Conhecendo Campinhos, a casa mais antiga de Umbaúba

Quando eu estava procurando o tal livro com a história de Umbaúba fui até a Casa de Cultura da cidade com um colega de equipe e fomos apresentados ao Diretor de Cultura de Umbaúba, o Edvânio Alves, a gentileza em pessoa, e que nos mostrou fotos antigas de eventos e residências da cidade, contou sobre os aspectos principais da memória oral e se ofereceu para nos levar para a casa mais antiga de Umbaúba que ainda está de pé. Naturalmente ficamos muito felizes e agradecidos pela proposta.

Eu em frente da Casa Grande do antigo Engenho Campinhos; Umbaúba (SE). Foto: Evaney Simões. 2015.

Coincidentemente a outra parte da equipe também recebeu semelhante convite, mas por parte do Secretário de Educação, o Joaquim Francisco Soares Guimarães e acabou que resolvemos ir todos juntos.

Fomos no horário da tarde (pela manhã visitamos o povoado Guararema… Tema para outro post) e a expectativa era enorme, já que era uma antiga casa de engenho, uma das marcas da economia sergipana no século XIX. Quando chegamos estava lá, a residência de Campinhos, em pé, só não saudável. O edifício possui muitos problemas estruturais e a família está fazendo o que pode para manter a memória do local viva.

A presença de vidro nas janelas é um dos sinais da grande distinção econômica desta casa entre os séculos XIX e início do XX.

Infelizmente foi aproveitando essa fragilidade que um dos artefatos históricos guardados no local sofreu um furto (daí tem gente que ainda escreve para mim perguntando como comprar artefatos arqueológicos… Tenha dó! Alguns destes objetos não são furtados somente de sítios, mas também da casa de pessoas indefesas, como é o caso da dona Maria), mas que felizmente foi recuperado pela polícia.

Os cabelos desta imagem são humanos.

Fragmento de faiança fina encontrada na área onde existia o grande salão.

Lá é genuinamente um sítio arqueológico, deste a própria estrutura da casa principal até artefatos encontrados fragmentados no chão. Eu realmente fiquei assombrada com a qualidade da residência, naturalmente ela recebeu algumas intervenções modernas, mas foi interessante esbarrar em alguma coisa ou outra do XIX… Inteira!

Uma das paredes da cozinha.

Uma das paredes da cozinha.

O grande salão do casario não existe mais, ele colapsou na contemporaneidade, assim como a Igreja centenária da propriedade, uma pena… Dela só sobraram ruínas; observamos o local (eu filmei um pouco, verei como mostrarei para vocês) e deu para saber como ocorreu o evento do desmoronamento, só não pudemos ver o que sobrou embaixo, afinal ali é um sítio arqueológico, não iremos sair por aí remexendo em tudo sem permissão.

O que sobrou em pé da Igreja.

Vista das ruínas da Igreja.

Depois sentamos para entrevistar a dona Maria de Lourdes que falou de muitos detalhes de sua infância e até de um eclipse solar em sua juventude. Demos também uma passada pelo terreno e catalogamos o antigo cemitério (que já está desativado há anos) onde identificamos um pedaço de tíbia humana.

Dona Maria de Lourdes.

Foi uma tarde extremamente agradável e todas as pessoas que conheci ficarão na minha memória, mas não somente pela simpatia do Joaquim, a gentileza do Edvânio, a receptividade da dona Maria e do Neuzito,  mas pela jaca que ganhei 😀

Parte da equipe da Contextos Arqueologia que está participando deste trabalho. Foto: Evaney Simões. 2015.


*Todas as fotografias sem referência ao autor foram batidas por mim.

Brincando de “Orgulho e Preconceito” e “Downton Abbey”

São felix 3 - 2015

Fazenda São Félix em Santa Luzia. 2015.

Anunciei na página do Facebook do Arqueologia Egípcia que recentemente estou trabalhando no diagnóstico e prospecção arqueológica da área da adutora de água de Santa Luzia, Itabaianinha e Tomar do Geru (SE) (resumindo: estamos estudando a área e realizando “pequenas escavações” para saber qual o potencial arqueológico do lugar) e durante os trabalhos nós visitamos também lugares históricos da região — Leia aqui o primeiro texto que escrevi acerca no #AEgípcia —.

São felix 2 - 2015

Fazenda São Félix em Santa Luzia. 2015.

São felix 1 - 2015

Fazenda São Félix em Santa Luzia. 2015.

São felix-2015

Fazenda São Félix em Santa Luzia. Foto: Evaney Simões. 2015.

Claro que graças ao trabalho, que pega muito tempo e energia, eu estou negligenciando todas as atualizações relacionadas com o Arqueologia Egípcia. Entretanto o Café Neftís foi o que recebeu o maior impacto porque trata de assuntos variados (e a coisa mais “variada” pela a qual passei foi quase ser atropelada por várias vacas), mas como ainda possui um público consideravelmente menor não doeu tanto nas estatísticas.

santa-2015

Fazenda Campinhos em Umbaúba (município onde estamos sediados). Os cabelos desta santa são feitos com fios humanos. 2015.

Mas apesar de não estar gerando muito material escrito estou fotografando tudo o que posso! Vi muita cena inusitada e em uma determinada situação me senti até a Elizabeth Bennet entrando na casa do Darcy (a casa do antigo engenho Felix é linda e com uma vista muito “uau”!) e também notei que os antigos engenhos usualmente eram tanto um ponto de referência espacial (antigas descrições apontam tais residências como “delimitadores” de territórios e alguns possivelmente formaram atuais povoados… Por isso muita gente ainda hoje comenta sobre eles), centros culturais e locais de acontecimentos sociais importantíssimos (bailes, chegadas de bispos etc), ao estilo de Downton Abbey. Eu andava por algumas destas casas e só pensava “Oh nossa, esta gente tinha muito dinheiro!”.

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Fazenda Antas. Santa Luzia. 2015.

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“Orange is the new black” na Fazenda Castelo, em Santa Luzia. Foto: Fernanda Libório. 2015.

Gravei alguns vídeos, mas como o canal do AE é somente sobre o Egito os carregarei em outro espaço, só preciso pensar onde, mas irá demorar de qualquer forma porque segunda que vem (23/03) já estou pegando a estrada novamente. Aparentemente tempo mesmo só terei depois do dia 03/04, mas enquanto é isso fiquem com essas fotos.

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Cadela com heterocromia que encontramos em Estância.  2015.

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Santuário Santa Luzia. Neste terreno, de acordo com a memória oral, foi realizada em 1575 a primeira missa de Sergipe. 2015.

Santuário santa luzia_edição Almir Brito

Santuário Santa Luzia. Edição: Almir Brito Jr. 2015.

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Embarcações no Rio Piauí, povoado Crasto em Santa Luzia. 2015.

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Crasto. 2015.


*Todas as fotografias sem referência ao autor foram batidas por mim.

Plano de fundo: Lagoa Redonda e roupas da MTK

Como relatei lá no Arqueologia Egípcia, pedi para que a minha amiga e também arqueóloga, Fernanda Libório, escrevesse comentando um pouco acerca da pesquisa dela em Lagoa Redonda (SE), local que serviu como cenário para as fotografias do post acerca das roupas da MTK.

Visita ao povoado Lagoa Redonda. Na imagem: Márcia Jamille. Foto: Fernanda Libório. 2013.

Visita ao povoado Lagoa Redonda. Na imagem: Márcia Jamille. Foto: Fernanda Libório. 2013.

Lagoa Redonda é um lugar extremamente lindo o qual não é possível descrever em palavras ou fotografias, é necessário realmente estar lá para visualizar o quão belo é o local.

A Fernanda, de forma bastante simpática, redigiu um texto que rendeu um ótimo Guest Post. Abaixo as palavras dela acerca da nossa visita ao povoado:

 

Sobre a visita ao Povoado de Lagoa Redonda – Pirambu, por Fernanda Libório:

O Povoado de Lagoa Redonda é famoso dentro do estado de Sergipe devido as suas dunas costeiras (excelentes para a prática de sandboard, airsoft, trilha, observação de aves, desova de tartarugas, etc.) com quilômetros de comprimento e largura e algumas com até 60 metros de altura. Trata-se de um local com lagoas, riachos, praias e cascata (Cachoeira do Roncador). Um lugar maravilhoso, mas a visita deve ser bem preparada com lanches e água. Esta área é a Reserva Biológica Santa Isabel.

Entretanto, a principal motivação da Márcia Jamille para tirar as fotos nesse local foi a presença de um complexo arqueológico sobre dunas.

Visita ao povoado Lagoa Redonda. Na imagem: Márcia Jamille. Foto: João Carlos Moreno de Sousa. 2013.

Visita ao povoado Lagoa Redonda. Na imagem: Márcia Jamille. Foto: João Carlos Moreno de Sousa. 2013.

A UFS desenvolve pesquisas embrionárias sobre os sítios arqueológicos litorâneos existentes no Povoado de Lagoa Redonda e já rendeu artigos, monografias e dissertações, esse mês (outubro) completamos 2 anos de monitoramento da área.

Visita ao povoado Lagoa Redonda. Foto: João Carlos Moreno de Sousa. 2013.

Visita ao povoado Lagoa Redonda. Foto: João Carlos Moreno de Sousa. 2013.

Visita ao povoado Lagoa Redonda. Na imagem segurando um louva-a-deus: Thobias Cerqueira. Foto: Márcia Jamille. 2013.

Visita ao povoado Lagoa Redonda. Na imagem segurando um louva-a-deus: Thobias Cerqueira. Foto: Márcia Jamille. 2013.

Atualmente, são estudados 4 sítios arqueológicos: o Sítio Cardoso, o Sítio Dicuri, o Sítio Ferroso e o Sítio Sapucaia. Todos são sítios pré-coloniais, com material arqueológico bem diverso internamente e com grandes recorrências inter-sítios. Acreditamos que foram ocupações de grupos que compartilhavam de mesmas práticas sociais durante curtos intervalos temporais, ou seja, mobilidade espacial. Ainda não possuímos datação para os sítios, então, estamos fazendo uma correlação com a formação da paisagem física para delimitação temporal (terminus post quem).

Os sítios apresentam material lítico muito diverso em relação à matéria-prima, tecnologia aplicada e funcionalidade. O material cerâmico possui pasta com mineral grosseiro, decoração plástica, bases arredondadas e rara presença de banho branco ou vermelho. Todo o material está sendo analisado no Laboratório de Arqueologia do Campus de Laranjeiras (UFS) e em breve teremos os resultados.

Visita ao povoado Lagoa Redonda. Foto: Fernanda Libório. 2013.

Visita ao povoado Lagoa Redonda. Foto: Fernanda Libório. 2013.

Contudo, a consideração mais importante dos sítios arqueológicos de Lagoa Redonda é a sua implantação na paisagem associada às atividades que desenvolviam nas dunas.

Fernanda Libório.

Fernanda Libório.

No Brasil, os arqueólogos viviam presos a interpretações associadas ao determinismo ambiental e hoje é necessário quebrar esse falso pressuposto. Em pesquisas mais antigas sobre assentamentos dunares, as interpretações sempre apontam para a impossibilidade de habitação em um ambiente hostil aos humanos, ou seja, as interpretações quanto à presença de sítios arqueológicos em dunas tendiam a apontar mudança climática após abandono da área em vez de considerar que os grupos pré-coloniais escolheram se assentar nas próprias dunas.

Porém, neste ponto é possível usar o exemplo da própria Arqueologia Egípcia, que nos ensina que mobilidade e assentamento nem sempre estão relacionadas somente aos fatores ambientais e que devem ser considerados os fatores sociais e simbólicos na interpretação do contexto arqueológico. 「fim」

P.S: Exceto pela a primeira e a última foto (a da Libório), as demais imagens deste post não passaram por nenhum filtro ou qualquer outro tipo de efeito.