Neil Gaiman: Por que o nosso futuro depende de bibliotecas, leitura e sonhar acordado

Este texto é uma tradução do artigo do The Guardian, “Neil Gaiman: Why our future depends on libraries, reading and daydreaming“, que foi feita pela Dora do blog www.indexadora.wordpress.com e que repasso aqui na integra. Tomei a liberdade de mudar as ilustrações:   

Neil Gaiman CoralineÉ importante para as pessoas dizerem de que lado estão e por que, e se elas podem ou não ser tendenciosas. Um tipo de declaração de interesse dos membros. Então eu estarei conversando com vocês sobre leitura. Direi à vocês que as bibliotecas são importantes. Vou sugerir que ler ficção, que ler por prazer, é uma das coisas mais importantes que alguém pode fazer. Vou fazer um apelo apaixonado para que as pessoas entendam o que as bibliotecas e os bibliotecários são e para que preservem ambos.

E eu sou óbvia e enormemente tendencioso: sou um escritor, muitas vezes um autor de ficção. Escrevo para crianças e adultos. Por cerca de 30 anos tenho ganhado a minha vida através das minhas palavras, principalmente por inventar as coisas e escrevê-las. Obviamente está em meu interesse que as pessoas leiam, que elas leiam ficção, que bibliotecas e bibliotecários existam para nutrir amor pela leitura e lugares onde a leitura possa ocorrer.

Então sou tendencioso como escritor. Mas eu sou muito, muito mais tendencioso como leitor. E sou ainda mais tendencioso enquanto cidadão britânico.

E estou aqui dando essa palestra hoje a noite sob os auspícios da Reading Agency: uma instituição filantrópica cuja missão é dar a todos as mesmas oportunidades na vida, ajudando as pessoas a se tornarem leitores entusiasmados e confiantes. Que apoia programas de alfabetização, bibliotecas e indivíduos e arbitrária e abertamente incentiva o ato da leitura. Porque, eles nos dizem, tudo muda quando lemos.

E é sobre essa mudança e este ato de leitura que quero falar hoje a noite. Eu quero falar sobre o que a leitura faz. O porquê de ela ser boa.

Howl’s Moving CastleUma vez eu estava em Nova York e ouvi uma palestra sobre a construção de prisões particulares – uma ampla indústria em crescimento nos Estados Unidos. A indústria de prisões precisa planejar o seu futuro crescimento – quantas celas precisarão? Quantos prisioneiros teremos daqui 15 anos? E eles descobriram que poderiam prever isso muito facilmente, usando um algoritmo bastante simples, baseado em perguntar a porcentagem de crianças entre 10 e 11 anos que não conseguiam ler. E certamente não conseguiam ler por prazer.

Não é um pra um: você não pode dizer que uma sociedade alfabetizada não tenha criminalidade. Mas existem correlações bastante reais.

E eu acho que algumas destas correlações, a mais simples, vem de algo muito simples. Pessoas alfabetizadas leem ficção.

A ficção tem duas utilidades. Primeiramente, é uma droga que é uma porta para leituras. O desejo de saber o que acontece em seguida, de querer virar a página, a necessidade de continuar, mesmo que seja difícil, porque alguém está em perigo e você precisa saber como tudo vai acabar… Este é um desejo muito real. E te força a aprender novos mundos, a pensar novos pensamentos, a continuar. Descobrir que a leitura por si é prazerosa. Uma vez que você aprende isso, você está no caminho para ler de tudo. E a leitura é a chave. Houve um burburinho brevemente há alguns anos atrás sobre a ideia de que estávamos vivendo em um mundo pós-alfabetizado, no qual a habilidade de fazer sentido através de palavras escritas estava de alguma forma redundante, mas esses dias acabaram: as palavras são mais importantes do que jamais foram: nós navegamos o mundo com palavras, e uma vez que o mundo desliza para a web, precisamos seguir, comunicar e compreender o que estamos lendo. As pessoas que não podem entender umas às outras não podem trocar ideias, não podem se comunicar e apenas programas de tradução vão tão longe.

A forma mais simples de ter certeza de que educamos crianças alfabetizadas é ensiná-los a ler, e mostrarmos a eles que a leitura é uma atividade prazerosa. E isso significa, na sua forma mais simples, encontrar livros que eles gostem, dar a eles acesso a estes livros e deixar que eles os leiam.

A profecia de SamsaraEu não acho que exista algo como um livro ruim para crianças. Vez e outra se torna moda entre alguns adultos escolher um subconjunto de livros para crianças, um gênero, talvez, ou um autor e declará-los livros ruins, livros que as crianças devem parar de ler. Eu já vi isso acontecer repetidamente; Enid Blyton foi declarado um autor ruim, R. L. Stine também, assim como dúzias de outros. Quadrinhos tem sido acusados de promover o analfabetismo.

É tosco. É arrogante e é burro. Não existem autores ruins para crianças, que as crianças gostem e querem ler e buscar, porque cada criança é diferente. Eles podem encontrar as histórias que precisam, e eles levam a si mesmos nas histórias. Uma ideia banal e desgastada não é banal nem desgastada para eles. Esta é a primeira vez que a criança a encontrou. Não desencoraje uma criança de ler porque você acha que o que eles estão lendo é errado. A ficção que você não gosta é uma rota para outros livros que você pode preferir. E nem todo mundo tem o mesmo gosto que você.

Adultos bem intencionados podem facilmente destruir o amor de uma criança pela leitura: parar de ler pra eles o que eles gostam, ou dar a eles livros ‘chatos mas que valem a pena’ que você gosta, os equivalentes “melhorados” da literatura Vitoriana do século XXI. Você acabará com uma geração convencida de que ler não é legal e pior ainda, desagradável.

Precisamos que nossas crianças entrem na escada da leitura: qualquer coisa que eles gostarem de ler irá movê-las, degrau por degrau, à alfabetização. (Além disso, não faça o que eu fiz quando a minha filha de 11 anos estava gostando de ler R. L. Stine, que foi pegar uma cópia de Carrie do Stephen King e dizer que se você gosta deste, adorará isto! Holly não leu nada além de histórias seguras de colonos em pradarias pelo resto de sua adolescência e até hoje me dá olhares tortos quando o nome de Stephen King é mencionado).

E a segunda coisa que a ficção faz é construir empatia. Quando você assiste TV ou vê um filme, você está olhando para coisas acontecendo a outras pessoas. Ficção de prosa é algo que você constrói a partir de 26 letras e um punhado de sinais de pontuação, e você, você sozinho, usando a sua imaginação, cria um mundo e o povoa e olha através dos olhos de outros. Você sente coisas, visita lugares e mundos que você jamais conheceria de outro modo. Você aprende que qualquer outra pessoa lá fora é um eu, também. Você está sendo outra pessoa e quando você volta ao seu próprio mundo, você estará levemente transformado.

Supernova - O encantador de flechasEmpatia é uma ferramenta para tornar pessoas em grupos, que nos permite que funcionemos como mais do que indivíduos obcecados consigo mesmos.

Você também está descobrindo algo enquanto lê que é de vital importância para fazer o seu caminho no mundo. E é isto:

O mundo não precisa ser assim. As coisas podem ser diferentes.

Eu estive na China em 2007 na primeira convenção de ficção científica e fantasia aprovada pelo partido na história da China. E em algum momento eu tomei um alto oficial de lado e perguntei a ele “Por quê? A ficção científica foi reprovada por tanto tempo. Por que isso mudou?”. É simples, ele me disse. Os chineses eram brilhantes em fazer coisas se outras pessoas trouxessem os planos para eles. Mas eles não inovavam e não inventavam. Eles não imaginavam. Então eles mandaram uma delegação para os Estados Unidos, para a Apple, para a Microsoft, para o Google e perguntaram às pessoas de lá que estavam inventando seu próprio futuro. E descobriram que todos eles leram ficção científica quando eram meninos e meninas. A ficção pode te mostrar um outro mundo. Pode te levar para um lugar que você nunca esteve. E uma vez que você tenha visitado outros mundos, como aqueles que comeram a fruta da fada, você pode nunca mais ficar completamente satisfeito com o mundo no qual você cresceu.

Descontentamento é uma coisa boa: pessoas descontentes podem modificar e melhorar o mundo, deixá-lo melhor, deixá-lo diferente. E enquanto ainda estamos nesse assunto, eu gostaria de dizer algumas palavras sobre escapismo. Eu ouço o termo utilizado por aí como se fosse uma coisa ruim. Como se ficção “escapista” fosse um ópio barato utilizado pelos confusos, pelos tolos e pelos desiludidos e a única ficção que seja válida, para adultos ou crianças é a ficção mimética, espelhando o pior do mundo em que o leitor ou a leitora se encontra.

Se você estivesse preso em uma situação impossível, em um lugar desagradável, com pessoas que te quisessem mal e alguém te oferecesse um escape temporário, por que você não ia aceitar isso? E ficção escapista é apenas isso: ficção que abre uma porta, mostra o sol lá fora, te dá um lugar para ir onde você esteja no controle, esteja com pessoas com quem você queira estar (e livros são lugares reais, não se enganem sobre isso); e mais importante, durante o seu escape, livros também podem te dar conhecimento sobre o mundo e o seu predicamento, te dar armas, te dar armaduras: coisas reais que você pode levar de volta para a sua prisão. Habilidades, conhecimento e ferramentas que você pode utilizar para escapar de verdade.

The lord of the ringsComo J. R. R. Tolkien nos lembrou, as únicas pessoas que fazem injúrias contra o escape são prisioneiros.

Outra forma de destruir o amor de uma criança pela leitura, claro, é se assegurar de que não existam livros de nenhum tipo por perto. E não dar a elas nenhum lugar para que leiam estes livros. Eu tive sorte. Eu tive uma biblioteca local excelente enquanto eu cresci. Eu tive o tipo de pais que podiam ser persuadidos a me deixar na biblioteca no caminho do trabalho deles nas férias de verão, e o tipo de bibliotecários que não se importavam que um menino pequeno e desacompanhado ficasse na biblioteca das crianças todas as manhãs e ficasse mexendo no catálogo de cartões, procurando por livros com fantasmas ou mágica ou foguetes neles, procurando por vampiros ou detetives ou bruxas ou fantasias. E quando eu terminei de ler a biblioteca de crianças eu comecei a de adultos.

Eles eram ótimos bibliotecários. Eles gostavam de livros e eles gostavam dos livros que estavam sendo lidos. Eles me ensinaram como pedir livros das outras bibliotecas em empréstimo inter-bibliotecas. Eles não eram arrogantes em relação a nada que eu lesse. Eles pareciam apenas gostar do fato de existir esse menininho de olhos arregalados que amava ler e conversariam comigo sobre os livros que eu estava lendo, achariam pra mim outros livros em uma série deles, eles me ajudariam. Eles me tratavam como outro leitor – nem mais, nem menos – o que significa que eles me tratavam com respeito. Eu não estava acostumado a ser tratado com respeito aos oito anos de idade.

Mas as bibliotecas tem a ver com liberdade. A liberdade de ler, a liberdade de ideias, a liberdade de comunicação. Elas tem a ver com educação (que não é um processo que termina no dia que deixamos a escola ou a universidade), com entretenimento, tem a ver com criar espaços seguros e com o acesso à informação.

Eu me preocupo que no século XXI as pessoas entendam errado o que são bibliotecas e qual é o propósito delas. Se você perceber uma biblioteca como estantes com livros, pode parecer antiquado e datado em um mundo no qual a maioria, mas não todos, os livros impressos existem digitalmente. Mas pensar assim é errar o ponto fundamentalmente.

Tempestade de Areia - Crônicas de MyríadeEu acho que tem a ver com a natureza da informação. A informação tem valor, e a informação certa tem um enorme valor. Por toda a história humana, nós vivemos em escassez de informação e ter a informação desejada era sempre importante, e sempre valia alguma coisa: quando plantar sementes, onde achar as coisas, mapas e histórias e estórias – eles eram sempre bons para uma refeição e companhia. Informação era uma coisa valorosa, e aqueles que a tinham ou podiam obtê-la podiam cobrar por este serviço.

Nos últimos anos, nos mudamos de uma economia de escassez da informação para uma dirigida por um excesso de informação. De acordo com o Eric Schmidt do Google, a cada dois dias agora a raça humana cria tanta informação quanto criávamos desde o início da civilização até 2003. Isto é cerca de cinco exobytes de dados por dia, para vocês que mantém a contagem. O desafio se torna não encontrar aquela planta escassa crescendo no deserto, mas encontrar uma planta específica crescendo em uma floresta. Precisaremos de ajuda para navegar nesta informação e achar a coisa que precisamos de verdade.

Bibliotecas são lugares que pessoas vão para obter informação. Livros são apenas a ponta do iceberg da informação: eles estão lá, e bibliotecas podem fornecer livros gratuitamente e legalmente. Crianças estão emprestando livros de bibliotecas hoje mais do que nunca – livros de todos os tipos: de papel e digital e em áudio. Mas as bibliotecas também são, por exemplo, lugares onde pessoas que não tem computadores, que podem não ter conexão à internet, podem ficar online sem pagar nada: o que é imensamente importante quando a forma que você procura empregos, se candidata para entrevistas ou aplica para benefícios está cada vez mais migrando para o ambiente exclusivamente online. Bibliotecários podem ajudar estas pessoas a navegar neste mundo.

Eu não acredito que todos os livros irão ou devam migrar para as telas: como Douglas Adams uma vez me falou, mais de 20 anos antes do Kindle aparecer, um livro físico é como um tubarão. Tubarões são velhos: existiam tubarões nos oceanos antes dos dinossauros. E a razão de ainda existirem tubarões é que tubarões são melhores em serem tubarões do que qualquer outra coisa que exista. Livros físicos são durões, difíceis de destruir, resistentes à banhos, operam a luz do sol, ficam bem na sua mão: eles são bons em serem livros, e sempre existirá um lugar para eles. Eles pertencem às bibliotecas, bem como as bibliotecas já se tornaram lugares que você pode ir para ter acesso à e-books, e áudio-livros e DVDs e conteúdo na web.

onmyoji - reiko okanoUma biblioteca é um lugar que é um repositório de informação e dá a cada cidadão acesso igualitário a ele. Isso inclui informação sobre saúde. E informação sobre saúde mental. É um espaço comunitário. É um lugar de segurança, um refúgio do mundo. É um lugar com bibliotecários. Como as bibliotecas do futuro serão é algo que deveríamos estar imaginando agora.

Alfabetização é mais importante do que nunca, nesse mundo de mensagens e e-mail, um mundo de informação escrita. Precisamos ler e escrever, precisamos de cidadãos globais que possam ler confortavelmente, compreender o que estão lendo, entender as nuances e se fazer entender.

As bibliotecas realmente são os portais para o futuro. É tão lamentável que, ao redor do mundo, nós observemos autoridades locais apropriarem-se da oportunidade de fechar bibliotecas como uma maneira fácil de poupar dinheiro, sem perceber que eles estão roubando do futuro para serem pagos hoje. Eles estão fechando os portões que deveriam ser abertos.

De acordo com um estudo recente feito pela Organisation for Economic Cooperation and Development, a Inglaterra é o “único país onde o grupo de mais idade tem mais proficiência tanto em alfabetização quanto em capacidade de usar ou entender as técnicas numéricas da matemática do que o grupo mais jovem, depois de outros fatores, tais como gênero, perfis socioeconômicos e tipo de ocupações levados em consideração”.

Colocando de outro modo, nossas crianças e netos são menos alfabetizados e menos capazes de utilizar técnicas de matemática do que nós. Eles são menos capazes de navegar o mundo, de entendê-lo e de resolver problemas. Eles podem ser mais facilmente enganados e iludidos, serão menos capazes de mudar o mundo em que se encontram, ser menos empregáveis. Todas essas coisas. E como um país, a Inglaterra ficará para trás em relação a outras nações desenvolvidas porque faltará mão de obra especializada.

Livros são a forma com a qual nós nos comunicamos com os mortos. A forma que aprendemos lições com aqueles que não estão mais entre nós, que a humanidade se construiu, progrediu, fez com que o conhecimento fosse incremental ao invés de algo que precise ser reaprendido, de novo e de novo. Existem contos que são mais velhos que alguns países, contos que sobreviveram às culturas e aos prédios nos quais eles foram contados pela primeira vez.

Cronicas dos KaneEu acho que nós temos responsabilidades com o futuro. Responsabilidades e obrigações com as crianças, com os adultos que essas crianças se tornarão, com o mundo que eles habitarão. Todos nós – enquanto leitores, escritores, cidadãos – temos obrigações. Pensei em tentar explicitar algumas dessas obrigações aqui.

Eu acredito que temos uma obrigação de ler por prazer, em lugares públicos e privados. Se lermos por prazer, se outros nos verem lendo, então nós aprendemos, exercitamos nossas imaginações. Mostramos aos outros que ler é uma coisa boa.

Temos a obrigação de apoiar bibliotecas. De usar bibliotecas, de encorajar outras pessoas a utilizarem bibliotecas, de protestar contra o fechamento de bibliotecas. Se você não valoriza bibliotecas então você não valoriza informação ou cultura ou sabedoria. Você está silenciando as vozes do passado e você está prejudicando o futuro.

Temos a obrigação de ler em voz alta para nossas crianças. De ler pra elas coisas que elas gostem. De ler pra elas histórias das quais já estamos cansados. Fazer as vozes, fazer com que seja interessante e não parar de ler pra elas apenas porque elas já aprenderam a ler sozinhas. Use o tempo de leitura em voz alta para um momento de aproximação, como um tempo onde não se fique checando o telefone, quando as distrações do mundo são postas de lado.

Temos a obrigação de usar a linguagem. De nos esforçarmos: descobrir o que as palavras significam e como empregá-las, nos comunicarmos claramente, de dizer o que estamos querendo dizer. Não devemos tentar congelar a linguagem, ou fingir que é uma coisa morta que deve ser reverenciada, mas devemos usá-la como algo vivo, que flui, que empresta palavras, que permite que significados e pronúncias mudem com o tempo.

Harry Potter e a Pedra FilosofalNós escritores – e especialmente escritores para crianças, mas todos os escritores – temos uma obrigação com nossos leitores: é a obrigação de escrever coisas verdadeiras, especialmente importantes quando estamos criando contos de pessoas que não existem em lugares que nunca existiram – entender que a verdade não está no que acontece mas no que ela nos diz sobre quem somos. A ficção é a mentira que diz a verdade, afinal. Temos a obrigação de não entediar nossos leitores, mas fazê-los sentir a necessidade de virar as páginas. Uma das melhores curas para um leitor relutante, afinal, é uma estória que eles não são capazes de parar de ler. E enquanto nós precisamos contar a nossos leitores coisas verdadeiras e dar a ele armas e dar a eles armaduras e passar a eles qualquer sabedoria que recolhemos em nossa curta estadia nesse mundo verde, nós temos a obrigação de não pregar, não ensinar, não forçar mensagens e morais pré-digeridas goela abaixo em nossos leitores como pássaros adultos alimentando seus bebês com vermes pré-mastigados; e nós temos a obrigação de nunca, em nenhuma circunstância, escrever nada para crianças que nós mesmos não gostaríamos de ler.

Temos a obrigação de entender e reconhecer que enquanto escritores para crianças nós estamos fazendo um trabalho importante, porque se nós estragarmos isso e escrevermos livros chatos que distanciam as crianças da leitura e de livros, nós estaremos menosprezando o nosso próprio futuro e diminuindo o deles.

Todos nós – adultos e crianças, escritores e leitores – temos a obrigação de sonhar acordado. Temos a obrigação de imaginar. É fácil fingir que ninguém pode mudar coisa alguma, que estamos num mundo no qual a sociedade é enorme e que o indivíduo é menos que nada: um átomo numa parede, um grão de arroz num arrozal. Mas a verdade é que indivíduos mudam o seu próprio mundo de novo e de novo, indivíduos fazem o futuro e eles fazem isso porque imaginam que as coisas podem ser diferentes.

Olhe à sua volta: eu falo sério. Pare por um momento e olhe em volta da sala em que você está. Eu vou dizer algo tão óbvio que a tendência é que seja esquecido. É isto: que tudo o que você vê, incluindo as paredes, foi, em algum momento, imaginado. Alguém decidiu que era mais fácil sentar numa cadeira do que no chão e imaginou a cadeira. Alguém tinha que imaginar uma forma que eu pudesse falar com vocês em Londres agora mesmo sem que todos ficássemos tomando uma chuva. Este quarto e as coisas nele, e todas as outras coisas nesse prédio, esta cidade, existem porque, de novo e de novo e de novo as pessoas imaginaram coisas.

Temos a obrigação de fazer com que as coisas sejam belas. Não de deixar o mundo mais feio do que já encontramos, não de esvaziar os oceanos, não de deixar nossos problemas para a próxima geração. Temos a obrigação de limpar tudo o que sujamos, e não deixar nossas crianças com um mundo que nós desarrumamos, vilipendiamos e aleijamos de forma míope.

Temos a obrigação de dizer aos nossos políticos o que queremos, votar contra políticos ou quaisquer partidos que não compreendem o valor da leitura na criação de cidadãos decentes, que não querem agir para preservar e proteger o conhecimento e encorajar a alfabetização. Esta não é uma questão de partidos políticos. Esta é uma questão de humanidade em comum.

Uma vez perguntaram a Albert Einstein como ele poderia tornar nossas crianças inteligentes. A resposta dele foi simples e sábia. “Se você quer que crianças sejam inteligentes”, ele disse, “leiam contos de fadas para elas. Se você quer que elas sejam mais inteligentes, leia mais contos de fadas para elas”. Ele entendeu o valor da leitura e da imaginação. Eu espero que possamos dar às nossas crianças um mundo no qual elas possam ler, e que leiam para elas, e imaginar e compreender.

• Esta é uma versão editada da palestra do Neil Gaiman para a Reading Agency, realizada dia 14 de outubro de 2013 (segunda-feira) no Barbican em Londres. A série anual de palestras da Reading Agency começou em 2012 como uma plataforma para que escritores e pensadores compartilhassem ideias originais e desafiadoras sobre a leitura e as bibliotecas.

(Comentários) I Semana de Arqueologia da CAJUFS

Desde a abertura do curso de Arqueologia na UFS tornou-se comum a elaboração de eventos para mostrar e discutir os aspectos plurais da Arqueologia do nosso país. Posso rememorar com alegria que participei da maioria como ouvinte e em ao menos três deles apresentando as atividades para o público, então fiquei imensamente feliz quando recebi o convite da empresa júnior CAJUFS para participar da “I Semana de Arqueologia da CAJUFS”, que ocorreu entre os dias 13 e 18 de abril na cidade de Laranjeiras (SE).

No evento ocorreram palestras, mesas redondas, apresentações de comunicações, minicursos, uma assembléia de estudantes, exposição de banners e passeios guiados. Em relação a minha participação eu estava lá para expor para a venda o meu livro, Uma viagem pelo Nilo. Como não existia a possibilidade do evento conseguir um staff para mim o João Carlos (Museu Nacional) foi extremamente simpático e auxiliou nas vendas, assim como a Dalila Souza (Universidade Federal de Sergipe) e o Roberval Jr.. O pessoal da Contextos Arqueologia também ajudou muito, não só montando todo o espaço como também cuidando do transporte dos livros.

Por conta desta minha atividade eu não assisti todas as comunicações e nem vi todas as palestras, mas estava óbvio que existem alguns alunos extremamente interessados em discutir as questões acadêmicas que os rodeiam, entretanto só lamento que durante a assembléia de estudantes poucas foram as pessoas que compareceram e para variar de todo o departamento somente dois professores estavam presentes.

Retomando ao assunto das palestras: assisti somente três (não compareci na quarta e na quinta-feira), mas achei que alguns dos temas abordados eram maduros de mais para estudantes recém-ingressos na graduação. A de abertura foi com a arqueóloga e presidenta da SAB, Marcia Bezerra, que nos falou sobre as peculiaridades da Arqueologia Pública e a Educação Patrimonial, embora, sinceramente, eu — e acredito que metade dos ouvintes — estivesse esperando que ela falasse bem mais da IN do IPHAN, mas foram palavras realmente instrutivas.

A segunda palestra foi com o arqueólogo Gilson Rambelli, com “A versão molhada da Arqueologia” e que ao final deixou disponíveis aparelhos de mergulho e algumas das ferramentas utilizadas para a realização da Arqueologia subaquática para os alunos poderem dar uma olhada.  A da quarta e da quinta não participei e a da sexta só assisti da metade para o final.

Gostei de todas as mesas redondas as quais participei, mas especialmente a “Z-14: Pescando memórias”, onde um dos membros da associação de pescadores de Laranjeiras (SE) relatou como a Educação Patrimonial mudou a sua vida, fazendo-o perceber que ele tinha uma identidade cultural. Eu gravei um vídeo sobre o momento em que ele relata isso e verei posteriormente como disponibilizarei para vocês.

As comunicações dos estudantes foram com temas bem plurais (rolou até Arqueologia dos fantasmas!), o que eu gosto muito na verdade porque o evento vira uma “feira de novidades” e não um monólogo.

Eu estava morta de saudades de assistir eventos de Arqueologia e espero que os alunos da UFS continuem com esta energia (e que continuem a receber apoio) para realizar mais outras atividades.


Agradeço a organização da CAJUFS, especialmente a figura da Érika Castro, pelo o convite para participar da semana. 😀

As histórias que os manuais de Arqueologia não nos preparam para entender

Nas últimas postagens tanto daqui do #AEgípcia como do Café Néftis comentei brevemente sobre algumas das atividades que realizei a serviço da Contextos Arqueologia. Foram atividades realmente enriquecedoras profissionalmente, mas somente uma me enriqueceu como pessoa e foi a visita e entrevista que fizemos com a dona Maria do Carmo no povoado Guararema em Umbaúba (SE).

Tudo indicava que seria um dia como outro qualquer; chegamos até a residência onde mora a dona Maria e como muitos outros ela ficou receosa achando que não tinha nada com o que colaborar para a nossa pesquisa, até que finalmente sentou conosco para responder nossas questões. Eram perguntas breves como “Qual a sua idade?”, “Há quanto tempo a senhora mora aqui?”, “Seus pais eram daqui?”, “Quais as brincadeiras da sua infância?”, “Já ouviu falar de história de índio?”, até que chegamos a questão final, que é “O que você preservaria como um patrimônio a ser lembrado?”. Ela não pestanejou e respondeu “nada”, insistimos um pouco e ela respondeu algo como “do passado não quero preservar nada”. Eu tentei dar um estímulo e comentei “Nem mesmo a sua casa?” (pessoalmente esta é a minha resposta para esta pergunta) e ela respondeu “Esta casa não é minha”.

A dona Maria foi muito simpática nos mostrando ao final da entrevista o local onde ela processa mandioca.

A dona Maria então narrou brevemente o seu infortúnio: A casa em que mora é de uma irmã dela. A sua antiga casa foi invadida por bandidos pouco tempo depois dela ter sido abandonada com os quatro filhos pequenos pelo o marido, que foi viver com uma vizinha (e moram em frente a sua residência desde então). Estes homens quebraram tudo o que encontraram pela frente e um deles arremessou uma cadeira de madeira contra a sua cabeça. Depois simplesmente partiram sem levar coisa alguma.

Escutá-la comentar sobre esta história foi tão embaraçoso e chocante que mal conseguíamos esconder o nosso espanto. Permanecemos em silêncio por alguns segundos, já eu tentei digerir o teor e a importância desta resposta. Ali não era a narração de um ato heroico de um negro que fugiu, ou de um europeu que construiu um forte. Não era a história do cangaceiro que tocou o terror pelo nordeste ou o dono de fazenda que escondeu uma botija, era a história de uma mulher tão anônima como muitas outras que sofreu um ato de terrorismo e que ficou tão desestabilizada que se desligou de sua identidade. O trauma foi tamanho que a fez desejar não rememorar ou preservar qualquer coisa do seu passado. Não consigo nem imaginar como foi para ela se sentir impotente ao ver suas coisas destruídas e depois apanhar na frente dos seus próprios filhos.

Quando voltei para casa fui falar com a minha mãe sobre o assunto e ela comentou que antigamente ocorria muito isso, de grupos de homens invadirem a casa de mulheres separadas ou que foram abandonadas pelos maridos e comecei a notar que o fato de não roubarem nada após quebrarem tudo tinha como principal interesse deixar um recardo, mas qual recardo? É difícil não especular.

A dona Maria achou que suas memórias não poderiam contribuir em nada, mas fez muito, ao menos para mim, pois me fez perceber na prática que os manuais de Arqueologia não nos preparam para entender histórias sofridas como a dela e vejam só, embora ela seja invisível para a maior parte da sociedade futuramente nós arqueólogas (os) trataremos os artefatos encontrados na casa dela tal qual ouro.

Prensa para processar mandioca.

Mesa (desmontada) para ralar mandioca.

Mesa montada para ralar mandioca.

E alguns de nós aplicaremos o discurso do nosso velho arqueólogo Ian Hodder de que não existe um passado único, mas múltiplos. Entenderemos que pessoas sofreram repressão, de que outras viveram na extrema miséria, mas até onde conseguiremos compreender estas pessoas de fato, a exemplo da Maria?

A Arqueologia tem tentado ser democrática, nós em congressos temos insistido nisso, mas depois de escutar a história dessa senhora definitivamente senti que muitos dos nossos discursos ainda andam meio vazios.

(Resenha – livro) “Procura-se um marido”, de Carina Rissi

Procura-se um marido - resenhaTítulo: Procura-se um marido

Autora: Carina Rissi

Gênero: Chick Lit

Editora: Editora Verus

Nº de páginas: 474

ISBN: 978-85-7686-198-0

Este livro foi para mim um grande exemplo de obra comprada por conta da autora, neste caso a Carina Rissi, do que pelo próprio enredo em si. Quando iniciei a leitura da sinopse comecei a imaginar que a proposta do livro era bem machista, com a trama da jovem e inconsequente protagonista Alicia que por ser irresponsável e pouco interessada nos negócios milionários da família recebe a notícia de que o seu avô, o Narciso, determinou que ela deveria se cassar, porque somente um marido poderia ajustá-la. Entretanto dei uma chance mesmo assim, já que eu tinha lido um título anterior da Carina, o “Perdida“, que realmente foi uma leitura divertida.

Procura-se um marido+Carina Rissi + 01

Acabei levando o tal livro para casa ainda cheia de preocupações, imaginando se valia a pena investir na leitura, até que a iniciei de fato; Alicia é uma garota de 24 anos extremamente irresponsável, que após a morte dos pais em sua infância passa a ser criada pelo o seu avô Narciso, dono da L&L Cosméticos, que muito doente e aborrecido pelas imprudências da neta e sua insistência em não querer trabalhar determina que ela só herdará seus negócios após apresentar um esposo — com o qual ela deveria estar casada há mais de um ano —, caso contrário ela não poderia mais ter acesso ao dinheiro da família. Como não tinha um namorado ou amigo que poderia tomar como um marido temporário ela resolve deixar um anúncio no jornal com a seguinte proposta:

Procura-se um marido por curta temporada. Homem entre 21 e 35 anos, que tenha imóvel próprio e emprego estável, disponível para matrimônio. Boa aparência não é exigida. Apresentação de antecedentes criminais obrigatória. Casamento de aparência. Sexo está excluído do acordo. Paga-se bem no término do contrato. Tratar com Lili pelo telefone… — Procura-se um Marido; pág 76.

Alguns dos pretendentes que aparecem em resposta ao anúncio definitivamente dão espaço para muitas gargalhadas…

Acerca da minha preocupação inicial, a ver com o fato de que a protagonista Alicia estava sendo obrigada a se casar para “criar juízo”, o que é um absurdo, posso alertar que com o passar da leitura esta determinação do Narciso tem um motivo oculto e inclusive desperta fortes críticas por parte de alguns dos personagens. Também temos o elemento do conto de fadas, no sentido da magia mesmo, uma das características das obras da Carina, onde ela mistura o real com a fantasia e nesta obra em questão ela abre este espaço colocando-o como um elemento chave.

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Acerca do protagonista masculino, o Max, não o achei tão interessante. Toda vez que eu lia alguma descrição sobre o aspecto físico dele só lembrava do Fabio Lanzoni, famoso modelo que estampou várias capas daqueles romances que vendem (ou vendiam?) em bancas de jornais e revistas… O que criou na minha cabeça um personagem de aspecto exageradamente sensual, forçosamente um deus grego dos romances e da mulherada, mas não é nada que desmereça o livro. Ainda sobre ele podemos notar a inspiração na civilização romana: o nome dele na verdade é Maximus, o seu pai chama-se  Julius e o seu irmão Marcus.

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Uma das pouquíssimas coisas que me desagradou no livro foi o uso do termo “vagabunda”. Para algumas pessoas a utilização desta palavra é normal para designar mulheres que são suas “rivais” (seja no trabalho ou — principalmente — na vida amorosa), mas este termo possui uma carga histórica e social muito pesada (meu lado arqueóloga aflorando!), já que é usado para chamar qualquer mulher que não se enquadra no papel ao qual ela foi designada, seja a ver com os “códigos dos bons costumes” ou a de submissão, passividade etc.

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Achei em alguns momentos o livro um pouco massante, mas no geral é uma obra divertida e acredito que será um presente para as (os) fãns de Chick lit.