Mulheres e os Jogos Olímpicos

No mundo contemporâneo as mulheres têm começado a estar visíveis em praticamente todos os lugares. A passos curtos? Sim, entretanto a cada dia nós temos alcançado cada vez mais novas conquistas. Já estamos na reta final dos Jogos Olímpicos, mas não custa nada rememorar aqui algumas coisinhas para que elas não caiam tão cedo no esquecimento.

Os eventos olímpicos tendem a ser históricos não só por porque são palcos para testar o desempenho dos atletas em um âmbito mundial, mas porque servem como uma grande oportunidade de abordar causas sociais. Existe, por exemplo, o caso dos velocistas Tommie Smith e John Carlos (1968) que, com o apoio do australiano Peter Norman, realizaram um gesto dos Pantera Negras no pódio para chamar atenção para as causas negras. Ou da polêmica dos Jogos Olímpicos de Inverno sediados na Rússia (2014) onde atletas gays estrangeiros foram coagidos a não se expor e os russos impedidos de competir, o que gerou uma série de protestos pelo mundo.

Com o Rio 2016 assistimos a uma foto histórica surgir durante o jogo de vôlei feminino entre o Egito e o Brasil onde o choque cultural reacendeu o debate sobre as roupas femininas no esporte e que me fez relembrar deste cartum aqui. Assim como o país praticamente foi obrigado a ver um outro lado dos refugiados com a veiculação do sofrimento da nadadora síria Yusra Mardini cuja história de como, ao lado da sua irmã, nadou por três horas para salvar a si, sua família e outros refugiados enquanto cruzavam o mar em um bote para fugir da guerra que está ocorrendo em seu país, invadiu a internet.

A egípcia Doaa Elghobashy e a sua companheira de equipe, Nada Meawad, foi a primeira dupla feminina egípcia de vôlei de praia a estrear nos Jogos Olímpicos. Doaa Elghobashy acabou inspirando meninas muçulmanas a se ver competindo em jogos. Foto: REUTERS/Lucy Nicholson. 2016.

É empolgante ver também o respeito por parte da torcida pelas atletas. A internet é cheia de chorume, claro, mas foi maravilhoso ver as pessoas celebrando as competidoras não por seu corpo, mas por seu desempenho. Também as críticas pelo o escarço patrocínio oferecido para elas. Acho que a perspectiva para o futuro é bem promissora, é só não deixar a peteca cair.

Em 1967 a alemã Kathrine Switzer correu disfarçada de homem durante a Maratona de Boston. Ao perceber que o competidor 261 tratava-se de uma mulher um juiz tentou retirá-la da via, mas foi impedido pelos companheiros de competição dela.

Para quem acha que existe exagero em comemorar a visibilidade que as mulheres estão recebendo nos esportes devo recordar que, ao menos aqui no Brasil, as atletas femininas só foram permitidas competir oficialmente na década de 1930. A exclusão das mulheres nas competições não só em nosso país, como no resto do globo, estava calcada na ideia da vulnerabilidade biológica, ou seja, que faz parte da nossa natureza sermos frágeis e que por isso inaptas a realizar grandes esforços, podendo participar, no máximo, de jogos infantis. Esta ideia maluca recebia o aval de médicos.

Aham… Diz isso para ela ❤

Um outro absurdo é que no ano de 1968, justamente na década em que os debates feministas começaram a ganhar forma, foi implantado os “testes de feminilidade” para comprovar para o Comitê Olímpico Internacional (COI) que as mulheres que estavam competindo eram mulheres de fato. Este teste existiu até o ano de 2000.

Isso porque estou citando as mulheres em um contexto geral. Quando focamos na situação das negras o quadro era ainda mais alarmante: até meados do século XX a hegemonia branca era presada nos jogos.

Existe muito chão para caminhar, mas é inegável que muitas coisas substâncias mudaram. Para finalizar este post deixo aqui este vídeo para alegrar o coração de vocês:

Leia mais sobre o assunto:

FARIAS, Cláudia Maria de. Superando barreiras e preconceitos: a trajetória do atletismo feminino brasileiro, 1948-1971. Fazendo Gênero 8 – Corpo, Violência e Poder. 2008. Disponível em < http://www.fazendogenero.ufsc.br/8/sts/ST67/Claudia_Maria_de_Farias_67.pdf >. Acesso em 19 de agosto de 2016.

LESSA, Patrícia. O sexo a quem compete? Revista de História. 1/9/2014. Disponível em < http://www.revistadehistoria.com.br/secao/artigos-revista/provas-preliminares >. Acesso em 19 de agosto de 2016.

Como seremos estudados pelos arqueólogos do futuro? Estamos fadados ao esquecimento?

Recentemente li uma interessante reportagem da BBC intitulada “Como seremos estudados pelos arqueólogos do futuro?”, onde é apresentada a sugestão do uso de uma tecnologia que torna possível preservar dados de DNA em “fósseis sintéticos”, o que possibilitará a leitura de códigos genéticos, porém o problema seria escolher o que registrar de acordo com a sua importância, afinal, o que definiria o que é “importante”? O Status social do espécime em vida? Sua raridade? Antiguidade?

Ler esta matéria me rememorou uma questão que apareceu em alguma aula, creio que a de teoria arqueológica, sobre o que será estudado pelos arqueólogos no futuro, uma vez que em um mundo quase totalmente dominado por redes sociais e armazenamentos em “nuvem” muitas pessoas se perguntam se não estamos deixando o planeta tão vazio que os arqueólogos do futuro não terão nada para analisar.

Já outros sugerem que como tudo está na “nuvem” nem será necessário tecer interpretações sobre a vida de determinadas sociedades.

Em ambas essas situações as sugestões são simplistas: no caso da primeira não é certo sugerir que estamos tão sedentários e vidrados na internet que não estamos produzindo nada “para o futuro”, até porque estamos gerando cultura material, seja móveis, eletrodomésticos, artesanatos, roupas, etc, e ainda produzimos lixos.

Etiquetamento e limpeza de remanescentes ósseos. Foto: Almir Brito Jr. 2014

Lixeiras, sejam “pré-históricas” ou históricas, independente da sociedade, ainda são um ótimo espaço para arrecadar dados acerca de sociedades passadas e presentes, porque ao contrário de edificações ou artefatos que foram feitos para algum fim específico (e este fim usualmente foi pensado para passar uma mensagem elaborada com antecedência), o lixo é um descarte e é nele onde estão as informações mais pessoais dos indivíduos. Tais informações, por vezes, são coisas que quem jogou fora não tinha a intenção de preservar ou mostrar para outros indivíduos do seu meio social.

Na referida reportagem que citei é comentado sobre se seria possível o nosso lixo sobreviver por milênios, mas a verdade é que mesmo entre sociedades cuja a cultura material é bem conservada (ao menos do ponto de vista arqueológico), tais como aquelas que viveram às margens do rio Nilo, o que chegou até nós é uma mínima fração do que realmente existiu. Ou quando pensamos na “pré-história” e vemos que o que encontramos em sua maioria são artefatos feitos em pedra (os chamados líticos), não é incomum pensar que só existia esse tipo de coisa, enquanto que a verdade é que poderiam ter existido artefatos feitos com matérias orgânicos, mas que não sobreviveram ao tempo. Por isso, pensar se o nosso lixo sobreviverá aos séculos é na verdade uma preocupação até que pífia.

As fotografias impressas tal como antigamente, são escarças. Foto: photographium.com

E para aqueles que acreditam que como a nossa atual sociedade se predispõe a dar dados sobre si mesma na internet e que exatamente por isso não é necessário que arqueólogos atuem no futuro, devemos ter em mente que nem tudo que está na internet é real. Uma boa parte do que é compartilhado na rede são sugestões de como queremos que o mundo nos note. Quando postamos fotos, vlogs, podcasts, etc, estamos mostrando somente o que queremos mostrar e usualmente é a parte mais bonita ou culta.

Mas algo que é legal de se pensar é que muitas destas coisas, se não sumirem da “nuvem” ou dos HDs, servirão como documentos históricos de diversas formas; seja sendo exibindo o posicionamento político de uma época, ações individuais a despeito das ordens religiosas, ou para mostrar a arquitetura ou organização urbanística de um determinado espaço; sabe aquele vlog do seu Youtuber favorito em um shopping, parque ou museu? Pois é!.

Então não existe motivo para ver o futuro de forma pessimista. Os seres humanos não ficarão menos interessantes ou menos “autores” da história mundial.

Referência:

Como seremos estudados pelos arqueólogos do futuro? Estamos fadados ao esquecimento?. Disponível em < http://www.bbc.com/portuguese/revista/vert_fut/2016/02/160219_vert_fut_arqueologia_futuro_fd >. Acesso em 18 de março de 2016.

Esse texto não é um “post resposta” à reportagem da BBC, mas uma forma de mostrar que o futuro não é tão sombrio como alguns acreditam.

O Senado aprovou a regulamentação da profissão de arqueólogo, mas…

No dia 25/03 o senador Romário Faria (PSB-RJ) nos brindou com a notícia de que a Comissão de Assuntos Sociais tinha naquele mesmo dia aprovado o projeto que regulamenta a profissão de arqueólogo, algo que a categoria vem lutando há muitos anos e sem sucesso, mas que desta vez foi encabeçado pela senadora Vanessa Grazziotin (PCdoB-AM). Veja abaixo o vídeo do momento da votação (vale a pena assistir, principalmente para entender algumas questões relacionadas com a profissão):

O projeto está indo agora (ou já foi) para a Câmara de Deputados*, para depois receber a assinatura da presidenta, foi nesta fase que no passado, quando o projeto quase foi aprovado, que o presidente Fernando Henrique Cardoso vetou o mesmo se baseando na inconstitucionalidade por vício de iniciativa, porque existiam planos para se criar conselhos federais para fiscalizar os profissionais, o que é inconstitucional.

Foto: João Carlos Moreno de Sousa. 2013.

Mas agora excluído tais planos, com um maior esclarecimento da população (em comparação com aquela época), cada vez mais multas sendo aplicadas para aqueles que andam destruindo sítios arqueológicos (principalmente as grande empreiteiras) e um posicionamento mais político da Sociedade de Arqueologia Brasileira (SAB), começamos a acreditar que desta vez a regulamentação seria aprovada. Mas a surpresinha veio poucas horas depois.

Escrevi a pouco que as grandes empreiteiras estavam recebendo multas por destruir patrimônios arqueológicos. Guardem esta informação; Ainda no dia 25/03 saiu a Instrução Normativa nº 1, de 25 de Março de 2015 (IN-01) que derruba a Portaria 230 do IPHAN de 17 de dezembro de 2002. Essa Portaria, explicando de modo bem simples, determina que a obtenção da licença em qualquer empreendimento no território nacional deve se adequar aos parâmetros do patrimônio arqueológico, ou seja, deve ser feita uma avaliação arqueológica antes de por as máquinas para funcionar porque nós podemos avaliar o potencial arqueológico de um lugar e trabalhando antes podemos evitar muitos desastres como tem ocorrido no país desde sempre: sítios arqueológicos sendo destruídos por tratores.

E agora esta IN-01 revoga, ou seja, cancela a Portaria 230 do IPHAN, vocês podem observá-la no CAPITULO VI, Artigo 62 (clique aqui e leia o documento na integra).

Foto: Márcia Jamille. 2010.

Foi uma atitude sinistra e baixa e que pegou muitos de surpresa. A SAB já analisou o documento e lançou uma carta para os sócios no dia 30/04 que transcrevo abaixo na integra (grifo meu):

Caros/as Sócios/as,

30/03/2015

Entre os dias 25 e 26 de março fomos surpreendidos com a publicação de dois documentos que impactam, de maneira significativa, a preservação do patrimônio arqueológico e a prática profissional da arqueologia no país: a Portaria Interministerial nº 60, de 24 de Março de 2015, que estabelece procedimentos administrativos que disciplinam a atuação dos órgãos e entidades da administração pública federal em processos de licenciamento ambiental de competência do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis-IBAMA e revoga a Portaria Interministerial nº 419/2011; e a Instrução Normativa nº 1, de 25 de Março de 2015, que estabelece procedimentos administrativos a serem observados pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional nos processos de licenciamento ambiental dos quais participe, revogando a Portaria nº 230/2002.

Como é de conhecimento de todos, o processo de construção da Instrução Normativa nº 1, de 25 de Março de 2015, conduzido pelo Estado, provocou forte reação por parte de nossa comunidade e de outros segmentos da sociedade civil, o que culminou na convocação, por parte do Ministério Público, da Audiência Pública Patrimônio Cultural no Licenciamento Ambiental, realizada no dia 13 de outubro de 2014, na sede da Procuradoria da República do Rio de Janeiro. Anteriormente, a SAB havia encaminhado considerações da Diretoria e de arqueólogos de todo o país sobre o documento, como resultado de nossa reivindicação de participação na discussão e elaboração da IN.

Embora reconheçamos no texto publicado da IN a incorporação de algumas das contribuições enviadas pela SAB, por diversos arqueólogos e pelo Ministério Público Federal para o Iphan, lamentamos profundamente o fato de o Poder Executivo, mais uma vez, ao invés de valorizar e promover a aproximação e o diálogo com a principal comunidade que implementará na prática as novas normativas, ter optado por não compartilhar conosco a versão final do documento e sequer ter se importado em nos comunicar sobre a sua iminente publicação.

O descaso do Poder Executivo com relação à construção democrática das políticas públicas voltadas para a arqueologia e o desrespeito com a comunidade arqueológica é decepcionante e revela o desinteresse em aproveitar esta oportunidade para consolidar relações simétricas entre instituições e comunidades envolvidas no estudo e na gestão do patrimônio arqueológico.

Contudo, lembramos que nosso amadurecimento político, nossa coesão e nossa capacidade de articulação mostraram uma capacidade de união que nos dá mais força para enfrentar problemas semelhantes no futuro. Nesse sentido, agradecemos a todos pelo apoio, pelas críticas e, sobretudo, pela demonstração de união nos últimos meses. Precisamos continuar unidos e organizados em prol da arqueologia e da preservação do patrimônio arqueológico, uma vez que as mudanças provocadas com essas normativas fragilizam a proteção do patrimônio arqueológico brasileiro, favorecendo a implantação de empreendimentos sem qualquer avaliação profissional sobre os riscos à sua preservação.

Por isso, conclamamos a todos que compareçam em massa à assembleia da SAB que ocorrerá durante o nosso XVIII Congresso, entre os dias 27 de setembro e 02 de outubro, no campus da PUC-Goiás, em Goiânia. Vamos todos juntos avaliar e refletir sobre os rumos da Arqueologia no Brasil e sobre o nosso papel enquanto comunidade científica perante o Estado, o qual, evidentemente, quer nos manter afastados das decisões que afetam diretamente a nossa prática profissional e, por conseguinte, o patrimônio arqueológico.

Só fiquei sabendo da revogação da Portaria Interministerial nº 419/2011 neste texto e para vocês terem uma ideia a anulação da 230 tem como consequência beneficiar mais (ou seria exclusivamente?) as empreiteiras do que a cultura. A população precisa de hidrelétricas sim, de adutoras, metrôs, sistema de esgoto descente, casas comunitárias etc, mas precisam saber também que possuem uma identidade e um passado incrível que deve ser valorizado.

UPDATE – Errata – 06/04/2015

Mensagem enviada pelo o Manuel Rolph Cabeceiras:

Márcia (ou Jamille ou Márcia Jamille, como prefere?) na forma como vc deu a notícia da regulamentação da profissão do arqueólogo há algum equívoco. Não é por ter sido aprovado na CAS do Senado que vai o projeto para a Câmara dos Deputados e depois para sanção da Presidente. Temos de ver no sítio do Congresso o trâmite para saber para onde foi encaminhado o projeto se para outra comissão (duvido) ou plenário do Senado (se já passou por todas comissões). Como o Projeto nasceu no Senado, só após a aprovação em plenário do Senado é que vai para a Câmara dos Deputados e, caso esta faça alterações, deve retornar ao Senado. Da Câmara vai direto à Presidente, apenas se a Câmara não fizer alterações.

Quem quiser acompanhar o andamento do projeto é só seguir por este endereço (não o inclui antes no post porque o link estava quebrado): PLS 1/2014  http://www.senado.leg.br/atividade/materia/detalhes.asp?p_cod_mate=115983

A youtuber Emily Graslie fala sobre o sexismo e canais de ciência apresentados por mulheres

Recentemente assisti ao vídeo Where My Ladies At? da Emily Graslie do The Brain Scoop e me enxerguei em muitas das coisas que ela comentou. É verdadeiramente muito difícil você gravar um vídeo para a internet porque a partir do momento que se torna público você está exposto a todo e qualquer tipo de comentários, seja de pessoas que realmente querem aprender e tirar dúvidas como também de haters e assediadores. Felizmente eu nunca recebi nenhuma mensagem cruel no Youtube, mas através do site e Facebook já recebi mensagens de gosto extremamente questionável onde estão inclusas aquelas com conteúdos xenofóbicos e assédio sexual.

Emily Graslie. Screenshot do vídeo do Youtube “Recommended Reading“. 2013.

Como hoje é dia Internacional da Mulher, uma data que foi criada para a reflexão acerca dos crimes de misoginia, o sexismo e de que o nosso gênero não deve ser minimizado por esteriótipos — e não para entregar rosas, cursinhos de maquiagem, liquidação de lingerie e outras coisas tão fúteis quanto —, resolvi transcrever os comentários da Emily abaixo e vale muito a pena ler, principalmente para as meninas e mulheres que planejam um dia ter ou possuem um canal no Youtube ou Vimeo. A transcrição foi feita a partir da legenda disponibilizada pelo próprio Youtube, com algumas leves modificações minhas. Abaixo o vídeo e a seguir as falas dela:

Recentemente eu recebi uma pergunta para um episódio de “Ask Emily” sobre se eu já tinha tido ou não experiência com sexismo na minha área e eu meio que deixei de lado, porque o Field Museum é bem encorajador para mulheres na ciência. Nós até temos um grupo aqui chamado “Mulheres na Ciência”, usado tanto por homens quanto por mulheres, membros da comunidade em que nós nos unimos para pensar em maneiras para promover o trabalho de pesquisadoras nessa área dominada por homens. Mas quanto mais eu pensava nisso, junto com a questão de se há alguma parte do meu trabalho de que eu não gosto, eu tenho que dizer que são os comentários desencorajadoramente negativos e sexistas com que eu tenho que lidar nas minhas várias caixas de entrada diariamente.

Reprodução The Brain Scoop.

Não me entendam mal: a grande maioria dos comentários que eu recebo é positiva e encorajadora, mas ainda existe um momento de negatividade com que eu tenho que lidar todo dia enquanto tento fazer vídeos positivos e encorajadores. Isso é especialmente óbvio quando apresento um episódio ou co-apresento com outra pessoa no canal da mesma com uma audiência que não é tão familiarizada comigo, com meu trabalho ou com o Soon Raccoon. Me faz pensar “Tem mais alguém passando por isso?”, “Quem são as outras mulheres que têm canais STEM (Science, Technology, Engineering e Math)?”.

Passei um tempo longo demais só tentando pensar em um grupo dessas pessoas. O que eu descobri foi que enquanto há pelo menos 13 canais STEM de homens com mais de 400,000 inscritos — e 7 desses 13 passaram de um milhão — só existem 4 canais apresentados por mulheres que têm mais de 160,000. Nenhuma de nós possui mais de um milhão.

Quando pedi aos meus seguidores do Twitter para citar suas mulheres STEM favoritas, eles disseram: “Existem outras além de você e a Vi Hart? Hum, preciso pesquisar!” e “Você e a Vi Hart são ambas incríveis, mas infelizmente são as únicas que conheço”.

Reprodução Geek Puff.

Isso não é um “nós” contra “eles” e não é um jogo de números. Só estou tentando mostrar que existem de forma significativa menos mulheres fazendo canais educacionais com temas de ciência e tecnologia no YouTube. Não estou dizendo também que os homens que eu vi não merecem os números que eles têm porque eu acho que o conteúdo deles é ótimo e deve ser celebrado. Mas o que está impedindo mulheres de alcançar o mesmo número de pessoas? Eu acho que, em geral, mulheres não têm tanto tempo para fazer essas coisas por causa da pressão de que cada episódio deve ser perfeito na execução. Isso pode impedir tanto homens quanto mulheres, mas eu acho que mulheres vão desistir mais facilmente por causa de comentários como esse: “Eu ainda transaria com ela”.

Nós temos medo do feedback de nossos inscritos e de comentadores porque temos medo que nossa audiência esteja focada na nossa aparência do que na qualidade de nosso conteúdo. Mas que isso, não estamos convencidas de que o conteúdo tem que ser bom ou factual porque não estamos convencidas de que as pessoas estejam assistindo pelo conteúdo para começar:

“Finalmente eu vi o corpo dela… Oh meu deus!!! Como uma mulher pode ser mais gostosa que a Emily?”

“Se você algum dia precisar de um local seguro para ficar quando estudar a Patagônia na Argentina, por favor… Sinta-se à vontade para entrar em contato comigo, eu patrocinaria sua viagem inteira só para te encarar!!!”

Reprodução @castoridae.

Há um medo do incômodo que vem com estar na tela com mais alguém porque alguns presumem que deve existir um relacionamento pessoal acontecendo o que deixa trabalhar com a pessoa depois embaraçoso. E além disso me deixa incomodada ter alguém no meu programa porque eu tenho medo que eles vejam esse tipo de comentário: “Esse é um pornô lésbico mais estranho que eu já vi. Nos primeiros 7 minutos eu pensei em como a Emily e o Hank deveriam transar, daí a garota do Animal Wonders chegou e pensei em como eles com certeza deveriam transar a três”.

Reprodução @tmichaelmartin.

Isso traz autocrítica, eu não sou inteligente ou engraçada ou interessante o suficiente sozinha?

“Ela só precisa de óculos mais sexy”.

“Não consigo parar de olhar para o nariz dela. É tão estranho. Faz ela parecer meio que como um porco nerd“.

Existe uma pressão para ser o pacote completo. Não só você tem que ser inteligente e articulada, mas também atraente:

“Emily, mesmo que as roupas que você usa escondam você parece ser bem gostosa embaixo delas. Talvez você devesse considerar usar roupas um pouco mais provocativas. Além de obviamente agradar homens hétero e mulheres homossexuais, ainda pode aumentar sua autoestima”.

“Ela é bem bonita, mas é como se ela ficasse feia de propósito”.

“Ela poderia facialmente chamar nossa atenção só mudando as roupas… Eu gostaria muito de vê-la de novo com novos visuais”.

Reprodução @castoridae.

A falta de reconhecimento dos outros ao seu redor a respeito desses comentários negativos é tipo “Ah, é só YouTube”, “São só comentários anônimos. Não ouça eles”. Mas quando eles são tão pessoais…:

“Não sei que tipo de pessoa fica ofendida ou se sente insultada por elogios”.

“Talvez ele devesse ter dito que ela é feia e deveria morrer”.

E aí há o sexismo em geral e óbvio:

“Isso é trabalho de homem, não de duas mulheres bonitas”.

“Curti pela referência a Skyrim, me fez rir. Presumo que foi escrita pelo Michael?”

E eu ouvi de colegas homens que mesmo que eles certamente não apoiem o sexismo e que achem péssimo, eles não acham que têm algo para contribuir com a conversa. Mas começa com o reconhecimento de homens e mulheres de que esses são problemas sérios e de que precisam ser discutidos. Não podemos sentar tranquilamente e tolerar bullying na internet em qualquer forma. Porque é isso que é, bullying na internet.

Reprodução @castoridae.

Ajude-nos a espalhar que esse tipo de atitude apática é prejudicial e inaceitável. Temos que ter certeza que estamos tornando possível para que pessoas de todos os gêneros se sintam reconhecidas por suas contribuições e não se sentirem restritas por algo tão arbitrário como sua genética ou aparência.

Mas como encorajamos mais mulheres e serem criadoras de conteúdo? Começa com apoiar nossas colegas criadoras, reconhecer que todos vamos passar por um processo de aprendizado no começo e não deixar acabar aí por causa de pressão e negatividade desnecessárias. No fim, estamos comprometidos com uma missão de fazer conteúdo educacional de qualidade para que mais mulheres preencham esses espaços. E garotas, isso melhora.

Aproveitem e assistam ao vídeo do Neil Tyson explicando sobre a ausência de mulheres na ciência.

As reencarnações de Tutankhamon que conheci

Quem já participou ativamente de alguns fóruns de amantes do Antigo Egito pode ter visto mais de uma vez a situação onde um participante (geralmente recém-chegado) se apresenta como a reencarnação de um egípcio antigo, mas não um camponês, escriba ou soldado, usualmente são rainhas ou faraós famosos. Bom, eu ao menos já vi e foram muitas vezes.

Faraó Tutankhamon.

No meu caso não é simplesmente somente em fóruns – na verdade nem de fóruns eu participo mais -, mas através de mensagens, muitas vezes acanhadas, de pessoas que só querem contar um pouco da sua história de vida e esperam que alguém mais acredite em suas palavras, além delas mesmas. Entretanto, para a minha surpresa e tornando a situação meio hilária, usualmente são pessoas alegando ser a reencarnação do Tutankhamon. A maioria são garotos jovens, até hoje nunca vi nenhuma menina, e sempre utilizam as mesmas falas que incluem “sonhos reais no antigo Egito”, aparência física semelhante ou uma tragédia na família durante a infância ou adolescência (de preferência incluindo o pai).

Para quem ainda não conhece a história, Tutankhamon foi um faraó que morreu em meados de 1322 a.E.C., aos 18 ou 19 anos. Ele ficou mundialmente famoso quando o arqueólogo inglês Howard Carter descobriu sua tumba praticamente intacta em 1922 e desde então varias lendas surgiram acerca dele, a exemplo da suposta maldição que teria caído sobre aqueles que abriram sua tumba.

Acredito que esta fama post-mortem foi o que fez crescer esse fenômeno de “reencarnações de Tutankhamon”, somado com a vontade de alguns indivíduos de se incluir em outra realidade. Não sou uma estudiosa do assunto, nem de longe entendo qual a ideia que existe por trás da crença em reencarnações, mas acerca desses acontecimentos creio que as palavras do falecido professor Ciro Flamarion, em seu livro “O Antigo Egito”, explicam muito bem este deslumbramento. De acordo com ele existe uma “espécie de fascínio exótico e nostálgico exercido sobre o nosso mundo secularizado de hoje por alguns dos elementos culturais do Egito faraônico, em particular a realeza de caráter divino e a religião funerária tão elaborada, com sua obsessão milenar pelo renascer, pela imortalidade”.

Renascer… Imortalidade da alma… É estranho perceber que os conceitos destas duas palavras podem extasiar tantas pessoas. Não acho isto de todo negativo, embora na minha opinião em alguns casos parece ser mais uma questão de não aceitação de sua própria identidade, preferindo adotar a de outro individuo. Esse é um assunto bem interessante, afinal trata-se de pessoas tentando se descobrir, embora de forma equivocada.

Tutankhamons?

Fiz uma breve pesquisa e encontrei um fórum onde um dos usuários questionou de quem os demais acreditavam ser a reencarnação. Abaixo algumas das respostas:

E finalmente:

Feliz dia Internacional das Mulheres!

Eu planejava escrever um post acerca das mulheres da antiguidade e do passado recente cuja existência foi “manchada” pela historiografia, mas que nos dias de hoje são frutos de debates e em alguns casos de homenagens, como está sendo com a Hipátia, cujo caso citei ano passado neste mesmo dia na página do Facebook. Mas como ocorreu um incidente triste na minha família, não pude me dedicar de forma ampla ao tema. Mesmo assim eu não poderia deixar este dia passar em branco. Não mesmo! E sabe o motivo? Neste dia em vez de olharmos umas para as outras e relembramos nossas conquistas, de refletirmos sobre o “silêncio” que foi imposto ao nosso gênero seja por movimentos políticos ou religiosos ou pela discriminação contra mulheres que ainda existe (e de forma nada velada) e os crimes de misoginia que são tratados como casos comuns, estamos nos preocupando em trocar flores e cartões ou palavras com frases usualmente sexistas. Isto é triste.   

Ahmes-Nefertari, Tiye, Nefertiti e Hipátia de Alexandria.

Hoje temos mulheres jornalistas, pilotos, âncoras, astronautas, reitoras, escritoras, etc, mas é necessário muito mais! Isto porque mulheres em algumas atividades ainda são vistas como uma excentricidade e quando obtemos sucessos usualmente somos julgadas por nossa aparência.

Boudica, Hua Mulan, Tomoe Gozen e Emilia Plater.

Quantas (os) de nós somos filhas (os) de mães solteiras? Quantos de nós já vimos as nossas mães sofrerem algum tipo de violência verbal ou física? Quantos de nós, na inocência da nossa infância, vimos nossas mães se debruçarem sobre o emprego na esperança de dar um futuro para nós e mesmo depois de voltar de um trabalho injustamente remunerado (ainda existem muitas profissões em que mulheres recebem bem menos que homens, felizmente a Arqueologia não é uma delas) e ainda têm que exercer trabalhos domésticos?

Muitos podem não saber, mas cada uma destas mulheres – nossas avós, mães, irmãs, primas -, dia após dia, de alguma forma fizeram história na sociedade ocidental. É um fato pouco conhecido, mas nos EUA, por exemplo, com a exigência de direitos ao trabalho e estudo para mulheres, casos de assassinatos e estupros contra este gênero eram utilizados pela imprensa como propaganda contra a liberdade de ir e vir. Mas muitas destas moças se negaram a parar de trabalhar e a estudar e graças a elas hoje posso escrever aqui, pude entrar em uma Universidade, tirar meus títulos e trabalhar.

Leymah Gbowee, Sampat Pal Devi, Aung San Suu Kyi e Malala Yousafzai.

Mas muitas delas não esperavam mudar o mundo, não achavam que tinham esta força, mas foram sonhadoras, como muitas de nós. Por isto temos que agradecer a elas, moças do passado e do presente, porque a cada centelha de consciência e mudança da nossa atual condição é um grande passo para a nossa humanização.

Neste dia eu não quero flores, não quero cursos de maquiagens, não quero um especial de filmes intitulados “TPM” (obrigada Telecine pela mancada!), não quero ser chamada de rainha do lar, o que eu quero é um aperto de mão e ser chamada de colega, amiga e ter o direito de manter a minha integridade.

 

Péssima notícia: O governo brasileiro quer tirar as Ciências Humanas do “Ciências sem Fronteiras”.

Em resumo eles alegam que as Ciências Biológicas e Exatas são mais úteis para o desenvolvimento do nosso país, desta forma, não existe problema algum em retirar as Humanas. Entre as ciências que estão dentro das “Ciências Humanas” está a Arqueologia.

O “Ciências sem Fronteiras” concede bolsas que auxiliam financeiramente em estudos no exterior. Muitos dos alunos brasileiros de Arqueologia já não conseguem facilmente auxílio de instituições de fomento para escavar ou estudar fora do país e agora o governo nos aparece com esta novidade. Isto é um grande retrocesso, principalmente no que diz respeito a se fazer ciência.

O engraçado é que na hora de tomar o crédito de uma pesquisa os nossos governantes são os primeiros a anunciar “Um brasileiro escavando no país ‘x’” ou “Cresce o número de brasileiros Doutores com formação no exterior”, mas quantos destes alunos precisaram contar com o velho apoio de familiares, enquanto o governo vira as costas?

Na matéria é dito em um momento que existe mais demanda nas Ciências Humanas do que nas demais ciências, mas a meu ver, principalmente no que diz respeito a outros casos de arqueólogos que vi por aí, creio que isto tem relação com a forma como o governo trata as Ciências Humanas: como algo inútil, irrelevante.

Será que o governo acredita que medimos “buracos”, separamos peças “velhas”, caminhamos horas fazendo entrevistas com moradores, passamos semanas em sítios que raramente tem um banheiro decente, trabalhamos com pessoas com línguas e/ou discursos ideológicos diferentes só por pura diversão? Ou que é divertido para nós alunos e para os nossos professores pagarmos nossos campos com o dinheiro do nosso próprio bolso?

Creio que para o governo fazemos quadriculas em Arqueologia porque achamos que assim o sítio fica mais bonito, já que a nossa ciência não é relevante para o país. – Imagem meramente ilustrativa. Sítio Corded Ware. República Checa. Imagem disponível em < http://www.diggingthedirt.com/2012/06/20/archaeology-side-bar-of-shame/ >. Acesso em 22 de dezembro de 2012.

 

Não sei até que ponto esta medida será maléfica para a Arqueologia, mas vendo o desdém que o nosso governo tem por nós e por nossas pesquisas, não estou muito otimista.

Link da notícia: Ciências humanas sem vez: Governo briga para excluir área do programa Ciência sem Fronteiras e sofre críticas. disponível em < http://oglobo.globo.com/educacao/ciencias-humanas-sem-vez-7121547 >. Acesso em 22 de dezembro de 2012.

Um dia trágico não só para a Egiptologia…

 

Há pouco mais de 2.000 anos…

Ilustração fictícia da Biblioteca de Alexandria destruída em 48 a.C por um incêndio provocado pelo exército romano. Fonte da imagem < http://www.baltimoreegypt.org/Library.htm

Quando o general e futuro Imperador de Roma, Caio Júlio César, atracou em Alexandria encontrou uma contenda entre irmãos. Cleópatra e Ptolomeu não se entendiam e nem planejavam reinar juntos. Roma, uma das potencias na época, se viu na obrigação de resolver a situação, porém um acordo justo para ambas as partes estava findado ao fracasso. Tendo Cleópatra caído nas graças do general, Ptolomeu armou uma batalha civil contra a sua irmã/rainha/consorte nas ruas da cidade. Os motins e aglomerações resultaram em um dos maiores incêndios criminosos da capital que culminou na destruição do acervo da Biblioteca de Alexandria na qual acreditamos, por meio de relatos, que possuía todos os tipos de pergaminhos sobre os mais variados temas, inclusive o celebre “História do Egito” escrito pelo historiador egípcio Manetho, o criador da lista de faraós que usamos até hoje.

 

Há pouco mais de uma semana…

L’Institut d’Egypte antes do incêndio. Imagem disponível em < http://cairobserver.com/post/14358165423/destruction-alert-institut-degypte-burned?c98230e8 >. Acesso em 18/12/2011.

Quando os generais do Conselho Supremo das Forças Armadas se posicionaram na liderança do governo provisório do Egito após a queda do presidente/ditador Hosni Mubarak, nem o Exército e nem parte dos civis se entendiam e não mais planejavam trabalhar juntos, assim, semana após semana no Cairo embates entre ambos ocorreram nas ruas da cidade. Os motins e aglomerações resultaram em vários incêndios criminosos e um deles culminou na destruição do acervo do Institut d’Égypte (Instituto do Egito) no qual sabemos que possuía todos os tipos de manuscritos e livros sobre os mais variados temas, inclusive uma cópia da celebre Description de l’Egypte escrito por várias mãos e que é considerada a primeira coletânea de artigos científicos acerca da cultura egípcia. Felizmente o original encontra-se na França, mas muitos dos primeiro trabalhos amplos da ciência Egiptologia que arqueólogos, historiadores, artistas e literatos deixaram para nós sucumbiram nas chamas.  

 

Saque no Museu do Iraque.

Ainda que este espaço de milênios separe ambos os incêndios, a semelhança entre as situações é gritante e nos mostram um quadro alarmante: Embora a queima dos arquivos que ocorreu no dia 17/12 tenha sido terrível, não é a primeira vez que insurreições, motins ou batalhas destruíram parte de um patrimônio em institutos, museus, bibliotecas ou reservas técnicas. Lembremos por exemplo dos ataques dos EUA ao Iraque em que durante as ondas de arrastões em 2003 o Museu do Iraque foi parcialmente destruído e muito do que sobrou em ruínas foi saqueado e ainda ronda no mercado negro de peças arqueológicas. Estima-se que mais de 10 mil peças tenham sumido [1]. Um número consideravelmente assombroso, mas que hoje poucos fazem nota. As duas grandes guerras do século XX também foram palcos de destruição tanto do próprio patrimônio arqueológico como o alheio, assim como o de saques como o ocorrido na Etiópia quando as tropas do ditador Benito Mussolini roubaram o Obelisco de Axum em 1937 durante sua invasão ao país [2]. Outros países da Europa seguiram com sua política de saques e o mais bizarro é que é apoiado por uma parcela da população como um ato nobre para poupar os artefatos da destruição em seus países de origem. Isto é tão nobre quanto um estranho tomar uma criança dos braços da mãe alegando que ela não é capaz de cuidar de seu próprio filho por ser uma mulher pobre proveniente do 3º Mundo. Porém se a criança pertence a uma potencial família violenta a coisa se inverte, no entanto, e se temos somente um tio violento e o restante da família é compadecida com a boa educação da criança? Coisa semelhante ocorre com o Institut d’Égypte: temos em foco a imagem de pessoas se vangloriando pela destruição, mas ignoramos ao tempo todo quem passou horas ou dias tentando recuperar algo em meio ao que foi perdido. Assim o dia 17/12 não foi trágico só para a ciência, nem para os adoradores do passado egípcio acomodados em casa colecionando Wallpapers de pirâmides e ignorando o fato de que existem pessoas fazendo propaganda para a destruição do Cine Belas Artes de São Paulo alegando este ser o símbolo de um passado decadente. O dia 17/12 foi trágico também para os egípcios que têm o seu orgulho intelectual ferido a cada sítio arqueológico saqueado, a cada museu invadido e principalmente pela falta do auxilio do governo em fazer o que é necessário para proteger estes lugares. Durante este ano de 2011 vi mais imagens de egípcios chorarem por uma série de artefatos destruídos do que durante todos os meus anos de graduação em Arqueologia vi brasileiros chorarem pela destruição de parques de grafismos rupestres, pelos fósseis retirados do nosso país e vendidos em leilões internacionais ou pelos saques em nossos sítios arqueológicos submersos. Não quero atirar uma pedra em meus conterrâneos, mas estes são os exemplos mais próximos da minha realidade que tenho, porém ao redor do planeta existem atos peculiares de extremo descuido, a destruição do Palácio de Verão na China é um bom apontamento. Posso fazer um mapa de todos os países que dia após dia destruíram e destroem o seu próprio patrimônio arqueológico, porém somente o Egito atualmente é apontado como um mau exemplo. Resta-nos refletir acerca dos motivos.

 

No Arqueologia Egípcia escrevi sobre o incêndio:

Mais uma perda para a Egiptologia

Alerta: Instituto do Egito queimado

Fotos do que sobrou do Instituto

Boas notícias sobre o Instituto

 

Fonte:

[1] Quanto vale uma obra roubada?. Época. Edição: 9 de março de 2009. São Paulo: Ed. Globo, n º 564.

[2] Quero minha múmia. Veja. Edição: 17 de dezembro de 2003. São Paulo: Ed. Abril.

 

Veja também:

Cine Belas Artes, em SP, não poderá ser tombado