(Comentários) III Semana Internacional de Arqueologia “André Penin”

Ocorrida entre os dias 22 e 27 de abril no prédio da História e Geografia (FFLCH) da USP, a III Semana Internacional de Arqueologia “André Penin” do MAE-USP buscou levantar discussões de âmbito interdisciplinar acerca dos caminhos que a Arqueologia está seguindo tanto no Brasil, como no mundo. Além dos debates acadêmicos, o evento efetuou uma homenagem ao falecido Prof. Dr. André Penni, que deixou como legado uma louvável produção acadêmica. Como não tirei nenhuma fotografia postarei aqui aquelas que foram efetuadas pela organização e que estão disponíveis na página do Facebook da mesma.

No evento ocorreram atividades como mesas redondas, palestras, comunicações, um workshop, exposições de fotografias, um passeio pela reserva técnica e mostra de cinema. Aqueles que estavam previamente inscritos ganharam uma bolsa com a programação do evento, folders, mapas da universidade e um cartão com a lista de materiais que podem ser analisados pelos testes de Carbono 14.

 

Apresentação de comunicação na III Semana Internacional de Arqueologia “André Penin”. Foto: Evento (Divulgação).

 

Em termos gerais foi uma semana extremamente produtiva e com um bom público composto não só por arqueólogos e estudantes de Arqueologia, mas por estudantes de História e Geografia (aparentemente surgiu de Literatura também), além de (minha parte favorita) curiosos. É extremamente gratificante quando alguém de fora da academia ou não pertencente ao meio das Ciências Humanas comparecem aos eventos de Arqueologia, especialmente porque esta é uma experiência diferente da de ler uma revista sobre o assunto ou ver um documentário, já que são os próprios pesquisadores que estão na frente de um público falando da sua experiência. Um exemplo: sabem aquela famosa descoberta do túmulo do Senhor de Sipan? No evento o Quirino Olivera Núñez do Museu Sipan estava lá, assim como o Jürgen Golte (UNMSM), que explicou um pouco do seu trabalho com a iconografia mochica. Ambos estavam na mesa redonda “Arqueologia Pré-Colombiana” ao lado de Javier Nastri (UBA).

Palestra de Claire Smith (Flinders Uni/WAC) na III Semana Internacional de Arqueologia “André Penin”. MAE-USP. Foto: Evento (Divulgação).

Todas as palestras que assisti foram ótimas (só não vi a de Fred Limp – UARK/SAA – mas comentaram que foi bem instrutiva), mas a minha favorita, definitivamente, foi a da Claire Smith (Flinders Uni/WAC). Eu estava extremamente interessada em assistir a dela e não me arrependi. A profa. Smith comentou acerca da sua experiência como avaliadora de projetos que buscam fomentos (na palestra ela deu dicas de como escrever o pedido), a importância da publicação acadêmica, como publicar o seu livro e comentou a evolução da vida acadêmica de um (a) arqueólogo (a) de uma forma bem cômica.

Acerca das mesas redondas uma bem interessante foi “Arqueologia em Construção”, que discutiu sobre o papel da Arqueologia de Contrato versus a Acadêmica e que anunciou a possível abertura de uma graduação em Arqueologia na USP em 2015, informação apresentada no documento também denominado de “Arqueologia em construção”, produzido pelo Grupo de Trabalho “Arqueologia de Contrato” (dos estudantes do PPGARQ- MAE-USP) e disponibilizado previamente para os inscritos no evento. Nesta mesa foi possível até notar um pouco do preconceito ou rancor (nunca se sabe) que alguns dos alunos da Pós-Graduação em Arqueologia sentem pelos estudantes da graduação da mesma área. Vi isto durante o momento em que uma estudante de graduação fez uma pergunta para a mesa, imediatamente um rapaz logo atrás de mim falou algo como “Está na hora de se livrar destas crianças da graduação” e outro na minha frente disse “Cala a boca” em relação a garota, ambos com a voz baixa. Infelizmente os dois não estavam presentes no auditório quando a Profa. Dra. Marcia Bezerra comentou, não nestes termos, que as pessoas não deveriam subestimar os estudantes de graduação em Arqueologia, já que muitos daqueles que se formaram no extinto curso da Universidade Estácio de Sá hoje estão em ótimos cargos acadêmicos e fazendo muito pela Arqueologia ultimamente. Aplausos para a Profa. Márcia.

O formidável de todas estas mesas redondas, palestras e comunicações é que é possível sempre aprender mais além do que corriqueiramente vemos em sala de aula, inclusive o lado podre (a exemplo destes comentários bizarros dos alunos citados anteriormente).

 

Para as palestras e mesas com participantes estrangeiros, receptores para tradução simultânea foram disponibilizados. Foto: Evento (Divulgação).

 

Sobre a exposição de banners creio que um dos pontos positivos partiu da própria organização do evento que premiou os trabalhos mais criativos (não no sentido visual – diga-se o banner mais bonito -, mas cujo tema fosse diferente e que levantasse bons questionamentos), que apresentaram um tema relevante e a própria apresentação do pesquisador (se ele dominava o assunto). Isto mostra que conscientemente ou não eles não aprovam o método Salami Science, que nada mais é que aquela irritante prática de fatiar o seu trabalho para publicá-lo em diferentes revistas [1]. Felizmente o banner que achei mais completo e que foi bem apresentado pelo pesquisador (embora ele estivesse visivelmente nervoso) foi o que ficou empatado com outro em segundo lugar [2]. O trabalho dele foi sobre um software (a boba aqui não anotou o nome) capaz de catalogar e contar peças arqueológicas. Espero que ele leve a pesquisa adiante, afinal, contar mais de quinhentas peças não é tão divertido.

National Geographic Brasil. Maio, 2010.

Já a visita agendada a reserva técnica não foi o esperado, eu (e como mais tarde descobri também um estudante de História que trabalha com o mundo helênico) realmente acreditei que veria todas as áreas da reserva do MAE, inclusive a de Arqueologia Clássica, mas não foi bem assim, só visitamos a sala em que estão as peças amazônicas retidas pelo o Ministério Público e que outrora pertenceram ao banqueiro Edemar Cid Ferreira (se não me falha a memória, depois confirmarei esta minha informação). Mesmo assim não foi um início de tarde perdido, pelo contrário, foi instrutivo, principalmente porque não sei nada sobre Arqueologia Amazônica e tive o privilégio de ter estudantes e profissionais da área explicando acerca dos artefatos que estavam bem ao nosso lado. Definitivamente nem de longe uma experiência assim se compara a uma visita normal a um museu guiado por um guia turístico ou um funcionário que precisou decorar o roteiro. De forma alguma estou fazendo propaganda contra a visitação de museus, mas é que desde que entrei na Arqueologia perdi grande parte do fascínio de frequentar uma exposição, já que normalmente vamos para a reserva técnica e são sempre lá que ficam as peças não analisadas, as frágeis de mais para ir para exposição e as verdadeiras (neste caso quando a exposição é montada com réplicas, permitindo assim a fotografia, o que também não é ruim).

Esta reserva técnica em questão está aberta a visita de gente comum também (em contrapartida, a exposição está fechada), é só ligar para o MAE e agendar. Lembrem-se que não devem tirar fotos e nem tocar nas peças. Será um passeio bem interessante, sobretudo porque é lá onde estão se formando alguns dos especialistas em Arqueologia Amazônica do Brasil, área que está ganhando destaque no nosso país já que caiu nas graças da mídia, a National Geographic que o diga, a revista publicou uma matéria maravilhosa do Prof. Dr. Eduardo Goes Neves (PPGArq-MAE/USP), “Amazônia Ano 1000”, em Maio de 2010 e este ano (Abril, 2013) disponibilizou outra matéria falando acerca da Arqueologia no nosso país, mais especificamente em São Paulo.

 

Os trabalhos de Egiptologia no evento:

Princesa Nofret (IV Dinastia). Fonte da imagem: EINAUDI, Silvia. Coleção Grandes Museus do Mundo: Museu Egípcio Cairo (Tradução de Lúcia Amélia Fernandez Baz). 1º Título. Rio de Janeiro: Folha de São Paulo, 2009.

Estavam previstas duas comunicações e um pôster e somente uma conferencista compareceu. O quadro não foi nada animador. Acho que este problema já é endêmico, uma vez que o número de apresentações de estudantes de Arqueologia que estão se especializando em Egiptologia não é nada promissor. Neste sentido os alunos de História, que também estão se especializando em Egiptologia, estão de parabéns porque até evento exclusivo para a área eles estão sempre realizando.

 

Como conclusão, o que falar?

Espero que o evento continue crescendo e que o número de evasão de conferencistas e apresentadores de pôsteres diminua, já que a III Semana tornou-se um excelente espaço aberto para debates. Outros eventos de Arqueologia para discussões gerais já estão agendados ou já passaram. Em Brasília ocorreu o “2º Encontro de Arqueologia em Brasília: Arqueologia e politicas Públicas de Cultura – Construindo Pontes” e “2º reunião da SAB Centro-Oeste: Arqueologia Pública. Pesquisas Correntes” ambos unidos no mesmo espaço nos dias de 14 até 17 de maio de 2013 e em Recife será realizado o “V Encontro Regional de Estudantes de Arqueologia (EREARQ-NE)” entre os dias 29 de julho e 03 de agosto e por fim a Reunião Geral da Sociedade de Arqueologia Brasileira no “XVII Congresso da SAB – Arqueologia sem Fronteiras: Repensando espaço, tempo e agentes”, em Aracaju, que ocorrerá entre 25 a 30 de agosto de 2013 (estarei presente neste último).

 

[1] Explicando mais acerca do Salami Science: diz respeito aos pesquisadores que possuem um artigo publicado (ou não) e dele pega tópicos para dividir em vários outros trabalhos, especialmente pôsteres, daí o pôster fica sem muito sentido. Apesar de não ser uma pratica boa para o pensamento cientifico é a mais popular onde a “produtividade” acaba valendo mais que a “qualidade”.

[2] O nome do estudante é Aldo Magaló (Via João Carlos Moreno de Sousa).

 

 

 

Meu novo título: mestra em Arqueologia

No dia 26 de março (2013) passei por uma banca de avaliação do Programa de Arqueologia da UFS, onde recebi o título de mestre. No mesmo dia deixei uma mensagem de agradecimento na página do A.E no Facebook:

Minha mensagem na página do Facebook (2013).

Mais uma vez quero agradecer a todos, tanto a banca de avaliação, como os ouvintes que deram a maior força para tentar criar um ar tranquilo, como também aos leitores, que enviaram mensagens de felicitações.

Momento da defesa. Na imagem da esquerda para a direita: Márcia Jamille N. Costa, Profa. Dra Elizabete de Castro Mendonça, Prof. Dr. Gilson Rambelli e Prof. Dr. Paulo Fernando Bava de Camargo. Fotografia de Beijanizy Abadia (2013).

Agora, pouco mais de uma semana após a aprovação é estranho passar mais de três dias em casa sem precisar pensar na UFS, minha Alma mater, uma instituição que fez parte da minha vida nos últimos seis anos. Para variar as perguntas começam a surgir com mais frequência: como será daqui para frente? Quais os tipos de pessoas as quais terei que me habituar? Onde irei trabalhar? Esta última é a mais louca já que são pouquíssimos os que conseguem se sustentar no Brasil trabalhando somente com o Antigo Egito, se eu conseguir ser uma deles será para mim um feito satisfatório.

Dois amigos inseparáveis até no momento de terminar a dissertação: meus computadores. Foto: Márcia Jamille (2013).

Agora que tudo já passou não sei qual o próximo passo tomar. Obviamente quero tentar um doutorado, mas não escolhi ainda a instituição. Já tive algumas ideias para temas (desta vez um que seja mais fácil que este do Mestrado), mas estou pensando em tentar voltar com o meu antigo “terreno seguro”, que são os anos finais da 18ª Dinastia, não que eu esteja subestimando esta titulação, mas é um período temporal que amo tanto e nada mais justo que pensar em trabalhar com algo que gosto muito.

A Estranha Tribo dos Arqueólogos

Infelizmente não consigo lembrar o nome do arqueólogo que escreveu isto, mas ele tinha um blog bem interessante, é uma pena que tenha fechado a página. O endereço era http://colunistas.ig.com.br/indianasilva/ e exista um texto, inclusive, em que ele falava da diferença entre os homens e as mulheres em campo e as relações dos arqueólogos (as) com suas famílias ao longo dos anos. Eram artigos com visões pessoais das quais algumas eu não concordava, mas eram divertidos de ler.

O texto abaixo é o único que deixei salvo, ele fala um pouco sobre os “novatos” em campo e as aspirações de jovens no mundo “louco” da Arqueologia:

A Estranha Tribo dos Arqueólogos

Todos os anos, em verdade a cada semestre, centenas de jovens em idade universitária desembarcam no centro oeste do país, nas florestas amazônicas, no sertão nordestino, nas praias de Santa Catarina. Seu objetivo imediato: passar algumas semanas numa escavação arqueológica de verdade, entre trincheiras, sondagens, aparelhos GPS, pás, peneiras, baldes, trenas, metros, barro e mosquitos, muitos mosquitos.

Aqueles que estão ali pela segunda vez talvez tenham aprendido algumas lições práticas e tenham providenciado também roupas longas – mesmo sob o sol escaldante – largos chapéus de palha, protetor solar, repelente de insetos, botas resistentes, capas de chuva, aparelhos tocadores de MP3.

Mas boa parte deles estará ali pela primeira vez e, mesmo com os demais sabendo do sofrimento alheio, terão de passar sozinhos pelas provações de seu primeiro campo.

Por incrível que pareça as garotas – em geral mais inteligentes do que os rapazes – gostam tanto dessa experiência quanto eles e chegam em quantidade equivalente. Todas muito meninas, tanto quanto os rapazes (embora alguns exibam vastas cabeleiras e barbas, conquistadas a custo durante seus primeiros anos de curso universitário em humanidades).

Com algum tempo vão aprender também que barbas e cabelos longos tem benefícios e desvantagens. Se estiver sendo atacado por insetos ou sob um sol de rachar mamona a barba e o cabelo vão te proteger e diminuir a área exposta. Por outro lado, o calor será maior e se trombar com um cacho de formigas, carrapatos, micuins ou qualquer coisa que entranhe em seus pelos se arrependerá amargamente de não ter raspado até o último fio do seu corpo.

Pergunto a um deles: O que te fez buscar a arqueologia?

“Nenhuma outra atividade me ofereceria a oportunidade de conhecer lugares tão distantes sem ter de gastar nada, aprendendo e ainda ganhando alguma coisa. Além do mais os campos de arqueologia são o mais próximo que você terá de uma experiência comunitária com gente da sua idade.”

A verdade é que alguém que sobreviva aos dois primeiros anos da arqueologia tem grandes chances de se tornar um grande conhecedor do país e mesmo de lugares mais distantes, como América Latina, Oriente Médio, Grécia. E isso sem ter que depender dos recursos familiares.

Mas há sempre num acampamento de arqueólogos – ou mesmo numa pensãozinha pouco recomendável perdida no oco do mundo – muita gente que foi atraída pelos filmes de aventura. Tesouros, templos escondidos, canibais e coisas do tipo ainda povoam as cabecinhas juvenis de muitos que chegam as salas de aula de arqueologia, mas, mesmo depois de um ou dois semestres de aula, os sonhos não se dissipam totalmente. Nunca vi nenhum destes jovens não ficar absolutamente eufórico diante da escavação de uma urna funerária, de um enterramento. Sem contar os que se dedicam à arqueologia clássica, à egiptologia ou à subaquática, escavando navios afundados, resgatando “tesouros de pirata” (embora não possam ficar com um dobrãozinho sequer).

Eles levantam de manhã, por volta das seis da matina, põem roupa surrada, tomam café, passam protetor nas partes expostas, arruma ma roupa de modo a não deixar espaço para insetos entrarem, tomam um banho de repelente, arrumam a mochila, preparam o lanche, conferem o equipamento pessoal, as anotações, metem o chapéu na cabeça e vão para o transporte coletivo, em geral uma Kombi caindo aos pedaços. Muito tempo sacolejando até o ponto mais próximo da escavação, dividindo espaço com trabalhadores braçais contratados na região, para fazerem o esforço mais bruto. Chegam ao lugar, e então mais uma longa caminhada, que pode durar até hora ou mais. Por volta das oito ou nove da manhã estão finalmente escavando.

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