Como foi trabalhar em frente a um Patrimônio Mundial da Humanidade

Nos últimos meses trabalhei com a Contextos Arqueologia na requalificação do acervo arqueológico da Superintendência do IPHAN locada em São Cristóvão (SE). A última vez que estive na cidade foi em 2007, então foi interessante voltar para lá e ver o que mudou. Ela é muito linda, mas a pena é que apesar da ideia do Projeto Monumenta em tentar beneficiar a sociedade de alguma forma através do restauro do patrimônio edificado (e assim favorecer o turismo), a população continua muito maltratada.
Localizada a cerca de 25 km de Aracaju, São Cristóvão ganhou notoriedade internacional quando a Praça São Francisco, que se encontra no Centro Histórico, recebeu da UNESCO, em 1º de agosto de 2010, o título de Patrimônio Histórico e Cultural da Humanidade, ao estilo das Pirâmides do Platô de Gizê (Egito) ou o Teatro romano em Djémila (Argélia). Nesta praça está o edifício da Igreja de São Francisco, o Convento de Santa Cruz, a capela da Ordem Terceira (atual Museu de Arte Sacra), a antiga Santa Casa de Misericórdia e o Palácio dos Governadores (atual Museu Histórico de Sergipe).

Praça São Francisco. São Cristóvão (SE). Foto: Márcia Jamille. 2014.

No geral, a arquitetura histórica predominante tem influência espanhola da época da União Ibérica (1580-1640), mas naturalmente com estes mais de 400 anos de existência os interessados em realizar uma visita encontrará um lugar cheio de contrastes em termos de habitações.
Em meio a esta paisagem arqueológica está a “Casa do Ouvidor”, atual superintendência do IPHAN, que está em um dos pontos mais importantes da cidade, não somente no passado como hoje: exatamente em frente da Praça São Francisco (clique aqui e veja um vídeo da vista da praça a partir de uma das janelas da Casa do Ouvidor).

Casa do Ouvidor. São Cristóvão (SE). Foto: Márcia Jamille. 2014.

Nossa equipe, composta no principio por quatro arqueólogos e um estagiário de Arqueologia (que se formou neste meio tempo), iniciou o trabalho de requalificação do acervo arqueológico da “Casa do Ouvidor” no final de fevereiro, atendendo a um TAC (Termo de Ajuste de Conduta [1]) de uma empresa aracajuana. Explicando de modo simples, a nossa missão foi reorganizar a coleção de artefatos advinda de escavações realizadas anos antes por outras equipes e que estavam armazenados sem uma limpeza e/ou análise, com ausência de contexto e guardado de forma inadequada.
Uma das coisas mais fascinantes desta pesquisa, com certeza, foi trabalhar dentro de um sobrado datado possivelmente do final do século XVIII. Quando eu era pequena sempre quis morar em um casarão ou um sobrado, então este foi, particularmente, um detalhe divertido. Especialmente pela presença do “quarto vermelho”, um cômodo lindo.

Casa do Ouvidor: Quarto Vermelho. São Cristóvão (SE). Foto: Márcia Jamille. 2014.

Casa do Ouvidor: Quarto Vermelho. São Cristóvão (SE). Foto: Márcia Jamille. 2014.

Coisas interessantes sobre a “Casa do Ouvidor”:
Uma pesquisa anterior a nossa revelou que este edifício não se tratava da residência de nenhum Ouvidor, mas sim de uma senhora chamada Adriana Francisca Freire, avó de Felisberto de Oliveira Freire (o Barão de Laranjeiras) e uma ligeira antepassada de Felisberto Freire, que foi ministro dos Negócios Estrangeiros na presidência de Floriano Peixoto, além de escritor e jornalista que atuou tanto em Sergipe como no Rio de Janeiro. Logo já dá para imaginar o peso da história oficial nas nossas costas.

Existem três detalhes muito interessantes da história da Adriana: o primeiro é que ela viveu em algum ano antes de 1850 e era uma divorciada, o que chamou imediatamente a nossa atenção. O segundo detalhe é que o sobrado pertencia anteriormente ao ex-marido dela e quando ele faleceu ela recebeu a residência como herança. O terceiro é que a equipe anterior, durante suas pesquisas nos arquivos da cidade, encontrou uma lista de compras dela e em meio aos artefatos escavados foram encontrados alguns dos objetos listados.

[1] “Os termos de ajustamento de Conduta ou TACs, são documentos assinados por partes que se comprometem, perante os procuradores da República, a cumprirem determinadas condicionantes, de forma a resolver o problema que estão causando ou a compensar danos e prejuízos já causados. Os TACs antecipam a resolução dos problemas de uma forma muito mais rápida e eficaz do que se o caso fosse a juízo”. ( http://www.prba.mpf.mp.br/paraocidadao/pecas-juridicas/termos-de-ajustamento-de-conduta )