Viih Tube, Picasso e livros de Youtubers

Desde que a Kéfera lançou o seu livro “Muito mais que 5 minutos” e instantaneamente virou best seller vi uma onda de ódio se alastrar pela internet contra obras escritas por youtubers. Se bem que em verdade o ódio coletivo a esta profissão (sim, isto é uma profissão e por vezes mal remunerada) existe desde que alguns veículos de imprensa revelaram que vlogueiras (os) costumam receber por mês grandes somas em dinheiro, sugerindo que esta “molecada que só faz ligar a câmera na casa dos pais” estava ganhando mais que aquele cidadão que tem um “emprego de verdade”. Então deixa eu te contar que muitos destes valores revelados nem sempre são verdadeiros.

Que alguns youtubers ganham muito isso é real, mas estes contam-se nos dedos. Mas isso não é desculpa para tentar minimizar ninguém. Se seu vizinho ou você precisa acordar cedo, pegar um ónibus lotado para ir para o trabalho, ficar lá por mais de 12 horas e ganhar bem menos que eles (os youtubers) – e você os odeia por isso – só posso te dizer uma coisa: sinto muito, o mundo não é justo.

Não adianta ficar comparando a sua vida com a vida de um youtuber, não faz sentido. Muito menos xingá-lo, até porque além de ser mal-educado e desumano.

Recentemente viralizou um vídeo da vlogueira Viih Tube e o seu equivoco ao achar que um Romero Britto era Picasso. Eu não cheguei a ver o vídeo, só vi compartilhamentos aos montes. Primeiramente eu tinha pensado que era só uma criança que tinha dito uma bobagem, o que muitas dizem (e inclusive muitos adultos), e que agora estava extremamente conhecida por conta deste erro. Achei bem injusto, ninguém merece uma exposição destas. Imagine-se na seguinte situação: você na escola recebendo vários dedos apontando para a sua face no pátio com coros de “ha ha que burra!”. Agora se imagine na mesma situação, mas na internet.

capa_tudo tem uma primeira vez - ViihTubeDepois fiquei sabendo que aquela menina era a Viih Tube, a qual só conhecia o nome, mas jamais vi qualquer vídeo ou foto. Mesmo sabendo que ela é famosa em seu meio ainda assim achei os julgamentos muito injustos. Então foi que eu soube que ela tem um livro em pré-venda, editorado pela Intrínseca e dias depois eu já lia vários comentários negativos no Instragram da editora.

Vi reclamações que variavam entre “livros de youtubers estão destruindo com a literatura nacional”, que “eu me esforço tanto enviando há tantos anos meus originais para as editoras e nenhuma aceita e uma idiota desta aparece e vocês publicam”, e assim vai. Doeu o coração de ver tanto ódio destilado e tanta ignorância unida acerca de como funciona o meio editorial. Alguém que envia seu original “há tantos anos” para várias editoras deveria saber como este tipo de mercado funciona.

Bom, livros de youtubers não estão destruindo a literatura brasileira, até porque alguns são bons. A Bruna Vieira é um bom exemplo, assim como a Babi Dewet. Outros são ótimos para você sentar e dar umas boas risadas, como o da Kéfera. Fora que não é difícil ver em lançamentos de livros de youtubers os fãs não só comprarem o livro pretendido, mas passar o olho em outros. Quando você compra um livro e gosta, percebe que é divertido ler e consequentemente não é difícil pensar em procurar novos títulos, afinal, não foi assim que a maioria de nós leitores assíduos começamos?

Fora que para uma editora investir no livro de um youtuber é a mesma questão que se empenhar em um daqueles livros de colorir que as pessoas tanto criticaram. Ambos, como normalmente vendem muito, são o que mantém as contas das editoras em dia e inclusive o excedente é usado na publicação de um outro autor. Quem envia originais para várias editoras sabe muito bem que algumas cobram para que você publique, já outras não. Estas últimas usam deste excedente dos livros dos youtubers ou livros de colorir ou sei lá mais o que, para que o seu livro seja publicado (ao menos é o que se espera, mas a economia é capitalista, vai que mesmo assim algumas continuem a cobrar)… Mas claro caso ele valha a pena receber o investimento.

Então se você é um leitor apaixonado deveria estar agradecido por isto.

E sobre a questão da Viih Tube: sexta passada na Campus Party, durante a mesa sobre livros publicados por pessoas que fizeram fama na internet, foi dado todo o contexto do tal vídeo. Ele foi gravado há um ano, quando a menina tinha quatorze anos. Ela errou feio o nome do artista, muita gente teve a mesma reação dos dias de hoje e ela gravou um vídeo resposta onde ela saia na rua e perguntava para os transeuntes se eles sabiam de quem era aquela tal obra e a maioria não sabia. Ela, uma criança, errou, mas mostrou que não seria a única que poderia ter errado.

(Resenha – Livro) “A arte de pedir”, de Amanda Palmer

A arte de pedir de Amanda PalmerTítulo: A arte de pedir

Autora: Amanda Palmer

Gênero: Autobiografia

Editora: Intrínseca

Páginas: 304

Ano: 2015

ISBN: 858057689X

“Se você amar as pessoas o suficiente, elas te darão tudo”

Publicado pela Editora Intrinseca, o livro “A arte de pedir” nos leva para um passeio pelo o mundo da Amanda Palmer, cantora e artista performática, em sua crença na empatia e sua fé na humanidade, embora seja vítima de cyberbulling e até mesmo de uma ameaça da morte.

Ela nos mostra o quanto solicitar auxilio é algo natural em nós, como sociedade, ao mesmo tempo em que insistimos que pedir é uma ação vergonhosa, uma vez que as pessoas não querem sentir-se vulneráveis. A autora também explica o quanto é difícil para um artista convidar alguém, mesmo entre seus fãs, a investir no seu trabalho e é exatamente neste ponto que a vemos repassar suas experiências corajosas com o financiamento coletivo (crowdfunding) e a reação negativa de algumas pessoas em relação a isso.

Além da Amanda, somos apresentados a vários nomes, dentre eles Neil Gaiman, seu marido, e Anthony Martignetti, seu melhor amigo. E é em sua relação com essas duas figuras que a narrativa se concentra, principalmente esse último; Anthony é um dos pontos mais importantes do livro porque é ele quem ensina para ela o valor da empatia, o que a ajudará mais tarde, quando começar a criar conexões com seus fãs e essa é a grande lição do livro: criar conexões com as pessoas, algo difícil, mas que levou a Amanda a conhecer lugares e histórias incríveis.

O livro é bem escrito e nos deixa curiosos acerca das experiências (ou melhor: as aventuras) da Amanda, além de despertar a sensibilidade em nós. Definitivamente nunca mais observarei artistas performáticos da mesma forma.

Aconselho a leitura, vale a pena.

4ª Turnê Intrínseca: um pouco do que rolou em Aracaju

Por esta turnê quase chorei sangue! Isto mesmo! Dias antes eu estava em trabalho de campo e sem esperanças de poder voltar a tempo de ao menos tentar conseguir uma senha. Mas felizmente nós (a equipe) conseguimos terminar o trabalho mais cedo, o que encerrou meu pequeno drama.

O evento ocorreu no domingo, dia 29. A entrega das senhas estava marcada para começar as 12h00 na Saraiva, exceto pelo “porém” de que o a área do shopping onde fica a loja só abre a partir das 13h00.

Cheguei lá umas 11h30, praticamente já aceitando que eu não tinha conseguido a senha para entrar, mas felizmente o pessoal já estava se organizando pondo nos ouvintes o número da ordem de chegada e me surpreendi quando vi que eu era a participante número 162.

4ª Turnê Intrínseca um pouco do que rolou em Aracaju 01

Não demorou muito tempo até que a primeira leva de senhas começassem a ser distribuídas, momento em que recebemos um cartão da editora pedindo alguns dados nossos e depois nos liberaram para fazer outros afazeres até as 14h00 (horário de início das atividades). Também fomos avisados de que o evento não seria na Saraiva (eles já tinham deixado isto claro na internet, só não liberaram onde seria de fato), mas no Quality Hotel.

4ª Turnê Intrínseca um pouco do que rolou em Aracaju 02

Estava um calor desgraçado, mas não tirou a diversão da turnê. Os representantes da Intrínseca apresentaram slides mostrando os lançamentos da editora, booktrailers, trailers de filmes e responderam uma rodada de perguntas. Alguns pontos eu achei interessante compartilhar:

● Se eles aceitam originais: Foi respondido que ainda não porque apesar da aparência a Intrínseca possui um quadro de somente 50 funcionários, o que não dá suporte para atender a demanda de envio de originais, mas este é um objetivo futuro deles.

● Por que as editoras (inclusive da própria Intrínseca) insistem em vender livros com capas de filmes: Trata-se de uma parceria entre as editoras e as distribuidoras dos filmes para a divulgação de ambos os materiais. Vale lembrar que o público de filmes é imensamente maior que o público leitor. Entretanto, ao contrário de outras editoras, a Intrínseca faz somente algumas tiragens com a capa do filme, ou seja, a capa do livro como a do filme rodam juntas. Para comprar a do seu interesse é só buscar pelo ISBN.

● Se a editora dá “pitaco” no material do autor, ou se ele tem plena liberdade em por o que quiser: Sim, a editora pode dar sugestões (mudar frases, desenvolver tal personagem, tentar esclarecer ideias etc), mas que são postas na obra somente se o autor aprovar.

As outras perguntas eram mais relacionadas com lançamentos, continuações de séries etc.

4ª Turnê Intrínseca um pouco do que rolou em Aracaju 03

Para finalizar eles fizeram duas rodadas de sorteio (sortearam livros, kits com camisetas, marcadores, bandaninhas etc) e eu não ganhei nada (lágrimas correm soltas). Também fomos informados que receberíamos descontos na Saraiva comprando qualquer livro da Intrínseca e que ao final receberíamos um kit da editora com uma bolsinha, marcadores, um pin da turnê, bootons, um colar para crachá…

4ª Turnê Intrínseca um pouco do que rolou em Aracaju 04

4ª Turnê Intrínseca um pouco do que rolou em Aracaju 05

4ª Turnê Intrínseca um pouco do que rolou em Aracaju 06

… E um lápis com gírias de todas as cidades por onde a turnê passou. No meu infelizmente veio o do Rio de Janeiro… Eu queria pegar o de Sergipe.

4ª Turnê Intrínseca um pouco do que rolou em Aracaju 07

Pedi para trocar, mas não deixaram já que a ideia era ocorrer a interação entre os vários públicos… Mesmo assim eu queria Sergipe, então prometi a eles um twitter com a minha lamentação (mesmo assim não consegui trocar o lápis):

Apesar do calor dos infernos deu para curtir muito o evento. Ano que vem estarei presente novamente (se der).

(Resenha – Livro) “Erros Fantásticos: o discurso ‘Faça Boa Arte'”, de Neil Gaiman

Erros Fantasticos- o Discurso 'Faça Boa Arte'

Título: Erros Fantásticos: o discurso “Faça Boa Arte”
Autor: Neil Gaiman
Editora: Intrínseca
I.S.B.N.978-85-8057-499-9
Ano: 2014

Sendo uma transcrição em português do discurso do autor e desenhista Neil Gaiman, “Erros Fantásticos: o discurso ‘Faça Boa Arte'” é um pedido modesto, mas apresentado de forma profunda durante a sua alocução para os recém-formados da turma de 2012 da University of the Arts na Filadélfia e conseguinte mostrado graficamente neste livro pelo artista Chip Kidd.

Seguindo a linha dos discursos motivacionais usualmente apresentados por grandes nomes (vide o famoso discurso de Steve Jobs para dos formandos da University of Stanford em 2005), o discurso de Gaiman é uma tentativa de inspirar o receptor a aproveitar sua jornada de aprendizado, sua busca pelo reconhecimento e principalmente, assim que alcançar seus objetivos, tentar desfrutar do momento.

(…) relaxar e curtir a caminhada, porque a jornada o leva a alguns lugares memoráveis e inesperados.

Erros fantásticos - faça boa arte - Neil Gaiman - 01

Rememorando suas experiências, ele afirma que até por trás das moléstias do competitivo e por vezes pouco rentável mundo dos freelances existe sempre um lado positivo:

Se vocês estão cometendo erros, significa que vocês estão por aí fazendo algo. E os erros em si podem ser úteis. Uma vez escrevi Caroline errado, em uma carta, trocando o A e o O, e eu pensei, “Coraline parece um nome real…”

Erros fantásticos - faça boa arte - Neil Gaiman - 02

Em uma das passagens mais famosas ele explica que se algo der profundamente errado, que seja feita uma boa arte:

O marido fugiu com uma política(o)? Faça boa arte. Perna esmagada e depois devorada por uma jibóia mutante? Faça boa arte. IR te rastreando? Faça boa arte. Gato explodiu? Faça boa arte. Alguém na internet pensa que o que você faz é estúpido ou mau ou já foi feito antes? Faça boa arte. Provavelmente as coisas se resolverão de algum modo, e eventualmente o tempo levará a dor mais aguda, mas isso não importa. Faça apenas o que você faz de melhor. Faça boa arte.
Faça-a nos dias bons também.

Erros fantásticos - faça boa arte - Neil Gaiman - 03

Erros fantásticos - faça boa arte - Neil Gaiman - 04

Erros fantásticos - faça boa arte - Neil Gaiman - 05

O discurso completo em si está disponível para a leitura e visualização em várias plataformas da internet, mas o livro, além de ter um designer lindo, pode ser uma recordação visual sempre à disposição, rememorando as palavras de Gaiman.

Erros fantásticos - faça boa arte - Neil Gaiman - 06