[Vídeo] Profissionalização do Cientista

Vídeo interessante e que deve ser assistido não só pelos cientistas, mas por curiosos. A Profa.  Dra. Suzana Herculano-Houzel é da Biologia, mas esta realidade serve também para a Arqueologia (e qualquer outro tipo de cientista), principalmente para aquelas pessoas que creem que trabalhar com Arqueologia é caridade e que não precisamos por comida na mesa.

Update: Foto postada em 2016. Fabio Motta/Estadão.

O vídeo tem relação também com o nosso ambiente de trabalho, afinal, quem nunca trabalhou em campo por mais de 08:00 horas (sem direito a hora extra), precisou almoçar porcamente e ainda teve seu pagamento atrasado não dias ou semanas, mas meses (ou nunca foi pago)?

(Comentários) III Semana Internacional de Arqueologia “André Penin”

Ocorrida entre os dias 22 e 27 de abril no prédio da História e Geografia (FFLCH) da USP, a III Semana Internacional de Arqueologia “André Penin” do MAE-USP buscou levantar discussões de âmbito interdisciplinar acerca dos caminhos que a Arqueologia está seguindo tanto no Brasil, como no mundo. Além dos debates acadêmicos, o evento efetuou uma homenagem ao falecido Prof. Dr. André Penni, que deixou como legado uma louvável produção acadêmica. Como não tirei nenhuma fotografia postarei aqui aquelas que foram efetuadas pela organização e que estão disponíveis na página do Facebook da mesma.

No evento ocorreram atividades como mesas redondas, palestras, comunicações, um workshop, exposições de fotografias, um passeio pela reserva técnica e mostra de cinema. Aqueles que estavam previamente inscritos ganharam uma bolsa com a programação do evento, folders, mapas da universidade e um cartão com a lista de materiais que podem ser analisados pelos testes de Carbono 14.

 

Apresentação de comunicação na III Semana Internacional de Arqueologia “André Penin”. Foto: Evento (Divulgação).

 

Em termos gerais foi uma semana extremamente produtiva e com um bom público composto não só por arqueólogos e estudantes de Arqueologia, mas por estudantes de História e Geografia (aparentemente surgiu de Literatura também), além de (minha parte favorita) curiosos. É extremamente gratificante quando alguém de fora da academia ou não pertencente ao meio das Ciências Humanas comparecem aos eventos de Arqueologia, especialmente porque esta é uma experiência diferente da de ler uma revista sobre o assunto ou ver um documentário, já que são os próprios pesquisadores que estão na frente de um público falando da sua experiência. Um exemplo: sabem aquela famosa descoberta do túmulo do Senhor de Sipan? No evento o Quirino Olivera Núñez do Museu Sipan estava lá, assim como o Jürgen Golte (UNMSM), que explicou um pouco do seu trabalho com a iconografia mochica. Ambos estavam na mesa redonda “Arqueologia Pré-Colombiana” ao lado de Javier Nastri (UBA).

Palestra de Claire Smith (Flinders Uni/WAC) na III Semana Internacional de Arqueologia “André Penin”. MAE-USP. Foto: Evento (Divulgação).

Todas as palestras que assisti foram ótimas (só não vi a de Fred Limp – UARK/SAA – mas comentaram que foi bem instrutiva), mas a minha favorita, definitivamente, foi a da Claire Smith (Flinders Uni/WAC). Eu estava extremamente interessada em assistir a dela e não me arrependi. A profa. Smith comentou acerca da sua experiência como avaliadora de projetos que buscam fomentos (na palestra ela deu dicas de como escrever o pedido), a importância da publicação acadêmica, como publicar o seu livro e comentou a evolução da vida acadêmica de um (a) arqueólogo (a) de uma forma bem cômica.

Acerca das mesas redondas uma bem interessante foi “Arqueologia em Construção”, que discutiu sobre o papel da Arqueologia de Contrato versus a Acadêmica e que anunciou a possível abertura de uma graduação em Arqueologia na USP em 2015, informação apresentada no documento também denominado de “Arqueologia em construção”, produzido pelo Grupo de Trabalho “Arqueologia de Contrato” (dos estudantes do PPGARQ- MAE-USP) e disponibilizado previamente para os inscritos no evento. Nesta mesa foi possível até notar um pouco do preconceito ou rancor (nunca se sabe) que alguns dos alunos da Pós-Graduação em Arqueologia sentem pelos estudantes da graduação da mesma área. Vi isto durante o momento em que uma estudante de graduação fez uma pergunta para a mesa, imediatamente um rapaz logo atrás de mim falou algo como “Está na hora de se livrar destas crianças da graduação” e outro na minha frente disse “Cala a boca” em relação a garota, ambos com a voz baixa. Infelizmente os dois não estavam presentes no auditório quando a Profa. Dra. Marcia Bezerra comentou, não nestes termos, que as pessoas não deveriam subestimar os estudantes de graduação em Arqueologia, já que muitos daqueles que se formaram no extinto curso da Universidade Estácio de Sá hoje estão em ótimos cargos acadêmicos e fazendo muito pela Arqueologia ultimamente. Aplausos para a Profa. Márcia.

O formidável de todas estas mesas redondas, palestras e comunicações é que é possível sempre aprender mais além do que corriqueiramente vemos em sala de aula, inclusive o lado podre (a exemplo destes comentários bizarros dos alunos citados anteriormente).

 

Para as palestras e mesas com participantes estrangeiros, receptores para tradução simultânea foram disponibilizados. Foto: Evento (Divulgação).

 

Sobre a exposição de banners creio que um dos pontos positivos partiu da própria organização do evento que premiou os trabalhos mais criativos (não no sentido visual – diga-se o banner mais bonito -, mas cujo tema fosse diferente e que levantasse bons questionamentos), que apresentaram um tema relevante e a própria apresentação do pesquisador (se ele dominava o assunto). Isto mostra que conscientemente ou não eles não aprovam o método Salami Science, que nada mais é que aquela irritante prática de fatiar o seu trabalho para publicá-lo em diferentes revistas [1]. Felizmente o banner que achei mais completo e que foi bem apresentado pelo pesquisador (embora ele estivesse visivelmente nervoso) foi o que ficou empatado com outro em segundo lugar [2]. O trabalho dele foi sobre um software (a boba aqui não anotou o nome) capaz de catalogar e contar peças arqueológicas. Espero que ele leve a pesquisa adiante, afinal, contar mais de quinhentas peças não é tão divertido.

National Geographic Brasil. Maio, 2010.

Já a visita agendada a reserva técnica não foi o esperado, eu (e como mais tarde descobri também um estudante de História que trabalha com o mundo helênico) realmente acreditei que veria todas as áreas da reserva do MAE, inclusive a de Arqueologia Clássica, mas não foi bem assim, só visitamos a sala em que estão as peças amazônicas retidas pelo o Ministério Público e que outrora pertenceram ao banqueiro Edemar Cid Ferreira (se não me falha a memória, depois confirmarei esta minha informação). Mesmo assim não foi um início de tarde perdido, pelo contrário, foi instrutivo, principalmente porque não sei nada sobre Arqueologia Amazônica e tive o privilégio de ter estudantes e profissionais da área explicando acerca dos artefatos que estavam bem ao nosso lado. Definitivamente nem de longe uma experiência assim se compara a uma visita normal a um museu guiado por um guia turístico ou um funcionário que precisou decorar o roteiro. De forma alguma estou fazendo propaganda contra a visitação de museus, mas é que desde que entrei na Arqueologia perdi grande parte do fascínio de frequentar uma exposição, já que normalmente vamos para a reserva técnica e são sempre lá que ficam as peças não analisadas, as frágeis de mais para ir para exposição e as verdadeiras (neste caso quando a exposição é montada com réplicas, permitindo assim a fotografia, o que também não é ruim).

Esta reserva técnica em questão está aberta a visita de gente comum também (em contrapartida, a exposição está fechada), é só ligar para o MAE e agendar. Lembrem-se que não devem tirar fotos e nem tocar nas peças. Será um passeio bem interessante, sobretudo porque é lá onde estão se formando alguns dos especialistas em Arqueologia Amazônica do Brasil, área que está ganhando destaque no nosso país já que caiu nas graças da mídia, a National Geographic que o diga, a revista publicou uma matéria maravilhosa do Prof. Dr. Eduardo Goes Neves (PPGArq-MAE/USP), “Amazônia Ano 1000”, em Maio de 2010 e este ano (Abril, 2013) disponibilizou outra matéria falando acerca da Arqueologia no nosso país, mais especificamente em São Paulo.

 

Os trabalhos de Egiptologia no evento:

Princesa Nofret (IV Dinastia). Fonte da imagem: EINAUDI, Silvia. Coleção Grandes Museus do Mundo: Museu Egípcio Cairo (Tradução de Lúcia Amélia Fernandez Baz). 1º Título. Rio de Janeiro: Folha de São Paulo, 2009.

Estavam previstas duas comunicações e um pôster e somente uma conferencista compareceu. O quadro não foi nada animador. Acho que este problema já é endêmico, uma vez que o número de apresentações de estudantes de Arqueologia que estão se especializando em Egiptologia não é nada promissor. Neste sentido os alunos de História, que também estão se especializando em Egiptologia, estão de parabéns porque até evento exclusivo para a área eles estão sempre realizando.

 

Como conclusão, o que falar?

Espero que o evento continue crescendo e que o número de evasão de conferencistas e apresentadores de pôsteres diminua, já que a III Semana tornou-se um excelente espaço aberto para debates. Outros eventos de Arqueologia para discussões gerais já estão agendados ou já passaram. Em Brasília ocorreu o “2º Encontro de Arqueologia em Brasília: Arqueologia e politicas Públicas de Cultura – Construindo Pontes” e “2º reunião da SAB Centro-Oeste: Arqueologia Pública. Pesquisas Correntes” ambos unidos no mesmo espaço nos dias de 14 até 17 de maio de 2013 e em Recife será realizado o “V Encontro Regional de Estudantes de Arqueologia (EREARQ-NE)” entre os dias 29 de julho e 03 de agosto e por fim a Reunião Geral da Sociedade de Arqueologia Brasileira no “XVII Congresso da SAB – Arqueologia sem Fronteiras: Repensando espaço, tempo e agentes”, em Aracaju, que ocorrerá entre 25 a 30 de agosto de 2013 (estarei presente neste último).

 

[1] Explicando mais acerca do Salami Science: diz respeito aos pesquisadores que possuem um artigo publicado (ou não) e dele pega tópicos para dividir em vários outros trabalhos, especialmente pôsteres, daí o pôster fica sem muito sentido. Apesar de não ser uma pratica boa para o pensamento cientifico é a mais popular onde a “produtividade” acaba valendo mais que a “qualidade”.

[2] O nome do estudante é Aldo Magaló (Via João Carlos Moreno de Sousa).