Neil Gaiman: Por que o nosso futuro depende de bibliotecas, leitura e sonhar acordado

Este texto é uma tradução do artigo do The Guardian, “Neil Gaiman: Why our future depends on libraries, reading and daydreaming“, que foi feita pela Dora do blog www.indexadora.wordpress.com e que repasso aqui na integra. Tomei a liberdade de mudar as ilustrações:   

Neil Gaiman CoralineÉ importante para as pessoas dizerem de que lado estão e por que, e se elas podem ou não ser tendenciosas. Um tipo de declaração de interesse dos membros. Então eu estarei conversando com vocês sobre leitura. Direi à vocês que as bibliotecas são importantes. Vou sugerir que ler ficção, que ler por prazer, é uma das coisas mais importantes que alguém pode fazer. Vou fazer um apelo apaixonado para que as pessoas entendam o que as bibliotecas e os bibliotecários são e para que preservem ambos.

E eu sou óbvia e enormemente tendencioso: sou um escritor, muitas vezes um autor de ficção. Escrevo para crianças e adultos. Por cerca de 30 anos tenho ganhado a minha vida através das minhas palavras, principalmente por inventar as coisas e escrevê-las. Obviamente está em meu interesse que as pessoas leiam, que elas leiam ficção, que bibliotecas e bibliotecários existam para nutrir amor pela leitura e lugares onde a leitura possa ocorrer.

Então sou tendencioso como escritor. Mas eu sou muito, muito mais tendencioso como leitor. E sou ainda mais tendencioso enquanto cidadão britânico.

E estou aqui dando essa palestra hoje a noite sob os auspícios da Reading Agency: uma instituição filantrópica cuja missão é dar a todos as mesmas oportunidades na vida, ajudando as pessoas a se tornarem leitores entusiasmados e confiantes. Que apoia programas de alfabetização, bibliotecas e indivíduos e arbitrária e abertamente incentiva o ato da leitura. Porque, eles nos dizem, tudo muda quando lemos.

E é sobre essa mudança e este ato de leitura que quero falar hoje a noite. Eu quero falar sobre o que a leitura faz. O porquê de ela ser boa.

Howl’s Moving CastleUma vez eu estava em Nova York e ouvi uma palestra sobre a construção de prisões particulares – uma ampla indústria em crescimento nos Estados Unidos. A indústria de prisões precisa planejar o seu futuro crescimento – quantas celas precisarão? Quantos prisioneiros teremos daqui 15 anos? E eles descobriram que poderiam prever isso muito facilmente, usando um algoritmo bastante simples, baseado em perguntar a porcentagem de crianças entre 10 e 11 anos que não conseguiam ler. E certamente não conseguiam ler por prazer.

Não é um pra um: você não pode dizer que uma sociedade alfabetizada não tenha criminalidade. Mas existem correlações bastante reais.

E eu acho que algumas destas correlações, a mais simples, vem de algo muito simples. Pessoas alfabetizadas leem ficção.

A ficção tem duas utilidades. Primeiramente, é uma droga que é uma porta para leituras. O desejo de saber o que acontece em seguida, de querer virar a página, a necessidade de continuar, mesmo que seja difícil, porque alguém está em perigo e você precisa saber como tudo vai acabar… Este é um desejo muito real. E te força a aprender novos mundos, a pensar novos pensamentos, a continuar. Descobrir que a leitura por si é prazerosa. Uma vez que você aprende isso, você está no caminho para ler de tudo. E a leitura é a chave. Houve um burburinho brevemente há alguns anos atrás sobre a ideia de que estávamos vivendo em um mundo pós-alfabetizado, no qual a habilidade de fazer sentido através de palavras escritas estava de alguma forma redundante, mas esses dias acabaram: as palavras são mais importantes do que jamais foram: nós navegamos o mundo com palavras, e uma vez que o mundo desliza para a web, precisamos seguir, comunicar e compreender o que estamos lendo. As pessoas que não podem entender umas às outras não podem trocar ideias, não podem se comunicar e apenas programas de tradução vão tão longe.

A forma mais simples de ter certeza de que educamos crianças alfabetizadas é ensiná-los a ler, e mostrarmos a eles que a leitura é uma atividade prazerosa. E isso significa, na sua forma mais simples, encontrar livros que eles gostem, dar a eles acesso a estes livros e deixar que eles os leiam.

A profecia de SamsaraEu não acho que exista algo como um livro ruim para crianças. Vez e outra se torna moda entre alguns adultos escolher um subconjunto de livros para crianças, um gênero, talvez, ou um autor e declará-los livros ruins, livros que as crianças devem parar de ler. Eu já vi isso acontecer repetidamente; Enid Blyton foi declarado um autor ruim, R. L. Stine também, assim como dúzias de outros. Quadrinhos tem sido acusados de promover o analfabetismo.

É tosco. É arrogante e é burro. Não existem autores ruins para crianças, que as crianças gostem e querem ler e buscar, porque cada criança é diferente. Eles podem encontrar as histórias que precisam, e eles levam a si mesmos nas histórias. Uma ideia banal e desgastada não é banal nem desgastada para eles. Esta é a primeira vez que a criança a encontrou. Não desencoraje uma criança de ler porque você acha que o que eles estão lendo é errado. A ficção que você não gosta é uma rota para outros livros que você pode preferir. E nem todo mundo tem o mesmo gosto que você.

Adultos bem intencionados podem facilmente destruir o amor de uma criança pela leitura: parar de ler pra eles o que eles gostam, ou dar a eles livros ‘chatos mas que valem a pena’ que você gosta, os equivalentes “melhorados” da literatura Vitoriana do século XXI. Você acabará com uma geração convencida de que ler não é legal e pior ainda, desagradável.

Precisamos que nossas crianças entrem na escada da leitura: qualquer coisa que eles gostarem de ler irá movê-las, degrau por degrau, à alfabetização. (Além disso, não faça o que eu fiz quando a minha filha de 11 anos estava gostando de ler R. L. Stine, que foi pegar uma cópia de Carrie do Stephen King e dizer que se você gosta deste, adorará isto! Holly não leu nada além de histórias seguras de colonos em pradarias pelo resto de sua adolescência e até hoje me dá olhares tortos quando o nome de Stephen King é mencionado).

E a segunda coisa que a ficção faz é construir empatia. Quando você assiste TV ou vê um filme, você está olhando para coisas acontecendo a outras pessoas. Ficção de prosa é algo que você constrói a partir de 26 letras e um punhado de sinais de pontuação, e você, você sozinho, usando a sua imaginação, cria um mundo e o povoa e olha através dos olhos de outros. Você sente coisas, visita lugares e mundos que você jamais conheceria de outro modo. Você aprende que qualquer outra pessoa lá fora é um eu, também. Você está sendo outra pessoa e quando você volta ao seu próprio mundo, você estará levemente transformado.

Supernova - O encantador de flechasEmpatia é uma ferramenta para tornar pessoas em grupos, que nos permite que funcionemos como mais do que indivíduos obcecados consigo mesmos.

Você também está descobrindo algo enquanto lê que é de vital importância para fazer o seu caminho no mundo. E é isto:

O mundo não precisa ser assim. As coisas podem ser diferentes.

Eu estive na China em 2007 na primeira convenção de ficção científica e fantasia aprovada pelo partido na história da China. E em algum momento eu tomei um alto oficial de lado e perguntei a ele “Por quê? A ficção científica foi reprovada por tanto tempo. Por que isso mudou?”. É simples, ele me disse. Os chineses eram brilhantes em fazer coisas se outras pessoas trouxessem os planos para eles. Mas eles não inovavam e não inventavam. Eles não imaginavam. Então eles mandaram uma delegação para os Estados Unidos, para a Apple, para a Microsoft, para o Google e perguntaram às pessoas de lá que estavam inventando seu próprio futuro. E descobriram que todos eles leram ficção científica quando eram meninos e meninas. A ficção pode te mostrar um outro mundo. Pode te levar para um lugar que você nunca esteve. E uma vez que você tenha visitado outros mundos, como aqueles que comeram a fruta da fada, você pode nunca mais ficar completamente satisfeito com o mundo no qual você cresceu.

Descontentamento é uma coisa boa: pessoas descontentes podem modificar e melhorar o mundo, deixá-lo melhor, deixá-lo diferente. E enquanto ainda estamos nesse assunto, eu gostaria de dizer algumas palavras sobre escapismo. Eu ouço o termo utilizado por aí como se fosse uma coisa ruim. Como se ficção “escapista” fosse um ópio barato utilizado pelos confusos, pelos tolos e pelos desiludidos e a única ficção que seja válida, para adultos ou crianças é a ficção mimética, espelhando o pior do mundo em que o leitor ou a leitora se encontra.

Se você estivesse preso em uma situação impossível, em um lugar desagradável, com pessoas que te quisessem mal e alguém te oferecesse um escape temporário, por que você não ia aceitar isso? E ficção escapista é apenas isso: ficção que abre uma porta, mostra o sol lá fora, te dá um lugar para ir onde você esteja no controle, esteja com pessoas com quem você queira estar (e livros são lugares reais, não se enganem sobre isso); e mais importante, durante o seu escape, livros também podem te dar conhecimento sobre o mundo e o seu predicamento, te dar armas, te dar armaduras: coisas reais que você pode levar de volta para a sua prisão. Habilidades, conhecimento e ferramentas que você pode utilizar para escapar de verdade.

The lord of the ringsComo J. R. R. Tolkien nos lembrou, as únicas pessoas que fazem injúrias contra o escape são prisioneiros.

Outra forma de destruir o amor de uma criança pela leitura, claro, é se assegurar de que não existam livros de nenhum tipo por perto. E não dar a elas nenhum lugar para que leiam estes livros. Eu tive sorte. Eu tive uma biblioteca local excelente enquanto eu cresci. Eu tive o tipo de pais que podiam ser persuadidos a me deixar na biblioteca no caminho do trabalho deles nas férias de verão, e o tipo de bibliotecários que não se importavam que um menino pequeno e desacompanhado ficasse na biblioteca das crianças todas as manhãs e ficasse mexendo no catálogo de cartões, procurando por livros com fantasmas ou mágica ou foguetes neles, procurando por vampiros ou detetives ou bruxas ou fantasias. E quando eu terminei de ler a biblioteca de crianças eu comecei a de adultos.

Eles eram ótimos bibliotecários. Eles gostavam de livros e eles gostavam dos livros que estavam sendo lidos. Eles me ensinaram como pedir livros das outras bibliotecas em empréstimo inter-bibliotecas. Eles não eram arrogantes em relação a nada que eu lesse. Eles pareciam apenas gostar do fato de existir esse menininho de olhos arregalados que amava ler e conversariam comigo sobre os livros que eu estava lendo, achariam pra mim outros livros em uma série deles, eles me ajudariam. Eles me tratavam como outro leitor – nem mais, nem menos – o que significa que eles me tratavam com respeito. Eu não estava acostumado a ser tratado com respeito aos oito anos de idade.

Mas as bibliotecas tem a ver com liberdade. A liberdade de ler, a liberdade de ideias, a liberdade de comunicação. Elas tem a ver com educação (que não é um processo que termina no dia que deixamos a escola ou a universidade), com entretenimento, tem a ver com criar espaços seguros e com o acesso à informação.

Eu me preocupo que no século XXI as pessoas entendam errado o que são bibliotecas e qual é o propósito delas. Se você perceber uma biblioteca como estantes com livros, pode parecer antiquado e datado em um mundo no qual a maioria, mas não todos, os livros impressos existem digitalmente. Mas pensar assim é errar o ponto fundamentalmente.

Tempestade de Areia - Crônicas de MyríadeEu acho que tem a ver com a natureza da informação. A informação tem valor, e a informação certa tem um enorme valor. Por toda a história humana, nós vivemos em escassez de informação e ter a informação desejada era sempre importante, e sempre valia alguma coisa: quando plantar sementes, onde achar as coisas, mapas e histórias e estórias – eles eram sempre bons para uma refeição e companhia. Informação era uma coisa valorosa, e aqueles que a tinham ou podiam obtê-la podiam cobrar por este serviço.

Nos últimos anos, nos mudamos de uma economia de escassez da informação para uma dirigida por um excesso de informação. De acordo com o Eric Schmidt do Google, a cada dois dias agora a raça humana cria tanta informação quanto criávamos desde o início da civilização até 2003. Isto é cerca de cinco exobytes de dados por dia, para vocês que mantém a contagem. O desafio se torna não encontrar aquela planta escassa crescendo no deserto, mas encontrar uma planta específica crescendo em uma floresta. Precisaremos de ajuda para navegar nesta informação e achar a coisa que precisamos de verdade.

Bibliotecas são lugares que pessoas vão para obter informação. Livros são apenas a ponta do iceberg da informação: eles estão lá, e bibliotecas podem fornecer livros gratuitamente e legalmente. Crianças estão emprestando livros de bibliotecas hoje mais do que nunca – livros de todos os tipos: de papel e digital e em áudio. Mas as bibliotecas também são, por exemplo, lugares onde pessoas que não tem computadores, que podem não ter conexão à internet, podem ficar online sem pagar nada: o que é imensamente importante quando a forma que você procura empregos, se candidata para entrevistas ou aplica para benefícios está cada vez mais migrando para o ambiente exclusivamente online. Bibliotecários podem ajudar estas pessoas a navegar neste mundo.

Eu não acredito que todos os livros irão ou devam migrar para as telas: como Douglas Adams uma vez me falou, mais de 20 anos antes do Kindle aparecer, um livro físico é como um tubarão. Tubarões são velhos: existiam tubarões nos oceanos antes dos dinossauros. E a razão de ainda existirem tubarões é que tubarões são melhores em serem tubarões do que qualquer outra coisa que exista. Livros físicos são durões, difíceis de destruir, resistentes à banhos, operam a luz do sol, ficam bem na sua mão: eles são bons em serem livros, e sempre existirá um lugar para eles. Eles pertencem às bibliotecas, bem como as bibliotecas já se tornaram lugares que você pode ir para ter acesso à e-books, e áudio-livros e DVDs e conteúdo na web.

onmyoji - reiko okanoUma biblioteca é um lugar que é um repositório de informação e dá a cada cidadão acesso igualitário a ele. Isso inclui informação sobre saúde. E informação sobre saúde mental. É um espaço comunitário. É um lugar de segurança, um refúgio do mundo. É um lugar com bibliotecários. Como as bibliotecas do futuro serão é algo que deveríamos estar imaginando agora.

Alfabetização é mais importante do que nunca, nesse mundo de mensagens e e-mail, um mundo de informação escrita. Precisamos ler e escrever, precisamos de cidadãos globais que possam ler confortavelmente, compreender o que estão lendo, entender as nuances e se fazer entender.

As bibliotecas realmente são os portais para o futuro. É tão lamentável que, ao redor do mundo, nós observemos autoridades locais apropriarem-se da oportunidade de fechar bibliotecas como uma maneira fácil de poupar dinheiro, sem perceber que eles estão roubando do futuro para serem pagos hoje. Eles estão fechando os portões que deveriam ser abertos.

De acordo com um estudo recente feito pela Organisation for Economic Cooperation and Development, a Inglaterra é o “único país onde o grupo de mais idade tem mais proficiência tanto em alfabetização quanto em capacidade de usar ou entender as técnicas numéricas da matemática do que o grupo mais jovem, depois de outros fatores, tais como gênero, perfis socioeconômicos e tipo de ocupações levados em consideração”.

Colocando de outro modo, nossas crianças e netos são menos alfabetizados e menos capazes de utilizar técnicas de matemática do que nós. Eles são menos capazes de navegar o mundo, de entendê-lo e de resolver problemas. Eles podem ser mais facilmente enganados e iludidos, serão menos capazes de mudar o mundo em que se encontram, ser menos empregáveis. Todas essas coisas. E como um país, a Inglaterra ficará para trás em relação a outras nações desenvolvidas porque faltará mão de obra especializada.

Livros são a forma com a qual nós nos comunicamos com os mortos. A forma que aprendemos lições com aqueles que não estão mais entre nós, que a humanidade se construiu, progrediu, fez com que o conhecimento fosse incremental ao invés de algo que precise ser reaprendido, de novo e de novo. Existem contos que são mais velhos que alguns países, contos que sobreviveram às culturas e aos prédios nos quais eles foram contados pela primeira vez.

Cronicas dos KaneEu acho que nós temos responsabilidades com o futuro. Responsabilidades e obrigações com as crianças, com os adultos que essas crianças se tornarão, com o mundo que eles habitarão. Todos nós – enquanto leitores, escritores, cidadãos – temos obrigações. Pensei em tentar explicitar algumas dessas obrigações aqui.

Eu acredito que temos uma obrigação de ler por prazer, em lugares públicos e privados. Se lermos por prazer, se outros nos verem lendo, então nós aprendemos, exercitamos nossas imaginações. Mostramos aos outros que ler é uma coisa boa.

Temos a obrigação de apoiar bibliotecas. De usar bibliotecas, de encorajar outras pessoas a utilizarem bibliotecas, de protestar contra o fechamento de bibliotecas. Se você não valoriza bibliotecas então você não valoriza informação ou cultura ou sabedoria. Você está silenciando as vozes do passado e você está prejudicando o futuro.

Temos a obrigação de ler em voz alta para nossas crianças. De ler pra elas coisas que elas gostem. De ler pra elas histórias das quais já estamos cansados. Fazer as vozes, fazer com que seja interessante e não parar de ler pra elas apenas porque elas já aprenderam a ler sozinhas. Use o tempo de leitura em voz alta para um momento de aproximação, como um tempo onde não se fique checando o telefone, quando as distrações do mundo são postas de lado.

Temos a obrigação de usar a linguagem. De nos esforçarmos: descobrir o que as palavras significam e como empregá-las, nos comunicarmos claramente, de dizer o que estamos querendo dizer. Não devemos tentar congelar a linguagem, ou fingir que é uma coisa morta que deve ser reverenciada, mas devemos usá-la como algo vivo, que flui, que empresta palavras, que permite que significados e pronúncias mudem com o tempo.

Harry Potter e a Pedra FilosofalNós escritores – e especialmente escritores para crianças, mas todos os escritores – temos uma obrigação com nossos leitores: é a obrigação de escrever coisas verdadeiras, especialmente importantes quando estamos criando contos de pessoas que não existem em lugares que nunca existiram – entender que a verdade não está no que acontece mas no que ela nos diz sobre quem somos. A ficção é a mentira que diz a verdade, afinal. Temos a obrigação de não entediar nossos leitores, mas fazê-los sentir a necessidade de virar as páginas. Uma das melhores curas para um leitor relutante, afinal, é uma estória que eles não são capazes de parar de ler. E enquanto nós precisamos contar a nossos leitores coisas verdadeiras e dar a ele armas e dar a eles armaduras e passar a eles qualquer sabedoria que recolhemos em nossa curta estadia nesse mundo verde, nós temos a obrigação de não pregar, não ensinar, não forçar mensagens e morais pré-digeridas goela abaixo em nossos leitores como pássaros adultos alimentando seus bebês com vermes pré-mastigados; e nós temos a obrigação de nunca, em nenhuma circunstância, escrever nada para crianças que nós mesmos não gostaríamos de ler.

Temos a obrigação de entender e reconhecer que enquanto escritores para crianças nós estamos fazendo um trabalho importante, porque se nós estragarmos isso e escrevermos livros chatos que distanciam as crianças da leitura e de livros, nós estaremos menosprezando o nosso próprio futuro e diminuindo o deles.

Todos nós – adultos e crianças, escritores e leitores – temos a obrigação de sonhar acordado. Temos a obrigação de imaginar. É fácil fingir que ninguém pode mudar coisa alguma, que estamos num mundo no qual a sociedade é enorme e que o indivíduo é menos que nada: um átomo numa parede, um grão de arroz num arrozal. Mas a verdade é que indivíduos mudam o seu próprio mundo de novo e de novo, indivíduos fazem o futuro e eles fazem isso porque imaginam que as coisas podem ser diferentes.

Olhe à sua volta: eu falo sério. Pare por um momento e olhe em volta da sala em que você está. Eu vou dizer algo tão óbvio que a tendência é que seja esquecido. É isto: que tudo o que você vê, incluindo as paredes, foi, em algum momento, imaginado. Alguém decidiu que era mais fácil sentar numa cadeira do que no chão e imaginou a cadeira. Alguém tinha que imaginar uma forma que eu pudesse falar com vocês em Londres agora mesmo sem que todos ficássemos tomando uma chuva. Este quarto e as coisas nele, e todas as outras coisas nesse prédio, esta cidade, existem porque, de novo e de novo e de novo as pessoas imaginaram coisas.

Temos a obrigação de fazer com que as coisas sejam belas. Não de deixar o mundo mais feio do que já encontramos, não de esvaziar os oceanos, não de deixar nossos problemas para a próxima geração. Temos a obrigação de limpar tudo o que sujamos, e não deixar nossas crianças com um mundo que nós desarrumamos, vilipendiamos e aleijamos de forma míope.

Temos a obrigação de dizer aos nossos políticos o que queremos, votar contra políticos ou quaisquer partidos que não compreendem o valor da leitura na criação de cidadãos decentes, que não querem agir para preservar e proteger o conhecimento e encorajar a alfabetização. Esta não é uma questão de partidos políticos. Esta é uma questão de humanidade em comum.

Uma vez perguntaram a Albert Einstein como ele poderia tornar nossas crianças inteligentes. A resposta dele foi simples e sábia. “Se você quer que crianças sejam inteligentes”, ele disse, “leiam contos de fadas para elas. Se você quer que elas sejam mais inteligentes, leia mais contos de fadas para elas”. Ele entendeu o valor da leitura e da imaginação. Eu espero que possamos dar às nossas crianças um mundo no qual elas possam ler, e que leiam para elas, e imaginar e compreender.

• Esta é uma versão editada da palestra do Neil Gaiman para a Reading Agency, realizada dia 14 de outubro de 2013 (segunda-feira) no Barbican em Londres. A série anual de palestras da Reading Agency começou em 2012 como uma plataforma para que escritores e pensadores compartilhassem ideias originais e desafiadoras sobre a leitura e as bibliotecas.

(Entrevista) Múmias egípcias: Esse tema dá trabalho!

Recentemente a bióloga e mestra em ecologia Cassiana Purcino convidou-me para responder algumas questões para um blog cujo intuito é realizar a divulgação cientifica para crianças. Quando eu respondi as perguntas estava tão cansada que esqueci completamente que o alvo é o público infantil e por isso ela precisou adaptar as minhas respostas, cortar algumas coisas, ou seja, dei um pouquinho de trabalho para ela e para a colega de postagens, a Cláudia Carnevalli. Ambas escrevem no blog Criança ComCiência. O tema da entrevista é sobre o estudo de múmias e foi publicada no dia 10 de janeiro (2015).

Como o texto é grande (contando com dicas para leituras e algumas palavras do professor Antonio Brancaglion Junior) coloquei aqui somente a minha parte, mas quem quiser ler o artigo completo é só clicar aqui.

Esse tema dá trabalho!

O que você acha de trabalhar pesquisando as múmias egípcias? Pois saiba que, mesmo no Brasil, a milhares de quilômetros de distância do Egito, é possível seguir essa carreira. Abaixo, você pode ler nossa conversa com Márcia Jamille Costa, arqueóloga especialista no estudo do Antigo Egito, autora do livro Uma Viagem pelo Nilo e do blog Arqueologia Egípcia, que deu algumas dicas para quem se interessa pela profissão.

Criança ComCiência (CCC): Para quem quer pesquisar as múmias e os processos de mumificação, que carreira deve seguir?

Márcia Jamille Costa (MJC): Antigamente, os profissionais que estudavam as múmias eram

Ilustração de Marek Jaguck.

Ilustração de Marek Jaguck.

aqueles cuja formação estava ligada a alguma área das ciências médicas e com pouca ou nenhuma ligação com a Arqueologia, isto quando as dissecações (ato de desenfaixar o corpo) de muitas múmias não eram feitas por aventureiros ou colecionadores de peças antigas. Felizmente, nos dias atuais o cenário é bem diferente. Os profissionais de áreas médicas, como Medicina, Biologia, Veterinária, ainda estão presentes, mas agora com especialização em Bioarqueologia (disciplina que estuda os restos mortais de seres vivos que viveram no passado) ou dentro de uma equipe que inclui vários profissionais, entre eles o arqueólogo.

CCC: Quais características e habilidades alguém que quer trabalhar nessa área precisa ter?

Ilustração de Marek Jagucki.

Ilustração de Marek Jagucki.

MJC: O fundamental é conhecer sobre esqueleto, sabendo como identificar a partir dos ossos características como o sexo, a idade e a possível causa da morte da pessoa. Também é bom conhecer um pouco sobre a estrutura muscular e a localização dos principais órgãos do corpo. Além disso, é preciso entender sobre Tanatologia, que é o estudo das mudanças físicas nos corpos, causadas pela morte; e sobre Tafonomia, que é o estudo dos processos pelo qual o corpo passou após a morte e que vai ajudar a definir o que de fato provocou a mumificação. Também acredito que o profissional tem que ter ética e consideração com os mortos. Não tem coisa mais triste e infantil durante um trabalho de campo ou laboratório do que ver um colega ou aluno brincando com partes de um corpo, como se fosse somente um objeto para a curiosidade e não o que sobrou de uma pessoa que no passado respirou, amou, odiou e que até mesmo pode ter caminhado um dia pela área do sítio arqueológico pesquisado.

CCC: Quais são os maiores desafios e as maiores alegrias no trabalho em Arqueologia Egípcia?

MJC: Alguns dos principais desafios, no caso do nosso país, ainda é a fraca união entre os pesquisadores brasileiros e o aparecimento e desaparecimento de grupos de estudos. Já em um contexto mundial é insistir em manter os estudos sobre o Antigo Egito usando técnicas e conhecimentos já muito antigos. Nesse sentido, a Egiptologia precisa se atualizar, mas poucos fazem algo de fato para mudá-la.

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Ilustração de Marek Jagucki.

Já as alegrias são muitas, mas a principal é estar em uma posição de poder conhecer a história de um ponto de vista privilegiado. Parte da minha infância e adolescência, eu passei lendo sobre a vida no Antigo Egito, mas agora sou eu quem está escrevendo e discutindo esta história e outras pessoas estão no meu antigo lugar, saciando sua curiosidade. Fora a oportunidade que tive de conversar com pessoas que eu via em documentários e admirava o trabalho. É muito legal! De vez em quando, escuto ou leio histórias de crianças ou adolescentes que ganharam o meu livro e ficaram muito felizes. É bastante satisfatório saber que o meu amor pela profissão está influenciando na educação de alguns meninos e meninas espalhados por este Brasil.

CCC: Você já foi ao Egito? É possível trabalhar com Arqueologia Egípcia sem sair do Brasil?

MJC: Nunca fui ao Egito. Tive a oportunidade de ir estudar lá uma vez, em Amarna (local onde o famoso faraó Tutankhamon nasceu e a rainha Nefertiti e o faraó Akhenaton viveram), mas optei por permanecer no Brasil e terminar meus estudos. A viagem ao Egito seria muito cara e escolhi investir meu dinheiro em outras coisas. Claro que planejo ir escavar no Egito um dia, mas não como uma estudante que precisa pagar, quero ir como arqueóloga! Quem sabe até futuramente como coordenadora de escavação… (risos)

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Ilustração de Marek Jagucki.

Sobre se é possível trabalhar com Arqueologia Egípcia sem sair do Brasil? Sim, é possível e deve ser feito. Algumas pessoas, especialmente quem está começando agora na Arqueologia, costumam acreditar que a profissão de arqueólogo se faz só escavando a areia, procurando objetos… Mas a realidade é bem diferente. Em verdade, tanto para o Egito, como para o restante do mundo, seria mais interessante aproveitar os objetos que estão em universidades e museus. Existem teorias e metodologias novas que podem ser aplicadas e proporcionar novas interpretações para o passado. As revisões de antigas traduções também são necessárias e até as análises de diários de campo podem ser desenvolvidas por arqueólogos! No meu caso, por exemplo, fiz um trabalho de discussão do uso simbólico e físico da água durante o Egito faraônico através da perspectiva da Arqueologia de Ambientes Aquáticos e isso sem precisar tocar em um grão de areia, mas aproveitando o que já foi escavado e documentado por outros colegas arqueólogos.

“Atraídos pelo Egito”, matéria comigo

O tempo passa rápido não é? Parece que foi ontem que dei uma entrevista para o “Almanaque” (encarte estudantil do jornal O Popular de Goiânia), mas não, já faz um tempão. Esta reportagem é especial para mim porque eu já tinha sido entrevistada outras vezes, mas foi a primeira vez que uma delas foi feita exclusivamente para ser publicada e ainda em um almanaque para crianças (foi em um destes que tive um dos meus primeiros contatos com o Antigo Egito).

Quem me entrevistou foi o repórter Marco Aurélio Vigário, que foi extremamente finíssimo comigo e provavelmente paciente, já que anotei toneladas de coisas para ele sobre aspectos do Antigo Egito e sobre o Tutankhamon. Ele poderia ter organizado uma tese em vez de uma reportagem, já que escrevi muita coisa mesmo. Ele também foi legal ao retomar contato, enviar o resultado e me deixar liberar para vocês baixarem.

A reportagem foi publicada no dia 23 de março (2014) e foi em um momento legal porque na mesma semana eu tinha recebido outro convite para entrevista, mas que infelizmente eu não poderia participar porque seria em São Paulo. Esta tinha uma pauta tão legal quanto: queriam fazer um tour comigo em uma exposição itinerante para falar sobre peças egípcias. Imaginem! Eu na TV falando sobre o que mais gosto!

Mesmo não podendo ir a sensação de aceitação é muito boa. É muito gratificante saber que tem gente interessada no seu tema de trabalho.

Acerca de “Atraídos pelo Egito” eu respondi perguntas desde como pode ter ocorrido a construção da Grande Pirâmide até a Maldição de Tutankhamon. É difícil definir qual questão eu gostei mais de responder, mas da matéria claro que curti muito a parte em que falam um pouco sobre como foi a minha infância. Quando a leio relembro aquela época com muito mais carinho que o usual. O Marco Aurélio encaixou a minha fala de tal forma que ficou até mais saudosa:

Márcia decidiu que seguiria esse caminho desde criança. O pai colecionava matérias sobre história antiga e a mãe a incentivava a ler. “Certa tarde ela levou para casa um almanaque do Indiana Pateta, personagem da Disney que é arqueólogo”, lembra. “Esses fatores foram fundamentais a minha escolha, mas o que contou mesmo foi a minha admiração pela profissão. Existe algo mágico em poder escavar e tocar algo que estava ‘escondido’ por tanto tempo e dar voz a pessoas que nem sequer conhecemos”, conclui.

Eu nem imaginei que soava tão bonito!

Quem quiser ler ou baixar a matéria é só clicar aqui