Mulheres e os Jogos Olímpicos

No mundo contemporâneo as mulheres têm começado a estar visíveis em praticamente todos os lugares. A passos curtos? Sim, entretanto a cada dia nós temos alcançado cada vez mais novas conquistas. Já estamos na reta final dos Jogos Olímpicos, mas não custa nada rememorar aqui algumas coisinhas para que elas não caiam tão cedo no esquecimento.

Os eventos olímpicos tendem a ser históricos não só por porque são palcos para testar o desempenho dos atletas em um âmbito mundial, mas porque servem como uma grande oportunidade de abordar causas sociais. Existe, por exemplo, o caso dos velocistas Tommie Smith e John Carlos (1968) que, com o apoio do australiano Peter Norman, realizaram um gesto dos Pantera Negras no pódio para chamar atenção para as causas negras. Ou da polêmica dos Jogos Olímpicos de Inverno sediados na Rússia (2014) onde atletas gays estrangeiros foram coagidos a não se expor e os russos impedidos de competir, o que gerou uma série de protestos pelo mundo.

Com o Rio 2016 assistimos a uma foto histórica surgir durante o jogo de vôlei feminino entre o Egito e o Brasil onde o choque cultural reacendeu o debate sobre as roupas femininas no esporte e que me fez relembrar deste cartum aqui. Assim como o país praticamente foi obrigado a ver um outro lado dos refugiados com a veiculação do sofrimento da nadadora síria Yusra Mardini cuja história de como, ao lado da sua irmã, nadou por três horas para salvar a si, sua família e outros refugiados enquanto cruzavam o mar em um bote para fugir da guerra que está ocorrendo em seu país, invadiu a internet.

A egípcia Doaa Elghobashy e a sua companheira de equipe, Nada Meawad, foi a primeira dupla feminina egípcia de vôlei de praia a estrear nos Jogos Olímpicos. Doaa Elghobashy acabou inspirando meninas muçulmanas a se ver competindo em jogos. Foto: REUTERS/Lucy Nicholson. 2016.

É empolgante ver também o respeito por parte da torcida pelas atletas. A internet é cheia de chorume, claro, mas foi maravilhoso ver as pessoas celebrando as competidoras não por seu corpo, mas por seu desempenho. Também as críticas pelo o escarço patrocínio oferecido para elas. Acho que a perspectiva para o futuro é bem promissora, é só não deixar a peteca cair.

Em 1967 a alemã Kathrine Switzer correu disfarçada de homem durante a Maratona de Boston. Ao perceber que o competidor 261 tratava-se de uma mulher um juiz tentou retirá-la da via, mas foi impedido pelos companheiros de competição dela.

Para quem acha que existe exagero em comemorar a visibilidade que as mulheres estão recebendo nos esportes devo recordar que, ao menos aqui no Brasil, as atletas femininas só foram permitidas competir oficialmente na década de 1930. A exclusão das mulheres nas competições não só em nosso país, como no resto do globo, estava calcada na ideia da vulnerabilidade biológica, ou seja, que faz parte da nossa natureza sermos frágeis e que por isso inaptas a realizar grandes esforços, podendo participar, no máximo, de jogos infantis. Esta ideia maluca recebia o aval de médicos.

Aham… Diz isso para ela ❤

Um outro absurdo é que no ano de 1968, justamente na década em que os debates feministas começaram a ganhar forma, foi implantado os “testes de feminilidade” para comprovar para o Comitê Olímpico Internacional (COI) que as mulheres que estavam competindo eram mulheres de fato. Este teste existiu até o ano de 2000.

Isso porque estou citando as mulheres em um contexto geral. Quando focamos na situação das negras o quadro era ainda mais alarmante: até meados do século XX a hegemonia branca era presada nos jogos.

Existe muito chão para caminhar, mas é inegável que muitas coisas substâncias mudaram. Para finalizar este post deixo aqui este vídeo para alegrar o coração de vocês:

Leia mais sobre o assunto:

FARIAS, Cláudia Maria de. Superando barreiras e preconceitos: a trajetória do atletismo feminino brasileiro, 1948-1971. Fazendo Gênero 8 – Corpo, Violência e Poder. 2008. Disponível em < http://www.fazendogenero.ufsc.br/8/sts/ST67/Claudia_Maria_de_Farias_67.pdf >. Acesso em 19 de agosto de 2016.

LESSA, Patrícia. O sexo a quem compete? Revista de História. 1/9/2014. Disponível em < http://www.revistadehistoria.com.br/secao/artigos-revista/provas-preliminares >. Acesso em 19 de agosto de 2016.

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Arqueóloga formada pela UFS com a monografia “Egito Submerso: a Arqueologia Marítima Egípcia” e mestra em Arqueologia também pela UFS com a pesquisa “Arqueologia de Ambientes Aquáticos no Egito: uma proposta de pesquisa das sociedades dos oásis do Período Faraônico”. É administradora do Arqueologia Egípcia.

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