A youtuber Emily Graslie fala sobre o sexismo e canais de ciência apresentados por mulheres

Recentemente assisti ao vídeo Where My Ladies At? da Emily Graslie do The Brain Scoop e me enxerguei em muitas das coisas que ela comentou. É verdadeiramente muito difícil você gravar um vídeo para a internet porque a partir do momento que se torna público você está exposto a todo e qualquer tipo de comentários, seja de pessoas que realmente querem aprender e tirar dúvidas como também de haters e assediadores. Felizmente eu nunca recebi nenhuma mensagem cruel no Youtube, mas através do site e Facebook já recebi mensagens de gosto extremamente questionável onde estão inclusas aquelas com conteúdos xenofóbicos e assédio sexual.

Emily Graslie. Screenshot do vídeo do Youtube “Recommended Reading“. 2013.

Como hoje é dia Internacional da Mulher, uma data que foi criada para a reflexão acerca dos crimes de misoginia, o sexismo e de que o nosso gênero não deve ser minimizado por esteriótipos — e não para entregar rosas, cursinhos de maquiagem, liquidação de lingerie e outras coisas tão fúteis quanto —, resolvi transcrever os comentários da Emily abaixo e vale muito a pena ler, principalmente para as meninas e mulheres que planejam um dia ter ou possuem um canal no Youtube ou Vimeo. A transcrição foi feita a partir da legenda disponibilizada pelo próprio Youtube, com algumas leves modificações minhas. Abaixo o vídeo e a seguir as falas dela:

Recentemente eu recebi uma pergunta para um episódio de “Ask Emily” sobre se eu já tinha tido ou não experiência com sexismo na minha área e eu meio que deixei de lado, porque o Field Museum é bem encorajador para mulheres na ciência. Nós até temos um grupo aqui chamado “Mulheres na Ciência”, usado tanto por homens quanto por mulheres, membros da comunidade em que nós nos unimos para pensar em maneiras para promover o trabalho de pesquisadoras nessa área dominada por homens. Mas quanto mais eu pensava nisso, junto com a questão de se há alguma parte do meu trabalho de que eu não gosto, eu tenho que dizer que são os comentários desencorajadoramente negativos e sexistas com que eu tenho que lidar nas minhas várias caixas de entrada diariamente.

Reprodução The Brain Scoop.

Não me entendam mal: a grande maioria dos comentários que eu recebo é positiva e encorajadora, mas ainda existe um momento de negatividade com que eu tenho que lidar todo dia enquanto tento fazer vídeos positivos e encorajadores. Isso é especialmente óbvio quando apresento um episódio ou co-apresento com outra pessoa no canal da mesma com uma audiência que não é tão familiarizada comigo, com meu trabalho ou com o Soon Raccoon. Me faz pensar “Tem mais alguém passando por isso?”, “Quem são as outras mulheres que têm canais STEM (Science, Technology, Engineering e Math)?”.

Passei um tempo longo demais só tentando pensar em um grupo dessas pessoas. O que eu descobri foi que enquanto há pelo menos 13 canais STEM de homens com mais de 400,000 inscritos — e 7 desses 13 passaram de um milhão — só existem 4 canais apresentados por mulheres que têm mais de 160,000. Nenhuma de nós possui mais de um milhão.

Quando pedi aos meus seguidores do Twitter para citar suas mulheres STEM favoritas, eles disseram: “Existem outras além de você e a Vi Hart? Hum, preciso pesquisar!” e “Você e a Vi Hart são ambas incríveis, mas infelizmente são as únicas que conheço”.

Reprodução Geek Puff.

Isso não é um “nós” contra “eles” e não é um jogo de números. Só estou tentando mostrar que existem de forma significativa menos mulheres fazendo canais educacionais com temas de ciência e tecnologia no YouTube. Não estou dizendo também que os homens que eu vi não merecem os números que eles têm porque eu acho que o conteúdo deles é ótimo e deve ser celebrado. Mas o que está impedindo mulheres de alcançar o mesmo número de pessoas? Eu acho que, em geral, mulheres não têm tanto tempo para fazer essas coisas por causa da pressão de que cada episódio deve ser perfeito na execução. Isso pode impedir tanto homens quanto mulheres, mas eu acho que mulheres vão desistir mais facilmente por causa de comentários como esse: “Eu ainda transaria com ela”.

Nós temos medo do feedback de nossos inscritos e de comentadores porque temos medo que nossa audiência esteja focada na nossa aparência do que na qualidade de nosso conteúdo. Mas que isso, não estamos convencidas de que o conteúdo tem que ser bom ou factual porque não estamos convencidas de que as pessoas estejam assistindo pelo conteúdo para começar:

“Finalmente eu vi o corpo dela… Oh meu deus!!! Como uma mulher pode ser mais gostosa que a Emily?”

“Se você algum dia precisar de um local seguro para ficar quando estudar a Patagônia na Argentina, por favor… Sinta-se à vontade para entrar em contato comigo, eu patrocinaria sua viagem inteira só para te encarar!!!”

Reprodução @castoridae.

Há um medo do incômodo que vem com estar na tela com mais alguém porque alguns presumem que deve existir um relacionamento pessoal acontecendo o que deixa trabalhar com a pessoa depois embaraçoso. E além disso me deixa incomodada ter alguém no meu programa porque eu tenho medo que eles vejam esse tipo de comentário: “Esse é um pornô lésbico mais estranho que eu já vi. Nos primeiros 7 minutos eu pensei em como a Emily e o Hank deveriam transar, daí a garota do Animal Wonders chegou e pensei em como eles com certeza deveriam transar a três”.

Reprodução @tmichaelmartin.

Isso traz autocrítica, eu não sou inteligente ou engraçada ou interessante o suficiente sozinha?

“Ela só precisa de óculos mais sexy”.

“Não consigo parar de olhar para o nariz dela. É tão estranho. Faz ela parecer meio que como um porco nerd“.

Existe uma pressão para ser o pacote completo. Não só você tem que ser inteligente e articulada, mas também atraente:

“Emily, mesmo que as roupas que você usa escondam você parece ser bem gostosa embaixo delas. Talvez você devesse considerar usar roupas um pouco mais provocativas. Além de obviamente agradar homens hétero e mulheres homossexuais, ainda pode aumentar sua autoestima”.

“Ela é bem bonita, mas é como se ela ficasse feia de propósito”.

“Ela poderia facialmente chamar nossa atenção só mudando as roupas… Eu gostaria muito de vê-la de novo com novos visuais”.

Reprodução @castoridae.

A falta de reconhecimento dos outros ao seu redor a respeito desses comentários negativos é tipo “Ah, é só YouTube”, “São só comentários anônimos. Não ouça eles”. Mas quando eles são tão pessoais…:

“Não sei que tipo de pessoa fica ofendida ou se sente insultada por elogios”.

“Talvez ele devesse ter dito que ela é feia e deveria morrer”.

E aí há o sexismo em geral e óbvio:

“Isso é trabalho de homem, não de duas mulheres bonitas”.

“Curti pela referência a Skyrim, me fez rir. Presumo que foi escrita pelo Michael?”

E eu ouvi de colegas homens que mesmo que eles certamente não apoiem o sexismo e que achem péssimo, eles não acham que têm algo para contribuir com a conversa. Mas começa com o reconhecimento de homens e mulheres de que esses são problemas sérios e de que precisam ser discutidos. Não podemos sentar tranquilamente e tolerar bullying na internet em qualquer forma. Porque é isso que é, bullying na internet.

Reprodução @castoridae.

Ajude-nos a espalhar que esse tipo de atitude apática é prejudicial e inaceitável. Temos que ter certeza que estamos tornando possível para que pessoas de todos os gêneros se sintam reconhecidas por suas contribuições e não se sentirem restritas por algo tão arbitrário como sua genética ou aparência.

Mas como encorajamos mais mulheres e serem criadoras de conteúdo? Começa com apoiar nossas colegas criadoras, reconhecer que todos vamos passar por um processo de aprendizado no começo e não deixar acabar aí por causa de pressão e negatividade desnecessárias. No fim, estamos comprometidos com uma missão de fazer conteúdo educacional de qualidade para que mais mulheres preencham esses espaços. E garotas, isso melhora.

Aproveitem e assistam ao vídeo do Neil Tyson explicando sobre a ausência de mulheres na ciência.

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Arqueóloga formada pela UFS com a monografia “Egito Submerso: a Arqueologia Marítima Egípcia” e mestra em Arqueologia também pela UFS com a pesquisa “Arqueologia de Ambientes Aquáticos no Egito: uma proposta de pesquisa das sociedades dos oásis do Período Faraônico”. É administradora do Arqueologia Egípcia.

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