Paisagens que a Arqueologia me proporcionou

Quando eu era criança o meu único interesse em ser arqueóloga estava no fato de que eu iria escavar “coisas antigas”. Eu sabia que ia precisar fazer “grandes reflexões sobre o passado”, mas não sabia que a maior parte seria baseada em discussões teóricas ou realizando revisões bibliográficas. Naturalmente na cabeça de uma criança a Arqueologia é mais simplória e romântica.

Visita ao MASP (SP)

Foi quando ingressei na graduação que comecei a ter uma ideia da dimensão de pessoas e lugares que eu poderia conhecer pessoalmente. Tudo bem que é um grande fato que o meio acadêmico pode limitar nossas experiências — quantos de vocês não já ouviram “não leiam este livro”, “esta revista não é tão boa”, “não vai para o campo deste cara, não gosto dele”, “esquece este site e vai pensar em algo útil”… Sim, este último foi comigo —, mas ao mesmo tempo, se você souber como aproveitar, passará por coisas incríveis.

Fazenda São Félix em Santa Luzia. Foto: Evaney Simões. 2015.

Na época da universidade conheci alguns lugares que eu jamais imaginei que iria pisar um dia e com o fim dela e o crescimento do Arqueologia Egípcia os meus horizontes se expandiram mais ainda com trabalhos de campo e os vídeos que andei gravando por aí para o canal do A.E. Isso só me empolga e me faz imaginar o que mais virá pela frente.

“Visitando ao Museu Egípcio Itinerante”, vídeo para o canal do A.E.

“Um mergulho da Arqueologia Subaquática”, vídeo para o canal do A.E.

Visita ao povoado Crasto (SE).

Visita à Casa da Torre Garcia D’Avila.

Atualmente tenho me divertido também conhecendo o público que assiste aos meus vídeos. A internet é um espaço realmente maravilhoso e é interessante notar que mesmo não tendo relação alguma com a mídia tradicional o Arqueologia Egípcia não só virou espaço para a obtenção de conhecimento para algumas pessoas, mas de entretenimento também.

Em busca do livro perdido: conclusão

Em um dos posts anteriores relatei para vocês nossa dificuldade para encontrar o único livro que conta a história de Umbaúba, cidade que apesar de não entrar no nosso mapa de prospecções vai entrar no nosso levantamento histórico. Ao visitar a única biblioteca da cidade e descobrir que o tal livro estava sumido fomos convidados para retornar à prefeitura no dia seguinte uma vez que eles queriam nos ajudar a procurar.

Fomos lá e eles realmente foram bem prestativos, porque depois de alguns telefonemas nos indicaram ir para a Casa de Cultura para procurar Sônia (que não estava disponível para nos atender) e o Edvânio Alves (Diretor de Cultura de Umbaúba), que foi totalmente simpático. Ele nos informou que o “tal livro” não estava lá, mas bateu um papo com a gente e comentou sobre a sua disposição em tentar historiar ao máximo o passado do município e se ofereceu para nos levar para a antiga casa grande do engenho Campinhos (cuja visita já comentei aqui).

Algumas antigas fotografias mostradas pelo Edivânio.

Ele também entrou em contato com o pesquisador Joaquim Francisco Soares Guimarães (Secretário de Educação), que coincidentemente estava falando com outra parte da equipe. Ambos marcaram um horário para aquele mesmo dia para visitar Campinhos.

Durante nosso trabalho de reconhecimento da área do sítio arqueológico de Campinhos e a entrevista da Dona Maria de Lourdes soubemos que não era um livro sobre a história de Umbaúba que estava desaparecido, mas dois, fora a conclusão de curso do próprio Joaquim que ainda não estava na lista. Fomos informados também que as obras eram na verdade dois TCCs, ambos em capa dura, escritos respectivamente pelo hoje arqueólogo Marcel Raely Fontes Gonçalves Nascimento e pela historiadora Ivonete de Jesus Clemente.

Felizmente o Marcel disponibilizou a pesquisa dele antes mesmo de começarmos os trabalhos e já está sabendo do sumiço da cópia doada por ele.

Casa da fazenda Sabiá, onde existia o engenho Sabiá (Umbaúba).

O Joaquim e o Edivânio então marcaram para nos encontrar novamente, mas desta vez na escola Benedito Barreto do Nascimento (BBN) e com a presença da Ivonete, a qual entrevistamos e que nos informou que ela tinha feito várias cópias da sua pesquisa e as distribuído pela cidade… E todas estão sumidas atualmente, sobrando somente uma, a que pertence a ela, nem mesmo a versão digital existe mais. Contudo ela irá disponibilizar a obra para tirarmos uma cópia, só precisamos definir quando.

O que falar sobre uma cidade que engole sua própria história e depois bate na tecla de que não tem uma? É difícil apontar um culpado, esta é a verdade! E não adianta generalizar porque neste pouco tempo que ficamos lá vimos exemplos de pessoas que têm se esforçado para registrar o seu passado.

Parece um canavial, mas provavelmente existe um sítio arqueológico aí: se a memória oral estiver correta aí estão os restos da casa grande do engenho Triunfo (Umbaúba).

E qual o meu interesse em contar para vocês este malabarismo em busca deste livro (que agora são “os livros”)? A priori é passar a mensagem de que na Arqueologia nem sempre é fácil encontrar registros históricos de determinadas cidades, independente do seu tamanho, mas depois de uma breve reflexão acredito que também é importante que vocês saibam que se já é difícil passar para as pessoas informações sobre o seu passado é pior ainda quando situações como essas acontece. Tanto a Ivonete como o Marcel fizeram dois trabalhos impares (um em História e o outro em Arqueologia) e tentaram organizar e depois repassar o conhecimento deles acerca de Umbaúba, mas infelizmente foram tratados de forma tão descortês.

A conclusão é que não cheguei até nenhuma conclusão. Acho que ainda preciso de mais vivências em trabalhos de campo para tentar entender como funcionam estes mecanismos de desvalorização do passado por parte de uma parcela da população. Eu já li e reli sobre o assunto na Universidade, mas ao vivo é outra história, mas uma coisa eu já sei: as vezes não é por maldade; eu cresci sabendo que devemos valorizar nosso patrimônio (seja ele edificado ou um artefato contemporâneo a nós, como um livro), mas muitas destas pessoas não tiveram as mesmas oportunidades que eu tive ou que os pesquisadores citados tiveram.

O que podemos fazer para resolver isso? Organizar um banco de dados online não é a solução, afinal nem todos têm acesso a internet. O que fazer? Eu realmente não sei!


Todas as fotos são de minha autoria. 2015.

Conhecendo Campinhos, a casa mais antiga de Umbaúba

Quando eu estava procurando o tal livro com a história de Umbaúba fui até a Casa de Cultura da cidade com um colega de equipe e fomos apresentados ao Diretor de Cultura de Umbaúba, o Edvânio Alves, a gentileza em pessoa, e que nos mostrou fotos antigas de eventos e residências da cidade, contou sobre os aspectos principais da memória oral e se ofereceu para nos levar para a casa mais antiga de Umbaúba que ainda está de pé. Naturalmente ficamos muito felizes e agradecidos pela proposta.

Eu em frente da Casa Grande do antigo Engenho Campinhos; Umbaúba (SE). Foto: Evaney Simões. 2015.

Coincidentemente a outra parte da equipe também recebeu semelhante convite, mas por parte do Secretário de Educação, o Joaquim Francisco Soares Guimarães e acabou que resolvemos ir todos juntos.

Fomos no horário da tarde (pela manhã visitamos o povoado Guararema… Tema para outro post) e a expectativa era enorme, já que era uma antiga casa de engenho, uma das marcas da economia sergipana no século XIX. Quando chegamos estava lá, a residência de Campinhos, em pé, só não saudável. O edifício possui muitos problemas estruturais e a família está fazendo o que pode para manter a memória do local viva.

A presença de vidro nas janelas é um dos sinais da grande distinção econômica desta casa entre os séculos XIX e início do XX.

Infelizmente foi aproveitando essa fragilidade que um dos artefatos históricos guardados no local sofreu um furto (daí tem gente que ainda escreve para mim perguntando como comprar artefatos arqueológicos… Tenha dó! Alguns destes objetos não são furtados somente de sítios, mas também da casa de pessoas indefesas, como é o caso da dona Maria), mas que felizmente foi recuperado pela polícia.

Os cabelos desta imagem são humanos.

Fragmento de faiança fina encontrada na área onde existia o grande salão.

Lá é genuinamente um sítio arqueológico, deste a própria estrutura da casa principal até artefatos encontrados fragmentados no chão. Eu realmente fiquei assombrada com a qualidade da residência, naturalmente ela recebeu algumas intervenções modernas, mas foi interessante esbarrar em alguma coisa ou outra do XIX… Inteira!

Uma das paredes da cozinha.

Uma das paredes da cozinha.

O grande salão do casario não existe mais, ele colapsou na contemporaneidade, assim como a Igreja centenária da propriedade, uma pena… Dela só sobraram ruínas; observamos o local (eu filmei um pouco, verei como mostrarei para vocês) e deu para saber como ocorreu o evento do desmoronamento, só não pudemos ver o que sobrou embaixo, afinal ali é um sítio arqueológico, não iremos sair por aí remexendo em tudo sem permissão.

O que sobrou em pé da Igreja.

Vista das ruínas da Igreja.

Depois sentamos para entrevistar a dona Maria de Lourdes que falou de muitos detalhes de sua infância e até de um eclipse solar em sua juventude. Demos também uma passada pelo terreno e catalogamos o antigo cemitério (que já está desativado há anos) onde identificamos um pedaço de tíbia humana.

Dona Maria de Lourdes.

Foi uma tarde extremamente agradável e todas as pessoas que conheci ficarão na minha memória, mas não somente pela simpatia do Joaquim, a gentileza do Edvânio, a receptividade da dona Maria e do Neuzito,  mas pela jaca que ganhei 😀

Parte da equipe da Contextos Arqueologia que está participando deste trabalho. Foto: Evaney Simões. 2015.


*Todas as fotografias sem referência ao autor foram batidas por mim.

Hieróglifos, hieróglifos e hieróglifos

Sexta-feira passada (26/09) foi o último dia do curso de hieróglifos da UFS. Foram somente cinco dias e aprendi muito ao ponto de ocorrer o que eu nem imaginava que iria fazer em tão pouco tempo: já consigo ler algumas coisas.

Ok é fato que preciso ainda me instruir muito — muito mesmo —, mas esta semana me animou a continuar a treinar (o que, ao menos até agora, estou fazendo todos os dias).

Introdução à língua egípcia I. Foto Nicolas Santos. 2014.

Eu já tinha esquecido o quanto era doloroso ir e voltar da UFS, levo duas horas para chegar ao campus e tinha dias em que eu levava três longas horas para chegar em casa. Tudo bem, valeu o esforço em nome do conhecimento.

Ocorreu muita procura pelo curso o que me levou a acreditar — erroneamente — que eu não conseguiria entrar. Veja bem, eram vinte e cinco vagas e quase uma centena de pessoas tinha se inscrito. Minha preocupação era bem legítima.

Infelizmente, como em qualquer atividade de extensão gratuita, sempre existe alguém que se inscreve e acaba não indo e foi este o caso: algumas pessoas nem sequer chegaram a aparecer, o que é uma situação chata porque se inscrever e não comparecer é tirar a vaga de outras pessoas que realmente gostariam de participar.

Apostila do curso.

Espero que futuramente ocorram outros cursos como este e com certeza estarei lá novamente para prestigiar e para aprender.

Como ser arqueóloga (o): Universidades, perspectivas de emprego, salários…

Esta é uma das perguntas que mais recebo pelos formulários do Arqueologia Egípcia, a que mais respondo e que ainda assim não para de chegar. Como se tornar um profissional da Arqueologia? Esta ciência que em nada tem a ver com venda de artefatos, batalhas contra aborígenes no meio da floresta ou o descobrimento de ossos de dinossauros.

O que mais me chateia nesta pergunta frequente não é nem o questionamento em si, mas o número de vezes que recebo e normalmente com aquela frase “me matei de tanto procurar”. Uma falácia sem tamanho. Escreva “onde estudar Arqueologia” no Google e encontrará respostas, para variar no próprio A.E., onde por pura lógica esta pessoa me encontrou, tem uma lista lá. Os mesmos passos servem para a frase “Salário de um arqueólogo”, é só procurar no Google e os três primeiros links mostram o valor.

Esteve sempre lá…

Sempre que recebo uma mensagem do tipo lembro-me do prof. Almir Jr., que me ensinou nos primeiros períodos da graduação em Arqueologia e que sempre falava “A geração de vocês é do controle remoto”, mas não é só isto, as pessoas querem tudo já moído, mastigado e dado na boca. Imagino que se teve esta “disposição” para fazer uma simples busca na internet, como será que irá se virar na hora de fazer uma pesquisa em um Arquivo Público? Lembrando que nem todos os Arquivos Públicos do Brasil tem material digitalizado, são papeis e mais papeis amontoados em uma sala, muitas vezes nada organizados.

Eu já me vi nesta situação… Documentos antigos e desorganizados. Ao contrário do Gandalf, que encontrou o que queria, tive que ir embora porque a responsável pelo local não quis colaborar dizendo que “Coisas velhas assim são todas jogadas fora”. P.S: Crianças usem mascara e luvas. A integridade do artefato agradece.

Não posso dar concelhos sobre a qualidade de um curso “X” ou “Y”, já que só estudei em dois e só posso falar da época em que estive na UFS. Sempre que recebo perguntas deste gênero digo para a pessoa que o melhor é ela entrar em contato com os alunos das respectivas instituições ou participar dos encontros regionais de estudantes. A maioria destes encontros eu costumo divulgar no A.E.. Dito isto, segue o link com a lista de Universidades que possuem Graduação e Pós-Graduação em Arqueologia no Brasil:

▸ Cursos de Arqueologia no Brasil: http://arqueologiaegipcia.com.br/2011/05/05/cursos-de-arqueologia-no-brasil/

 

Perspectivas de emprego:

É fato (1): O governo brasileiro não gosta de arqueólogas (os). Para eles somos uma perda de tempo e dinheiro. Bonito é manter os palácios governamentais, feio é escavar o chão (sim, escavar o chão, já que se realizam escavações em paredes também… Tharã!) para conhecer mais acerca do passado dos “invisíveis” (pessoas iletradas, mulheres, negros, índios, japoneses, italianos, pessoas com necessidades especiais, os chamados “subversivos”, etc), gente que ajudaram a construir o país e nossa identidade, mas que sempre são silenciadas pelos discursos oficiais.

É fato (2): O governo brasileiro não respeita os cientistas, especialmente aqueles das Ciências Humanas, como vocês podem conferir nestes meus dois links: [Vídeo] Profissionalização do Cientista e Péssima notícia: O governo brasileiro quer tirar as Ciências Humanas do “Ciências sem Fronteiras”.

Olhando o quadro acima a situação é bem desanimadora, mas não se resume a isto. Quem se forma em Arqueologia no nosso país terá áreas diferentes para atuar, por exemplo, existe no Brasil uma forte inclinação para a Arqueologia de Contrato (fazendo um parecer do potencial arqueológico de uma determinada área), como também poderá dar aulas em Universidades ou escrever livros. Depende da necessidade ou do que mais gosta. Está crescendo o número de empresas de Arqueologia, algumas, inclusive, com carteira assinada.

Também existem as especializações tais como a Bioarqueologia, Arqueologia Subaquática, análise de líticos, cerâmica, faianças, estruturas arquitetônicas… etc. Isto você pode decidir após entrar em um curso.

Desemprego claro que existe, mas esta é uma realidade para a maioria das profissões. Lembre-se que a vida não é um mar de rosas e nem sempre nos damos bem em algo, ao menos não a princípio.

 

Salários:

Eu conheço pessoas que com a graduação começaram a ganhar de R$1.300,00 a R$3.000,00 (valor mínimo e máximo informado). O blog Profissão em Foco traz os valores entre R$ 1200,00 e R$ 1.500,00 e o Guia do Estudante traz entre R$ 1.200,00 e R$ 2.800,00.

 

Para saber mais (Livro): FUNARI, Pedro Paulo. Arqueologia. São Paulo: Contexto, 2003.

 

 

[Vídeo] Profissionalização do Cientista

Vídeo interessante e que deve ser assistido não só pelos cientistas, mas por curiosos. A Profa.  Dra. Suzana Herculano-Houzel é da Biologia, mas esta realidade serve também para a Arqueologia (e qualquer outro tipo de cientista), principalmente para aquelas pessoas que creem que trabalhar com Arqueologia é caridade e que não precisamos por comida na mesa.

Update: Foto postada em 2016. Fabio Motta/Estadão.

O vídeo tem relação também com o nosso ambiente de trabalho, afinal, quem nunca trabalhou em campo por mais de 08:00 horas (sem direito a hora extra), precisou almoçar porcamente e ainda teve seu pagamento atrasado não dias ou semanas, mas meses (ou nunca foi pago)?

(Comentários) III Semana Internacional de Arqueologia “André Penin”

Ocorrida entre os dias 22 e 27 de abril no prédio da História e Geografia (FFLCH) da USP, a III Semana Internacional de Arqueologia “André Penin” do MAE-USP buscou levantar discussões de âmbito interdisciplinar acerca dos caminhos que a Arqueologia está seguindo tanto no Brasil, como no mundo. Além dos debates acadêmicos, o evento efetuou uma homenagem ao falecido Prof. Dr. André Penni, que deixou como legado uma louvável produção acadêmica. Como não tirei nenhuma fotografia postarei aqui aquelas que foram efetuadas pela organização e que estão disponíveis na página do Facebook da mesma.

No evento ocorreram atividades como mesas redondas, palestras, comunicações, um workshop, exposições de fotografias, um passeio pela reserva técnica e mostra de cinema. Aqueles que estavam previamente inscritos ganharam uma bolsa com a programação do evento, folders, mapas da universidade e um cartão com a lista de materiais que podem ser analisados pelos testes de Carbono 14.

 

Apresentação de comunicação na III Semana Internacional de Arqueologia “André Penin”. Foto: Evento (Divulgação).

 

Em termos gerais foi uma semana extremamente produtiva e com um bom público composto não só por arqueólogos e estudantes de Arqueologia, mas por estudantes de História e Geografia (aparentemente surgiu de Literatura também), além de (minha parte favorita) curiosos. É extremamente gratificante quando alguém de fora da academia ou não pertencente ao meio das Ciências Humanas comparecem aos eventos de Arqueologia, especialmente porque esta é uma experiência diferente da de ler uma revista sobre o assunto ou ver um documentário, já que são os próprios pesquisadores que estão na frente de um público falando da sua experiência. Um exemplo: sabem aquela famosa descoberta do túmulo do Senhor de Sipan? No evento o Quirino Olivera Núñez do Museu Sipan estava lá, assim como o Jürgen Golte (UNMSM), que explicou um pouco do seu trabalho com a iconografia mochica. Ambos estavam na mesa redonda “Arqueologia Pré-Colombiana” ao lado de Javier Nastri (UBA).

Palestra de Claire Smith (Flinders Uni/WAC) na III Semana Internacional de Arqueologia “André Penin”. MAE-USP. Foto: Evento (Divulgação).

Todas as palestras que assisti foram ótimas (só não vi a de Fred Limp – UARK/SAA – mas comentaram que foi bem instrutiva), mas a minha favorita, definitivamente, foi a da Claire Smith (Flinders Uni/WAC). Eu estava extremamente interessada em assistir a dela e não me arrependi. A profa. Smith comentou acerca da sua experiência como avaliadora de projetos que buscam fomentos (na palestra ela deu dicas de como escrever o pedido), a importância da publicação acadêmica, como publicar o seu livro e comentou a evolução da vida acadêmica de um (a) arqueólogo (a) de uma forma bem cômica.

Acerca das mesas redondas uma bem interessante foi “Arqueologia em Construção”, que discutiu sobre o papel da Arqueologia de Contrato versus a Acadêmica e que anunciou a possível abertura de uma graduação em Arqueologia na USP em 2015, informação apresentada no documento também denominado de “Arqueologia em construção”, produzido pelo Grupo de Trabalho “Arqueologia de Contrato” (dos estudantes do PPGARQ- MAE-USP) e disponibilizado previamente para os inscritos no evento. Nesta mesa foi possível até notar um pouco do preconceito ou rancor (nunca se sabe) que alguns dos alunos da Pós-Graduação em Arqueologia sentem pelos estudantes da graduação da mesma área. Vi isto durante o momento em que uma estudante de graduação fez uma pergunta para a mesa, imediatamente um rapaz logo atrás de mim falou algo como “Está na hora de se livrar destas crianças da graduação” e outro na minha frente disse “Cala a boca” em relação a garota, ambos com a voz baixa. Infelizmente os dois não estavam presentes no auditório quando a Profa. Dra. Marcia Bezerra comentou, não nestes termos, que as pessoas não deveriam subestimar os estudantes de graduação em Arqueologia, já que muitos daqueles que se formaram no extinto curso da Universidade Estácio de Sá hoje estão em ótimos cargos acadêmicos e fazendo muito pela Arqueologia ultimamente. Aplausos para a Profa. Márcia.

O formidável de todas estas mesas redondas, palestras e comunicações é que é possível sempre aprender mais além do que corriqueiramente vemos em sala de aula, inclusive o lado podre (a exemplo destes comentários bizarros dos alunos citados anteriormente).

 

Para as palestras e mesas com participantes estrangeiros, receptores para tradução simultânea foram disponibilizados. Foto: Evento (Divulgação).

 

Sobre a exposição de banners creio que um dos pontos positivos partiu da própria organização do evento que premiou os trabalhos mais criativos (não no sentido visual – diga-se o banner mais bonito -, mas cujo tema fosse diferente e que levantasse bons questionamentos), que apresentaram um tema relevante e a própria apresentação do pesquisador (se ele dominava o assunto). Isto mostra que conscientemente ou não eles não aprovam o método Salami Science, que nada mais é que aquela irritante prática de fatiar o seu trabalho para publicá-lo em diferentes revistas [1]. Felizmente o banner que achei mais completo e que foi bem apresentado pelo pesquisador (embora ele estivesse visivelmente nervoso) foi o que ficou empatado com outro em segundo lugar [2]. O trabalho dele foi sobre um software (a boba aqui não anotou o nome) capaz de catalogar e contar peças arqueológicas. Espero que ele leve a pesquisa adiante, afinal, contar mais de quinhentas peças não é tão divertido.

National Geographic Brasil. Maio, 2010.

Já a visita agendada a reserva técnica não foi o esperado, eu (e como mais tarde descobri também um estudante de História que trabalha com o mundo helênico) realmente acreditei que veria todas as áreas da reserva do MAE, inclusive a de Arqueologia Clássica, mas não foi bem assim, só visitamos a sala em que estão as peças amazônicas retidas pelo o Ministério Público e que outrora pertenceram ao banqueiro Edemar Cid Ferreira (se não me falha a memória, depois confirmarei esta minha informação). Mesmo assim não foi um início de tarde perdido, pelo contrário, foi instrutivo, principalmente porque não sei nada sobre Arqueologia Amazônica e tive o privilégio de ter estudantes e profissionais da área explicando acerca dos artefatos que estavam bem ao nosso lado. Definitivamente nem de longe uma experiência assim se compara a uma visita normal a um museu guiado por um guia turístico ou um funcionário que precisou decorar o roteiro. De forma alguma estou fazendo propaganda contra a visitação de museus, mas é que desde que entrei na Arqueologia perdi grande parte do fascínio de frequentar uma exposição, já que normalmente vamos para a reserva técnica e são sempre lá que ficam as peças não analisadas, as frágeis de mais para ir para exposição e as verdadeiras (neste caso quando a exposição é montada com réplicas, permitindo assim a fotografia, o que também não é ruim).

Esta reserva técnica em questão está aberta a visita de gente comum também (em contrapartida, a exposição está fechada), é só ligar para o MAE e agendar. Lembrem-se que não devem tirar fotos e nem tocar nas peças. Será um passeio bem interessante, sobretudo porque é lá onde estão se formando alguns dos especialistas em Arqueologia Amazônica do Brasil, área que está ganhando destaque no nosso país já que caiu nas graças da mídia, a National Geographic que o diga, a revista publicou uma matéria maravilhosa do Prof. Dr. Eduardo Goes Neves (PPGArq-MAE/USP), “Amazônia Ano 1000”, em Maio de 2010 e este ano (Abril, 2013) disponibilizou outra matéria falando acerca da Arqueologia no nosso país, mais especificamente em São Paulo.

 

Os trabalhos de Egiptologia no evento:

Princesa Nofret (IV Dinastia). Fonte da imagem: EINAUDI, Silvia. Coleção Grandes Museus do Mundo: Museu Egípcio Cairo (Tradução de Lúcia Amélia Fernandez Baz). 1º Título. Rio de Janeiro: Folha de São Paulo, 2009.

Estavam previstas duas comunicações e um pôster e somente uma conferencista compareceu. O quadro não foi nada animador. Acho que este problema já é endêmico, uma vez que o número de apresentações de estudantes de Arqueologia que estão se especializando em Egiptologia não é nada promissor. Neste sentido os alunos de História, que também estão se especializando em Egiptologia, estão de parabéns porque até evento exclusivo para a área eles estão sempre realizando.

 

Como conclusão, o que falar?

Espero que o evento continue crescendo e que o número de evasão de conferencistas e apresentadores de pôsteres diminua, já que a III Semana tornou-se um excelente espaço aberto para debates. Outros eventos de Arqueologia para discussões gerais já estão agendados ou já passaram. Em Brasília ocorreu o “2º Encontro de Arqueologia em Brasília: Arqueologia e politicas Públicas de Cultura – Construindo Pontes” e “2º reunião da SAB Centro-Oeste: Arqueologia Pública. Pesquisas Correntes” ambos unidos no mesmo espaço nos dias de 14 até 17 de maio de 2013 e em Recife será realizado o “V Encontro Regional de Estudantes de Arqueologia (EREARQ-NE)” entre os dias 29 de julho e 03 de agosto e por fim a Reunião Geral da Sociedade de Arqueologia Brasileira no “XVII Congresso da SAB – Arqueologia sem Fronteiras: Repensando espaço, tempo e agentes”, em Aracaju, que ocorrerá entre 25 a 30 de agosto de 2013 (estarei presente neste último).

 

[1] Explicando mais acerca do Salami Science: diz respeito aos pesquisadores que possuem um artigo publicado (ou não) e dele pega tópicos para dividir em vários outros trabalhos, especialmente pôsteres, daí o pôster fica sem muito sentido. Apesar de não ser uma pratica boa para o pensamento cientifico é a mais popular onde a “produtividade” acaba valendo mais que a “qualidade”.

[2] O nome do estudante é Aldo Magaló (Via João Carlos Moreno de Sousa).

 

 

 

Meu novo título: mestra em Arqueologia

No dia 26 de março (2013) passei por uma banca de avaliação do Programa de Arqueologia da UFS, onde recebi o título de mestre. No mesmo dia deixei uma mensagem de agradecimento na página do A.E no Facebook:

Minha mensagem na página do Facebook (2013).

Mais uma vez quero agradecer a todos, tanto a banca de avaliação, como os ouvintes que deram a maior força para tentar criar um ar tranquilo, como também aos leitores, que enviaram mensagens de felicitações.

Momento da defesa. Na imagem da esquerda para a direita: Márcia Jamille N. Costa, Profa. Dra Elizabete de Castro Mendonça, Prof. Dr. Gilson Rambelli e Prof. Dr. Paulo Fernando Bava de Camargo. Fotografia de Beijanizy Abadia (2013).

Agora, pouco mais de uma semana após a aprovação é estranho passar mais de três dias em casa sem precisar pensar na UFS, minha Alma mater, uma instituição que fez parte da minha vida nos últimos seis anos. Para variar as perguntas começam a surgir com mais frequência: como será daqui para frente? Quais os tipos de pessoas as quais terei que me habituar? Onde irei trabalhar? Esta última é a mais louca já que são pouquíssimos os que conseguem se sustentar no Brasil trabalhando somente com o Antigo Egito, se eu conseguir ser uma deles será para mim um feito satisfatório.

Dois amigos inseparáveis até no momento de terminar a dissertação: meus computadores. Foto: Márcia Jamille (2013).

Agora que tudo já passou não sei qual o próximo passo tomar. Obviamente quero tentar um doutorado, mas não escolhi ainda a instituição. Já tive algumas ideias para temas (desta vez um que seja mais fácil que este do Mestrado), mas estou pensando em tentar voltar com o meu antigo “terreno seguro”, que são os anos finais da 18ª Dinastia, não que eu esteja subestimando esta titulação, mas é um período temporal que amo tanto e nada mais justo que pensar em trabalhar com algo que gosto muito.

Gente famosa morre de “maldição da múmia”, eu pego resfriado!

Depois de publicar o último texto sobre a minha dissertação parece que milagrosamente encontrei um livro perdido aqui em casa que me auxiliou a dar continuidade. Não é 100%, mas já foi uma boa evolução, me encontrar com o meu orientador também foi extremamente esclarecedor e após falar com ele fiquei olhando o esquema da minha dissertação e pensando que se eu tivesse conversado antes muita coisa teria fluído mais facilmente.

A pesquisa retornou como dizem “indo de vento em popa”, mas contraí mais um resfriado (tive um na penúltima semana de novembro) e exatamente hoje completei uma semana doente e avançar na dissertação que é bom? Nada! Também deixei de publicar no Arqueologia Egípcia (tanto site como a página no Facebook).

Que coisa mais desagradável é um resfriado.

É terrível, por mais que nos programemos sempre tem algo que pode dar errado, mas tudo bem, antes resfriado do que tifo. Felizmente não preciso pegar campo ao contrário de alguns colegas, pensem bem, meu imprevisto não é nada comparado com o de um ou outro que tem que esperar liberação para a escavação (qualquer intervenção arqueológica no solo precisa de autorização legal do IPHAN – para o Brasil -).

Hoje foi o dia de separar algumas informações acerca do valor da água – no sentido simbólico e político – para os egípcios faraônicos. Este é um assunto interessante, embora eu nunca tivesse imaginado que chegaria a abordá-lo, na verdade em princípio estas observações eram irrelevantes para mim.

Homem utilizando um "shaduf" para retirar água de um canal para uma residência.

Para uma população que vive no meio do deserto a água é um bem extremamente precioso, mas no caso do Egito em alguns momentos o ambiente aquático chegou a ser humanizado, além de ser um espaço para a interação social. É um tema bem fascinante.

Hoje já é 16/12, espero mesmo melhorar logo.

Estes oásis egípcios estão dando um trabalho…

 

E eu achando que organizar as minhas ideias na graduação é que seria difícil, mas pensando bem agora é que estou me sentindo em uma situação desconfortável. Não sei se estou tendo alguma reação psicológica onde o meu cérebro só quer funcionar na base da procrastinação e que quando chegar no final de fevereiro de 2013 é que minha dissertação estará completa e sem lacunas, ou sou eu quem está morrendo de véspera, bem ao estilo peru de Natal.

Estou trabalhando com o potencial do uso da água nos oásis egípcios (Os que se encontram no Deserto Líbio, ao norte de Assuã), mas não só no que diz respeito ao aspecto físico, mas simbólico também.

Oásis Kharga. Foto: Hanne Siegmeier. Disponível em < http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Kharga_ Oasis_by_Hanne_Siegmeier.jpg> Acesso em 31 de Janeiro de 2011.

 

Meu plano é entregar a dissertação completa no final de dezembro deste ano (2012) para o meu orientador, mas está difícil, eu tinha que escolher um tema tão complicado, amplo e por vezes até confuso. Tem horas em que eu me pego pensando onde é que eu estava com a cabeça quando resolvi trabalhar com este objeto de pesquisa, não falo os oásis em si, mas Antigo Egito. Não que seja de todo difícil, mas é um tema amplo e por vezes cansativo com períodos sobre períodos, ascensão e queda de invasores, artefatos interpretados e reinterpretados e a pior parte, mas paradoxalmente a mais fascinante: os diferentes discursos de pesquisadores de países e disciplinas diferentes.

Em alguns momentos me vejo com um sorriso amarelo na madrugada pensando onde mais posso pesquisar e ler, só para descobrir mais tarde que o pesquisador que estava falando sobre o Fayum passou seu trabalho todinho debatendo sobre os retratos funerários do período Greco-Romano. Como se não bastasse os oásis não são lá o tema favorito dos colegas, a maioria prefere o “Vale do Nilo” e o Delta, tem gente que até chegou a escrever em livro que os oásis não fazem parte da história do Egito… Magoou hem!

 

Colher representando uma nadadora encontrada em Fayum. Este tipo de artefato era encontrado com bastante frequência nesta região e felizmente tem relação com o meu tema. Fonte da imagem: EINAUDI, Silvia. Coleção Grandes Museus do Mundo: Museu Egípcio Cairo (Tradução de Lúcia Amélia Fernandez Baz). 1º Título. Rio de Janeiro: Folha de São Paulo, 2009. p. 74.

 

Se alguém tiver o remédio para o desespero, por favor, me avisa.

P.S: Não, não estou tão desesperada, mas eu ficaria bem feliz se surgissem mais artigos sobre os oásis egípcios. Minha dissertação agradece (haha)!

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