Uma pausa para os manifestos

Fui ao protesto do dia 20 de junho (2013) em minha cidade, foi lindo, mas algo me incomodou profundamente: a maioria esmagadora não era politizada e trataram, em parte, as manifestações como “uma grande festa”, como um determinado veículo de imprensa “x” andou difundindo.

Caros, isto não é uma grande festa, esqueçam isto, é uma oportunidade de mostrar que o povo tem o poder em exigir mudanças. Porém o rumo em que as coisas estão seguindo é bem preocupante.

Protesto em Aracaju. Autor desconhecido. 20 de junho de 2013.

Protesto em Aracaju. Autor desconhecido. 20 de junho de 2013.

Vamos primeiramente ao problema das ideias de Esquerda e Direita, duas palavras que provocam desconforto em muitas pessoas, mas que não deveriam. De uma forma geral e simples estas duas palavras definem o seu tipo de pensamento político, inclusive no que diz respeito ao nosso lado ético: ser de Esquerda é pedir por direitos iguais, ser de Direita é totalmente o contrário.

A Esquerda é definida pelas lutas sociais, ou seja, direitos iguais entre gêneros e etnias (estou sendo bem simplista aqui). É constituída por aqueles (as) que procuram não deixar que uma classe absorva seus lucros em cima do bem estar de um grupo social.

A Direita é definida pela a exploração de classe e a imposição de valores. Onde um pequeno grupo controla de forma opressiva um grupo totalmente maior e menos instruído.

A Direita não gosta de protestos, isto é histórico.

Ou seja, se você está participando dos protestos em razão dos motivos abaixo [1]:

(1)    Aumento abusivo das passagens de ônibus em todo o Brasil;

(2)    A ausência de hospitais e escolas enquanto estádios luxuosos estão/foram edificados;

(3)  As propostas de investimento do dinheiro público em projetos que visam ideais de uma determinada religião, o que não condiz com o que se espera de um país que se diz laico;

(4)    O desrespeito ao piso salarial de alguns profissionais enquanto senadores e deputados votam, sem nenhum pudor, o valor dos seus próprios salários;

(5)    As taxas absurdas de vários serviços públicos que são extremamente deficientes.

Parabéns, você tem ideais de Esquerda.

Agora ser esquerdista não quer dizer que você tem que levar a culpa porque tem político que se diz de Esquerda fazendo merda por aí.

Já notei que algumas pessoas têm asco ao escutar a palavra “de Esquerda”, talvez seja devido a uma atitude reacionária do próprio indivíduo ou desconhecimento mesmo do que “ser de Esquerda” significa.

Eu já tive meu pensamento equivocado sobre o que seria ser “de Esquerda”, afinal, na minha escola, ao lado do Hino Nacional, aprendi que ser esquerdista é ser anarquista, vândalo, pobre cretino e subversivo, mas ninguém explicava a origem destes termos e o que de fato insinuavam.

Não estou aqui para ajudar na submissão de um (a) político (a) “x” ou “y”, mas para explicar no que implicam estas palavras.

Só para vocês terem uma ideia: até mesmo a oportunidade de escrever em um site sem ter que depender de uma “Grande Mídia” para revisar os assuntos que repasso para vocês pode ser considerado um juízo de Esquerda (ok, exagerei um pouco). O próprio Anonymous é um grupo de Esquerda, isto não quer dizer eles (as) possuem intenções de concorrer a algum cargo na política.

Foram graças aos conceitos de Esquerda que, por exemplo, o ex-presidente/ditador Mubarak foi retirado do poder no Egito e que os estrangeiros começaram a serem tratados com dignidade nos Estados Unidos.

 

E qual o motivo de estar escrevendo isto aqui:

Primeiro porque sou uma cidadã brasileira e o mínimo que quero é ser tratada com respeito. Como muitas pessoas estive na beira do conformismo: os impostos aumentam cada vez mais, assim como o valor de vários produtos do nosso dia a dia e eu acreditava, mesmo conhecendo vários exemplos históricos, que ou pagava ou ficava sem nada.

Eu, na minha imensa cara de pau, auxiliei com o cyber-ativismo a repassar mensagens dos protestos no Egito e até traduzindo alguns acontecimentos para o português, mas em relação ao Brasil eu até que fazia alguma coisa, mas nunca fui a nenhuma passeata contra o aumento das passagens, contra o salário abusivo de políticos, contra a ausência do aumento do salário dos professores ou mesmo contra o direito de ir e vir das mulheres… Nem isto!

A minha ficha só caiu definitivamente quando mais uma vez as tarifas dos ônibus tinham aumentado. Moro atualmente em Aracaju (a qual também é minha cidade natal) e não estou brincando quando digo que aqui é uma cidade pequena. Há muito tempo atrás nossa passagem foi inferior a R$1,00. No inicio do ano foram R$2,25, atualmente naturalmente são R$2,45 (até ontem paguei este valor, não sei se reduziram hoje). Mas não acaba por aí! A Universidade em que eu estudava é no interior, e era outro valor que também aumentou. Ou seja, eu pagava uma passagem na cidade e outra para chegar ao interior. No início do ano eram R$2,10, atualmente são R$2,30, se não me engano. Agora somem estas passagens ida e volta.

Ou seja, no início do curso eu pagava todos os dias R$8,70 para estudar. No final eu comecei a pagar R$9,50. Como no início eu ia todos os dias eu tinha que pagar toda semana R$45,50, fora a minha alimentação.

Para variar, se vocês acham que os ônibus de São Paulo e do Rio de Janeiro são uma sucata, é porque definitivamente não chegaram a ver os de Aracaju. São vergonhosos.

Para mim o fim foi ao observar um dos nossos principais terminais de ônibus em um dia de chuva. Tinha tantos buracos no teto que era melhor retirá-los logo se não era para proteger ninguém da água. No mesmo instante olhei para as pessoas e todos com um olhar conformado como se tudo aqui fosse “normal”. Não mentirei, eu fiquei revoltada.

Por isto eu peço para você que teve a paciência de ler este post até aqui que se for para a rua para protestar que seja com firmeza e com vontade de mudar algo na nossa nação. Também tentem não agredir os grupos de Esquerda, eles têm feito muito coisa enquanto o Gigante esteve dormindo. Eram eles que iam para as ruas protestar enquanto ficamos, como diria o Raul Seixas, sentados “com a boca escancarada cheia de dentes esperando a morte chegar”.

1 a 1 a a a a pro brasil acordou

E por favor, não tratem as manifestações como uma festa, porque não é! É coisa séria! Eu sei que é divertido tirar fotos para por no Facebook – o que não condeno, tem que por mesmo! Especialmente porque este é um feito histórico -, mas não deve se resumir a isto.

Outra coisa, impeachment não irá resolver. Olhem bem para trás, depois do nosso primeiro impeachment, quantos presidentes escolhidos de forma democrática resolveram nossos problemas mais básicos? Fora que está ocorrendo esta vontade por um impeachment sendo que ninguém lembra que existem pessoas no Senado que jamais deveriam estar lá.

Antes que alguém venha dizer que sou a favor da Presidenta Dilma e blá blá blá eu só escrevo uma coisa: Ela está ferrando com a Arqueologia. E é ferrando em vários sentidos. Este “progresso” dela tem passado por cima de muito sítio arqueológico. A coisa é uma loucura!

Mas eu não quero que ela seja retirada, da mesma forma que não quero isto para o Morsi no Egito, mas não é por simpatia (já perdi alguma simpatia por políticos faz tempos), é porque nossos presidentes precisam levar a sério as nossas necessidades, todos têm governado quase que totalmente de acordo com o que uma minoria quer. Fora que os brasileiros andam procurando por um messias da política, o que só mostra a nossa imaturidade nesta questão.

Nesta brincadeira os protestos estão se resumindo a isto:

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Um Gigante sem foco algum.

O que me deixa feliz é que em detrimento do “oba oba” tem muita gente debatendo e procurando soluções, alguns (mas) que eu nem sabia que se interessavam por política aprenderam vários termos e não saem por aí gritando tal qual um cão enfurecido pagando de idiota.

Fazem tempos que o nosso país está uma bagunça. Isto é fato! E nós não estamos ajudando muito com a nossa falta de foco nos protestos. Estou até com medo que palavras como estas deste pai sejam esquecidas:

Ou que nos conformemos em ligar a TV nos finais de semana para ver o sonho de alguém em ter uma casa só ser resolvido por algum apresentador famoso.

 [1] Na verdade são tantos problemas que é difícil até escolher algum para listar.

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Arqueóloga formada pela UFS com a monografia “Egito Submerso: a Arqueologia Marítima Egípcia” e mestra em Arqueologia também pela UFS com a pesquisa “Arqueologia de Ambientes Aquáticos no Egito: uma proposta de pesquisa das sociedades dos oásis do Período Faraônico”. É administradora do Arqueologia Egípcia.

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