As histórias que os manuais de Arqueologia não nos preparam para entender

Nas últimas postagens tanto daqui do #AEgípcia como do Café Néftis comentei brevemente sobre algumas das atividades que realizei a serviço da Contextos Arqueologia. Foram atividades realmente enriquecedoras profissionalmente, mas somente uma me enriqueceu como pessoa e foi a visita e entrevista que fizemos com a dona Maria do Carmo no povoado Guararema em Umbaúba (SE).

Tudo indicava que seria um dia como outro qualquer; chegamos até a residência onde mora a dona Maria e como muitos outros ela ficou receosa achando que não tinha nada com o que colaborar para a nossa pesquisa, até que finalmente sentou conosco para responder nossas questões. Eram perguntas breves como “Qual a sua idade?”, “Há quanto tempo a senhora mora aqui?”, “Seus pais eram daqui?”, “Quais as brincadeiras da sua infância?”, “Já ouviu falar de história de índio?”, até que chegamos a questão final, que é “O que você preservaria como um patrimônio a ser lembrado?”. Ela não pestanejou e respondeu “nada”, insistimos um pouco e ela respondeu algo como “do passado não quero preservar nada”. Eu tentei dar um estímulo e comentei “Nem mesmo a sua casa?” (pessoalmente esta é a minha resposta para esta pergunta) e ela respondeu “Esta casa não é minha”.

A dona Maria foi muito simpática nos mostrando ao final da entrevista o local onde ela processa mandioca.

A dona Maria então narrou brevemente o seu infortúnio: A casa em que mora é de uma irmã dela. A sua antiga casa foi invadida por bandidos pouco tempo depois dela ter sido abandonada com os quatro filhos pequenos pelo o marido, que foi viver com uma vizinha (e moram em frente a sua residência desde então). Estes homens quebraram tudo o que encontraram pela frente e um deles arremessou uma cadeira de madeira contra a sua cabeça. Depois simplesmente partiram sem levar coisa alguma.

Escutá-la comentar sobre esta história foi tão embaraçoso e chocante que mal conseguíamos esconder o nosso espanto. Permanecemos em silêncio por alguns segundos, já eu tentei digerir o teor e a importância desta resposta. Ali não era a narração de um ato heroico de um negro que fugiu, ou de um europeu que construiu um forte. Não era a história do cangaceiro que tocou o terror pelo nordeste ou o dono de fazenda que escondeu uma botija, era a história de uma mulher tão anônima como muitas outras que sofreu um ato de terrorismo e que ficou tão desestabilizada que se desligou de sua identidade. O trauma foi tamanho que a fez desejar não rememorar ou preservar qualquer coisa do seu passado. Não consigo nem imaginar como foi para ela se sentir impotente ao ver suas coisas destruídas e depois apanhar na frente dos seus próprios filhos.

Quando voltei para casa fui falar com a minha mãe sobre o assunto e ela comentou que antigamente ocorria muito isso, de grupos de homens invadirem a casa de mulheres separadas ou que foram abandonadas pelos maridos e comecei a notar que o fato de não roubarem nada após quebrarem tudo tinha como principal interesse deixar um recardo, mas qual recardo? É difícil não especular.

A dona Maria achou que suas memórias não poderiam contribuir em nada, mas fez muito, ao menos para mim, pois me fez perceber na prática que os manuais de Arqueologia não nos preparam para entender histórias sofridas como a dela e vejam só, embora ela seja invisível para a maior parte da sociedade futuramente nós arqueólogas (os) trataremos os artefatos encontrados na casa dela tal qual ouro.

Prensa para processar mandioca.

Mesa (desmontada) para ralar mandioca.

Mesa montada para ralar mandioca.

E alguns de nós aplicaremos o discurso do nosso velho arqueólogo Ian Hodder de que não existe um passado único, mas múltiplos. Entenderemos que pessoas sofreram repressão, de que outras viveram na extrema miséria, mas até onde conseguiremos compreender estas pessoas de fato, a exemplo da Maria?

A Arqueologia tem tentado ser democrática, nós em congressos temos insistido nisso, mas depois de escutar a história dessa senhora definitivamente senti que muitos dos nossos discursos ainda andam meio vazios.

Lançamentos de livros de Arqueologia e sobre o Antigo Egito

Uma arte para sempre: arte no Egito Antigo (Denise Rochael)

Os egípcios antigos tinham uma preocupação com o culto dos mortos. Os túmulos egípcios, revestidos de hieróglifos e imagens simbólicas, investiam em uma vida eternamente feliz para os privilegiados merecedores de tais regalias, em absoluto para o poderoso faraó. À serenidade do seu conceito de morte, juntou-se uma espécie de julgamento, além da sua surpreendente capacidade de trabalho e planejamento, expressa tão magnificamente na qualidade técnica de sua arquitetura e de sua arte.


Arqueologia Indígena: protagonismo indígena, interlocução cultural e ciência contemporânea (Luciano Pereira da Silva)

Os indígenas estiveram, por muito tempo, alijados e excluídos. Nas últimas décadas, a diversidade étnica e cultural passou para o centro das políticas públicas, no plano internacional e brasileiro. A participação indígena na construção do conhecimento representou uma ampliação significativa dos horizontes. O livro de Luciano Silva narra uma experiência original, no âmbito do Ensino Superior Indígena. Os indígenas tornam-se protagonistas, como autores, a pleno título, das suas próprias experiências culturais. A Arqueologia apresenta-se como disciplina engajada, questionadora das relações de poder, por meio da cultura material. Esta Arqueologia Pública mostra a relevância da pesquisa científica para a ação social afirmativa. (Sinopse: Livrarias Online)

MEUS COMENTÁRIOS: Eu recebi do autor uma cópia do livro, desta forma pude ler muitas coisas interessantes acerca da cultura indígena, como, por exemplo, sobre a posição dos dedos durante do uso do arco e flecha, o que estas comunidades acham do que se trata a Arqueologia e o dilema de arqueólogos (as) acerca do uso da definição “pré-história” na Arqueologia Indígena, já que não deixa de ser um termo pejorativo que beneficia a visão eurocêntrica da história do Brasil. Contudo, de forma geral o livro fala sobre as políticas de inclusão social e a educação escolar de indígenas, que gradualmente estão tendo a oportunidade de serem autores de sua história, não necessitando amplamente de autores/pesquisadores não-indígenas para escrever sobre o seu passado e presente.

Este não é um material que eu indicaria para amadores (embora eles sejam bem vindos)  já que é necessária uma leitura antecipada de textos científicos de Arqueologia para entender aspectos teóricos-metodológicos. A ausência deste conhecimento prévio pode dificultar o entendimento de alguns assuntos. Entretanto, é um ótimo convite para conhecer acerca da participação da sociedade indígena na educação e gestão de seu próprio patrimônio arqueológico.


Descobrindo a arqueologia: o que os mortos podem nos contar sobre a vida? (Luis Pezo Lanfranco, Cecília Petronilho e Sabine Eggers)

Entre as histórias de um avô-arqueólogo, seus netos e algumas das Histórias da humanidade, esse é um livro que se passa em muitos tempos. As crianças Luísa e Felipe viveram a perda de sua jabuti Cristal e procuram respostas para tantas questões que surgiram. Vô Roberto convida os netos a descobrir, através de histórias arqueológicas, como povos de diferentes épocas e lugares viviam, e como eram seus rituais de sepultamento. Juntos deles, vamos desenterrar mistérios muito antigos, do Brasil e de bem longe daqui. Têm histórias trágicas e de amor, de escravo, de guerreiro, de princesa, de pirata. Têm histórias de deserto, de floresta e outra ainda bem gelada. Falamos de caçadores-coletores, de gente que vivia do mar e de enormes impérios. Vamos descobrir o quanto podemos viajar com a arqueologia? (Sinopse: Editora Cortez)

Meu “alô” para vocês: Revistas de novembro com artigos sobre o Antigo Egito

Finalmente resolvi fazer um vídeo para falar diretamente com vocês. Decidi não esperar que trouxessem uma câmera ideal, o microfone ideal, a luz ideal, o cenário ideal. Então fui com a cara e a coragem fazer este material que possui pouco mais de 3 min.

Estava previsto cair uma tempestade neste dia e tentei gravar o mais rápido possível (e consegui, creio que o material original não deve ter mais que 6 min de gravação), porém eram somente nuvens passageiras… Enfim, ao menos eu tinha me empenhado em terminar cedo.

 

 

Sinto muito, muito mesmo, pela qualidade da imagem (para quem não percebeu ela precisou ser clareada artificialmente), mas a tendência é piorar, já que nunca se sabe onde precisarei gravar (isto se eu voltar a gravar). 😀

P.S: tem uma hora que estou olhando para o “nada”, é que acabei me empolgando e esquecendo da câmera… Bom, isto já entrou para a minha lista de excentricidades.