Mergulhadores e arqueólogos em prol do patrimônio arqueológico

Uma das coisas mais incríveis para quem trabalha com a Arqueologia é poder dialogar com a população. Essa não é uma tarefa muito fácil, visto que o que é importante para nós, acadêmicos, pode simplesmente não significar nada para outras pessoas.

Contudo, recentemente tive o privilégio de ver uma mobilização conjunta entre curiosos e arqueólogas (os): Na noite do dia 06 de novembro, estive em Salvador para a abertura do “Encontro das tribos” (que ocorreu nos dias 06, 07 e 08/11), evento encabeçado pela operadora de mergulho “Águas Abertas” e que teve como objetivo realizar uma confraternização entre alunos, profissionais e entusiastas das diferentes áreas relacionadas com a cultura. Foi pensando nisso que o Jorge Galvão, dono e administrador da operadora, optou por abrir o evento com um bate-papo informal entre seus alunos e profissionais da Arqueologia Subaquática.

Um dos objetivos do encontro foi levantar propostas para criar visibilidade para a preservação de sítios arqueológicos submersos, a exemplo do seu principal representante, os sítios de naufrágio. Desta forma, após a apresentação inicial do grupo — onde cada um contou suas experiências, anseios e objetivos para o futuro — foram discutidas sugestões para preservar e valorizar tais bens, salientando os casos de desconhecimento da importância desse legado por parte da população e até mesmo o descaso.

Ao final de tudo foi legal ver o interesse em discutir ideias, especialmente aquelas que visam tentar mostrar para quem nunca mergulhou o que é o ambiente aquático, o que ele guarda e como preservar o que há lá, isso levando em consideração que as pessoas são acostumadas a ver o patrimônio edificado em terra — a exemplo de Igrejas, fortes, mausoléus, etc —, mas usualmente desconhecem a riqueza do patrimônio subaquático, tipos de sítios, sua importância histórica, como conservá-los, etc.

Estruturas do Blackadder. Luis Felipe Freire. 2015.

Em breve estará disponível no Arqueologia Egípcia um vídeo sobre a Arqueologia Subaquática, mas se você quiser ver um preview pode clicar aqui. Este link está apontando para os 05min38 do vídeo, onde são mostrados takes curtíssimos realizados no sítio arqueológico do cliper Blackadder.

Lançamento de livros sobre Arqueologia: Arqueologia Subaquática

Arqueologia Subaquática em Cananéia de Gilson Rambelli

O autor nos convida a fazer um mergulho na Arqueologia Subaquática, chamando atenção para o potencial do patrimônio cultural subaquático brasileiro, enquanto testemunhos únicos de diferentes atividades humanas que se encontram, por diversos motivos, submersos. Ressaltando que esta percepção sobre os sítios arqueológicos subaquáticos é nova e ainda é mal compreendida pelo senso comum, que os compreendem pela ótica especulativa dos sonhos e lendas dos tesouros submersos.
Buscando concretizar a Arqueologia Subaquática no Brasil, a cidade de Cananéia (cidade histórica do litoral sul paulista) e seus arredores, como a Ilha do Cardoso, a Ilha do Bom Abrigo e parte da Ilha Comprida serviram de cenário para a realização desses estudos. Para tal, a região, considerada importante do ponto de vista arqueológico, por ter uma ocupação humana desde a pré-história, comprovada por seus numerosos sambaquis e por seus casarios remanescentes desde o período colonial, passou a ser pesquisada em seu entorno submerso.
Para tanto, o livro traz os sítios arqueológicos subaquáticos, de diferentes tipos e datas, que foram registrados sistematicamente visando à elaboração de uma Carta Arqueológica Subaquática regional, para a gestão e proteção dos mesmos; o estudo de um sítio arqueológico de naufrágio realizado por arqueólogos mergulhadores, inédito no Brasil, buscando servir de exemplo sobre a potencialidade desses tipos de sítios, que ainda são vítima de constantes depredações em nosso país; e muita discussão sobre os conceitos que envolvem a complexidade do tema, ultrapassando assim, as fronteiras da pesquisa arqueológica, propriamente dita, chegando aos aspectos sociais e públicos referentes ao patrimônio cultural, e, sobretudo, à preservação do patrimônio cultural subaquático no Brasil, que legislativamente caminha na direção contrária da Convenção da UNESCO de 2001, ou seja, na contramão do mundo.
Trata-se de um livro de divulgação científica transdisciplinar que pode ser aproveitado por estudantes e estudiosos de diferentes áreas do conhecimento, como Arqueologia, História, Antropologia, Direito, Museologia, Biologia, Oceanografia, entre outras, e também por todos apaixonados pela temática.
Boa leitura! (Sinopse: Editora Prismas)

Sob as Profundezas: A Arqueologia Subaquática no Brasil de Keitty de Oliveira Silva

Provavelmente, muitos já se perguntaram como é o fundo do mar. Já se questionaram sobre o que se esconde nas profundezas de rios e lagos, imaginaram, ainda crianças, como seria respirar debaixo dágua, fantasiaram com aventuras difíceis, heróicas e, com certeza, vitoriosas. A Arqueologia, por si só, se apresenta no imaginário em cenários maravilhosos, inóspitos e perigosos. Somada com tubos de oxigênio e trajes de borracha, torna-se ainda mais incrível aos olhos. Quando a Arqueologia Subaquática nasce, junto, surgem novos mundos, novos mistérios. Com base em uma pesquisa historiográfica em documentações e legislações patrimoniais, Sob as Profundezas traz um panorama da especialidade da Arqueologia Subaquática em nosso país, além de abordar os profissionais que atuam nessa área e como se deu a origem do mergulho. Neste livro, o leitor encontrará uma história, onde haverão vários heróis e vilões não tradicionais, além de obstáculos ainda não superados e novas trilhas a serem seguidas. Encontrará apenas seu início e caberá ao interessado escrever sua continuação. (Sinopse: Editora Prismas)

Bastidores do vídeo “Um mergulho na Arqueologia Subaquática”

No dia 20 de setembro estive na Baía de Todos-os-Santos, Salvador (BA), para gravar um vídeo para o Arqueologia Egípcia que estará disponível em breve no canal do próprio (inclusive inscrevam-se clicando aqui). O intuito deste material é mostrar para vocês um pouco do que é a Arqueologia Subaquática através de uma entrevista que fiz com o meu colega e amigo Luis Felipe Freire, além de apresentar um dos tipos de sítios mais populares da Subaquática: um sítio de naufrágio; não sei quando sairá esse vídeo, mas postarei lá no AE assim que possível.

Já fazia alguns meses que eu estava interessada em gravar com o Felipe e há algumas semanas comentei isso com ele. Felizmente ele tinha um mergulho marcado para os dias seguintes e convidou-me para ir junto. Com o equipamento em mãos tomamos a embarcação que nos levou para a praia de Boa Viagem, lá na Baía de Todos-os-Santos, onde está naufragado o cliper Blackadder, navio europeu que veio a pique no dia 05 de novembro de 1905, após ser agitado por fortes ventanias e se chocar contra os corais da praia.

Peter e Carlos.

A manhã estava bem nublada, o que me preocupou; sabe como é, tempo nublado é sinal de chuva, chuva é sinal de muito vento e muito vento é sedimento do mar revolvido o que prejudica a visibilidade da água, ou seja, fica mais difícil observar o sítio. Contudo, todos os mergulhadores presentes pareciam bem otimistas de que iriam conseguir ver bem o naufrágio.

Infelizmente eu não poderia mergulhar, já que ainda não tirei minha credencial, então tive que ficar na embarcação com o condutor enquanto os mergulhadores, inclusive dois deles pesquisadores (o Felipe e Orlando) submergiam para dar uma olhada no sítio arqueológico; naturalmente nada foi removido já que não aprovamos esse tipo de prática de retirada de objetos de sítios submersos sem um projeto e a autorização dos órgãos competentes. A ideia foi realizar fotografias para auxiliar na pesquisa do Orlando, além de registrar algumas imagens subaquáticas.

Estruturas do Blackadder. Luis Felipe Freire. 2015.

Já em relação a minha pessoa a preocupação principal foi a possibilidade de que eu tivesse algum enjoo, algo que pode ocorrer com qualquer pessoa que sai para navegar, mas felizmente não senti nada, mesmo após comer pão com maionese e sardinha (Sim! Muito bom!). Foi um passeio extremamente tranquilo e com pessoas agradáveis. Para vocês terem uma ideia eu gravei para o meu canal pessoal algumas coisas lá:

Youtube | Facebook | Instagram | Twitter

O tempo abriu um pouco no final das nossas atividades. Foi um passeio muito cansativo, mas bastante divertido. Amei conhecer todos os mergulhadores e o Carlos, condutor da embarcação. Tenho certeza que ainda vamos todos mergulhar muito por aí.

Já a entrevista que cito no final do vídeo acima foi realizada em terra no dia seguinte. Fiquei um pouco nervosa porque desta vez eu estava indo sozinha para gravar tudo (eu sempre vou com a Sandrine e usamos duas câmeras), entretanto a Fernanda, também minha amiga, igualmente arqueóloga e esposa do Felipe, estava lá e virou minha nova camerawoman em terra. 😀

Eu e o Felipe durante a entrevista. Fernanda Libório. 2015.

Espero muito que vocês curtam o trabalho final, mas por hora fiquem só com o vlog mesmo 😀

Desta vez eu me tornei a entrevistadora

Foi publicada na semana passada no Arqueologia em Ação o vídeo da entrevista que o meu colega da Arqueologia, Ms. Luis Felipe Freire, concedeu para mim durante o congresso da SAB na cidade de Aracaju, em agosto deste ano. Ele se formou na mesma época que eu no mestrado em Arqueologia e chegou a ser o meu dupla durante algumas aulas de mergulho cientifico para a Arqueologia Subaquática.

arqueologia_em_acao_01

Na entrevista ele comenta acerca dos sítios plurais que podem ser encontrados submersos, desde cidades que foram cobertas pelas águas até mesmo naufrágios de aviões. Também explica como é possível trabalhar com esta área no país. Vale a pena dar uma conferida.

Agora a parte engraçada:

Foi a primeira vez que eu vesti a camisa de entrevistadora e a cena inicial, a que começo a explicar onde estamos, etc, precisei falar várias vezes porque não conseguia dizer o nome do evento. Para variar, quando finalmente consegui fazer a cena eu falei muito rápido, então parabéns gente! Vocês me viram falando rápido!

Outra coisa, assim que terminei esta introdução e me virei para o Felipe confesso que naquela hora quase desabei na gargalhada. Não lembro o motivo, acho que quase falei algo como “E aí cara! Beleza?”.

Durante a entrevista. Na ordem: Ms. Glória Tega Calipo, Ms. Luis Felipe Freire e Ms. Márcia Jamille Costa. Foto: João Carlos Moreno. 2013.

Durante a entrevista. Na ordem: Ms. Glória Tega Calipo, Ms. Luis Felipe Freire e Ms. Márcia Jamille Costa. Foto: João Carlos Moreno. 2013.

Para variar, eu estava bem nervosa com a presença da repórter Glória T. Calippo: Eu não queria realizar nenhuma entrevista, mas achei que iria ser uma experiência bem diferente e fui com a cara e a coragem. Mas quando vi uma repórter segurando uma câmera confesso que toda aquela coragem inicial começou a minguar e pensei “Eu sou arqueóloga, não repórter! O que estou fazendo da minha vida?”. Ela tentou me tranquilizar, mas na boa, eu sou bem insegura e o meu nível de timidez chega ao zênite. Mas no geral foi uma experiência bem divertida. Valeu ter participado.

Bom, estas foram algumas curiosidades do que rolou neste dia.