Vídeo: Engenhos e prospecção arqueológica

O projeto de diagnóstico e prospecção arqueológica da área de influência da adutora de água em Tomar do Geru, Itabaianinha e a área da barragem do riacho Guararema em Santa Luzia do Itanhy (SE) finalmente acabou! Estou moída, meus horários de sono estão malucos, estou com um bronzeado muito, mas muuuito bizarro (com direito a um X amarelado nas costas), o que está me obrigando a andar com blusas de costas fechadas.

Mas eu tenho uma grande novidade: eu não me queimei muito ao ponto da minha pele empolar, ou seja, não tive mais nenhuma reação alérgica, isso porque usei luvas e a Contextos tem um chapéu que protege a nuca.

Já estou com saudades da cidade de Umbaúba e Itabaianinha. Eu vi muitas paisagens bonitas e histórias únicas e para me despedir de forma descente gravamos (eu e a minha amiga Eva) algumas imagens do trabalho. Vale lembrar que não mostrei a pesquisa em si, até porque… Bem, nossa atividade não é lá muito mole e sob um Sol horroroso é difícil lembrar de gravar algo. As imagens na verdade são um resumão da minha experiência neste trabalho.

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Estou torcendo muito para que vocês curtam assistir e tenham um gostinho dos lugares que visitei 😀

Em busca do livro perdido: conclusão

Em um dos posts anteriores relatei para vocês nossa dificuldade para encontrar o único livro que conta a história de Umbaúba, cidade que apesar de não entrar no nosso mapa de prospecções vai entrar no nosso levantamento histórico. Ao visitar a única biblioteca da cidade e descobrir que o tal livro estava sumido fomos convidados para retornar à prefeitura no dia seguinte uma vez que eles queriam nos ajudar a procurar.

Fomos lá e eles realmente foram bem prestativos, porque depois de alguns telefonemas nos indicaram ir para a Casa de Cultura para procurar Sônia (que não estava disponível para nos atender) e o Edvânio Alves (Diretor de Cultura de Umbaúba), que foi totalmente simpático. Ele nos informou que o “tal livro” não estava lá, mas bateu um papo com a gente e comentou sobre a sua disposição em tentar historiar ao máximo o passado do município e se ofereceu para nos levar para a antiga casa grande do engenho Campinhos (cuja visita já comentei aqui).

Algumas antigas fotografias mostradas pelo Edivânio.

Ele também entrou em contato com o pesquisador Joaquim Francisco Soares Guimarães (Secretário de Educação), que coincidentemente estava falando com outra parte da equipe. Ambos marcaram um horário para aquele mesmo dia para visitar Campinhos.

Durante nosso trabalho de reconhecimento da área do sítio arqueológico de Campinhos e a entrevista da Dona Maria de Lourdes soubemos que não era um livro sobre a história de Umbaúba que estava desaparecido, mas dois, fora a conclusão de curso do próprio Joaquim que ainda não estava na lista. Fomos informados também que as obras eram na verdade dois TCCs, ambos em capa dura, escritos respectivamente pelo hoje arqueólogo Marcel Raely Fontes Gonçalves Nascimento e pela historiadora Ivonete de Jesus Clemente.

Felizmente o Marcel disponibilizou a pesquisa dele antes mesmo de começarmos os trabalhos e já está sabendo do sumiço da cópia doada por ele.

Casa da fazenda Sabiá, onde existia o engenho Sabiá (Umbaúba).

O Joaquim e o Edivânio então marcaram para nos encontrar novamente, mas desta vez na escola Benedito Barreto do Nascimento (BBN) e com a presença da Ivonete, a qual entrevistamos e que nos informou que ela tinha feito várias cópias da sua pesquisa e as distribuído pela cidade… E todas estão sumidas atualmente, sobrando somente uma, a que pertence a ela, nem mesmo a versão digital existe mais. Contudo ela irá disponibilizar a obra para tirarmos uma cópia, só precisamos definir quando.

O que falar sobre uma cidade que engole sua própria história e depois bate na tecla de que não tem uma? É difícil apontar um culpado, esta é a verdade! E não adianta generalizar porque neste pouco tempo que ficamos lá vimos exemplos de pessoas que têm se esforçado para registrar o seu passado.

Parece um canavial, mas provavelmente existe um sítio arqueológico aí: se a memória oral estiver correta aí estão os restos da casa grande do engenho Triunfo (Umbaúba).

E qual o meu interesse em contar para vocês este malabarismo em busca deste livro (que agora são “os livros”)? A priori é passar a mensagem de que na Arqueologia nem sempre é fácil encontrar registros históricos de determinadas cidades, independente do seu tamanho, mas depois de uma breve reflexão acredito que também é importante que vocês saibam que se já é difícil passar para as pessoas informações sobre o seu passado é pior ainda quando situações como essas acontece. Tanto a Ivonete como o Marcel fizeram dois trabalhos impares (um em História e o outro em Arqueologia) e tentaram organizar e depois repassar o conhecimento deles acerca de Umbaúba, mas infelizmente foram tratados de forma tão descortês.

A conclusão é que não cheguei até nenhuma conclusão. Acho que ainda preciso de mais vivências em trabalhos de campo para tentar entender como funcionam estes mecanismos de desvalorização do passado por parte de uma parcela da população. Eu já li e reli sobre o assunto na Universidade, mas ao vivo é outra história, mas uma coisa eu já sei: as vezes não é por maldade; eu cresci sabendo que devemos valorizar nosso patrimônio (seja ele edificado ou um artefato contemporâneo a nós, como um livro), mas muitas destas pessoas não tiveram as mesmas oportunidades que eu tive ou que os pesquisadores citados tiveram.

O que podemos fazer para resolver isso? Organizar um banco de dados online não é a solução, afinal nem todos têm acesso a internet. O que fazer? Eu realmente não sei!


Todas as fotos são de minha autoria. 2015.

Conhecendo Campinhos, a casa mais antiga de Umbaúba

Quando eu estava procurando o tal livro com a história de Umbaúba fui até a Casa de Cultura da cidade com um colega de equipe e fomos apresentados ao Diretor de Cultura de Umbaúba, o Edvânio Alves, a gentileza em pessoa, e que nos mostrou fotos antigas de eventos e residências da cidade, contou sobre os aspectos principais da memória oral e se ofereceu para nos levar para a casa mais antiga de Umbaúba que ainda está de pé. Naturalmente ficamos muito felizes e agradecidos pela proposta.

Eu em frente da Casa Grande do antigo Engenho Campinhos; Umbaúba (SE). Foto: Evaney Simões. 2015.

Coincidentemente a outra parte da equipe também recebeu semelhante convite, mas por parte do Secretário de Educação, o Joaquim Francisco Soares Guimarães e acabou que resolvemos ir todos juntos.

Fomos no horário da tarde (pela manhã visitamos o povoado Guararema… Tema para outro post) e a expectativa era enorme, já que era uma antiga casa de engenho, uma das marcas da economia sergipana no século XIX. Quando chegamos estava lá, a residência de Campinhos, em pé, só não saudável. O edifício possui muitos problemas estruturais e a família está fazendo o que pode para manter a memória do local viva.

A presença de vidro nas janelas é um dos sinais da grande distinção econômica desta casa entre os séculos XIX e início do XX.

Infelizmente foi aproveitando essa fragilidade que um dos artefatos históricos guardados no local sofreu um furto (daí tem gente que ainda escreve para mim perguntando como comprar artefatos arqueológicos… Tenha dó! Alguns destes objetos não são furtados somente de sítios, mas também da casa de pessoas indefesas, como é o caso da dona Maria), mas que felizmente foi recuperado pela polícia.

Os cabelos desta imagem são humanos.

Fragmento de faiança fina encontrada na área onde existia o grande salão.

Lá é genuinamente um sítio arqueológico, deste a própria estrutura da casa principal até artefatos encontrados fragmentados no chão. Eu realmente fiquei assombrada com a qualidade da residência, naturalmente ela recebeu algumas intervenções modernas, mas foi interessante esbarrar em alguma coisa ou outra do XIX… Inteira!

Uma das paredes da cozinha.

Uma das paredes da cozinha.

O grande salão do casario não existe mais, ele colapsou na contemporaneidade, assim como a Igreja centenária da propriedade, uma pena… Dela só sobraram ruínas; observamos o local (eu filmei um pouco, verei como mostrarei para vocês) e deu para saber como ocorreu o evento do desmoronamento, só não pudemos ver o que sobrou embaixo, afinal ali é um sítio arqueológico, não iremos sair por aí remexendo em tudo sem permissão.

O que sobrou em pé da Igreja.

Vista das ruínas da Igreja.

Depois sentamos para entrevistar a dona Maria de Lourdes que falou de muitos detalhes de sua infância e até de um eclipse solar em sua juventude. Demos também uma passada pelo terreno e catalogamos o antigo cemitério (que já está desativado há anos) onde identificamos um pedaço de tíbia humana.

Dona Maria de Lourdes.

Foi uma tarde extremamente agradável e todas as pessoas que conheci ficarão na minha memória, mas não somente pela simpatia do Joaquim, a gentileza do Edvânio, a receptividade da dona Maria e do Neuzito,  mas pela jaca que ganhei 😀

Parte da equipe da Contextos Arqueologia que está participando deste trabalho. Foto: Evaney Simões. 2015.


*Todas as fotografias sem referência ao autor foram batidas por mim.

Brincando de “Orgulho e Preconceito” e “Downton Abbey”

São felix 3 - 2015

Fazenda São Félix em Santa Luzia. 2015.

Anunciei na página do Facebook do Arqueologia Egípcia que recentemente estou trabalhando no diagnóstico e prospecção arqueológica da área da adutora de água de Santa Luzia, Itabaianinha e Tomar do Geru (SE) (resumindo: estamos estudando a área e realizando “pequenas escavações” para saber qual o potencial arqueológico do lugar) e durante os trabalhos nós visitamos também lugares históricos da região — Leia aqui o primeiro texto que escrevi acerca no #AEgípcia —.

São felix 2 - 2015

Fazenda São Félix em Santa Luzia. 2015.

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Fazenda São Félix em Santa Luzia. 2015.

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Fazenda São Félix em Santa Luzia. Foto: Evaney Simões. 2015.

Claro que graças ao trabalho, que pega muito tempo e energia, eu estou negligenciando todas as atualizações relacionadas com o Arqueologia Egípcia. Entretanto o Café Neftís foi o que recebeu o maior impacto porque trata de assuntos variados (e a coisa mais “variada” pela a qual passei foi quase ser atropelada por várias vacas), mas como ainda possui um público consideravelmente menor não doeu tanto nas estatísticas.

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Fazenda Campinhos em Umbaúba (município onde estamos sediados). Os cabelos desta santa são feitos com fios humanos. 2015.

Mas apesar de não estar gerando muito material escrito estou fotografando tudo o que posso! Vi muita cena inusitada e em uma determinada situação me senti até a Elizabeth Bennet entrando na casa do Darcy (a casa do antigo engenho Felix é linda e com uma vista muito “uau”!) e também notei que os antigos engenhos usualmente eram tanto um ponto de referência espacial (antigas descrições apontam tais residências como “delimitadores” de territórios e alguns possivelmente formaram atuais povoados… Por isso muita gente ainda hoje comenta sobre eles), centros culturais e locais de acontecimentos sociais importantíssimos (bailes, chegadas de bispos etc), ao estilo de Downton Abbey. Eu andava por algumas destas casas e só pensava “Oh nossa, esta gente tinha muito dinheiro!”.

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Fazenda Antas. Santa Luzia. 2015.

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“Orange is the new black” na Fazenda Castelo, em Santa Luzia. Foto: Fernanda Libório. 2015.

Gravei alguns vídeos, mas como o canal do AE é somente sobre o Egito os carregarei em outro espaço, só preciso pensar onde, mas irá demorar de qualquer forma porque segunda que vem (23/03) já estou pegando a estrada novamente. Aparentemente tempo mesmo só terei depois do dia 03/04, mas enquanto é isso fiquem com essas fotos.

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Cadela com heterocromia que encontramos em Estância.  2015.

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Santuário Santa Luzia. Neste terreno, de acordo com a memória oral, foi realizada em 1575 a primeira missa de Sergipe. 2015.

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Santuário Santa Luzia. Edição: Almir Brito Jr. 2015.

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Embarcações no Rio Piauí, povoado Crasto em Santa Luzia. 2015.

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Crasto. 2015.


*Todas as fotografias sem referência ao autor foram batidas por mim.

Em busca do livro perdido: Parte 1*

Como avisei na página do Arqueologia Egípcia no Facebook, neste exato momento estou realizando com a Contextos o diagnóstico, e em breve a prospecção, da área da adutora de água de Santa Luzia, Itabaianinha e Tomar do Geru, sendo os três município do interior de Sergipe. Ao decorrer das pesquisas realizaremos a educação patrimonial e Umbaúba (SE) também será contemplada com a atividade. Outra das nossas propostas nesse município é registrar ao máximo informações históricas da cidade e apresentar para a população a importância da Arqueologia, por isso estamos sediados temporariamente aqui.

Igreja Matriz de Umbaúba. Antes dela neste local existia uma capela dedicada a Nossa Sra. da Guia.

No nosso primeiro dia viramos a novidade do momento (o bom de trabalhar no interior é que no primeiro dia existe um estranhamento, mas no segundo praticamente todo mundo já sabe o que estamos fazendo) e até duas pessoas se aproximaram e puxaram assunto sobre a Arqueologia. Fizemos um reconhecimento do local e batemos papo com os idosos da “Praça é Nossa”, um espaço onde eles se reúnem para conversar.

Um dos entrevistados do primeiro dia.

No segundo dia de trabalho (12/03) dividimos a equipe em dois trios e enquanto um saiu para realizar as entrevistas o outro – onde eu estava – seguiu para a pesquisa em documentos históricos, livros etc. Entretanto, e é necessário deixar isto claro, em cidades do interior e povoados não é incomum que os documentos antigos sejam jogados fora ou enviados para a capital, mas tentamos a sorte mesmo assim e como não sabíamos onde ficava a biblioteca resolvemos ir para a prefeitura para pegar informações acerca.

Entrevistar estes senhores foi uma experiencia maravilhosa… Nem parecia que estávamos trabalhando.

Ao chegar fomos informados que existia somente um livro sobre a história da cidade e que estava justamente na tal biblioteca, para onde fomos encaminhados e muito bem recebidos, entretanto para a nossa surpresa lá não encontramos o referido livro, pelo contrário, ele estava perdido, não sabiam onde ele estava, o que foi um pouco surreal, mas são os percalços da Arqueologia…


*Escrevi este texto no dia 13/03, mas somente hoje foi que notei que o título ficou meio “Indiana Jones”, mas na segunda parte este texto creio que ficará mais obvio que encontrar este livro foi no final uma mini aventura (entretanto sem nativos raivosos, espiões, nazistas etc).

**Todas as fotos que estão neste post são da minha autoria.