Fui para um colóquio de Arqueologia e descobri que eu morreria na Pré-História

No último dia 24/02/17 participei como ouvinte do I Colóquio sobre Ferramentas Arqueológicas, que foi organizado por alguns dos meus ex-colegas da época da minha graduação em Arqueologia. Como prometido, mostrei algumas das coisas que rolaram lá através do Snapchat e do Instastories (veja o vídeo abaixo). Os participantes tinham que se inscrever antecipadamente pela internet para garantir uma vaga no evento. No ato do credenciamento recebemos uma pastinha do Museu de Arqueologia de Xingó (MAX) contendo um flyer do mesmo, o cronograma, uma caneta e algumas folhas para anotação. Também nos foi entregue óculos de segurança, já que o evento seria fechado com uma atividade de lascamento.

O colóquio começou de fato às 09h00 com a primeira palestra do dia realizada pelo professor Luydy Fernandes (UFRB). O professor basicamente fez uma introdução acerca dos tipos de análises para artefatos líticos (aqueles famosos instrumentos feitos de pedra citados nos livros didáticos de história) e sobre a questão dos sítios líticos serem muito mais numerosos, todavia, bem mais difíceis de serem identificados por leigos e mesmo por alguns profissionais da arqueologia. Isso se dá, usando as palavras do próprio professor, porque eles não são tão distinguíveis, uma vez que não fazem parte do nosso cotidiano. Por exemplo: uma ponta de flecha inteira datada da Pré-História é reconhecível tanto entre profissionais como entre leigos porque a sua forma já nos é particular. Contudo, temos uma variedade de artefatos líticos os quais nem sequer entendemos o real uso e nem possuímos uma imagem atual como referência, a exemplo das “lesmas”.

Depois foram apresentadas cinco comunicações, onde foram exibidos para o público diferentes estudos de caso, questionamentos e situações “incomuns” encontradas em laboratórios. A minha favorita foi a apresentada por Everaldo dos Santos Junior, “Objetos sobre vidros lascados em contexto de senzala da Amazônia Oriental brasileira: uma proposta de macro e microanálise”, porque se valendo dos registros escritos ele pontuou a possibilidade de pessoas negras escravizadas no Brasil, especificamente na Amazônia, terem criado ferramentas usando refugos de vidro. Ele também realizou estudos de arqueologia experimental para tentar entender se as marcas encontradas em algumas das peças seriam ocorrências naturais (causadas por danos não propositais, como é o caso do pisoteamento) ou intencionais.

A palestra de encerramento ficou por conta do Prof. Paulo Jobim, que inclusive foi meu professor na universidade (sim, ele teve que me suportar por alguns anos). E logo depois ocorreu a atividade de lascamento. Infelizmente a essa altura eu já estava muito cansada e com um senhor sono (eu tinha tido gravação na noite anterior), então eu realmente precisei fazer um grande esforço mental para conseguir executar a atividade. Mas ok, usando os meus óculos de proteção parti para o ataque.

Porém, foi a partir deste ponto que descobri que se eu tivesse vivido na Pré-História eu teria morrido em três atos: demorei 84 anos para conseguir tirar uma lasquinha. UMA LASQUINHA. A foto abaixo mostra a minha frustração anterior as minhas primeiras tentativas. A minha cara já estava prevendo o desastre:

Foto: Almir Brito Jr.

Aqui é só a tristeza e desolação:

Foto: Fernanda Libório.

Tenho certeza que a última vez que fiz esta cara eu estava jogando Kuon:

Foto: Almir Brito Jr.

Qualquer semelhança com esse gif não é coincidência:

A ideia é que eu conseguisse fazer isso:

Mas só consegui dois pesos de papel e minha autoestima temporariamente no lixo. Meu comentário no Snapchat está aí para provar:

Aqui está o meu amigo Almir, um dos organizadores do evento, tentando realizar um milagre, que era me ensinar o que fazer:

Foto: Fernanda Libório.

Uma amiga, também organizadora do evento, a Fernanda, igualmente tentou um ato divino e me deu dicas de como trabalhar com a pedra. No final, depois de algumas tentativas frustradas e o sonho de conseguir criar uma ponta Clovis jogado na sarjeta, o Everaldo Jr., o mesmo da comunicação, lascou uma pedra para mim para que eu pudesse utilizar como material de consulta:

Obrigada Everaldo!

Então, sobre esse evento eu tenho algumas considerações: a primeira é que eu gostaria de fazer novamente uma atividade de lascamento, acho que realmente aprendi muito, apesar da minha óbvia falta de talento; a segunda é que definitivamente passei a respeitar muito mais as pessoas que viveram durante a Pré-História; e terceira é que eles me inspiraram a estudar mais sobre o tema não só porque qualquer um que trabalha com arqueologia vai se deparar, em algum momento, com um sítio lítico, mas porque passei a achar o tema fascinante.

 

Links da semana: descoberta de uma armadura feita de ossos, artefatos encontrados em obras de metrô etc

Esta semana recebi muitos links legais relacionados com descobertas arqueológicas ao redor do mundo. Uma delas foi a da armadura feita de ossos (provavelmente de alces, veados e cavalos) encontrada na Sibéria, próximo ao rio Irtysh em Omsk (na Rússia). O interessante da notícia é que esta é um tipo de descoberta incomum, já que neste território as armaduras eram bens de luxo, não era algo que simplesmente enterravam, mesmo em cerimônias funerárias.

The Siberian Times. 2014.

Reconstrução de como deve ter sido a armadura de ossos, feita pelos pesquisadores Yuri Gerasimov e A.Solovyev.

A equipe de arqueologia responsável pela pesquisa acredita que o artefato tem entre 3.000 e 3.900 A.E.C. Segue o link:

Arqueólogos encontram armadura feita de ossos com 3.900 anos na Rússia


O segundo link na verdade saiu semana passada e fala da descoberta de um poço funerário próximo à cidade de Macapá (AP). O que achei interessante é que o sítio é constituído por várias câmaras mortuárias.

Uma das urnas funerárias encontradas nas câmaras mortuárias (Foto: John Pacheco/G1).

O local provavelmente foi construído entre 1.000 e 1.300 d.E.C e os corpos foram sepultados dentro de urnas de cerâmicas (e que urnas!):

☥ Pesquisadores do Amapá encontram poço funerário construído há quase mil anos por povos indígenas

E tem mais links com boas fotos:

Escavação arqueológica no Amapá revela funeral inédito de indígenas

Arqueólogos do Amapá encontram urnas funerárias inéditas no Brasil

 


No Rio de Janeiro foi realizada a descoberta de artefatos indígenas, europeus e africanos em camadas sucessivas de ocupação. No local acredita-se que viveu Salvador Correia de Sá, primo de Estácio de Sá e famoso vendedor de africanos escravizados.

Arqueólogos encontram sinais do século XVI em terreno no Centro do Rio

A descoberta foi datada como pertencente ao século 16:

Arqueólogos encontram sinais do século XVI em terreno no Centro do Rio

 


Também no Rio de Janeiro, peças arqueológicas foram descobertas durante as obras do metrô da Linha 4 que ligará a Barra da Tijuca, zona oeste, à Tijuca, zona norte. De acordo com a investigação em documentos históricos, esta área antes era composta por cerca de 100 chácaras. Naturalmente uma visão bem diferente da paisagem de hoje. Dentre os artefatos encontrados estão talheres, tigelas, moedas, vidro (tudo o que normalmente encontramos em sítios de caráter histórico), trilhos do antigo bonde que funcionou no local a partir de 1902 e até penicos ainda com matéria fecal.

O governo do estado já conversa com o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) para que as peças que eles considerarem mais relevantes sejam exibidas em estações da Linha 4. O projeto seria semelhante ao do metrô de Atenas, que exibe objetos históricos em suas estações. Uma iniciativa assim não agregaria somente valor artístico ao metrô, mas também irá relembrar aos transeuntes que o que está sob os nossos pés pode ser uma grande surpresa vinda do passado.

Relíquias históricas no caminho do metrô. Foto: Gustavo Stephan / Agência O Globo. 2014.

Todos os objetos foram datados como pertencentes ao final do século 19 e início do 20.

Peças arqueológicas são descobertas em obras do metrô no Rio

Links com mais fotografias:

Peças encontradas em escavação do metrô contam história de Ipanema e Leblon
Relíquias históricas no caminho do metrô