com a compra de livros, afinal, o mercado impresso é muito caro (por sinal isto é uma vergonha) e quando o assunto é Egiptologia a coisa vai para outra proporção, já vi livros com menos de cinco anos esgotados na editora custarem mais de R$1.500.00, o que é um absurdo já que nem se trata de um clássico (por acaso não comprei o material… Claro!). Mas não se assuste, nem todos os livros são caros, já encontrei alguns bons por menos de R$50.00 e a busca em sebos também é uma boa.

Existem vários livros sobre Antigo Egito no mercado, mas são poucos os que realmente valem o preço. Foto: Márcia Jamille Costa. 2012.

No caso de quem se interessa em seguir a carreira de egiptólogo deve se preparar e investir em sua educação e isto principalmente diz respeito aos seus livros, que são os companheiros inseparáveis dos acadêmicos. Desta forma darei aqui algumas dicas para que você possa escolher livros interessantes e que possam ser utilizados em pesquisas científicas:

(1) Pesquise sobre o autor antes de tudo: No que ele é formado? Qual o grau acadêmico? O que tem em seu currículo? Quanto de experiência ele tem no assunto? Tudo isto conta para saber se não é um pesquisador especialista em análise de líticos de Papua Nova Guiné que caiu de paraquedas na Egiptologia ou é um dono de casa que um dia pensou em escrever sobre Antigo Egito;

(2) “Amador” não é arqueólogo ou historiador: É crime assumir uma identidade que não é sua. Se alguém que é só curioso sobre os aspectos do Antigo Egito e se diz egiptólogo formado denuncie, isto é crime. Para se intitular como arqueólogo ou historiador com experiência em Egiptologia ele deve ser formado como tal. Se a pessoa for só uma curiosa deve se apresentar como tal, e não como “Egiptólogo amador”. Por acaso você já viu alguém em sã consciência contratar um “pedreiro amador”, um “mecânico amador”, “piloto amador” ou “ginecologista amador”? Por que com as Ciências Humanas teria que ser diferente?

(3) Pesquise sobre a editora: observe qual a linha editorial que ela adota, afinal, o que ela publica é o espelho do que ela é.

(4) Desconfie sempre dos temas sensacionalistas: Um livro sobre mais uma teoria de qual é a causa da morte de Tutankhamon é um bom exemplo. Os temas sensacionalistas são utilizados única e exclusivamente para vender, eles brincam com a nossa ignorância, o melhor a fazer é ignorá-los e se dedicar ao que realmente é relevante para a sociedade.

(5) Um autor famoso não quer dizer que é um autor bom (ou um cientista bom): ele pode servir para um público amador que está interessado em uma leitura light e sem compromisso com a ciência (ou seja, que quer conhecer um pouco mais sobre o assunto e não necessariamente tornar-se um profissional na área), porém muitos destes livros não vêm com referencias bibliográficas no meio dos textos, o que não possibilita a confirmação do que está escrito. Muitos egiptólogos se dedicam a escrever livros voltados para amadores com o exato fim de apresentar a ciência, porém existem casos de autores que mesmo pertencendo a um corpo de alguma Universidade podem escrever bizarrices (acontece até nas melhores famílias, lembre-se sempre disto).  Em caso de dúvidas sobre a credibilidade do cientista siga o passo (1), pesquise por seu currículo.

(6) Não julgue o livro pela capa… Literalmente: Livros relacionados ao Antigo Egito são uma maquina de gerar dinheiro, desta forma as editoras investem pesado nas capas, porém o conteúdo escrito nem sempre é um dos melhores.

(7) Questione até mesmo os autores citados no livro: o autor pode ser maravilhoso escritor e acadêmico, mas pode ter péssimas escolhas de pesquisadores para citar, e isto não é raro de ocorrer.

(8) Não ponha jamais sua crença/religião acima de tudo: livros relacionados a crenças religiosas jamais devem ser usados como fonte de pesquisa científica a não ser que o seu objetivo seja inferir acerca das pessoas que seguem tais crenças e como elas influenciam a sociedade. Se você for espírita ou segue a seita do E.T. Verde com Cara de Laranja e gosta de comprar e ler livros relacionados a estes temas guarde consigo. Além disto, a ciência moderna não se utiliza de “dados espectrais” como subsídio.

(9) Desconfie dos livros com muitas imagens e poucos textos: normalmente eles são só um “enche linguiça”. Se não for um catálogo com informações precisas ele é totalmente inútil para um pesquisador… É praticamente um livro de figurinhas.

(10) Não confie na opinião de quem não é da área: esta aprendi recentemente, o que é bom para um editor do New York Times não quer dizer necessariamente que é bom para a Arqueologia. Um dos piores livros de “Egiptologia” que já li foi extremamente elogiado por grandes jornais dos Estados Unidos.