Como seremos estudados pelos arqueólogos do futuro? Estamos fadados ao esquecimento?

Recentemente li uma interessante reportagem da BBC intitulada “Como seremos estudados pelos arqueólogos do futuro?”, onde é apresentada a sugestão do uso de uma tecnologia que torna possível preservar dados de DNA em “fósseis sintéticos”, o que possibilitará a leitura de códigos genéticos, porém o problema seria escolher o que registrar de acordo com a sua importância, afinal, o que definiria o que é “importante”? O Status social do espécime em vida? Sua raridade? Antiguidade?

Ler esta matéria me rememorou uma questão que apareceu em alguma aula, creio que a de teoria arqueológica, sobre o que será estudado pelos arqueólogos no futuro, uma vez que em um mundo quase totalmente dominado por redes sociais e armazenamentos em “nuvem” muitas pessoas se perguntam se não estamos deixando o planeta tão vazio que os arqueólogos do futuro não terão nada para analisar.

Já outros sugerem que como tudo está na “nuvem” nem será necessário tecer interpretações sobre a vida de determinadas sociedades.

Em ambas essas situações as sugestões são simplistas: no caso da primeira não é certo sugerir que estamos tão sedentários e vidrados na internet que não estamos produzindo nada “para o futuro”, até porque estamos gerando cultura material, seja móveis, eletrodomésticos, artesanatos, roupas, etc, e ainda produzimos lixos.

Etiquetamento e limpeza de remanescentes ósseos. Foto: Almir Brito Jr. 2014

Lixeiras, sejam “pré-históricas” ou históricas, independente da sociedade, ainda são um ótimo espaço para arrecadar dados acerca de sociedades passadas e presentes, porque ao contrário de edificações ou artefatos que foram feitos para algum fim específico (e este fim usualmente foi pensado para passar uma mensagem elaborada com antecedência), o lixo é um descarte e é nele onde estão as informações mais pessoais dos indivíduos. Tais informações, por vezes, são coisas que quem jogou fora não tinha a intenção de preservar ou mostrar para outros indivíduos do seu meio social.

Na referida reportagem que citei é comentado sobre se seria possível o nosso lixo sobreviver por milênios, mas a verdade é que mesmo entre sociedades cuja a cultura material é bem conservada (ao menos do ponto de vista arqueológico), tais como aquelas que viveram às margens do rio Nilo, o que chegou até nós é uma mínima fração do que realmente existiu. Ou quando pensamos na “pré-história” e vemos que o que encontramos em sua maioria são artefatos feitos em pedra (os chamados líticos), não é incomum pensar que só existia esse tipo de coisa, enquanto que a verdade é que poderiam ter existido artefatos feitos com matérias orgânicos, mas que não sobreviveram ao tempo. Por isso, pensar se o nosso lixo sobreviverá aos séculos é na verdade uma preocupação até que pífia.

As fotografias impressas tal como antigamente, são escarças. Foto: photographium.com

E para aqueles que acreditam que como a nossa atual sociedade se predispõe a dar dados sobre si mesma na internet e que exatamente por isso não é necessário que arqueólogos atuem no futuro, devemos ter em mente que nem tudo que está na internet é real. Uma boa parte do que é compartilhado na rede são sugestões de como queremos que o mundo nos note. Quando postamos fotos, vlogs, podcasts, etc, estamos mostrando somente o que queremos mostrar e usualmente é a parte mais bonita ou culta.

Mas algo que é legal de se pensar é que muitas destas coisas, se não sumirem da “nuvem” ou dos HDs, servirão como documentos históricos de diversas formas; seja sendo exibindo o posicionamento político de uma época, ações individuais a despeito das ordens religiosas, ou para mostrar a arquitetura ou organização urbanística de um determinado espaço; sabe aquele vlog do seu Youtuber favorito em um shopping, parque ou museu? Pois é!.

Então não existe motivo para ver o futuro de forma pessimista. Os seres humanos não ficarão menos interessantes ou menos “autores” da história mundial.

Referência:

Como seremos estudados pelos arqueólogos do futuro? Estamos fadados ao esquecimento?. Disponível em < http://www.bbc.com/portuguese/revista/vert_fut/2016/02/160219_vert_fut_arqueologia_futuro_fd >. Acesso em 18 de março de 2016.

Esse texto não é um “post resposta” à reportagem da BBC, mas uma forma de mostrar que o futuro não é tão sombrio como alguns acreditam.

Eventos de Arqueologia: fevereiro a abril de 2015

A pesquisa arqueológica na Rodovia SE-100, Pirambu e Pacatuba, Sergipe

Está agendada mais uma palestra online organizada pela Contextos Arqueologia, mas não serei a ministrante, desta vez serão os mestres Fernanda Libório e Luis Felipe, que comentarão sobre a pesquisa de Arqueologia realizada em Pacatuba e Pirambu. Abaixo mais sobre o evento:

“Dessa vez o tema está inserido na temática Arqueologia Brasileira. Iremos apresentar os resultados e discussões obtidos em um projeto de Arqueologia Preventiva realizado pela Contextos Arqueologia em 2014.

Foram identificados 17 sítios no litoral norte sergipano, alguns em ambientes dunares.

Será transmitido um resumo de todas as etapas realizas e interpretações decorrentes. Quem se interessar por Arqueologia da Paisagem, Arqueologia litorânea, geoarqueologia, povoamento do estado de Sergipe e história de Sergipe, não pode perder!!

Acessem o link abaixo e já podem enviar suas perguntas! A transmissão será ao vivo pelo Youtube Live e as perguntas serão respondidas durante a transmissão.

Marquem na agenda: 25/02/2015, às 19:00 (horário de Brasília). Para quem estiver em Aracaju, existem 7 vagas presenciais na sede da Contextos Arqueologia. Venham conhecer como funciona o projeto Contextos Live para ajudar a difundir essa proposta!

Ajudem a divulgar! A participação de todos é muito importante, somente juntos podemos construir uma Arqueologia democrática e responsável.

https://m.youtube.com/watch?v=yNgraJF1s8E


Arqueologia e Antropologia: outros tempos, outros mundos

Já este esvento não trata-se de uma palestra, é um curso presencial que ocorrerá no Rio de Janeiro e será ministrado pelo Dr. Leonarno Carvalho e pela Me. Marina Buffa. Valor: R$150,00
Segue as informações:

“Gostaria de divulgar o curso “Arqueologia e Antropologia: Outros Tempos, Outros Mundos” que vou ministrar nas quintas-feiras de março e abril no Centro Cultural Justiça Federal, na Cinelândia, centro do Rio, com a arqueóloga Marina Buffa. A ideia é conversar com os alunos inscritos apresentando a partir de sete sessões temáticas questões que propõem interseções entre teorias/etnografias antropológicas e arqueológicas. São elas:

05/03 Do Exótico ao Outro do Outro: Diferenças Antropológicas
12/03 O Lixo da História: A Invenção da Arqueologia
19/03 O Estatuto das Coisas: Antropologia, Objetos e Pessoas
26/03 Entre a “Diferonça” e o Estado: Povos Indígenas do/no Brasil
02/04 Memórias do Rio Antigo: Ruínas da Arqueologia Fluminense
09/04 Museus Etnográficos: De Templos Tribais a Fóruns Globais
16/04 Artefatos da Morte: Cosmologias do Egito Antigo

As inscrições já estão abertas e se encerram assim que as 30 vagas forem completadas. Informações e inscrições no e-mail: archeccjf@gmail.com.”


II Segunda Semana de Arqueologia “História e Cultura Material: desafios da contemporaneidade”

“Entre os dias 23 e 28 de Março de 2015, realizar-se-á na Universidade Estadual de Campinas a Segunda Semana de Arqueologia “História e Cultura Material: desafios da contemporaneidade”, promovida pelo Laboratório de Arqueologia Pública Paulo Duarte, e cuja direção científica e administrativa está a cargo do prof. Pedro Paulo A. Funari. A Segunda Semana passa a contar com comissão científica de renome e com o apoio de órgãos de fomento à pesquisa, como a Fapesp e o Faepex/Unicamp. O evento será uma reunião científica de cinco dias que contará com especialistas do país e algumas personalidades estrangeiras. Nesse evento, os alunos de graduação e pós-graduação, bem como jovens pesquisadores, poderão participar de comunicações, mesas-redondas, mini-cursos e oficinas, quer como ouvintes, quer como palestrantes ou proponentes de posters, estimulando debates, divulgando trabalhos de pesquisa e estabelecendo laços profissionais”.

Páginas de Arqueologia no Facebook interessantes para seguir

Graças à internet muita gente está podendo apresentar os seus trabalhos ou ideias com mais facilidade. Hoje vocês podem ler sobre pesquisas da Arqueologia diretamente com o próprio profissional ou equipe que realizou a mesma e até tirar dúvidas ou trocar informações. Pensando nisso resolvi indicar algumas páginas que talvez seja do interesse de vocês:

Almir Brito Jr Photography: Esta é do meu colega e amigo Almir Brito Jr., que além de arqueólogo é fotografo. Ele sempre está registrando as paisagens por onde passa quando está trabalhando, então esta é uma oportunidade de ver o mundo pelo os olhos de um arqueólogo. Guardem bem este nome porque quem sabe um dia ele estará fotografando para alguma matéria da National Geographic. Clique aqui e curta a página.


Movimento Mulheres na Arqueologia: Esta é uma página bem bacana voltada para mostrar a presença das mulheres na Arqueologia, que embora sejam muitas ainda tem quem insista que esta disciplina trata-se de uma profissão masculina.  O que acho excelente é que alguns dos posts trazem perfis de arqueólogas. Clique aqui e curta a página.


Contextos Arqueologia: Já participei de dois trabalhos nesta empresa e ela foi um dos organizadores do lançamento do meu livro “Uma viagem pelo Nilo”. Constantemente eles realizam oficinas de especialização e possuem muito interesse pela Arqueologia Pública, então vale a pena dar uma olhada. Clique aqui e curta a página.


Laboratório de Arqueologia Pública “Paulo Duarte” (LAP): Este laboratório tem várias propostas de eventos bem interessantes e o melhor é que são voltados tanto para o público acadêmico como o comum. Outra coisa que gosto muito é que eles abrem sempre vagas para estágio. Clique aqui e curta a página.

Eventos de Arqueologia que ocorrerão em breve

Entre setembro e outubro ocorrerão alguns eventos interessantes na área da Arqueologia pelo mundo e claro que o Brasil não está de fora. Abaixo citei alguns; dois deles são de âmbito internacional e os demais serão aqui mesmo no país.

Preciso deixar claro que não estou organizando nenhum destes eventos e nem o site tem alguma parceria com eles, então, por favor, não enviem mensagens perguntando detalhes sobre inscrições, apresentações de trabalho, local etc. Eu realmente não saberei informar. Abaixo os eventos:


Abordagem de valorização do Patrimônio para o desenvolvimento sustentável: 

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Em Campinas (SP), o Laboratório de Arqueologia Pública está realizando entre 29 de setembro a 10 de outubro de 2014 o workshop “Abordagem de valorização do Patrimônio para o desenvolvimento sustentável” que será lecionado pelo Prof. Dr. Neil Silberman e Profª. Dra. Angela Labrador.
Prazo para a inscrição: 22 de Setembro de 2014.
Valores:
1) Inscrição com direito a certificado de participação: R$ 50,00 (Cinquenta reais)
2) Inscrição com direito a certificado de 120 horas, obtido mediante aprovação na avaliação final do curso, e 10 vídeo aulas em formato CD: R$ 150,00 (Cento e cinquenta Reais)
Para maiores informações acerca do workshop e inscrições, acessem o link :http://www.lapvirtual.org/minicurso.html, ou, entrem em contato por meio do e-mail: eventos.lapunicamp@gmail.com

Link para o evento no Facebook: https://www.facebook.com/events/852534981437025/


9th Experimental Archaeology Conference:

9Th EA

The 9th international Experimental Archaeology conference will be hosted by UCD School of Archaeology, University College Dublin and the Irish National Heritage Park, Ferrycarrig, Ireland on the 16th to 18th of January 2015. We are very excited by the chance to take the conference to Ireland, and hope that the excellent facilities and thriving experimental community in Ireland will make this a conference to remember. Call for papers is imminent, with a deadline for submission of September 30th, 2014. As soon as we have further details we will publish them at www.http://experimentalarchaeology.org.uk/ and here of course.

Link do evento no Facebook: https://www.facebook.com/events/1456320634603300/?ref=2&ref_dashboard_filter=upcoming


Curso de bacharelado em Arqueologia: abertura do semestre 2014/2

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No Rio de Janeiro (RJ) o DARQ e o CAPS realizarão nos dias 15/09 e 16/09 as palestras de abertura do segundo semestre do curso de bacharelado em Arqueologia com os Doutores Eduardo Góes (MAE/USP) e Gilson Rambelli (UFS).
Inscrições através deste e-mail: arqueologiauerj@gmail.com
Ou pelo telefone: (21) 2334-1021


Curso de geoprocessamento aplicado à Arqueologia

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O curso será ofertado durante a semana de 10 a 14 de novembro, em Aracaju (SE), com aulas das 08 às 12hrs, com disponibilização de apostila e instalação do software necessário para desenvolvimento das atividades.

Outras informações, favor contatar pelo WhatsApp os números: (79) 8844-8845 / 8114-7299 / 8101-9622.

Vagas limitadas.


VII Reunión de Teoría Arqueológica de América del Sur (TAAS)

VII TAAS

El VII TAAS se realizará en Chile, en la ciudad de San Felipe (60 kms de Santiago), entre los días 6 y 10 de Octubre de 2014. Esta será la primra vez que esta reunión se realizará en la costa Pacífica de Sudamérica. El TAAS se articulará en torno a múltiples
actividades, las que contarán con invitados anglosajones (Lynn Meskell, Benjamin Alberti, Yannis Hamilakis, Mary Weismantel Sven Ouzman) y latinoamericanos (Marcia Bezerra, Victoria Castro, Alejandro Haber, Cristobal Gnecco, Luis Lumbreras, Axel Nielsen, entre otros). Ello, además de 16 simposios ya aprobados cuya información (simposios aceptados y coordinadores de cada uno de ellos) puede ser encontrada en http://viitaas2014.weebly.com

(Comentários) III Semana Internacional de Arqueologia “André Penin”

Ocorrida entre os dias 22 e 27 de abril no prédio da História e Geografia (FFLCH) da USP, a III Semana Internacional de Arqueologia “André Penin” do MAE-USP buscou levantar discussões de âmbito interdisciplinar acerca dos caminhos que a Arqueologia está seguindo tanto no Brasil, como no mundo. Além dos debates acadêmicos, o evento efetuou uma homenagem ao falecido Prof. Dr. André Penni, que deixou como legado uma louvável produção acadêmica. Como não tirei nenhuma fotografia postarei aqui aquelas que foram efetuadas pela organização e que estão disponíveis na página do Facebook da mesma.

No evento ocorreram atividades como mesas redondas, palestras, comunicações, um workshop, exposições de fotografias, um passeio pela reserva técnica e mostra de cinema. Aqueles que estavam previamente inscritos ganharam uma bolsa com a programação do evento, folders, mapas da universidade e um cartão com a lista de materiais que podem ser analisados pelos testes de Carbono 14.

 

Apresentação de comunicação na III Semana Internacional de Arqueologia “André Penin”. Foto: Evento (Divulgação).

 

Em termos gerais foi uma semana extremamente produtiva e com um bom público composto não só por arqueólogos e estudantes de Arqueologia, mas por estudantes de História e Geografia (aparentemente surgiu de Literatura também), além de (minha parte favorita) curiosos. É extremamente gratificante quando alguém de fora da academia ou não pertencente ao meio das Ciências Humanas comparecem aos eventos de Arqueologia, especialmente porque esta é uma experiência diferente da de ler uma revista sobre o assunto ou ver um documentário, já que são os próprios pesquisadores que estão na frente de um público falando da sua experiência. Um exemplo: sabem aquela famosa descoberta do túmulo do Senhor de Sipan? No evento o Quirino Olivera Núñez do Museu Sipan estava lá, assim como o Jürgen Golte (UNMSM), que explicou um pouco do seu trabalho com a iconografia mochica. Ambos estavam na mesa redonda “Arqueologia Pré-Colombiana” ao lado de Javier Nastri (UBA).

Palestra de Claire Smith (Flinders Uni/WAC) na III Semana Internacional de Arqueologia “André Penin”. MAE-USP. Foto: Evento (Divulgação).

Todas as palestras que assisti foram ótimas (só não vi a de Fred Limp – UARK/SAA – mas comentaram que foi bem instrutiva), mas a minha favorita, definitivamente, foi a da Claire Smith (Flinders Uni/WAC). Eu estava extremamente interessada em assistir a dela e não me arrependi. A profa. Smith comentou acerca da sua experiência como avaliadora de projetos que buscam fomentos (na palestra ela deu dicas de como escrever o pedido), a importância da publicação acadêmica, como publicar o seu livro e comentou a evolução da vida acadêmica de um (a) arqueólogo (a) de uma forma bem cômica.

Acerca das mesas redondas uma bem interessante foi “Arqueologia em Construção”, que discutiu sobre o papel da Arqueologia de Contrato versus a Acadêmica e que anunciou a possível abertura de uma graduação em Arqueologia na USP em 2015, informação apresentada no documento também denominado de “Arqueologia em construção”, produzido pelo Grupo de Trabalho “Arqueologia de Contrato” (dos estudantes do PPGARQ- MAE-USP) e disponibilizado previamente para os inscritos no evento. Nesta mesa foi possível até notar um pouco do preconceito ou rancor (nunca se sabe) que alguns dos alunos da Pós-Graduação em Arqueologia sentem pelos estudantes da graduação da mesma área. Vi isto durante o momento em que uma estudante de graduação fez uma pergunta para a mesa, imediatamente um rapaz logo atrás de mim falou algo como “Está na hora de se livrar destas crianças da graduação” e outro na minha frente disse “Cala a boca” em relação a garota, ambos com a voz baixa. Infelizmente os dois não estavam presentes no auditório quando a Profa. Dra. Marcia Bezerra comentou, não nestes termos, que as pessoas não deveriam subestimar os estudantes de graduação em Arqueologia, já que muitos daqueles que se formaram no extinto curso da Universidade Estácio de Sá hoje estão em ótimos cargos acadêmicos e fazendo muito pela Arqueologia ultimamente. Aplausos para a Profa. Márcia.

O formidável de todas estas mesas redondas, palestras e comunicações é que é possível sempre aprender mais além do que corriqueiramente vemos em sala de aula, inclusive o lado podre (a exemplo destes comentários bizarros dos alunos citados anteriormente).

 

Para as palestras e mesas com participantes estrangeiros, receptores para tradução simultânea foram disponibilizados. Foto: Evento (Divulgação).

 

Sobre a exposição de banners creio que um dos pontos positivos partiu da própria organização do evento que premiou os trabalhos mais criativos (não no sentido visual – diga-se o banner mais bonito -, mas cujo tema fosse diferente e que levantasse bons questionamentos), que apresentaram um tema relevante e a própria apresentação do pesquisador (se ele dominava o assunto). Isto mostra que conscientemente ou não eles não aprovam o método Salami Science, que nada mais é que aquela irritante prática de fatiar o seu trabalho para publicá-lo em diferentes revistas [1]. Felizmente o banner que achei mais completo e que foi bem apresentado pelo pesquisador (embora ele estivesse visivelmente nervoso) foi o que ficou empatado com outro em segundo lugar [2]. O trabalho dele foi sobre um software (a boba aqui não anotou o nome) capaz de catalogar e contar peças arqueológicas. Espero que ele leve a pesquisa adiante, afinal, contar mais de quinhentas peças não é tão divertido.

National Geographic Brasil. Maio, 2010.

Já a visita agendada a reserva técnica não foi o esperado, eu (e como mais tarde descobri também um estudante de História que trabalha com o mundo helênico) realmente acreditei que veria todas as áreas da reserva do MAE, inclusive a de Arqueologia Clássica, mas não foi bem assim, só visitamos a sala em que estão as peças amazônicas retidas pelo o Ministério Público e que outrora pertenceram ao banqueiro Edemar Cid Ferreira (se não me falha a memória, depois confirmarei esta minha informação). Mesmo assim não foi um início de tarde perdido, pelo contrário, foi instrutivo, principalmente porque não sei nada sobre Arqueologia Amazônica e tive o privilégio de ter estudantes e profissionais da área explicando acerca dos artefatos que estavam bem ao nosso lado. Definitivamente nem de longe uma experiência assim se compara a uma visita normal a um museu guiado por um guia turístico ou um funcionário que precisou decorar o roteiro. De forma alguma estou fazendo propaganda contra a visitação de museus, mas é que desde que entrei na Arqueologia perdi grande parte do fascínio de frequentar uma exposição, já que normalmente vamos para a reserva técnica e são sempre lá que ficam as peças não analisadas, as frágeis de mais para ir para exposição e as verdadeiras (neste caso quando a exposição é montada com réplicas, permitindo assim a fotografia, o que também não é ruim).

Esta reserva técnica em questão está aberta a visita de gente comum também (em contrapartida, a exposição está fechada), é só ligar para o MAE e agendar. Lembrem-se que não devem tirar fotos e nem tocar nas peças. Será um passeio bem interessante, sobretudo porque é lá onde estão se formando alguns dos especialistas em Arqueologia Amazônica do Brasil, área que está ganhando destaque no nosso país já que caiu nas graças da mídia, a National Geographic que o diga, a revista publicou uma matéria maravilhosa do Prof. Dr. Eduardo Goes Neves (PPGArq-MAE/USP), “Amazônia Ano 1000”, em Maio de 2010 e este ano (Abril, 2013) disponibilizou outra matéria falando acerca da Arqueologia no nosso país, mais especificamente em São Paulo.

 

Os trabalhos de Egiptologia no evento:

Princesa Nofret (IV Dinastia). Fonte da imagem: EINAUDI, Silvia. Coleção Grandes Museus do Mundo: Museu Egípcio Cairo (Tradução de Lúcia Amélia Fernandez Baz). 1º Título. Rio de Janeiro: Folha de São Paulo, 2009.

Estavam previstas duas comunicações e um pôster e somente uma conferencista compareceu. O quadro não foi nada animador. Acho que este problema já é endêmico, uma vez que o número de apresentações de estudantes de Arqueologia que estão se especializando em Egiptologia não é nada promissor. Neste sentido os alunos de História, que também estão se especializando em Egiptologia, estão de parabéns porque até evento exclusivo para a área eles estão sempre realizando.

 

Como conclusão, o que falar?

Espero que o evento continue crescendo e que o número de evasão de conferencistas e apresentadores de pôsteres diminua, já que a III Semana tornou-se um excelente espaço aberto para debates. Outros eventos de Arqueologia para discussões gerais já estão agendados ou já passaram. Em Brasília ocorreu o “2º Encontro de Arqueologia em Brasília: Arqueologia e politicas Públicas de Cultura – Construindo Pontes” e “2º reunião da SAB Centro-Oeste: Arqueologia Pública. Pesquisas Correntes” ambos unidos no mesmo espaço nos dias de 14 até 17 de maio de 2013 e em Recife será realizado o “V Encontro Regional de Estudantes de Arqueologia (EREARQ-NE)” entre os dias 29 de julho e 03 de agosto e por fim a Reunião Geral da Sociedade de Arqueologia Brasileira no “XVII Congresso da SAB – Arqueologia sem Fronteiras: Repensando espaço, tempo e agentes”, em Aracaju, que ocorrerá entre 25 a 30 de agosto de 2013 (estarei presente neste último).

 

[1] Explicando mais acerca do Salami Science: diz respeito aos pesquisadores que possuem um artigo publicado (ou não) e dele pega tópicos para dividir em vários outros trabalhos, especialmente pôsteres, daí o pôster fica sem muito sentido. Apesar de não ser uma pratica boa para o pensamento cientifico é a mais popular onde a “produtividade” acaba valendo mais que a “qualidade”.

[2] O nome do estudante é Aldo Magaló (Via João Carlos Moreno de Sousa).

 

 

 

Uma criança morta no sítio arqueológico. E agora?

Acho um absurdo (e esta é uma opinião estritamente minha) que as pessoas achem bacana ver múmias e ossos, que queiram tirar uma foto ao lado destes indivíduos mortos e mostrar para os amigos o quanto aquilo é legal. Definitivamente a morte, apesar de natural, não é legal, principalmente quando ela vem tão cedo.

Curiosidade acerca deste assunto eu acho normal, gosto de tentar entender os processos de mumificação e identificação dos corpos e principalmente dar para aquela pessoa uma história, mas acho uma total falta de noção e bom senso tratarem o corpo daquele ser como se fosse uma peça da indiscrição e o que me mata é a dissimulação ou falta de sensibilidade. Alguém que fala que se importa com os sentimentos de um filho que perdeu o pai na guerra, mas achar super engraçado e até empolgante encontrar um cemitério com corpos de mais de 3 000 anos para mim só tem um nome: hipocrisia.

Fingir que se importa com um (mas fazer descaso do outro) porque tem que dar satisfação para um familiar… Só eu ou mais alguém acha isto estranho? (Nota: imagem de uma das criptas de Palermo – Itália).

Lamentavelmente ao questionar algumas pessoas sobre isto (por que desta diferenciação de tratamento) eu sempre recebia a resposta “É que alguém se importa”, “Ele tem parentes vivos”, mas tenho péssimas notícias para quem ainda olha a situação por esta perspectiva: existem grupos hoje que reivindicam os corpos de seus antepassados (por mais longínqua que seja a sua ligação com eles).

Durante uma de minhas viagens eu estava na reserva técnica de um museu e contaram sobre indígenas da América do Norte (se não me falha a memória) que estavam exigindo “mais respeito” com o trato do corpo dos seus antepassados (os quais tinham morrido centenas de anos antes), fato que culminou na exigência de não expor ao público os ossos daquelas pessoas.

Corpo de bebês sempre (ao menos nunca vi uma reação contraria) despertam algum tipo de sensibilidade, mas é uma sensibilidade que vergonhosamente não se estende para os adultos. Estranhamente a Arqueologia, que deveria prezar pela humanidade, por vezes acaba desumana. Onde ficou a nossa capacidade de reconhecer um individuo morto há centenas de anos como aquele que outrora foi filho de alguém? Que alguma pessoa pode ter chorado a sua morte? Não sou uma religiosa, mas eu acredito no respeito pela lembrança do próximo, mesmo que ela seja ínfima e impalpável.

Apesar desta compaixão com os pequeninos ironicamente são os corpos deles os que

Múmia de Rosalia Lombardo (Palermo, Itália). Não só o fato de ter morrido muito jovem, mas por parecer que dorme esta múmia muitas vezes desperta o lado emotivo das pessoas.

mais somem nos sítios arqueológicos, isto devido os maus tratos com os seus sensíveis ossinhos, assunto que inclusive acabou sendo discutido na SAB 2009 em uma mesa de comunicações que falava justamente da presença de ossos de crianças no sítio arqueológico e porque que esta ocorrência é parcialmente rara: devido a falta de atenção por parte do arqueólogo. Os pequenos ossos podem estar tão frágeis que em uma colherada o corpo do pequenino passa despercebido.

As múmias de bebês também sofrem bastante, a exemplo nas meninas encontradas na KV-62 (tumba de Tutankhamon): é totalmente visível a mudança causada pela forte degradação causada em grande parte pelo o tratamento que elas receberam ao longo das décadas: as crianças foram guardadas em uma caixa sem nenhum cuidado adicional em uma estante competindo o espaço com livros e outros objetos.

Por um lado somos sensíveis aos corpos de criança, mas do outro parece que temos mais cuidado no trato com os adultos, assim, penso, talvez esteja faltando por parte de muitos dos profissionais um pouco de “auto-análise” da forma como estão gerindo o sítio e aqueles que nele trabalham. Muitos chegaram à Arqueologia com a velha obsessão por tumbas, mas vale lembrarmos sempre que aquele indivíduo sepultado ali já foi a criança de alguém, independente da idade que tinha no dia de sua morte.

 

Você pode ler:

Para ler: - The Juvenile Skeleton de Louise Scheuer e Sue Black.

– The Juvenile Skeleton de Louise Scheuer e Sue Black da editora Elsevie:

Trabalhar com ossos de crianças é extremamente complicado, principalmente quando precisamos definir o sexo e a idade. Este livro busca dar um auxílio para aqueles que planejam trabalhar com este tipo de material. Ele é indicado tanto para os bioarqueologos como para quem planeja trabalhar com pediatria.

 

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Este post é uma homenagem a Erick Carvalho Marinho, aluno do curso de Artes Visuais da UFS, que faleceu ontem no horário da noite aos 24 anos de idade (idade que vou fazer amanhã). Ele era colega da minha irmã mais nova.