A importância da família para o nascimento de um arqueólogo

Antes de iniciar o post de fato, quero deixar aqui os meus parabéns para os colegas arqueólogos do Brasil, afinal, hoje é o nosso dia (26 de Julho, dia do Arqueólogo).

Este texto é dedicado para os papais, as mamães, irmãs e irmãos (ou amigos e amigas, para quem não tem uma família) de pessoas que querem fazer um curso de Arqueologia.

Escavação de uma casa em Catalhoyuk. Foto disponível em < http://multi.stanford.edu/interaction/1106/arch.html >. Acesso em 26 de julho de 2012.

Sempre estou recebendo mensagens de pessoas que sonham em um dia se sustentar com a Arqueologia, mas que não recebem o estimulo por parte dos seus familiares devido a preocupação de como o interessado pela profissão irá se sustentar um dia (sendo este o motivo mais corriqueiro) e os supostos perigos extremos da profissão. Claro que muitas vezes estes medos são genuínos, nunca esperamos que um ente querido esteja mal de dinheiro futuramente, porém ainda assim são preocupações furadas, afinal, mesmo se a pessoa se formar em Engenharia, Medicina ou Direito (que são as profissões favoritas de muitas mães e pais) ela correrá o risco de ter o diploma, mas continuar desempregado ou estar com um emprego onde não receberá o salário dos sonhos.

Uma coisa importante na profissão é a pessoa possuir uma coisa que para muitos pais e mães parece banal, mas que pode trazer extremos benefícios para o (a) filho (a) se ele seguir adiante: a vocação. Do que adianta o indivíduo se formar em Artes Plásticas por incentivo da família, se em verdade ele se sente mais atraído e disposto a trabalhar com Culinária. Imaginem, então, o grande Chef que o país pode ter perdido devido a falta de compreensão da família.

No meu caso tive muita sorte. Quando mais jovem eu gostava de história da antiguidade e da ideia de se escavar para encontrar coisas que estavam perdidas, achava bonito ver os pesquisadores dedicarem horas da sua vida passando o pincel em objetos, só para entender um pouco mais acerca do nosso passado. Foi quando ocorreu o episódio do documentário que sinceramente mudou a minha vida. Se antes eu era extremamente introspectiva (bem pior do que sou hoje), após entender o que mais queria para o futuro fiquei mais faladora e até me tornei várias vezes a líder de equipes nas feiras de ciências (no ano em que comecei a me interessar por Antiguidade Egípcia o trabalho do meu grupo foi um dos escolhidos para ser apresentado para toda a escola) definitivamente foi a melhor infância que pude ter. Porém, não foi só a minha dedicação que contou, o apoio familiar e dos amigos foi de grande ajuda. Devido a minha animação todos sempre falavam sobre os documentários que passavam na TV fechada e a minha mãe comprava tudo o que encontrava sobre o Egito. Para melhorar o ambiente, como o meu pai queria ser arqueólogo (coisa que só me contaram pouco tempo antes de entrar na Universidade) ele possuía revistas em casa falando sobre o assunto (foi onde tive os meus primeiros contatos visuais com os tais pesquisadores com os pinceis, mas como eu não sabia ler, alguém tinha que fazê-lo por mim). Já deu para perceber que o ambiente estava totalmente favorável para mim e só tenho a agradecer.

O arqueólogo John Kelly mostra o mapa de um sitio para crianças. Imagem retirada de Secrets from the Past. National Geographic. 1979.

No entanto, infelizmente existem pessoas que não estão tendo, ou não tiveram a mesma sorte que a minha. O exemplo é o meu próprio pai, dizem que ele não seguiu para a Arqueologia porque não teve apoio familiar. Outro foi de uma amiga minha que por ser mulher achavam não ter cabimento que ela trabalhasse com a Arqueologia (e o marido dela também em nada apoiou).

O perigo tanto financeiro como de vida que tantos pais se preocupam vem, em primeiro lugar, do preconceito inicial advindo da sociedade reafirmado pelos filmes de terror e aventura. Com todo o respeito ao Indiana Jones (que só assisti depois que entrei na Universidade. Não vi antes graças a minha própria aversão ao filme por fantasiar demais a Arqueologia. Felizmente hoje eu não estou tão boba e levo tudo na esportiva), mas foi ele um dos que mais contribuíram para enfeitar a profissão com o perigo e para firmar que a Arqueologia é um espaço para homens. Hoje, claro, conseguimos desmistificar muito acerca, mas este pensamento ainda prepondera.

Agora, se você continua um pouco enfezado e temeroso ao ver a (o) sua (seu) filha (o) sonhando com a Arqueologia, separei algumas dicas que escrevi baseadas nas histórias de alguns colegas:

◘ Seu apoio é fundamental: Primeiro porque ninguém nasce sabendo então é sempre importante para a pessoa receber o apoio necessário para seguir no curso desejado. Muitos já determinam desde cedo que querem ser arqueólogos, mas outros mais numerosos ainda se importam bastante com a opinião alheia. Porém, no futuro quem é que vai trabalhar para se sustentar? Muitos pais e mães querem determinar para as suas crianças o que gostariam de ter para si, mas seria mesmo este o ideal de vida para esta pessoa que está crescendo? Se a criança ou o adulto quer muito é melhor apoiar e ter um profissional satisfeito do que ter alguém sempre se queixando do trabalho.

◘ Não jogue na cara dele uma falha: Se por acaso o seu ente tiver entrado no curso de Arqueologia e desistir no meio do percurso, não comece com o “bem que eu te disse” ou “começou tem que terminar”. Por favor, não seja um estúpido e demonstre apoio para auxilia-lo agora na escolha de outra profissão.

◘ Prepare-se de antemão (isto vale para qualquer curso): Um ensino superior descente tanto aqui no Brasil, como em outras partes do mundo costuma ser caro, mesmo nas Universidades Federais. Sorte de quem tinha preparado um pé de meia para a (o) filha (o) antes. Em Arqueologia normalmente temos que viajar muito, e não vá contato muito com o apoio das Universidades, isto não ocorre sempre. Não desanime com o dinheiro que vai precisar gastar, em vez disto vá se preparando fazendo uma economia. Imagine que se a mãe e o pai aplicar cada um mensalmente R$50,00 na poupança do filho, ao final do ano ele já terá R$1200,00. Isto é uma questão de organização, paciência e necessidade, afinal, são raros os cursos em que você gastará praticamente nada (na verdade não conheço nenhum, afinal, entrar na Universidade é sinônimo de pagar passagem, gastar dinheiro com livros, xérox, congressos, impressão de trabalhos, etc).

Garrett Bourque (na época da foto com 11 anos) e seu pai examinam um artefato viking encontrado na America do Norte. Imagem retirada de Secrets from the Past. National Geographic. 1979.

◘ Leia mais sobre a Arqueologia: Antes de pensar que o seu (sua) filho (a) será um (a) futuro (a) mendigo (a) tente conhecer melhor a Arqueologia. Existem muitos sites idiotas espalhados pela rede, mas temos alguns interessantes a exemplo do “Como tudo Funciona” que possui uma matéria acerca do assunto, ela possui alguns errinhos, mas já dá para ter uma boa ideia sobre o assunto. No Arqueologia Digital, você verá que não somos um amontoado de famintos. Tem também o livro “Arqueologia” do Prof. Dr. Pedro Paulo de Abreu Funari, que além de extremamente essencial para se conhecer o principal sobre a profissão, ele é bem didático.

◘ Pratique o desapego ao (a) seu (sua) filho (a): Com a Arqueologia provavelmente teu filho irá precisar viajar para outros estados ou para fora do país em algum momento, e não é por três dias, são por semanas ou meses. O bom da Arqueologia é que podemos conhecer lugares diferentes e culturas variadas. Não tire do seu filho a oportunidade de conhecer os índios do Xingú (isto se o “progresso” não destruir o que resta da identidade destas pessoas), ou os monges do Tibete. Lembre-se que a vida é só uma e será bem mais interessante se ela for aproveitada ao máximo.

◘ Conversem muito com os (as) seus (suas) filhos (as): Deveria ser totalmente desnecessário este conselho, mas é o que mais está precisando neste momento. Ao entrar na Universidade o (a) seu (sua) filho (a) irá encontrar muitas pessoas que possuem costumes de vida totalmente diferente do de vocês (e não ponho nenhuma ponderação ao aplicar o “totalmente”, imagine que são classes sociais, religiões e discursos plurais em um só lugar). As difamações também são constantes, desta forma não adianta vender ao seu filho a ilusão de um mundo perfeito onde existe um eterno maniqueísmo e que o lado do mal está bem longe dele. Pessoas tentam prejudicar umas as outras por muito pouco e nem sonhe que os professores serão aqueles que cuidarão do (a) teu (tua) filho (a) quando você não estiver de olho (a propósito, esta é uma mania horrível dos pais de sempre jogar a responsabilidade para os professores, principalmente aos do Ensino Fundamental e Médio. Escola não é creche, então se a escola enviar uma reclamação acerca do seu filho não ignore, converse com a criança. É melhor dar um jeito agora do que ter futuramente alguém deslocado na Universidade). Desta forma, para evitar muitos problemas e surpresas desagradáveis é melhor manter sempre o diálogo com ele (ela).

A Estranha Tribo dos Arqueólogos

Infelizmente não consigo lembrar o nome do arqueólogo que escreveu isto, mas ele tinha um blog bem interessante, é uma pena que tenha fechado a página. O endereço era http://colunistas.ig.com.br/indianasilva/ e exista um texto, inclusive, em que ele falava da diferença entre os homens e as mulheres em campo e as relações dos arqueólogos (as) com suas famílias ao longo dos anos. Eram artigos com visões pessoais das quais algumas eu não concordava, mas eram divertidos de ler.

O texto abaixo é o único que deixei salvo, ele fala um pouco sobre os “novatos” em campo e as aspirações de jovens no mundo “louco” da Arqueologia:

A Estranha Tribo dos Arqueólogos

Todos os anos, em verdade a cada semestre, centenas de jovens em idade universitária desembarcam no centro oeste do país, nas florestas amazônicas, no sertão nordestino, nas praias de Santa Catarina. Seu objetivo imediato: passar algumas semanas numa escavação arqueológica de verdade, entre trincheiras, sondagens, aparelhos GPS, pás, peneiras, baldes, trenas, metros, barro e mosquitos, muitos mosquitos.

Aqueles que estão ali pela segunda vez talvez tenham aprendido algumas lições práticas e tenham providenciado também roupas longas – mesmo sob o sol escaldante – largos chapéus de palha, protetor solar, repelente de insetos, botas resistentes, capas de chuva, aparelhos tocadores de MP3.

Mas boa parte deles estará ali pela primeira vez e, mesmo com os demais sabendo do sofrimento alheio, terão de passar sozinhos pelas provações de seu primeiro campo.

Por incrível que pareça as garotas – em geral mais inteligentes do que os rapazes – gostam tanto dessa experiência quanto eles e chegam em quantidade equivalente. Todas muito meninas, tanto quanto os rapazes (embora alguns exibam vastas cabeleiras e barbas, conquistadas a custo durante seus primeiros anos de curso universitário em humanidades).

Com algum tempo vão aprender também que barbas e cabelos longos tem benefícios e desvantagens. Se estiver sendo atacado por insetos ou sob um sol de rachar mamona a barba e o cabelo vão te proteger e diminuir a área exposta. Por outro lado, o calor será maior e se trombar com um cacho de formigas, carrapatos, micuins ou qualquer coisa que entranhe em seus pelos se arrependerá amargamente de não ter raspado até o último fio do seu corpo.

Pergunto a um deles: O que te fez buscar a arqueologia?

“Nenhuma outra atividade me ofereceria a oportunidade de conhecer lugares tão distantes sem ter de gastar nada, aprendendo e ainda ganhando alguma coisa. Além do mais os campos de arqueologia são o mais próximo que você terá de uma experiência comunitária com gente da sua idade.”

A verdade é que alguém que sobreviva aos dois primeiros anos da arqueologia tem grandes chances de se tornar um grande conhecedor do país e mesmo de lugares mais distantes, como América Latina, Oriente Médio, Grécia. E isso sem ter que depender dos recursos familiares.

Mas há sempre num acampamento de arqueólogos – ou mesmo numa pensãozinha pouco recomendável perdida no oco do mundo – muita gente que foi atraída pelos filmes de aventura. Tesouros, templos escondidos, canibais e coisas do tipo ainda povoam as cabecinhas juvenis de muitos que chegam as salas de aula de arqueologia, mas, mesmo depois de um ou dois semestres de aula, os sonhos não se dissipam totalmente. Nunca vi nenhum destes jovens não ficar absolutamente eufórico diante da escavação de uma urna funerária, de um enterramento. Sem contar os que se dedicam à arqueologia clássica, à egiptologia ou à subaquática, escavando navios afundados, resgatando “tesouros de pirata” (embora não possam ficar com um dobrãozinho sequer).

Eles levantam de manhã, por volta das seis da matina, põem roupa surrada, tomam café, passam protetor nas partes expostas, arruma ma roupa de modo a não deixar espaço para insetos entrarem, tomam um banho de repelente, arrumam a mochila, preparam o lanche, conferem o equipamento pessoal, as anotações, metem o chapéu na cabeça e vão para o transporte coletivo, em geral uma Kombi caindo aos pedaços. Muito tempo sacolejando até o ponto mais próximo da escavação, dividindo espaço com trabalhadores braçais contratados na região, para fazerem o esforço mais bruto. Chegam ao lugar, e então mais uma longa caminhada, que pode durar até hora ou mais. Por volta das oito ou nove da manhã estão finalmente escavando.

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Ação e reação: qual o motivo de se investir na Arqueologia?

Esta é a pergunta que muitos os quais ouviram falar ou tiveram algum contato com a disciplina já se fizeram em algum momento de sua vida. Mais qual o sentido de investir nela e seus estudos dos acontecimentos do que “já passou”? São varias as respostas, algumas mais satisfatórias que as outras, mas a mais clássica é, sem dúvida alguma, “porque é só estudando o passado que conhecemos o nosso futuro”. Porém é possível melhorar um pouquinho a resposta: porque é estudando estes acontecimentos passados que nós podemos entender muitos dos aspectos do nosso presente.

O que nós somos hoje é conseqüência de algo que ocorreu em algum ponto do passado, e é aí onde entra a nossa ação e reação, mas, diga-se de passagem: em termos de Arqueologia isto pode ocorrer em um espaço de décadas ou centenas de anos. Obviamente estudar a antiguidade egípcia não explica qual o motivo da atual situação social do seu tio ou vizinha, mas traz a luz para muitos aspectos da história das sociedades africanas ou a idealização de algumas crenças religiosas ocidentais. Porém, acreditar que a Arqueologia só trabalha com o “muito antigo” (a lei do “quanto mais velho melhor”) é uma ilusão, afinal, vários dos seus trabalhos mais efetivos estão ocorrendo com sítios ou acontecimentos praticamente contemporâneos, ou seja, a partir do momento que estamos gerando cultura material estamos criando um sítio.

Para finalizar este breve texto, ponho abaixo uma cena interessante do primeiro capítulo da série “Bonekickers” (“Os Escavadores” aqui no Brasil) onde o personagem do acadêmico Dr Ben Ergha (Adrian Lester) explica de forma figurativa a importância do trabalho do arqueólogo:

 

Cara, você sabe o que a história é? São camadas… Os romanos construíram camadas. Os saxões, os medievais, georgianos, vitorianos, sua mãe, minha mãe. Mas nos dias de hoje camadas necessitam de formas para mostrar para você que não está construindo sobre antigas camadas. Então temos que pegar uma amostra… Das camadas.

 

Uma criança morta no sítio arqueológico. E agora?

Acho um absurdo (e esta é uma opinião estritamente minha) que as pessoas achem bacana ver múmias e ossos, que queiram tirar uma foto ao lado destes indivíduos mortos e mostrar para os amigos o quanto aquilo é legal. Definitivamente a morte, apesar de natural, não é legal, principalmente quando ela vem tão cedo.

Curiosidade acerca deste assunto eu acho normal, gosto de tentar entender os processos de mumificação e identificação dos corpos e principalmente dar para aquela pessoa uma história, mas acho uma total falta de noção e bom senso tratarem o corpo daquele ser como se fosse uma peça da indiscrição e o que me mata é a dissimulação ou falta de sensibilidade. Alguém que fala que se importa com os sentimentos de um filho que perdeu o pai na guerra, mas achar super engraçado e até empolgante encontrar um cemitério com corpos de mais de 3 000 anos para mim só tem um nome: hipocrisia.

Fingir que se importa com um (mas fazer descaso do outro) porque tem que dar satisfação para um familiar… Só eu ou mais alguém acha isto estranho? (Nota: imagem de uma das criptas de Palermo – Itália).

Lamentavelmente ao questionar algumas pessoas sobre isto (por que desta diferenciação de tratamento) eu sempre recebia a resposta “É que alguém se importa”, “Ele tem parentes vivos”, mas tenho péssimas notícias para quem ainda olha a situação por esta perspectiva: existem grupos hoje que reivindicam os corpos de seus antepassados (por mais longínqua que seja a sua ligação com eles).

Durante uma de minhas viagens eu estava na reserva técnica de um museu e contaram sobre indígenas da América do Norte (se não me falha a memória) que estavam exigindo “mais respeito” com o trato do corpo dos seus antepassados (os quais tinham morrido centenas de anos antes), fato que culminou na exigência de não expor ao público os ossos daquelas pessoas.

Corpo de bebês sempre (ao menos nunca vi uma reação contraria) despertam algum tipo de sensibilidade, mas é uma sensibilidade que vergonhosamente não se estende para os adultos. Estranhamente a Arqueologia, que deveria prezar pela humanidade, por vezes acaba desumana. Onde ficou a nossa capacidade de reconhecer um individuo morto há centenas de anos como aquele que outrora foi filho de alguém? Que alguma pessoa pode ter chorado a sua morte? Não sou uma religiosa, mas eu acredito no respeito pela lembrança do próximo, mesmo que ela seja ínfima e impalpável.

Apesar desta compaixão com os pequeninos ironicamente são os corpos deles os que

Múmia de Rosalia Lombardo (Palermo, Itália). Não só o fato de ter morrido muito jovem, mas por parecer que dorme esta múmia muitas vezes desperta o lado emotivo das pessoas.

mais somem nos sítios arqueológicos, isto devido os maus tratos com os seus sensíveis ossinhos, assunto que inclusive acabou sendo discutido na SAB 2009 em uma mesa de comunicações que falava justamente da presença de ossos de crianças no sítio arqueológico e porque que esta ocorrência é parcialmente rara: devido a falta de atenção por parte do arqueólogo. Os pequenos ossos podem estar tão frágeis que em uma colherada o corpo do pequenino passa despercebido.

As múmias de bebês também sofrem bastante, a exemplo nas meninas encontradas na KV-62 (tumba de Tutankhamon): é totalmente visível a mudança causada pela forte degradação causada em grande parte pelo o tratamento que elas receberam ao longo das décadas: as crianças foram guardadas em uma caixa sem nenhum cuidado adicional em uma estante competindo o espaço com livros e outros objetos.

Por um lado somos sensíveis aos corpos de criança, mas do outro parece que temos mais cuidado no trato com os adultos, assim, penso, talvez esteja faltando por parte de muitos dos profissionais um pouco de “auto-análise” da forma como estão gerindo o sítio e aqueles que nele trabalham. Muitos chegaram à Arqueologia com a velha obsessão por tumbas, mas vale lembrarmos sempre que aquele indivíduo sepultado ali já foi a criança de alguém, independente da idade que tinha no dia de sua morte.

 

Você pode ler:

Para ler: - The Juvenile Skeleton de Louise Scheuer e Sue Black.

– The Juvenile Skeleton de Louise Scheuer e Sue Black da editora Elsevie:

Trabalhar com ossos de crianças é extremamente complicado, principalmente quando precisamos definir o sexo e a idade. Este livro busca dar um auxílio para aqueles que planejam trabalhar com este tipo de material. Ele é indicado tanto para os bioarqueologos como para quem planeja trabalhar com pediatria.

 

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Este post é uma homenagem a Erick Carvalho Marinho, aluno do curso de Artes Visuais da UFS, que faleceu ontem no horário da noite aos 24 anos de idade (idade que vou fazer amanhã). Ele era colega da minha irmã mais nova.

A criança que um dia quer ser arqueóloga

Dizem que os motivos que te levaram a escolher uma determinada profissão são os mesmos que influenciam nas suas escolhas pelo resto da sua carreira. Talvez isto seja verdade. O que influenciou na minha escolha por querer me sustentar com a Arqueologia só foi um misto de coincidências e afinidade: Quando pequena eu tinha assistido a um documentário sobre os egípcios da era faraônica na escola, era o primeiro que eu via sobre o assunto e simplesmente achei linda a dedicação que os egípcios tinham em manter sua memória para ninguém mais e ninguém menos que… Nós! Mas o que prendeu de fato minha atenção para o documentário foi Tutankhamon e o fato de que alguém tinha se importado com aquele rapaz. Peguei a o VHS emprestado com a professora e o assisti o maximo que pude durante uma semana, quando logo depois saiu a revista Egiptomania que trazia réplicas de pequenas estátuas egípcias onde, por coincidência, foi o Tutankhamon quem veio com a primeira edição.

O motivo que está me levando a comentar isto é que muitos me escrevem relatando que sonham em ser arqueólogos, mas os pais não deixam. Infelizmente a maioria são adolescentes que passaram parte do tempo ansiando por esta profissão e quando estão prontos para prestar o vestibular procuram por outra coisa que acreditam que “dá mais dinheiro”. Isto é muito desolador.

Então fica aqui meu recado para vocês, mas não só para as crianças e adolescestes que visitam o Arqueologia Egípcia, mas para os adultos que acabaram desistindo deste sonho.

Lembrem-se: os motivos que te levaram a escolher uma determinada profissão são os mesmos que entusiasmam nas suas escolhas no percurso de sua carreira, mas esta decisão é muito mais importante do que podemos imaginar, já que esta é a decisão que vai refletir e definir a sua vida.

Abaixo o documentário que influenciou na minha escolha de seguir a Arqueologia:

 “A primeira coisa que viram foram aqueles enormes tronos de cerimoniais, aqueles em forma de touro e de tigre com as incrustações de vidro azul ainda intactas. Ninguém jamais vira nada semelhante nem aqueles relevos e pinturas no túmulo, na parecido.” (Thomas Hoving no documentário “Em busca do Egito imortal” da Discovery Channel)