Plano de fundo: Lagoa Redonda e roupas da MTK

Como relatei lá no Arqueologia Egípcia, pedi para que a minha amiga e também arqueóloga, Fernanda Libório, escrevesse comentando um pouco acerca da pesquisa dela em Lagoa Redonda (SE), local que serviu como cenário para as fotografias do post acerca das roupas da MTK.

Visita ao povoado Lagoa Redonda. Na imagem: Márcia Jamille. Foto: Fernanda Libório. 2013.

Visita ao povoado Lagoa Redonda. Na imagem: Márcia Jamille. Foto: Fernanda Libório. 2013.

Lagoa Redonda é um lugar extremamente lindo o qual não é possível descrever em palavras ou fotografias, é necessário realmente estar lá para visualizar o quão belo é o local.

A Fernanda, de forma bastante simpática, redigiu um texto que rendeu um ótimo Guest Post. Abaixo as palavras dela acerca da nossa visita ao povoado:

 

Sobre a visita ao Povoado de Lagoa Redonda – Pirambu, por Fernanda Libório:

O Povoado de Lagoa Redonda é famoso dentro do estado de Sergipe devido as suas dunas costeiras (excelentes para a prática de sandboard, airsoft, trilha, observação de aves, desova de tartarugas, etc.) com quilômetros de comprimento e largura e algumas com até 60 metros de altura. Trata-se de um local com lagoas, riachos, praias e cascata (Cachoeira do Roncador). Um lugar maravilhoso, mas a visita deve ser bem preparada com lanches e água. Esta área é a Reserva Biológica Santa Isabel.

Entretanto, a principal motivação da Márcia Jamille para tirar as fotos nesse local foi a presença de um complexo arqueológico sobre dunas.

Visita ao povoado Lagoa Redonda. Na imagem: Márcia Jamille. Foto: João Carlos Moreno de Sousa. 2013.

Visita ao povoado Lagoa Redonda. Na imagem: Márcia Jamille. Foto: João Carlos Moreno de Sousa. 2013.

A UFS desenvolve pesquisas embrionárias sobre os sítios arqueológicos litorâneos existentes no Povoado de Lagoa Redonda e já rendeu artigos, monografias e dissertações, esse mês (outubro) completamos 2 anos de monitoramento da área.

Visita ao povoado Lagoa Redonda. Foto: João Carlos Moreno de Sousa. 2013.

Visita ao povoado Lagoa Redonda. Foto: João Carlos Moreno de Sousa. 2013.

Visita ao povoado Lagoa Redonda. Na imagem segurando um louva-a-deus: Thobias Cerqueira. Foto: Márcia Jamille. 2013.

Visita ao povoado Lagoa Redonda. Na imagem segurando um louva-a-deus: Thobias Cerqueira. Foto: Márcia Jamille. 2013.

Atualmente, são estudados 4 sítios arqueológicos: o Sítio Cardoso, o Sítio Dicuri, o Sítio Ferroso e o Sítio Sapucaia. Todos são sítios pré-coloniais, com material arqueológico bem diverso internamente e com grandes recorrências inter-sítios. Acreditamos que foram ocupações de grupos que compartilhavam de mesmas práticas sociais durante curtos intervalos temporais, ou seja, mobilidade espacial. Ainda não possuímos datação para os sítios, então, estamos fazendo uma correlação com a formação da paisagem física para delimitação temporal (terminus post quem).

Os sítios apresentam material lítico muito diverso em relação à matéria-prima, tecnologia aplicada e funcionalidade. O material cerâmico possui pasta com mineral grosseiro, decoração plástica, bases arredondadas e rara presença de banho branco ou vermelho. Todo o material está sendo analisado no Laboratório de Arqueologia do Campus de Laranjeiras (UFS) e em breve teremos os resultados.

Visita ao povoado Lagoa Redonda. Foto: Fernanda Libório. 2013.

Visita ao povoado Lagoa Redonda. Foto: Fernanda Libório. 2013.

Contudo, a consideração mais importante dos sítios arqueológicos de Lagoa Redonda é a sua implantação na paisagem associada às atividades que desenvolviam nas dunas.

Fernanda Libório.

Fernanda Libório.

No Brasil, os arqueólogos viviam presos a interpretações associadas ao determinismo ambiental e hoje é necessário quebrar esse falso pressuposto. Em pesquisas mais antigas sobre assentamentos dunares, as interpretações sempre apontam para a impossibilidade de habitação em um ambiente hostil aos humanos, ou seja, as interpretações quanto à presença de sítios arqueológicos em dunas tendiam a apontar mudança climática após abandono da área em vez de considerar que os grupos pré-coloniais escolheram se assentar nas próprias dunas.

Porém, neste ponto é possível usar o exemplo da própria Arqueologia Egípcia, que nos ensina que mobilidade e assentamento nem sempre estão relacionadas somente aos fatores ambientais e que devem ser considerados os fatores sociais e simbólicos na interpretação do contexto arqueológico. 「fim」

P.S: Exceto pela a primeira e a última foto (a da Libório), as demais imagens deste post não passaram por nenhum filtro ou qualquer outro tipo de efeito.

 

 

Arqueóloga formada pela UFS com a monografia “Egito Submerso: a Arqueologia Marítima Egípcia” e mestra em Arqueologia também pela UFS com a pesquisa “Arqueologia de Ambientes Aquáticos no Egito: uma proposta de pesquisa das sociedades dos oásis do Período Faraônico”. É administradora do Arqueologia Egípcia.

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