Arqueologia e ficção: tudo vale em nome do entretenimento?

Há alguns meses escrevi um texto sobre a novela “Os dez mandamentos” — leia aqui: (Comentários) Novela “Os 10 Mandamentos” (Brasil) — e como já era de se esperar recebi algumas mensagens indignadas de pessoas incomodadas por minhas palavras, utilizando o argumento de que a obra, que ainda faz parte da grade de atrações da Record, é somente entretenimento e que por isso não precisa ter compromisso algum com a verdade. Aos que utilizaram esse argumento: discordo totalmente.

Vale lembrar que “Os dez mandamentos” tem como base um mito religioso que, todavia tem como plano de fundo a civilização egípcia e que a partir do momento em que produtores se prontificam a lançar tal material em uma rede nacional aberta está atingindo muito mais pessoas do que documentários da National Geographic ou uma Discovery Channel (embora nem mesmo estes sejam dignos de confiança) e consequentemente educando-as. Ou seja, infelizmente a novela alcança um público infinitamente mais amplo que educadores especializados na Antiguidade egípcia podem alcançar. Como consequência vemos estereótipos e ideias errôneas sendo repassadas para as (os) brasileiras (os) comuns, aqueles que muitas vezes nem sequer têm ou teve acesso a uma educação básica de qualidade e que agora é apresentado a um Egito lúdico, fora da realidade.

Mas não se enganem achando que sou contra a criação de obras inspiradas em fatos históricos, pelo contrário! Eu sou totalmente a favor e ainda gosto de divulgar. Contudo me incomoda muito esse argumento de que com entretenimento tudo pode, que nós pesquisadores deveríamos parar de ser chatos por sempre corrigir os erros. Ora, então qual o sentido da nossa profissão? Ficarmos enfornados em nossos laboratórios ou grupos de estudos debatendo entre pares enquanto uma obra nacional passa para a população uma série de maluquices sobre a antiguidade?

Também recebi vários comentários em redes sociais falando que existe um lado bom: o público agora está interessado em aprender mais sobre a Antiguidade egípcia; Até certo ponto sim. Posso ver que algumas poucas pessoas começaram a ter interesse e a pedir indicações de livros, mas a maioria só quer saber que fim teve a “safada” da mãe da Nefertari (a identidade da mãe da rainha é ainda desconhecida para nós), se Seti I foi assassinado daquela forma (não existe nada que sugira que Seti I foi assassinado) e como deus matou Ramsés II. Eu recebi e-mails até de pessoas que só querem saber spoiler da novela.

Para quem não está convencido de que por ser entretenimento existe sim problemas em passar ideia equivocadas, deixo abaixo um vídeo do Canal do Pirula que irá complementar as minhas palavras:

Arqueóloga formada pela UFS com a monografia “Egito Submerso: a Arqueologia Marítima Egípcia” e mestra em Arqueologia também pela UFS com a pesquisa “Arqueologia de Ambientes Aquáticos no Egito: uma proposta de pesquisa das sociedades dos oásis do Período Faraônico”. É administradora do Arqueologia Egípcia.

One thought on “Arqueologia e ficção: tudo vale em nome do entretenimento?

  1. […] Dito tudo isso, espero que quem assistir este filme e ficar interessado pela história egípcia que leia este post com carinho. A ideia aqui é ensinar aos interessados em aprender. Se você é fã do filme não sinta-se atacado. E caso algum de vocês creditem que não tem nada a ver uma acadêmica discutir entretenimento, leiam então este meu post: — Arqueologia e ficção: tudo vale em nome do entretenimento? […]

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