(Entrevista) Múmias egípcias: Esse tema dá trabalho!

Recentemente a bióloga e mestra em ecologia Cassiana Purcino convidou-me para responder algumas questões para um blog cujo intuito é realizar a divulgação cientifica para crianças. Quando eu respondi as perguntas estava tão cansada que esqueci completamente que o alvo é o público infantil e por isso ela precisou adaptar as minhas respostas, cortar algumas coisas, ou seja, dei um pouquinho de trabalho para ela e para a colega de postagens, a Cláudia Carnevalli. Ambas escrevem no blog Criança ComCiência. O tema da entrevista é sobre o estudo de múmias e foi publicada no dia 10 de janeiro (2015).

Como o texto é grande (contando com dicas para leituras e algumas palavras do professor Antonio Brancaglion Junior) coloquei aqui somente a minha parte, mas quem quiser ler o artigo completo é só clicar aqui.

Esse tema dá trabalho!

O que você acha de trabalhar pesquisando as múmias egípcias? Pois saiba que, mesmo no Brasil, a milhares de quilômetros de distância do Egito, é possível seguir essa carreira. Abaixo, você pode ler nossa conversa com Márcia Jamille Costa, arqueóloga especialista no estudo do Antigo Egito, autora do livro Uma Viagem pelo Nilo e do blog Arqueologia Egípcia, que deu algumas dicas para quem se interessa pela profissão.

Criança ComCiência (CCC): Para quem quer pesquisar as múmias e os processos de mumificação, que carreira deve seguir?

Márcia Jamille Costa (MJC): Antigamente, os profissionais que estudavam as múmias eram

Ilustração de Marek Jaguck.

Ilustração de Marek Jaguck.

aqueles cuja formação estava ligada a alguma área das ciências médicas e com pouca ou nenhuma ligação com a Arqueologia, isto quando as dissecações (ato de desenfaixar o corpo) de muitas múmias não eram feitas por aventureiros ou colecionadores de peças antigas. Felizmente, nos dias atuais o cenário é bem diferente. Os profissionais de áreas médicas, como Medicina, Biologia, Veterinária, ainda estão presentes, mas agora com especialização em Bioarqueologia (disciplina que estuda os restos mortais de seres vivos que viveram no passado) ou dentro de uma equipe que inclui vários profissionais, entre eles o arqueólogo.

CCC: Quais características e habilidades alguém que quer trabalhar nessa área precisa ter?

Ilustração de Marek Jagucki.

Ilustração de Marek Jagucki.

MJC: O fundamental é conhecer sobre esqueleto, sabendo como identificar a partir dos ossos características como o sexo, a idade e a possível causa da morte da pessoa. Também é bom conhecer um pouco sobre a estrutura muscular e a localização dos principais órgãos do corpo. Além disso, é preciso entender sobre Tanatologia, que é o estudo das mudanças físicas nos corpos, causadas pela morte; e sobre Tafonomia, que é o estudo dos processos pelo qual o corpo passou após a morte e que vai ajudar a definir o que de fato provocou a mumificação. Também acredito que o profissional tem que ter ética e consideração com os mortos. Não tem coisa mais triste e infantil durante um trabalho de campo ou laboratório do que ver um colega ou aluno brincando com partes de um corpo, como se fosse somente um objeto para a curiosidade e não o que sobrou de uma pessoa que no passado respirou, amou, odiou e que até mesmo pode ter caminhado um dia pela área do sítio arqueológico pesquisado.

CCC: Quais são os maiores desafios e as maiores alegrias no trabalho em Arqueologia Egípcia?

MJC: Alguns dos principais desafios, no caso do nosso país, ainda é a fraca união entre os pesquisadores brasileiros e o aparecimento e desaparecimento de grupos de estudos. Já em um contexto mundial é insistir em manter os estudos sobre o Antigo Egito usando técnicas e conhecimentos já muito antigos. Nesse sentido, a Egiptologia precisa se atualizar, mas poucos fazem algo de fato para mudá-la.

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Ilustração de Marek Jagucki.

Já as alegrias são muitas, mas a principal é estar em uma posição de poder conhecer a história de um ponto de vista privilegiado. Parte da minha infância e adolescência, eu passei lendo sobre a vida no Antigo Egito, mas agora sou eu quem está escrevendo e discutindo esta história e outras pessoas estão no meu antigo lugar, saciando sua curiosidade. Fora a oportunidade que tive de conversar com pessoas que eu via em documentários e admirava o trabalho. É muito legal! De vez em quando, escuto ou leio histórias de crianças ou adolescentes que ganharam o meu livro e ficaram muito felizes. É bastante satisfatório saber que o meu amor pela profissão está influenciando na educação de alguns meninos e meninas espalhados por este Brasil.

CCC: Você já foi ao Egito? É possível trabalhar com Arqueologia Egípcia sem sair do Brasil?

MJC: Nunca fui ao Egito. Tive a oportunidade de ir estudar lá uma vez, em Amarna (local onde o famoso faraó Tutankhamon nasceu e a rainha Nefertiti e o faraó Akhenaton viveram), mas optei por permanecer no Brasil e terminar meus estudos. A viagem ao Egito seria muito cara e escolhi investir meu dinheiro em outras coisas. Claro que planejo ir escavar no Egito um dia, mas não como uma estudante que precisa pagar, quero ir como arqueóloga! Quem sabe até futuramente como coordenadora de escavação… (risos)

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Ilustração de Marek Jagucki.

Sobre se é possível trabalhar com Arqueologia Egípcia sem sair do Brasil? Sim, é possível e deve ser feito. Algumas pessoas, especialmente quem está começando agora na Arqueologia, costumam acreditar que a profissão de arqueólogo se faz só escavando a areia, procurando objetos… Mas a realidade é bem diferente. Em verdade, tanto para o Egito, como para o restante do mundo, seria mais interessante aproveitar os objetos que estão em universidades e museus. Existem teorias e metodologias novas que podem ser aplicadas e proporcionar novas interpretações para o passado. As revisões de antigas traduções também são necessárias e até as análises de diários de campo podem ser desenvolvidas por arqueólogos! No meu caso, por exemplo, fiz um trabalho de discussão do uso simbólico e físico da água durante o Egito faraônico através da perspectiva da Arqueologia de Ambientes Aquáticos e isso sem precisar tocar em um grão de areia, mas aproveitando o que já foi escavado e documentado por outros colegas arqueólogos.

“Atraídos pelo Egito”, matéria comigo

O tempo passa rápido não é? Parece que foi ontem que dei uma entrevista para o “Almanaque” (encarte estudantil do jornal O Popular de Goiânia), mas não, já faz um tempão. Esta reportagem é especial para mim porque eu já tinha sido entrevistada outras vezes, mas foi a primeira vez que uma delas foi feita exclusivamente para ser publicada e ainda em um almanaque para crianças (foi em um destes que tive um dos meus primeiros contatos com o Antigo Egito).

Quem me entrevistou foi o repórter Marco Aurélio Vigário, que foi extremamente finíssimo comigo e provavelmente paciente, já que anotei toneladas de coisas para ele sobre aspectos do Antigo Egito e sobre o Tutankhamon. Ele poderia ter organizado uma tese em vez de uma reportagem, já que escrevi muita coisa mesmo. Ele também foi legal ao retomar contato, enviar o resultado e me deixar liberar para vocês baixarem.

A reportagem foi publicada no dia 23 de março (2014) e foi em um momento legal porque na mesma semana eu tinha recebido outro convite para entrevista, mas que infelizmente eu não poderia participar porque seria em São Paulo. Esta tinha uma pauta tão legal quanto: queriam fazer um tour comigo em uma exposição itinerante para falar sobre peças egípcias. Imaginem! Eu na TV falando sobre o que mais gosto!

Mesmo não podendo ir a sensação de aceitação é muito boa. É muito gratificante saber que tem gente interessada no seu tema de trabalho.

Acerca de “Atraídos pelo Egito” eu respondi perguntas desde como pode ter ocorrido a construção da Grande Pirâmide até a Maldição de Tutankhamon. É difícil definir qual questão eu gostei mais de responder, mas da matéria claro que curti muito a parte em que falam um pouco sobre como foi a minha infância. Quando a leio relembro aquela época com muito mais carinho que o usual. O Marco Aurélio encaixou a minha fala de tal forma que ficou até mais saudosa:

Márcia decidiu que seguiria esse caminho desde criança. O pai colecionava matérias sobre história antiga e a mãe a incentivava a ler. “Certa tarde ela levou para casa um almanaque do Indiana Pateta, personagem da Disney que é arqueólogo”, lembra. “Esses fatores foram fundamentais a minha escolha, mas o que contou mesmo foi a minha admiração pela profissão. Existe algo mágico em poder escavar e tocar algo que estava ‘escondido’ por tanto tempo e dar voz a pessoas que nem sequer conhecemos”, conclui.

Eu nem imaginei que soava tão bonito!

Quem quiser ler ou baixar a matéria é só clicar aqui

Desta vez eu me tornei a entrevistadora

Foi publicada na semana passada no Arqueologia em Ação o vídeo da entrevista que o meu colega da Arqueologia, Ms. Luis Felipe Freire, concedeu para mim durante o congresso da SAB na cidade de Aracaju, em agosto deste ano. Ele se formou na mesma época que eu no mestrado em Arqueologia e chegou a ser o meu dupla durante algumas aulas de mergulho cientifico para a Arqueologia Subaquática.

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Na entrevista ele comenta acerca dos sítios plurais que podem ser encontrados submersos, desde cidades que foram cobertas pelas águas até mesmo naufrágios de aviões. Também explica como é possível trabalhar com esta área no país. Vale a pena dar uma conferida.

Agora a parte engraçada:

Foi a primeira vez que eu vesti a camisa de entrevistadora e a cena inicial, a que começo a explicar onde estamos, etc, precisei falar várias vezes porque não conseguia dizer o nome do evento. Para variar, quando finalmente consegui fazer a cena eu falei muito rápido, então parabéns gente! Vocês me viram falando rápido!

Outra coisa, assim que terminei esta introdução e me virei para o Felipe confesso que naquela hora quase desabei na gargalhada. Não lembro o motivo, acho que quase falei algo como “E aí cara! Beleza?”.

Durante a entrevista. Na ordem: Ms. Glória Tega Calipo, Ms. Luis Felipe Freire e Ms. Márcia Jamille Costa. Foto: João Carlos Moreno. 2013.

Durante a entrevista. Na ordem: Ms. Glória Tega Calipo, Ms. Luis Felipe Freire e Ms. Márcia Jamille Costa. Foto: João Carlos Moreno. 2013.

Para variar, eu estava bem nervosa com a presença da repórter Glória T. Calippo: Eu não queria realizar nenhuma entrevista, mas achei que iria ser uma experiência bem diferente e fui com a cara e a coragem. Mas quando vi uma repórter segurando uma câmera confesso que toda aquela coragem inicial começou a minguar e pensei “Eu sou arqueóloga, não repórter! O que estou fazendo da minha vida?”. Ela tentou me tranquilizar, mas na boa, eu sou bem insegura e o meu nível de timidez chega ao zênite. Mas no geral foi uma experiência bem divertida. Valeu ter participado.

Bom, estas foram algumas curiosidades do que rolou neste dia.