Como seremos estudados pelos arqueólogos do futuro? Estamos fadados ao esquecimento?

Recentemente li uma interessante reportagem da BBC intitulada “Como seremos estudados pelos arqueólogos do futuro?”, onde é apresentada a sugestão do uso de uma tecnologia que torna possível preservar dados de DNA em “fósseis sintéticos”, o que possibilitará a leitura de códigos genéticos, porém o problema seria escolher o que registrar de acordo com a sua importância, afinal, o que definiria o que é “importante”? O Status social do espécime em vida? Sua raridade? Antiguidade?

Ler esta matéria me rememorou uma questão que apareceu em alguma aula, creio que a de teoria arqueológica, sobre o que será estudado pelos arqueólogos no futuro, uma vez que em um mundo quase totalmente dominado por redes sociais e armazenamentos em “nuvem” muitas pessoas se perguntam se não estamos deixando o planeta tão vazio que os arqueólogos do futuro não terão nada para analisar.

Já outros sugerem que como tudo está na “nuvem” nem será necessário tecer interpretações sobre a vida de determinadas sociedades.

Em ambas essas situações as sugestões são simplistas: no caso da primeira não é certo sugerir que estamos tão sedentários e vidrados na internet que não estamos produzindo nada “para o futuro”, até porque estamos gerando cultura material, seja móveis, eletrodomésticos, artesanatos, roupas, etc, e ainda produzimos lixos.

Etiquetamento e limpeza de remanescentes ósseos. Foto: Almir Brito Jr. 2014

Lixeiras, sejam “pré-históricas” ou históricas, independente da sociedade, ainda são um ótimo espaço para arrecadar dados acerca de sociedades passadas e presentes, porque ao contrário de edificações ou artefatos que foram feitos para algum fim específico (e este fim usualmente foi pensado para passar uma mensagem elaborada com antecedência), o lixo é um descarte e é nele onde estão as informações mais pessoais dos indivíduos. Tais informações, por vezes, são coisas que quem jogou fora não tinha a intenção de preservar ou mostrar para outros indivíduos do seu meio social.

Na referida reportagem que citei é comentado sobre se seria possível o nosso lixo sobreviver por milênios, mas a verdade é que mesmo entre sociedades cuja a cultura material é bem conservada (ao menos do ponto de vista arqueológico), tais como aquelas que viveram às margens do rio Nilo, o que chegou até nós é uma mínima fração do que realmente existiu. Ou quando pensamos na “pré-história” e vemos que o que encontramos em sua maioria são artefatos feitos em pedra (os chamados líticos), não é incomum pensar que só existia esse tipo de coisa, enquanto que a verdade é que poderiam ter existido artefatos feitos com matérias orgânicos, mas que não sobreviveram ao tempo. Por isso, pensar se o nosso lixo sobreviverá aos séculos é na verdade uma preocupação até que pífia.

As fotografias impressas tal como antigamente, são escarças. Foto: photographium.com

E para aqueles que acreditam que como a nossa atual sociedade se predispõe a dar dados sobre si mesma na internet e que exatamente por isso não é necessário que arqueólogos atuem no futuro, devemos ter em mente que nem tudo que está na internet é real. Uma boa parte do que é compartilhado na rede são sugestões de como queremos que o mundo nos note. Quando postamos fotos, vlogs, podcasts, etc, estamos mostrando somente o que queremos mostrar e usualmente é a parte mais bonita ou culta.

Mas algo que é legal de se pensar é que muitas destas coisas, se não sumirem da “nuvem” ou dos HDs, servirão como documentos históricos de diversas formas; seja sendo exibindo o posicionamento político de uma época, ações individuais a despeito das ordens religiosas, ou para mostrar a arquitetura ou organização urbanística de um determinado espaço; sabe aquele vlog do seu Youtuber favorito em um shopping, parque ou museu? Pois é!.

Então não existe motivo para ver o futuro de forma pessimista. Os seres humanos não ficarão menos interessantes ou menos “autores” da história mundial.

Referência:

Como seremos estudados pelos arqueólogos do futuro? Estamos fadados ao esquecimento?. Disponível em < http://www.bbc.com/portuguese/revista/vert_fut/2016/02/160219_vert_fut_arqueologia_futuro_fd >. Acesso em 18 de março de 2016.

Esse texto não é um “post resposta” à reportagem da BBC, mas uma forma de mostrar que o futuro não é tão sombrio como alguns acreditam.

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Arqueóloga formada pela UFS com a monografia “Egito Submerso: a Arqueologia Marítima Egípcia” e mestra em Arqueologia também pela UFS com a pesquisa “Arqueologia de Ambientes Aquáticos no Egito: uma proposta de pesquisa das sociedades dos oásis do Período Faraônico”. É administradora do Arqueologia Egípcia.

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