Links de Arqueologia: 17 novos sítios arqueológicos em Sergipe, castelo de Anchieta, cela em Igreja e crianças na guerra

Este texto ficou guardado como rascunho por um bom tempo (por isso algumas notícias aqui serão um pouco antigas), mas mesmo assim não custa nada repassar estes links para vocês.

Para abrir o post está a divulgação da descoberta de 17 sítios arqueológicos em Sergipe, trabalho o qual participei por um período (lembro das picadas dos insetos como se fosse hoje!). A maioria das peças são de caráter indígena, mas encontramos algumas faianças (louças) que “usualmente” (entre aspas porque existem casos e mais casos) significam presença europeia.

☥ Ana Lúcia parabeniza Governo de Sergipe pela descoberta de sítios arqueológicos

O segundo link é sobre o achado de uma cela eclesiástica no porão da Igreja e Convento de Santa Maria dos Anjos, localizada no centro histórico de Penedo (AL). Por acaso Penedo é um local lindíssimo, vale a visita e o potencial arqueológico é de cair o queixo.

☥ Arqueólogos acham prisão eclesiástica do século 17 em igreja de Penedo (AL)

Já no próximo link temos o Instituto de Pesquisa Histórica e Arqueológica do Rio de Janeiro (Ipharj) como um dos possíveis destaques culturais durante dos jogos Olímpicos e Paralímpicos Rio 2016 e que também está concorrendo ao prêmio Aga Khan.

☥ Em castelo de arquitetura islâmica, museu em Anchieta tem mais de 60 mil itens arqueológicos

O último link é sobre os adolescentes (para mim crianças) que lutaram na 1ª Guerra Mundial. Estes grupos de meninos se alistavam esperando fugir do desemprego e com um deturpado senso de dever para com o seu país. Acerca deste assunto acho que a citação abaixo, retirada de uma carta de um destes garotos para a mãe, já responde muito o que poderia significar a ida para o campo de batalha:

“Querida mãe, eu estive nas trincheiras quatro vezes e saí em segurança. Nós descemos às trincheiras por seis dias e depois recebemos seis dias de descanso. Querida mãe, eu não gosto das trincheiras. Nós vamos descer a elas novamente nesta semana”.

☥ Os adolescentes de 14 anos que lutaram nas trincheiras da 1ª Guerra

Páginas de Arqueologia no Facebook interessantes para seguir

Graças à internet muita gente está podendo apresentar os seus trabalhos ou ideias com mais facilidade. Hoje vocês podem ler sobre pesquisas da Arqueologia diretamente com o próprio profissional ou equipe que realizou a mesma e até tirar dúvidas ou trocar informações. Pensando nisso resolvi indicar algumas páginas que talvez seja do interesse de vocês:

Almir Brito Jr Photography: Esta é do meu colega e amigo Almir Brito Jr., que além de arqueólogo é fotografo. Ele sempre está registrando as paisagens por onde passa quando está trabalhando, então esta é uma oportunidade de ver o mundo pelo os olhos de um arqueólogo. Guardem bem este nome porque quem sabe um dia ele estará fotografando para alguma matéria da National Geographic. Clique aqui e curta a página.


Movimento Mulheres na Arqueologia: Esta é uma página bem bacana voltada para mostrar a presença das mulheres na Arqueologia, que embora sejam muitas ainda tem quem insista que esta disciplina trata-se de uma profissão masculina.  O que acho excelente é que alguns dos posts trazem perfis de arqueólogas. Clique aqui e curta a página.


Contextos Arqueologia: Já participei de dois trabalhos nesta empresa e ela foi um dos organizadores do lançamento do meu livro “Uma viagem pelo Nilo”. Constantemente eles realizam oficinas de especialização e possuem muito interesse pela Arqueologia Pública, então vale a pena dar uma olhada. Clique aqui e curta a página.


Laboratório de Arqueologia Pública “Paulo Duarte” (LAP): Este laboratório tem várias propostas de eventos bem interessantes e o melhor é que são voltados tanto para o público acadêmico como o comum. Outra coisa que gosto muito é que eles abrem sempre vagas para estágio. Clique aqui e curta a página.

Eventos de Arqueologia que ocorrerão em breve

Entre setembro e outubro ocorrerão alguns eventos interessantes na área da Arqueologia pelo mundo e claro que o Brasil não está de fora. Abaixo citei alguns; dois deles são de âmbito internacional e os demais serão aqui mesmo no país.

Preciso deixar claro que não estou organizando nenhum destes eventos e nem o site tem alguma parceria com eles, então, por favor, não enviem mensagens perguntando detalhes sobre inscrições, apresentações de trabalho, local etc. Eu realmente não saberei informar. Abaixo os eventos:


Abordagem de valorização do Patrimônio para o desenvolvimento sustentável: 

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Em Campinas (SP), o Laboratório de Arqueologia Pública está realizando entre 29 de setembro a 10 de outubro de 2014 o workshop “Abordagem de valorização do Patrimônio para o desenvolvimento sustentável” que será lecionado pelo Prof. Dr. Neil Silberman e Profª. Dra. Angela Labrador.
Prazo para a inscrição: 22 de Setembro de 2014.
Valores:
1) Inscrição com direito a certificado de participação: R$ 50,00 (Cinquenta reais)
2) Inscrição com direito a certificado de 120 horas, obtido mediante aprovação na avaliação final do curso, e 10 vídeo aulas em formato CD: R$ 150,00 (Cento e cinquenta Reais)
Para maiores informações acerca do workshop e inscrições, acessem o link :http://www.lapvirtual.org/minicurso.html, ou, entrem em contato por meio do e-mail: eventos.lapunicamp@gmail.com

Link para o evento no Facebook: https://www.facebook.com/events/852534981437025/


9th Experimental Archaeology Conference:

9Th EA

The 9th international Experimental Archaeology conference will be hosted by UCD School of Archaeology, University College Dublin and the Irish National Heritage Park, Ferrycarrig, Ireland on the 16th to 18th of January 2015. We are very excited by the chance to take the conference to Ireland, and hope that the excellent facilities and thriving experimental community in Ireland will make this a conference to remember. Call for papers is imminent, with a deadline for submission of September 30th, 2014. As soon as we have further details we will publish them at www.http://experimentalarchaeology.org.uk/ and here of course.

Link do evento no Facebook: https://www.facebook.com/events/1456320634603300/?ref=2&ref_dashboard_filter=upcoming


Curso de bacharelado em Arqueologia: abertura do semestre 2014/2

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No Rio de Janeiro (RJ) o DARQ e o CAPS realizarão nos dias 15/09 e 16/09 as palestras de abertura do segundo semestre do curso de bacharelado em Arqueologia com os Doutores Eduardo Góes (MAE/USP) e Gilson Rambelli (UFS).
Inscrições através deste e-mail: arqueologiauerj@gmail.com
Ou pelo telefone: (21) 2334-1021


Curso de geoprocessamento aplicado à Arqueologia

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O curso será ofertado durante a semana de 10 a 14 de novembro, em Aracaju (SE), com aulas das 08 às 12hrs, com disponibilização de apostila e instalação do software necessário para desenvolvimento das atividades.

Outras informações, favor contatar pelo WhatsApp os números: (79) 8844-8845 / 8114-7299 / 8101-9622.

Vagas limitadas.


VII Reunión de Teoría Arqueológica de América del Sur (TAAS)

VII TAAS

El VII TAAS se realizará en Chile, en la ciudad de San Felipe (60 kms de Santiago), entre los días 6 y 10 de Octubre de 2014. Esta será la primra vez que esta reunión se realizará en la costa Pacífica de Sudamérica. El TAAS se articulará en torno a múltiples
actividades, las que contarán con invitados anglosajones (Lynn Meskell, Benjamin Alberti, Yannis Hamilakis, Mary Weismantel Sven Ouzman) y latinoamericanos (Marcia Bezerra, Victoria Castro, Alejandro Haber, Cristobal Gnecco, Luis Lumbreras, Axel Nielsen, entre otros). Ello, además de 16 simposios ya aprobados cuya información (simposios aceptados y coordinadores de cada uno de ellos) puede ser encontrada en http://viitaas2014.weebly.com

Como foi trabalhar em frente a um Patrimônio Mundial da Humanidade

Nos últimos meses trabalhei com a Contextos Arqueologia na requalificação do acervo arqueológico da Superintendência do IPHAN locada em São Cristóvão (SE). A última vez que estive na cidade foi em 2007, então foi interessante voltar para lá e ver o que mudou. Ela é muito linda, mas a pena é que apesar da ideia do Projeto Monumenta em tentar beneficiar a sociedade de alguma forma através do restauro do patrimônio edificado (e assim favorecer o turismo), a população continua muito maltratada.
Localizada a cerca de 25 km de Aracaju, São Cristóvão ganhou notoriedade internacional quando a Praça São Francisco, que se encontra no Centro Histórico, recebeu da UNESCO, em 1º de agosto de 2010, o título de Patrimônio Histórico e Cultural da Humanidade, ao estilo das Pirâmides do Platô de Gizê (Egito) ou o Teatro romano em Djémila (Argélia). Nesta praça está o edifício da Igreja de São Francisco, o Convento de Santa Cruz, a capela da Ordem Terceira (atual Museu de Arte Sacra), a antiga Santa Casa de Misericórdia e o Palácio dos Governadores (atual Museu Histórico de Sergipe).

Praça São Francisco. São Cristóvão (SE). Foto: Márcia Jamille. 2014.

No geral, a arquitetura histórica predominante tem influência espanhola da época da União Ibérica (1580-1640), mas naturalmente com estes mais de 400 anos de existência os interessados em realizar uma visita encontrará um lugar cheio de contrastes em termos de habitações.
Em meio a esta paisagem arqueológica está a “Casa do Ouvidor”, atual superintendência do IPHAN, que está em um dos pontos mais importantes da cidade, não somente no passado como hoje: exatamente em frente da Praça São Francisco (clique aqui e veja um vídeo da vista da praça a partir de uma das janelas da Casa do Ouvidor).

Casa do Ouvidor. São Cristóvão (SE). Foto: Márcia Jamille. 2014.

Nossa equipe, composta no principio por quatro arqueólogos e um estagiário de Arqueologia (que se formou neste meio tempo), iniciou o trabalho de requalificação do acervo arqueológico da “Casa do Ouvidor” no final de fevereiro, atendendo a um TAC (Termo de Ajuste de Conduta [1]) de uma empresa aracajuana. Explicando de modo simples, a nossa missão foi reorganizar a coleção de artefatos advinda de escavações realizadas anos antes por outras equipes e que estavam armazenados sem uma limpeza e/ou análise, com ausência de contexto e guardado de forma inadequada.
Uma das coisas mais fascinantes desta pesquisa, com certeza, foi trabalhar dentro de um sobrado datado possivelmente do final do século XVIII. Quando eu era pequena sempre quis morar em um casarão ou um sobrado, então este foi, particularmente, um detalhe divertido. Especialmente pela presença do “quarto vermelho”, um cômodo lindo.

Casa do Ouvidor: Quarto Vermelho. São Cristóvão (SE). Foto: Márcia Jamille. 2014.

Casa do Ouvidor: Quarto Vermelho. São Cristóvão (SE). Foto: Márcia Jamille. 2014.

Coisas interessantes sobre a “Casa do Ouvidor”:
Uma pesquisa anterior a nossa revelou que este edifício não se tratava da residência de nenhum Ouvidor, mas sim de uma senhora chamada Adriana Francisca Freire, avó de Felisberto de Oliveira Freire (o Barão de Laranjeiras) e uma ligeira antepassada de Felisberto Freire, que foi ministro dos Negócios Estrangeiros na presidência de Floriano Peixoto, além de escritor e jornalista que atuou tanto em Sergipe como no Rio de Janeiro. Logo já dá para imaginar o peso da história oficial nas nossas costas.

Existem três detalhes muito interessantes da história da Adriana: o primeiro é que ela viveu em algum ano antes de 1850 e era uma divorciada, o que chamou imediatamente a nossa atenção. O segundo detalhe é que o sobrado pertencia anteriormente ao ex-marido dela e quando ele faleceu ela recebeu a residência como herança. O terceiro é que a equipe anterior, durante suas pesquisas nos arquivos da cidade, encontrou uma lista de compras dela e em meio aos artefatos escavados foram encontrados alguns dos objetos listados.

[1] “Os termos de ajustamento de Conduta ou TACs, são documentos assinados por partes que se comprometem, perante os procuradores da República, a cumprirem determinadas condicionantes, de forma a resolver o problema que estão causando ou a compensar danos e prejuízos já causados. Os TACs antecipam a resolução dos problemas de uma forma muito mais rápida e eficaz do que se o caso fosse a juízo”. ( http://www.prba.mpf.mp.br/paraocidadao/pecas-juridicas/termos-de-ajustamento-de-conduta )

Plano de fundo: Lagoa Redonda e roupas da MTK

Como relatei lá no Arqueologia Egípcia, pedi para que a minha amiga e também arqueóloga, Fernanda Libório, escrevesse comentando um pouco acerca da pesquisa dela em Lagoa Redonda (SE), local que serviu como cenário para as fotografias do post acerca das roupas da MTK.

Visita ao povoado Lagoa Redonda. Na imagem: Márcia Jamille. Foto: Fernanda Libório. 2013.

Visita ao povoado Lagoa Redonda. Na imagem: Márcia Jamille. Foto: Fernanda Libório. 2013.

Lagoa Redonda é um lugar extremamente lindo o qual não é possível descrever em palavras ou fotografias, é necessário realmente estar lá para visualizar o quão belo é o local.

A Fernanda, de forma bastante simpática, redigiu um texto que rendeu um ótimo Guest Post. Abaixo as palavras dela acerca da nossa visita ao povoado:

 

Sobre a visita ao Povoado de Lagoa Redonda – Pirambu, por Fernanda Libório:

O Povoado de Lagoa Redonda é famoso dentro do estado de Sergipe devido as suas dunas costeiras (excelentes para a prática de sandboard, airsoft, trilha, observação de aves, desova de tartarugas, etc.) com quilômetros de comprimento e largura e algumas com até 60 metros de altura. Trata-se de um local com lagoas, riachos, praias e cascata (Cachoeira do Roncador). Um lugar maravilhoso, mas a visita deve ser bem preparada com lanches e água. Esta área é a Reserva Biológica Santa Isabel.

Entretanto, a principal motivação da Márcia Jamille para tirar as fotos nesse local foi a presença de um complexo arqueológico sobre dunas.

Visita ao povoado Lagoa Redonda. Na imagem: Márcia Jamille. Foto: João Carlos Moreno de Sousa. 2013.

Visita ao povoado Lagoa Redonda. Na imagem: Márcia Jamille. Foto: João Carlos Moreno de Sousa. 2013.

A UFS desenvolve pesquisas embrionárias sobre os sítios arqueológicos litorâneos existentes no Povoado de Lagoa Redonda e já rendeu artigos, monografias e dissertações, esse mês (outubro) completamos 2 anos de monitoramento da área.

Visita ao povoado Lagoa Redonda. Foto: João Carlos Moreno de Sousa. 2013.

Visita ao povoado Lagoa Redonda. Foto: João Carlos Moreno de Sousa. 2013.

Visita ao povoado Lagoa Redonda. Na imagem segurando um louva-a-deus: Thobias Cerqueira. Foto: Márcia Jamille. 2013.

Visita ao povoado Lagoa Redonda. Na imagem segurando um louva-a-deus: Thobias Cerqueira. Foto: Márcia Jamille. 2013.

Atualmente, são estudados 4 sítios arqueológicos: o Sítio Cardoso, o Sítio Dicuri, o Sítio Ferroso e o Sítio Sapucaia. Todos são sítios pré-coloniais, com material arqueológico bem diverso internamente e com grandes recorrências inter-sítios. Acreditamos que foram ocupações de grupos que compartilhavam de mesmas práticas sociais durante curtos intervalos temporais, ou seja, mobilidade espacial. Ainda não possuímos datação para os sítios, então, estamos fazendo uma correlação com a formação da paisagem física para delimitação temporal (terminus post quem).

Os sítios apresentam material lítico muito diverso em relação à matéria-prima, tecnologia aplicada e funcionalidade. O material cerâmico possui pasta com mineral grosseiro, decoração plástica, bases arredondadas e rara presença de banho branco ou vermelho. Todo o material está sendo analisado no Laboratório de Arqueologia do Campus de Laranjeiras (UFS) e em breve teremos os resultados.

Visita ao povoado Lagoa Redonda. Foto: Fernanda Libório. 2013.

Visita ao povoado Lagoa Redonda. Foto: Fernanda Libório. 2013.

Contudo, a consideração mais importante dos sítios arqueológicos de Lagoa Redonda é a sua implantação na paisagem associada às atividades que desenvolviam nas dunas.

Fernanda Libório.

Fernanda Libório.

No Brasil, os arqueólogos viviam presos a interpretações associadas ao determinismo ambiental e hoje é necessário quebrar esse falso pressuposto. Em pesquisas mais antigas sobre assentamentos dunares, as interpretações sempre apontam para a impossibilidade de habitação em um ambiente hostil aos humanos, ou seja, as interpretações quanto à presença de sítios arqueológicos em dunas tendiam a apontar mudança climática após abandono da área em vez de considerar que os grupos pré-coloniais escolheram se assentar nas próprias dunas.

Porém, neste ponto é possível usar o exemplo da própria Arqueologia Egípcia, que nos ensina que mobilidade e assentamento nem sempre estão relacionadas somente aos fatores ambientais e que devem ser considerados os fatores sociais e simbólicos na interpretação do contexto arqueológico. 「fim」

P.S: Exceto pela a primeira e a última foto (a da Libório), as demais imagens deste post não passaram por nenhum filtro ou qualquer outro tipo de efeito.

 

 

(Comentários) III Semana Internacional de Arqueologia “André Penin”

Ocorrida entre os dias 22 e 27 de abril no prédio da História e Geografia (FFLCH) da USP, a III Semana Internacional de Arqueologia “André Penin” do MAE-USP buscou levantar discussões de âmbito interdisciplinar acerca dos caminhos que a Arqueologia está seguindo tanto no Brasil, como no mundo. Além dos debates acadêmicos, o evento efetuou uma homenagem ao falecido Prof. Dr. André Penni, que deixou como legado uma louvável produção acadêmica. Como não tirei nenhuma fotografia postarei aqui aquelas que foram efetuadas pela organização e que estão disponíveis na página do Facebook da mesma.

No evento ocorreram atividades como mesas redondas, palestras, comunicações, um workshop, exposições de fotografias, um passeio pela reserva técnica e mostra de cinema. Aqueles que estavam previamente inscritos ganharam uma bolsa com a programação do evento, folders, mapas da universidade e um cartão com a lista de materiais que podem ser analisados pelos testes de Carbono 14.

 

Apresentação de comunicação na III Semana Internacional de Arqueologia “André Penin”. Foto: Evento (Divulgação).

 

Em termos gerais foi uma semana extremamente produtiva e com um bom público composto não só por arqueólogos e estudantes de Arqueologia, mas por estudantes de História e Geografia (aparentemente surgiu de Literatura também), além de (minha parte favorita) curiosos. É extremamente gratificante quando alguém de fora da academia ou não pertencente ao meio das Ciências Humanas comparecem aos eventos de Arqueologia, especialmente porque esta é uma experiência diferente da de ler uma revista sobre o assunto ou ver um documentário, já que são os próprios pesquisadores que estão na frente de um público falando da sua experiência. Um exemplo: sabem aquela famosa descoberta do túmulo do Senhor de Sipan? No evento o Quirino Olivera Núñez do Museu Sipan estava lá, assim como o Jürgen Golte (UNMSM), que explicou um pouco do seu trabalho com a iconografia mochica. Ambos estavam na mesa redonda “Arqueologia Pré-Colombiana” ao lado de Javier Nastri (UBA).

Palestra de Claire Smith (Flinders Uni/WAC) na III Semana Internacional de Arqueologia “André Penin”. MAE-USP. Foto: Evento (Divulgação).

Todas as palestras que assisti foram ótimas (só não vi a de Fred Limp – UARK/SAA – mas comentaram que foi bem instrutiva), mas a minha favorita, definitivamente, foi a da Claire Smith (Flinders Uni/WAC). Eu estava extremamente interessada em assistir a dela e não me arrependi. A profa. Smith comentou acerca da sua experiência como avaliadora de projetos que buscam fomentos (na palestra ela deu dicas de como escrever o pedido), a importância da publicação acadêmica, como publicar o seu livro e comentou a evolução da vida acadêmica de um (a) arqueólogo (a) de uma forma bem cômica.

Acerca das mesas redondas uma bem interessante foi “Arqueologia em Construção”, que discutiu sobre o papel da Arqueologia de Contrato versus a Acadêmica e que anunciou a possível abertura de uma graduação em Arqueologia na USP em 2015, informação apresentada no documento também denominado de “Arqueologia em construção”, produzido pelo Grupo de Trabalho “Arqueologia de Contrato” (dos estudantes do PPGARQ- MAE-USP) e disponibilizado previamente para os inscritos no evento. Nesta mesa foi possível até notar um pouco do preconceito ou rancor (nunca se sabe) que alguns dos alunos da Pós-Graduação em Arqueologia sentem pelos estudantes da graduação da mesma área. Vi isto durante o momento em que uma estudante de graduação fez uma pergunta para a mesa, imediatamente um rapaz logo atrás de mim falou algo como “Está na hora de se livrar destas crianças da graduação” e outro na minha frente disse “Cala a boca” em relação a garota, ambos com a voz baixa. Infelizmente os dois não estavam presentes no auditório quando a Profa. Dra. Marcia Bezerra comentou, não nestes termos, que as pessoas não deveriam subestimar os estudantes de graduação em Arqueologia, já que muitos daqueles que se formaram no extinto curso da Universidade Estácio de Sá hoje estão em ótimos cargos acadêmicos e fazendo muito pela Arqueologia ultimamente. Aplausos para a Profa. Márcia.

O formidável de todas estas mesas redondas, palestras e comunicações é que é possível sempre aprender mais além do que corriqueiramente vemos em sala de aula, inclusive o lado podre (a exemplo destes comentários bizarros dos alunos citados anteriormente).

 

Para as palestras e mesas com participantes estrangeiros, receptores para tradução simultânea foram disponibilizados. Foto: Evento (Divulgação).

 

Sobre a exposição de banners creio que um dos pontos positivos partiu da própria organização do evento que premiou os trabalhos mais criativos (não no sentido visual – diga-se o banner mais bonito -, mas cujo tema fosse diferente e que levantasse bons questionamentos), que apresentaram um tema relevante e a própria apresentação do pesquisador (se ele dominava o assunto). Isto mostra que conscientemente ou não eles não aprovam o método Salami Science, que nada mais é que aquela irritante prática de fatiar o seu trabalho para publicá-lo em diferentes revistas [1]. Felizmente o banner que achei mais completo e que foi bem apresentado pelo pesquisador (embora ele estivesse visivelmente nervoso) foi o que ficou empatado com outro em segundo lugar [2]. O trabalho dele foi sobre um software (a boba aqui não anotou o nome) capaz de catalogar e contar peças arqueológicas. Espero que ele leve a pesquisa adiante, afinal, contar mais de quinhentas peças não é tão divertido.

National Geographic Brasil. Maio, 2010.

Já a visita agendada a reserva técnica não foi o esperado, eu (e como mais tarde descobri também um estudante de História que trabalha com o mundo helênico) realmente acreditei que veria todas as áreas da reserva do MAE, inclusive a de Arqueologia Clássica, mas não foi bem assim, só visitamos a sala em que estão as peças amazônicas retidas pelo o Ministério Público e que outrora pertenceram ao banqueiro Edemar Cid Ferreira (se não me falha a memória, depois confirmarei esta minha informação). Mesmo assim não foi um início de tarde perdido, pelo contrário, foi instrutivo, principalmente porque não sei nada sobre Arqueologia Amazônica e tive o privilégio de ter estudantes e profissionais da área explicando acerca dos artefatos que estavam bem ao nosso lado. Definitivamente nem de longe uma experiência assim se compara a uma visita normal a um museu guiado por um guia turístico ou um funcionário que precisou decorar o roteiro. De forma alguma estou fazendo propaganda contra a visitação de museus, mas é que desde que entrei na Arqueologia perdi grande parte do fascínio de frequentar uma exposição, já que normalmente vamos para a reserva técnica e são sempre lá que ficam as peças não analisadas, as frágeis de mais para ir para exposição e as verdadeiras (neste caso quando a exposição é montada com réplicas, permitindo assim a fotografia, o que também não é ruim).

Esta reserva técnica em questão está aberta a visita de gente comum também (em contrapartida, a exposição está fechada), é só ligar para o MAE e agendar. Lembrem-se que não devem tirar fotos e nem tocar nas peças. Será um passeio bem interessante, sobretudo porque é lá onde estão se formando alguns dos especialistas em Arqueologia Amazônica do Brasil, área que está ganhando destaque no nosso país já que caiu nas graças da mídia, a National Geographic que o diga, a revista publicou uma matéria maravilhosa do Prof. Dr. Eduardo Goes Neves (PPGArq-MAE/USP), “Amazônia Ano 1000”, em Maio de 2010 e este ano (Abril, 2013) disponibilizou outra matéria falando acerca da Arqueologia no nosso país, mais especificamente em São Paulo.

 

Os trabalhos de Egiptologia no evento:

Princesa Nofret (IV Dinastia). Fonte da imagem: EINAUDI, Silvia. Coleção Grandes Museus do Mundo: Museu Egípcio Cairo (Tradução de Lúcia Amélia Fernandez Baz). 1º Título. Rio de Janeiro: Folha de São Paulo, 2009.

Estavam previstas duas comunicações e um pôster e somente uma conferencista compareceu. O quadro não foi nada animador. Acho que este problema já é endêmico, uma vez que o número de apresentações de estudantes de Arqueologia que estão se especializando em Egiptologia não é nada promissor. Neste sentido os alunos de História, que também estão se especializando em Egiptologia, estão de parabéns porque até evento exclusivo para a área eles estão sempre realizando.

 

Como conclusão, o que falar?

Espero que o evento continue crescendo e que o número de evasão de conferencistas e apresentadores de pôsteres diminua, já que a III Semana tornou-se um excelente espaço aberto para debates. Outros eventos de Arqueologia para discussões gerais já estão agendados ou já passaram. Em Brasília ocorreu o “2º Encontro de Arqueologia em Brasília: Arqueologia e politicas Públicas de Cultura – Construindo Pontes” e “2º reunião da SAB Centro-Oeste: Arqueologia Pública. Pesquisas Correntes” ambos unidos no mesmo espaço nos dias de 14 até 17 de maio de 2013 e em Recife será realizado o “V Encontro Regional de Estudantes de Arqueologia (EREARQ-NE)” entre os dias 29 de julho e 03 de agosto e por fim a Reunião Geral da Sociedade de Arqueologia Brasileira no “XVII Congresso da SAB – Arqueologia sem Fronteiras: Repensando espaço, tempo e agentes”, em Aracaju, que ocorrerá entre 25 a 30 de agosto de 2013 (estarei presente neste último).

 

[1] Explicando mais acerca do Salami Science: diz respeito aos pesquisadores que possuem um artigo publicado (ou não) e dele pega tópicos para dividir em vários outros trabalhos, especialmente pôsteres, daí o pôster fica sem muito sentido. Apesar de não ser uma pratica boa para o pensamento cientifico é a mais popular onde a “produtividade” acaba valendo mais que a “qualidade”.

[2] O nome do estudante é Aldo Magaló (Via João Carlos Moreno de Sousa).