10 brinquedos do Egito Antigo que você precisa conhecer

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Muitos brinquedos da antiguidade egípcia são bastante parecidos com os nossos atuais. As crianças do Período Faraônico poderiam se distrair brincando com bonecos de pano ou madeira, animais com bocas móveis, bolas, jogos de azar ou aqueles que envolviam o raciocínio. Os arqueólogos encontraram ao longo dos anos uma série de artefatos do tipo, mas a pena é que entre alguns o uso se perdeu com o tempo.

Nesta modesta lista vocês poderão conferir um pouco deste lado lúdico dos antigos egípcios e quem sabe rememorar a sua própria infância.

1 – Jogo dos cães contra chacais:

Fonte: Met Museum

Este jogo possui uma gaveta para armazenar as peças as quais são cinco pinos com cabeças de cães e cinco com cabeças de chacais. Já o tabuleiro tem a forma de uma lâmina de machado e possui 58 furos na superfície, além do desenho de uma palmeira e um sinal de shen no centro. O shen era o símbolo hieroglífico para ouro. Como outros jogos advindos do Egito Antigo não se possuem registros de quais eram as suas regras. Howard Carter e Lord Carnarvon em sua publicação Five Years of Explorations at Thebes, A Record of Work Done 1907-1911 (1912, página 58) deduziu como ele pode ter funcionado:

“Presumindo que o símbolo ‘Shen’… seria o objetivo, encontramos em ambos os lados vinte e nove buracos, ou incluindo o objetivo, trinta à parte. Entre esses buracos, de cada lado, dois estão marcados… ‘nefer’, ‘bons’; e quatro outros estão ligados entre si por linhas curvas. Supondo que os buracos marcados como ‘bons’ incorrem em um ganho, parece que os outros, conectados por linhas incorrem em uma perda. Agora, os movimentos em si poderiam ter sido facilmente definidos pela possibilidade do lançamento de ossos ou dados… e, portanto, temos diante de nós um jogo de azar simples, mas excitante”.[1]

Esta peça pertence ao Médio Reino, 12ª Dinastia.

2 – Senet

Fonte: Egypt About

O senet era um jogo de tabuleiro o qual era dividido em três fileiras de dez quadrados. Alguns dos quadrados tinham símbolos que representavam a má e boa fortuna. Sabe-se que era um jogo de estratégia, mas não existe certeza de quais eram as suas regras. Entretanto, no geral a crença é de que o vencedor era aquele que conseguisse levar suas peças para o final do lado do seu oponente.

3 – Cavalo com rodinhas

Fonte: British Museum

Outrora colorido, este cavalinho de madeira com rodinhas provavelmente era puxado por uma cordinha, a julgar pelos orifícios que se encontram na área da sua boca. Esta peça foi datada como sendo do Período Romano.

4 – Boneco de madeira representando uma pessoa moendo grãos

Fonte: Rob Koopman

Não são somente as nossas atuais Barbies que exercem profissões no mundo das brincadeiras. Entre os antigos egípcios brincar de estar exercendo alguma tarefa na comunidade também era comum. Neste exemplo temos uma pessoa segurando uma pedra que serve como um moedor de grãos. O brinquedo possui uma mecânica que torna capaz o indivíduo que está brincando poder mover o bonequinho: puxando a cordinha o tronco dele se move fazendo com que ele se mexa como se estivesse moendo grãos.

5 – Gato de madeira

 

Fonte: British Museum

Este gato de madeira (ou talvez uma leoa) com dentes de bronze poderia ter sua mandíbula mexida graças a uma corda (a qual atualmente é uma réplica) que atravessa a parte superior da sua cabeça. Este exemplar provavelmente pertente ao Novo Império.

6 – Rato de cerâmica e madeira

Fonte: British Museum

Este é um rato feito de cerâmica e possui uma mandíbula de madeira articulada, que era operada por um fio. A questão é: como se brincava com ele?

7 – Mehen

Fonte: Neues Museum

O mehen, que também é chamado de Jogo da Cobra, trata-se de uma placa circular que mostra um padrão imitando este animal. Seu nome faz referência ao deus Mehen, divindade relacionada justamente com as cobras. Embora apareça em alguns registros iconográficos não se sabe quais eram as suas regras.

8 – Bola

Fonte: British Museum 

As bolas egípcias naturalmente eram diferentes das nossas. No caso da antiguidade elas eram feitas com farrapos de tecido, couro, folhas de palmeira ou outros vegetais, que usualmente eram atados com cordas. Contudo, existem exemplos ocos deste brinquedo.

9 – Bonecos de pano

Fonte: British Museum

Bonecos de pano também faziam parte da brincadeira. Feitos usualmente de linho e recheados com trapos e papiro, eles eram enfeitados com ornamentos, a exemplo desta peça, que no passado provavelmente possuía um pequeno enfeite para cabelos. Pensa-se nisso por conta da presença de uma pequenina pedra azul na lateral esquerda da sua cabeça. Esse artefato é datado do Período Romano.

 

10 – Dados

Fonte: Met Museum

Em sítios arqueológicos egípcios foram encontrados diferentes tipos de dados onde alguns lembram os nossos usuais de seis lados (com direito ao uso de pontinhos para, provavelmente, indicar quantidades) e outros de formato poliedro, muito parecidos aos utilizados pelos jogadores de RPG. Não se sabe os tipos de regras que envolvem um dado poliedro, mas acredita-se que eles poderiam ser utilizados tanto para jogos, como para adivinhações oraculares. Este da imagem é datado do Período Greco-Romano.

Fontes:

[1] Game of Hounds and Jackals. Disponível em < https://www.metmuseum.org/art/collection/search/543867 >. Acesso em 11 de outubro de 2017.

Ancient Egyptian Games. Disponível em < http://www.ancient-egypt-online.com/ancient-egypt-games.html >. Acesso em 11 de outubro de 2017.

The Game of Senet. Disponível em < http://www.gamecabinet.com/history/Senet.html >. Acesso em 11 de outubro de 2017.


  • Para fontes adicionais consulte as legendas das imagens.

O que mais você precisa saber sobre o Egito Antigo em Overwatch

Lançado pela Blizzard Entertainment, Overwatch é um game onde os jogadores competem entre si em equipes usando heróis com diferentes características e origens, que exercem funções de defesa, ataque ou cura. A exemplo de muitos outros jogos ele traz algumas inspirações relacionadas com a antiguidade egípcia e foi isso o comentado no post “O Egito Antigo em Overwatch: um dos maiores games do momento” (clique aqui para ler). Depois de ter sido publicado, a leitora Isabella Czamanski pontuou alguns detalhes do jogo que não foram comentados. Abaixo o texto dela:  

Antes de mais nada, adorei sua iniciativa de falar de Overwatch no AE, principalmente por existirem até cenários bem inspirados na antiguidade egípcia no jogo. Mas, como jogadora eventual de Overwatch (mas muito, muito fã), me sinto na obrigação de fazer alguns adendos à sua matéria.

Além da skin normal da Pharah, existem mais duas inspiradas no Anúbis (mudando apenas a cor entre uma e outra, gosto particularmente da preta).

Além disso, existe mais uma personagem egípcia, a Ana, que é mãe da Pharah e também possui uma tatuagem do Olho de Hórus em seu próprio olho.

Fora isto, existe uma skin para o personagem Zenyatta (que é um robô zen) claramente inspirada em Rá e com alguns detalhes muito interessantes, como o nemes e o uso de azul e dourado.

Eu realmente acho interessante a forma como a Blizzard conseguiu inserir história em Overwatch, mesmo se tratando de um futuro distópico. Podemos ver alta tecnologia em meio a cenários outrora históricos, como o templo de Anúbis, sem que pareça forçado ou irreal. As skins dos personagens também foram muito bem construídas.

A Estrela Sirius no Egito Antigo

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille | Instagram

Muitas comunidades do passado utilizavam o céu noturno como parâmetro para uma série de coisas tais como prever cheias, a contagem do tempo e localização geográfica. Entre os antigos egípcios isso não foi diferente.

Montagem: sciencefreek.

O céu noturno era entendido como o corpo da deusa Nut, que tentava se ligar com a terra, o deus Geb, mas que era impedida pelo ar, o deus Shu. O corpo de Nut era composto por estrelas as quais, em alguns textos religiosos, são tidas como “embarcações iluminadas” navegando pelo o corpo da deusa (LESKO, 2002).

— Saiba mais: Detalhe da criação do cosmo no sarcófago de Butehamon

Foi a familiaridade com o céu noturno e a natureza em terra que fez os antigos egípcios perceberem um padrão: assim que uma determinada estrela extremamente brilhante surgia no céu tinha início as cheias do rio Nilo. Essa estrela é chamada atualmente de Sirius, mas durante a antiguidade egípcia foi denominada como Sopdet (Sothis, em grego), deusa responsável por anunciar as inundações do Nilo, protetora da agricultura, do tempo e da fertilidade. Além de, por vezes, associada com a deusa Ísis.

Deusa Sopdet (não confundir com Seshat). Imagem: Creative Commons.

Com as cheias tinha início a estação Aket [1], que abria o ano egípcio. Ou seja, era o surgimento de Sopdet um dos eventos que anunciava o Ano Novo.

Fonte:

DESPLANCQUES, Sophie. Egito Antigo (Tradução de Paulo Neves). Porto alegre: L&PM, 2011.

LESKO, Leonard. “Cosmogonias e Cosmologia do Antigo Egito”. In: SHAFER, Byron; BAINES, John; LESKO, Leonard; SILVERMAN, David. As religiões no antigo Egito (Tradução de Luis Krausz). São Paulo: Nova Alexandria, 2002.

ROSSI, Corinna. Science and Technology: Pharaonic. LLOYD, Alan, B (Ed). A Companion to Ancient Egypt. England: Blackwell Publishing, 2010.


[1] O ano egípcio era dividido em três estações: Aket, Peret e Shemu.

“Memórias de amor, crime e morte”: conheça o filme “A Múmia” de 1932

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Quando muitos escutam a palavra “A Múmia” provavelmente lembram das aventuras cinematográficas hollywoodianas dos personagens fictícios Rick O’Connell (Brendan Fraser) e Evelyn Carnahan (Rachel Weisz), para destruir o vilão Imhotep (Arnold Vosloo), uma múmia egípcia ressuscitada cujo único objetivo é fazer o mal. Entretanto, o que os menos aficionados por esta franquia sabem é que O’Coonell não foi o primeiro a enfrentar um semimorto chamado Imhotep no cinema, ele é só o fruto de uma série de filmes da Universal Studios que traz o monstro “A Múmia”, cujo o último representante no momento é a princesa Ahmanet, de “A Múmia” de 2017.

— Saiba mais: A franquia de filmes “A Múmia” da Universal Studios

Imhotep (Boris Karloff) e Ankhesenamon (Zita Johann). Universal Studios.

O primeiro filme da franquia foi lançado em 1932, estrelando Boris Karloff, como Imhotep e depois dele, até o momento, se somam nove filmes. São os seguintes:

☥ “A Mão da Múmia” (1940);

☥ “A Tumba da Múmia” (1942);

☥ “O Fantasma da Múmia” (1944);

☥ “A Praga da Múmia” (1944);

☥ “Abbott e Costello caçando múmias no Egito” (1955);

☥ “A Múmia” (1999);

☥ “O Retorno da Múmia” (2001);

☥ “A Múmia: tumba do Imperador Dragão” (2008)

☥ “A Múmia” (2017)

 

O “A Múmia” de 32 tem um enredo bem simples: o corpo mumificado de um homem chamado Imhotep e uma misteriosa caixa são descobertos por uma missão britânica de arqueologia. Após uma rápida análise os pesquisadores descobrem que este homem foi sepultado vivo e sem direito as fórmulas mágicas necessárias para a sua viagem pelo além. Já a caixa possui um breve texto com a promessa de mau agouro para quem ousar abri-la.

— Foi gravado para o canal do Arqueologia Egípcia um vídeo supercompleto e cheio de curiosidades sobre esta obra:

Um estagiário curioso ignora a maldição e a abre encontrando em seu interior o Pergaminho de Thot cujas inscrições o rapaz traduz. O texto em questão é um poderoso feitiço que acaba ressuscitando Imhotep, que, por sua vez, foge do local levando consigo o pergaminho.

Anos mais tarde Imhotep reaparece, mas agora se chamando Ardath Bey. Ele tem em sua posse a localização da tumba de uma princesa chamada Ankhesenamon e a passa para um jovem arqueólogo que a encontra em pouco tempo.

Entretanto, o plano de Imhotep é ter acesso a múmia recém encontrada da Ankhesenamon para trazê-la de volta a vida, uma vez que ela foi seu antigo amor. A princesa foi o motivo do cruel fim de Imhotep, já que foi por tentar ressuscitá-la ainda na época do Egito Antigo — fazendo uso do Pergaminho de Thot — que ele recebeu a punição máxima, que era ser sepultado vivo, sem formulas sagradas para protegê-lo e sem oferendas mortuárias.

A execução deste plano seria tranquila se não fosse um problema: a princesa Ankhesenamon reencarnou e agora é uma jovem chamada Helen Grosvenor (Zita Johann). Passando a saber disso Imhotep fará de tudo para recuperar a sua amada.

Ankhesenamon (Zita Johann). Universal Studios.

Este “A Múmia” tornou-se o parâmetro para os demais filmes da temática na Universal Studios (e mesmo de outras produtoras). Se não fosse ele provavelmente nossa visão de maldições egípcias seria um pouco diferente e a presença de fantasias e enfeites retratando múmias na época do Halloween certamente não seria corriqueira.

Helen Grosvenor (Zita Johann). Universal Studios.

Quando assistimos a esta obra e comparamos com o que estava sendo lançado na época é de se admirar com o nível de criatividade. Quantos roteiristas hoje pensariam em ressuscitar uma múmia, seja lá de qual cultura, e fazê-la caminhar pelas ruas modernas? Não é à toa que esta fórmula foi usada e reusada tantas vezes pela Universal sem nenhuma preocupação.

Clique aqui para ler um spoiler

Outro ponto interessante é o desenrolar do filme: preste a sofrer um sacrifício para ser mumificada e libertar a alma de Ankhesenamon a Helen está totalmente indefesa. Em uma história clássica comum ela seria salva pelo mocinho do filme, mas o enredo vai para um outro lado. Ela, em prece a deusa Ísis, pede para que a divindade lhe ensine os antigos encantamentos que esqueceu, graças a reencarnação e é assim que ela consegue dar fim a Imhotep dando um desfecho a trama.

[collapse]

Existem pontos do filme que são orientalistas, como alguns dos comentários da personagem Helen em relação ao Egito moderno: ela o trata quase como uma doença. O que é perfeito, aos seus olhos, é a antiguidade do país. Parece uma visão romântica do passado, mas também faz parte do discurso imperialista da época que, inclusive, era usado para justificar porque só os europeus podiam praticar a arqueologia no Egito e cuidar dos seus artefatos. Uma visão que assombra a Egiptologia e a Arqueologia Egípcia até os dias atuais.

Imhotep (Boris Karloff) e Helen Grosvenor (Zita Johann). Universal Studios.

Curiosidades:

☥ O nome “Imhotep” é uma homenagem ao arquiteto que construiu a primeira pirâmide egípcia: a “Pirâmide de Djoser”;

☥ O filme teve grande inspiração na descoberta da tumba do faraó Tutankhamon, ocorrida em 1922. É tanto que o nome da princesa, Ankhesenamon, é o nome da esposa desse rei;

☥ “Ardath Bey” é um anagrama que significa “morte por Rá”;

☥ Algumas cenas mostrando outras reencarnações da princesa Ankhesenamon foram gravadas, mas jamais foram utilizadas e se perderam com o tempo;

☥ Em “A Mão da Múmia” algumas cenas de “A Múmia” foram reaproveitadas;

☥ Na série mexicana “Chaves”, no episódio “Filme de Terror”, Chaves e Chiquinha assistem a essa obra;

☥ Na série “Bones” ele é exaustivamente citado no capítulo quinto da quita temporada, “A Night at the Bones Museum”,traduzido no Brasil como “O menino do coração que sangra”.

☥ A personagem Cleo de Nile de “Monster High” foi inspirada no monstro “A Múmia”.

 

Fotos de bastidores:

 

 

Fontes das curiosidades de bastidores:

The Mummy (1932) | UMDB. Disponível em < http://www.imdb.com/title/tt0023245/ >. Acesso em 08 de agosto de 2017.

Mummy Dearest: A Horror Tradition Unearthed (1999; Universal Studios).

Djet, o rei com o signo da serpente

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Djet (também chamado de Uadji) foi o terceiro rei da 1ª Dinastia​ (Período Arcaico, também chamado de Dinastia Tinita).  Seu reinado marca o ponto no qual as iniciativas dos governos de Aha e Djer — de organizar um Egito unificado poucos anos antes — começaram a dar frutos (RICE, 1999). O seu nome é representado com o signo da serpente: ele é escrito com o hieróglifo de uma cobra acima da fachada do palácio que forma as bases do serekh, estrutura em que os nomes dos reis eram representados nesse período (RICE, 1999).

O nome de Djet está do lado esquerdo, dentro do serekh. Foto: Creative Commons.

Governo e sociedade na época:

Igualmente a alguns outros reis do período tinita, Djet possui artefatos votivos a ele. Um exemplo é uma grande estela que traz o seu nome dentro de um serekh cobrindo quase toda a superfície (Imagem 1). Ela foi encontrada nas proximidades de sua tumba e atualmente está exposta no Museu do Louvre (RICE, 1999; HENDRICKX; FORSTER, 2010).

Estela com o nome de Djet. Foto: Creative Commons.

Outro é um pente de marfim com 8 centímetros de comprimento em que o serekh com o seu nome é protegido por um falcão e ladeado por três símbolos hieroglíficos: dois cetros uas, simbolo do poder real e uma ankh, simbolo da vida. Todos estes elementos estão sob uma embarcação que possui em sua base um par de asas, cujo único tripulante é também um falcão. Esta é uma provável alegoria do deus sol exercendo sua viagem diária, enquanto navega pelo céu (EINAUDI, 2009).

Pente votivo a Djet. Fonte: EINAUDI, 2009.

Não se conhece muito detalhes do seu reinado, contudo se sabe que um vinhedo foi dedicado ao seu uso e pelo menos duas substanciais mastabas de Saqqara e Gizé datam do seu governo (RICE, 1999).

Também não se sabe quantos anos duraram o seu reinado, mas cogita-se que foram poucos (RICE, 1999).

Sepultamento:

Acredita-se que Uaji tenha sido sepultado em uma grande tumba em Abidos, mais especificamente em Umm el-Qa’ab, na Tumba Z. A exemplo dos seus dois antecessores ele foi acompanhado por fileiras de corpos humanos provenientes de sacrifício; só não se sabe se estas pessoas se voluntariaram para a morte, a fim de seguir o seu líder, ou foram obrigadas (RICE, 1999; WILKINSON, 2010).

Fonte:

EINAUDI, Silvia. Coleção Grandes Museus do Mundo: Museu Egípcio Cairo (Tradução de Lúcia Amélia Fernandez Baz). 1º Título. Rio de Janeiro: Folha de São Paulo, 2009.

HENDRICKX, Stan; FORSTER, Frank. Early Dynastic Art and Iconography. In LLOYD, Alan, B (Ed). A Companion to Ancient Egypt. England: Blackwell Publishing, 2010.

RICE, Michael. Who’s Who in Ancient Egypt. Londres: Routledg. 1999.

WILKINSON, Toby. The Early Dynastic Period. In LLOYD, Alan, B (Ed). A Companion to Ancient Egypt. England: Blackwell Publishing, 2010.

Livro “Nefertiti: O Livro dos Mortos” de Nick Drake: uma trama policial no Egito Antigo (Comentários sem spoiler)

Um homem poderoso comandando é uma coisa; uma mulher poderosa é outra bem diferente.

— ‘Nefertiti: O Livro dos Mortos’, Nick Drake, página 150.

Escrito por Nick Drake, “Nefertiti: O Livro dos Mortos” (Nefertiti: The book of Death) é o primeiro livro da série policial protagonizada pelo detetive Rahotep. Baseado em cenários e alguns personagens reais, a história se passa durante o final da 18ª dinastia (Novo Império), mais especificamente na época do reinado do faraó Akhenaton. Narrado em primeira pessoa o enredo conta a história de Rahotep, um integrante incomum da medjay que faz uso de técnicas de investigação bem anormais para o contexto do Egito Antigo e que por conta disso é acionado pelo faraó Akhenaton para resolver um mistério: o desaparecimento da rainha Nefertiti.

Sabendo qual a sua missão e que tem um tempo curto para resolver tal enigma— e que se falhar não somente ele, mas a sua família sofrerá uma terrível punição — Rahotep se aprofunda cada vez mais na vida da realeza, suas crenças, hipocrisias e mundo de aparências. E paralelamente passa a conhecer mais sobre a personalidade da rainha sumida e sua importância para a manutenção do equilíbrio político no reino.

— Esta cidade, este mundo novo esplêndido e iluminado, este futuro glorioso. Tudo parece glorioso, mas está construído sobre areia. Todos estão determinados ou são forçados a acreditar nisso para torná-la possível. Mas sem ela, sem Nefertiti, não é possível acreditar nisso. Não é verdadeiro. Não vai funcionar. Vai desmoronar.

— ‘Nefertiti: O Livro dos Mortos’, Nick Drake, página 85.

O mistério do sumiço de Nefertiti faz Rahetep enfrentar vários perigos mortais e sofrer experiências incomuns. A partir do momento em que ele entrevista os indivíduos que fizeram parte do convívio dela muitos tornam-se suspeitos em potencial e a cada página parecem ter algo a esconder ou a proteger, mesmo que sejam somente interesses pessoais.

Nick Drake. Foto: Divulgação.

Nascido em Londres em 1961, Drake além de escritor de mistérios é poeta e dramaturgo. Estudou na Universidade de Cambridge e trabalhou em vários projetos envolvendo outros artistas e cientistas. Seu primeiro livro envolvendo o Egito Antigo, Nefertiti: Book of the dead, foi publicado pela primeira vez em 2006. Nesta época ele foi indicado para o prêmio Crime Writers’ Association Best Historical Crime Novel (Melhor Romance Histórico Policial da Associação de Escritores Policiais) e atualmente está sendo adaptado para a TV por Patrick Harbinson, produtor de Lei e Ordem: Unidade de Vítimas Especiais, Homeland, 24 Horas, dentre outros.

O universo criado por Drake nos apresenta um Egito Antigo quase convincente e factual. O que está explicito é que ele realmente se dedicou a estudar variados aspectos essenciais das sociedades egípcias do faraônico, mas incluindo muitos pontos da nossa e várias licenças poéticas, como vocês poderão conferir mais a diante. Ele conseguiu trabalhar com esse conhecimento e recriar um egípcio do faraônico sem parecer artificial; Nós estamos o tempo todo com o Rahotep, estamos em sua cabeça e conferindo suas anotações, ou seja, nós estamos na antiguidade egípcia.

Confira a resenha em vídeo deste livro no canal do Arqueologia Egípcia no Youtube; muitas das pontuações que não estão aqui estão presentes no vídeo, então assista-o para ter uma abordagem mais completa.

O que chama a atenção na obra é que Drake não cria um Egito Antigo místico, bucólico e saudosista a exemplo de muitas criações que trazem o tema, onde os leitores são apresentados a um personagem principal prefeito e belo, extremamente inteligente ou com outras qualidades superiores quanto. Aqui o escritor apresenta um Egito mais próximo da realidade, partindo do ponto de vista de alguém da população comum que precisa por comida na mesa, educar seus filhos e tem seus próprios pensamentos sombrios e pouco belo do mundo. Rahotep tem uma inteligência única, contudo, é vulnerável, tem suas dúvidas existenciais, mas, não busca por respostas na religião.

E foi aí que fiz a coisa mais difícil da minha vida. Vestindo minha melhor roupa de linho e com minhas autorizações na pasta, fiz uma breve libação para o deus da casa. Orei com sinceridade incomum (pois ele sabe que não acredito nele), por sua proteção e pela proteção de minha família.

— ‘Nefertiti: O Livro dos Mortos’, Nick Drake, página 17.

E como cenário para o desenvolvimento da trama temos o afamado Período Amarniano apresentado aqui como caótico, à beira de um colapso, onde há a escassez de alimentos e o faraó não está em bons termos com os sacerdotes de Tebas. É fato que o faraó Akhenaton se desvinculou do culto a Amon para se dedicar ao deus primordial Aton. Contudo, o caos social pelo qual o Egito passou naquela época está mais próximo de uma propaganda política negativa posterior. Não que a população não tenha sofrido em vários momentos, mas, ao que parece não foi tão diferente do que no reinado do seu pai, Amenhotep III.

Para aqueles que leram o livro, mas não conhece a história egípcia ou a conhece de forma artificial é preciso realizar uma apresentação geral do que ocorreu na época em que o faraó Akhenaton viveu: Como já citado, o deus Aton era uma divindade primordial, sendo um dos aspectos do deus Rá. Recebeu pouca atenção dos faraós, em especial durante o Novo Império, quando o patrono da cidade de Tebas, Amon, tornou-se o deus principal se tornou. Tebas, a princípio, era uma cidade pequena, mas que foi alçada a capital após a invasão dos hicsos e a reunificação do Egito por parte dos seus príncipes devotos a Amon. Como consequência, templos a este deus foram erguidos e o seu clero enriquecendo.

Akhenaton. Foto: Rena Effendi.

Décadas mais tarde, com a chegada do reinado do faraó Amenhotep III os sacerdotes de Amon já eram extremamente poderosos e o rei percebeu que algo necessitava ser feito. Assim, começou a dar espaço para outras divindades, entre elas Aton. Porém, foi com o reinado do seu filho que as coisas se tornaram mais radicais: Nascido Amenhotep IV, Akhenaton construiu um pequeno templo a Aton dentro do templo de Amon em Luxor e posteriormente transfere a capital para a recém-criada cidade de Aketaton. Lá muda o seu nome e passa a cultuar somente Aton.

Inaugurada no Ano 6 (e não no Ano 12, como afirmado no livro), Aketaton é uma das primeiras cidades planejadas da antiguidade. Foi nela onde três das seis filhas do rei com Nefertiti nasceram (as outras três foram em Tebas) e onde Akhenaton faleceu após 17 anos de reinado.

— Conheça mais sobre este Casal Real: Nefertiti e Akhenaton: o casal egípcio impossível de ser ignorado

Nos seus sítios arqueológicos foram encontrados vários registros da família real executando tarefas religiosas ou em simples momentos de deleite. Na maioria destas obras tanto Akhenaton — assim como a sua esposa e suas filhas — foi representado com feições excêntricas (crânios alongados, braços longos, coxas bem roliças e seios proeminentes). Estas características artísticas levantaram alguns debates sobre a possibilidade de que a família possuísse alguma deformidade, mas com o avanço dos estudos da Arqueologia Egípcia a maior probabilidade na atualidade é que essas representações sejam um discurso político onde o rei queria se representar especial, diferente da população comum.

Nefertiti, Akhenaton e uma de suas filhas prestando homenagens a Aton. Foto: Wikimedia Commons.

Retornando a obra, além de Akhenaton e Nefertiti os leitores são apresentados a outros personagens históricos reais tais como Mahu (chefe de polícia), Meryra (Sumo sacerdote de Aton), Horemheb (general), Ay (Sacerdote Pai Divino, Escriba Real, Intendente dos Cavalos e mais outros títulos honoríficos), Tiye (Rainha Mãe), Kiya (esposa secundária de Akhenaton), as filhas de Nefertiti, Tutmosis (escultor) e Nakht[1]. Porém, todas as situações em que eles estão envolvidos e suas personalidades são totalmente fictícias, não tomem como realidade histórica. São acontecimentos criados pelo autor unicamente para a sua trama.

E falando em criação para a trama, abaixo elenquei alguns pontos que são puros equívocos do Drake:

 

Os equívocos:

Vários dos objetos apresentados na obra não existiam no Egito Antigo, entre eles os livros, pipas, cabides, guarda-roupas, chafarizes, chaves e trancas. Outros erros é dar certas utilizações para determinados objetos que não condizia com a realidade, como, por exemplo, os papiros. Na trama eles são utilizados como folhas de diários e para os desenhos das crianças. Mas, na realidade eles eram utilizados para registros mais específicos tais como julgamentos, testamentos, formulas religiosas ou contos. Para anotações do dia a dia o que eram utilizados eram os ostracos.

E em dado momento é citada uma certa sociedade secreta chamada “Sociedade das Cinzas”. Isso também é fruto da imaginação de Drake para atender a sua trama.

 

Os acertos:

Logo nas primeiras páginas o Rahotep fala sobre a neve “no Norte”. Ele não fala exatamente o lugar, mas no Egito já teve ocorrência de neve, a exemplo da virada de 2014 para 2015, quando nevou justamente no Norte do país. Foi uma ocorrência incomum cujo precedente advindo da Antiguidade egípcia é desconhecido, mas nunca se sabe… E em outra das reflexões do personagem ele nos conta de algo que se comentava em sua juventude, de que há muitos anos o Egito era mais verde. Não sei se é plausível a memória oral viver tanto, mas muitos milênios antes do Egito ser unificado o território era muito mais arborizado, com grandes lagos e animais que no faraônico só podiam ser encontrados na África central. Para quem tem curiosidade em saber mais pesquise sobre a “caverna dos nadadores”, uma caverna localizada em Gilf Kebir que possui registros rupestres com cerca de 10 000 anos onde são retratadas pessoas nadando.

Agora, entrando no âmbito de profissões, o nosso investigador Rahotep é um medjay. Eles não só existiram como era um corpo militar responsável pela segurança e a ordem no Egito. Já a profissão de detetive em si não existia, entretanto, as investigações eram geridas pelos próprios medjays. Porém, como não existia ainda os Direitos Humanos as inquirições dos casos mais graves usualmente eram feitas com depoimentos dados após seções de tortura. Não existiam protocolos e no ato do julgamento somente uma pessoa dava o veredito. Alguns casos poderiam chegar até o faraó, entretanto, isso não garantia uma resolução justa.

E algumas vezes é citada a hereditariedade do cargo de sacerdote: Naquela época o mais comum era os filhos assumirem os cargos de seus pais, isso em todos os aspectos da sociedade.

O escultor Tutmosis (Tutmés), já citado rapidamente aqui, faz um passeio com o protagonista por seu ateliê. Lá mostra algumas cabeças de gesso com faces realistas. Elas também existiram e, por acaso, foi ele quem esculpiu o famoso busto da rainha Nefertiti.

Imagem de Nefertiti escupida por Tutmosis (Tutmés). Foto: Nile Magazine.

Rahotep fala de uma mulher nua em um momento de lazer em uma piscina. A nudez não era repreendida, não era um tabu. Este tipo de cena muito provavelmente era mais comum do que nós imaginamos. Ele também comenta sobre a cerveja e o vinho; sobre este último salienta que em seu jarro está gravado o ano de sua confecção e procedência. Isso também poderia ocorrer.

— Saiba mais: A cerveja no Egito Antigo: desde a intoxicação ao seu uso religioso

E uma informação que pode parecer incomum para alguns é o deposito de olhos de vidro em corpos de múmias. E sim, a bibliografia confirma a existência deste ato. Outros costumes e artefatos citados no livro realmente existiram tais como:

☥ O manto de leopardo: usualmente vestido por altos-sacerdotes;

☥ Muletas: utilizadas por vezes como uma representação de poder entre líderes militares;

☥ A existência de Cinco Nomes para o faraó;

☥ A rainha dar de amamentar: era incomum (este era o papel das amas-de-leite), mas é possível que Nefertiti tenha amamentado suas filhas;

☥ Lápis de mesdemet: lembra os nossos atuais lápis de olho. Já falei sobre eles aqui no AE (clique aqui para ler);

☥ Mutilação do rosto para tornar a pessoa irreconhecível no além: isso era feito principalmente com as estátuas e desenhos parietais;

☥ Luvas: inclusive as cito no vídeo “Curiosidade: 7 coisas que existia no Egito Antigo e que também usamos”;

☥ Barcos de junco: que por acaso era o meio de transporte mais comum;

☥ Os arqueiros núbios para a segurança do faraó: inclusive o faraó Tutankhamon, que reinará anos após a morte de Akhenaton, terá um grupo de elite trabalhando para ele;

☥ Meninas como noivas e meninos como reféns: era uma tradição comum no Egito as princesas de países dominados casarem com o faraó e os príncipes serem criados com a alta realeza egípcia dando uma falsa ideia de “irmandade”.

☥ Sacrifício do boi com chifres enfeitados: Este animal enfeitado poderia ser oferecido em sacrifício aos faraós.

☥ Cuxe (Kushe) como sendo a “mina de ouro” do Egito: o ouro que abasteceu o Egito era retirado, principalmente, do atual Sudão, onde antigamente estava localizado o reino de Kushe;

☥ Tempestade de areia: eram, e ainda são, bastante comuns no Egito. A mais perigosa é chamada de khamsin.

 

Ankhkheperura é citada no livro?

Este é um pequeno spoiler. Recomendo que você prossiga somente se já leu todo o livro:

Clique aqui para ler o spoiler

Em um determinado momento Rahotep lê um texto que termina com a seguinte frase: “Quando alcançares o que procuras, verás que é uma mulher. Seu símbolo é a vida.” (página 184). Não sei se foi proposital por parte do Drake, mas existiu entre os reinados de Akhenaton e Tutankhamon o reinado de uma pessoa chamada Ankhkheperura Neferneferuaton. Por muito se achou que ela seria o rei Ankhkheperura Smenkhara. Entretanto, alguns egiptólogos acreditam que Ankhkheperura seria, em verdade, uma mulher e que esta poderia ter sido Nefertiti. O “ankh” (Ankhkheperura) significa “vida”.

[collapse]

 

Considerações finais:

“Nefertiti: O Livro dos Mortos” é um livro pouco usual no sentido de que não se apega a um Egito místico, tão comum em obras orientalistas. E apesar de não ter despertado muito o interesse dos booktubers (não encontrei nenhuma resenha) é uma obra que aconselho, em especial para quem gosta de enredos que envolvam mistérios e romances policiais. Embora eu particularmente não tenha achado os acontecimentos finais tão interessantes estou muito empolgada para começar a ler a sua continuação, o “Tutancâmon”.

A Editora Record ainda não demonstrou (ao menos não publicamente) interesse em trazer o volume final, Egypt: The Book of Chaos.

Dados do livro:

Título: Nefertiti: O Livro dos Mortos

Título Original: Nefertiti: The book of dead

Autor: Nick Drake (http://www.nickfdrake.com/)

Tradutor: Ricardo Silveira

EAN: 9788501090430

Gênero: Policial

Coleção: Rai Rahotep

Páginas: 350

Editora: Record

Link no Skoob: https://www.skoob.com.br/nefertiti-o-livro-dos-mortos-235609ed263373.html


[1] Por conta da grafia do nome fiquei com dúvida, mas acredito que ele seja o Nakhtmin.

Briga feia entre vizinhos: um “Casos de Família” do Egito Antigo

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Uma das coisas mais interessantes de se estudar a antiguidade egípcia é conhecer um pouco mais sobre as pessoas que caminharam nas terras do Nilo. As histórias de alguns, infelizmente, se perderam nas areias do tempo, mas outras conseguiram chegar até nós graças aos indícios arqueológicos, como é o caso da vida de Paneb, morador da aldeia de Deir el-Medina conhecido por ter sido muito briguento e altamente perigoso em algumas situações.

Deir el Medina

Restos de residências da aldeia de Deir el-Medina

Como o registro envolvendo violência entre vizinhos no Egito Antigo é de certa forma incomum comentei em tom de brincadeira sobre o assunto no meu Twitter há um tempo:

Então, o leitor Cadu Nogueira ficou curioso e pediu para que eu escrevesse acerca aqui no A.E.:

Pode deixar Cadu, este texto aqui é para você!

O violento Paneb e o seu pai adotivo:

A citada história foi registrada no atualmente chamado de Papiro Salt 124 (Brit. Mus. 10055), datado do início da 20ª Dinastia. Nele conhecemos um pouco sobre a trajetória de vida do encrenqueiro Paneb, um jovem humilde de Deir el-Medina que, a exemplo de muitos dos seus vizinhos com a sua posição social, foi um artesão. Os trabalhadores de Deir el-Medina eram divididos em dois grupos, cada um comandado por um escriba e um capataz. O capataz de um dos grupos chamava-se Ha, o outro Neferhotep — o segundo personagem importante desta nossa história — que gerenciava justamente o grupo de Paneb.

Neferhotep era um homem de meia idade que embora casado com uma mulher chamada Wabjet não possuía filhos. Desta forma, não tinha um herdeiro para ensinar o seu ofício e deixar como herança a sua posição [1]. Ele resolveu então adotar e escolheu justamente o Paneb, embora o rapaz ainda possuísse pais vivos e que cuidavam dele. Não se sabe muitos dos detalhes, mas é fato que Paneb foi entregue para o capataz, que imediatamente o levou para viver em sua casa, com a sua nova família composta pelos irmãos e sobrinhos do Neferhotep.

Deir el MedinaRuínas de Deir el-Medina vistas de longe.

Paneb teve uma mudança radical em sua vida para melhor já que um capataz exercia um papel muito importante em Deir el-medina, podendo usufruir das melhores acomodações, roupas e alimentos. Porém, em vez de se sentir agradecido o garoto tornou-se arrogante e intratável, sendo extremamente agressivo com várias pessoas que faziam parte do seu convívio, além de exagerar no consumo de bebidas alcoólicas. Apesar disso, Neferhotep não o baniu da família.

A segunda sorte de Paneb foi ao casar-se com a filha de Ha, Uabet, o que certamente melhorou muito mais a renda familiar.

— Veja também: Trabalho no Egito antigo: greves, maus-tratos e direitos

Passaram-se cerca de doze anos após o casamento, mas um perigoso incidente abalou os moradores de Deir el-Medina. Não conhecemos os motivos, mas em um ataque de fúria Paneb perseguiu o Neferhotep pelas ruas da aldeia. O idoso conseguiu se afugentar em sua residência, mas teve que escutar gritos de ameaças de morte proferidos por seu filho, que tentava derrubar a porta enquanto alguns aldeões se esforçavam para acalmá-lo. De acordo com o testemunho posterior de um dos irmãos de Neferhotep, o Paneb “Pegou uma pedra e arrebentou a porta” e sem conseguir alcançar o pai voltou-se contra os vizinhos e “bateu em nove homens naquela noite” (DERSIN, 2007; 37). Nada pior ocorreu porque uma vigília foi montada em frente à casa do capataz.

Deir el-MedinaEm algum lugar por aqui Paneb assustou seus vizinhos e parentes.

Neferhotep decidiu denunciar o filho não a um juiz local, mas ao próprio vizir do faraó. Porém, Paneb contra-atacou de maneira ousada, denunciando o próprio vizir a um alto-funcionário. Não se sabe o teor da denúncia, mas o cenário político do Egito na época estava recheado de intrigas palacianas, o que deu a chance dos detratores do vizir de depô-lo do seu cargo antes mesmo que a análise do caso do Paneb chegasse a uma conclusão.

O que se seguiu foi outro momento inesperado: Neferhotep perdoou o filho e não o baniu como seu herdeiro, apesar dos pedidos de seus parentes que o fizesse.

Por fim, o idoso faleceu e Paneb assumiu o seu cargo como capataz. Mas ele não parou de aprontar e mais uma vez arrumou confusão na vizinhança, deitando-se com algumas mulheres casadas. Porém, agora quem o denunciou foi o seu próprio primogênito, Aapethy, que disponibilizou, inclusive, uma lista com os nomes destas mulheres [2]. Entretanto, aparentemente nada ocorreu.

Uma das suas notáveis amantes foi uma moça chamada Hunro, que era casada com um pintor, do qual se divorciou posteriormente e casou-se com outro filho adotivo de Neferhotep, adotado anos depois de Paneb. O casamento não vingou — em parte porque Hunro e Paneb permaneceram como amantes — e três anos depois veio mais um divórcio.

Reconstituição feita por Golvin. Link: http://jeanclaudegolvin.com/deir-el-medineh-2/

Entra então em cena um dos irmãos do falecido Neferhotep, Amennakht, que dedicou anos a coletar evidências dos crimes de Paneb e com tudo completo entregou os dados para as autoridades. Dentre as acusações estavam furtos, agressões, adultério, estupro e assassinato. Na de furto constava que ele tinha surrupiado um ganso de ouro de dentro da sepultura de uma das rainhas de Ramsés II. Nas palavras do tio “Jurou pelo senhor pertinente, dizendo ‘Não está comigo’. Mas foi encontrado em sua casa” (DERSIN, 2007; 43). Desta vez a justiça foi feita e ele foi demitido do cargo de capataz. Não se sabe o seu derradeiro fim, mas uma inscrição do período encontrada em um óstraco [2] pode estar nos dando a dica: “execução do chefe” (DERSIN, 2007; 44).

 

Fonte integral deste post:

DERSIN, Denise. A história cotidiana às margens do Nilo (Tradução de Francisco Manhães, Marcelo Neves, Carlos Nougué, Michael Teixeira).  1ª Edição. Barcelona: Folio, 2007.


[1] Os trabalhos no Egito eram passados de forma hereditária.

[2] Apesar da denúncia o próprio Aapethy, igualmente ao seu pai, tinha sido acusado de estupro de uma mulher da aldeia.

[3] Pedaço de pedra ou cerâmica quebrada onde eram escritas pequenas mensagens, informações breves ou rabiscos. O papiro era muito caro, então os óstracos era uma opção barata.

 

A Múmia (2017): poder antigo e a sexualização de um monstro (Comentários com SPOILER)

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Este é o primeiro filme da Dark Universe, da Universal Studios, que nada mais é que uma franquia de filmes inspirados nos Monstros Clássicos da própria Universal e que incluem “A Múmia”, Drácula, Lobisomem e etc. “A Múmia”, por exemplo, teve o seu primeiro filme em 1932, e que foi a base para os demais onde estão inclusos os grandes sucessos “A Múmia” (1999) e “O Retorno da Múmia” (2001). Ambos estrelando Brendan Fraser.

Todos os “A Múmia” se aproveitaram da ideia de um arqueólogo ou egiptólogo que em busca de conhecimentos acaba despertando um mal antigo. Porém, aqui não existe tempo para acadêmicos: a nossa nova múmia não é desperta por meio de encantamentos lidos por um profissional, mas por um soldado, o Nick Morton (Tom Cruise), que faz bico como contrabandista e que de modo pouco sutil retira o ataúde — ou melhor: a prisão — de uma princesa egípcia maligna, a Ahmanet (Sofia Boutella), de um poço de mercúrio.

A história do nosso novo monstro é simples: Ahmanet era a herdeira do trono do Egito, mas com o nascimento de um menino vê seu futuro como faraó arruinado. Então, ela toma como única solução fazer um pacto com o deus Set (Seth) pedindo por poder e assassina a sua própria família, inclusive o recém-nascido. No entanto, para que o pacto seja válido, ela ainda precisa entregar um homem em sacrifício, que deve ser morto com a Adaga de Set[1], para que ele receba o poder do deus. É aí que tudo dá errado: Na fase final do ritual a princesa é impedida por guardas, o rapaz escolhido para o sacrifício executado e ela sepultada viva.

Ahmanet. Foto: Divulgação.

Foto: Divulgação.

A personagem da Ahmanet despertou a curiosidade de uma parcela do público, que ficou ansiosa em saber se ela de fato existiu. A resposta é curta e simples: não. Entretanto, o seu nome parece ser inspirado no da deusa Amonet, a contraparte feminina do deus Amon.

 

Os equívocos:

E como era de se esperar, uma série de equívocos foram realizados, como a afirmação de que o mercúrio era utilizado pelos antigos egípcios para afastar os “maus espíritos” — isso é irreal [2]— ou que o deus Set é a divindade da morte; em verdade era do caos e do deserto. E ao contrário dos demais filmes que fizeram algum esforço para se inspirar em artefatos egípcios, aqui inspiração é a mínima possível. A Egiptomania ganha destaque e a Egiptologia é pouco levada a sério.

A Arqueologia também não tem muito espaço: o filme é aberto com uma imagem que está cada vez mais comum, que é a de radicais destruindo artefatos arqueológicos. Neste sentido a arqueóloga Jenny Halsey (Annabelle Wallace) era quem supostamente deveria catalogar estes objetos e salvar o que pudesse para manter ao menos algum registro histórico. Contudo, ela só tem olhos para o sarcófago de Ahmanet — o que perpetua a ideia de que o profissional arqueólogo está sempre em busca de coisas particulares que são, em poucas palavras, “a pesquisa da sua vida” — e ainda o transporta da forma mais questionável possível, com o uso de cabos e um helicóptero.

As roupas, penteados e maquiagem têm um apelo estético levemente voltado para a antiguidade egípcia. Nós entendemos que o Egito Antigo está ali, mas ele foi modificado para hora parecer visualmente mais agradável ao espectador (como é o caso da maquiagem da princesa que apesar de linda seu design só tenta se associar a antiguidade egípcia), hora para parecer grotesco (como as cabeças com um toucado nemes[3] que estão no topo da prisão de Ahmanet).

Foto: Divulgação.

Foto: Divulgação.

Foto de bastidor: Divulgação.

Os acertos:

Apesar de terem errado ao classificar Set como deus da morte, acertaram ao associar o poder de Ahmanet com pragas, a exemplo do bando de aves que atacam o avião ou os ratos em Londres da alucinação do Nick.

Personagens Jenny e Nick. Foto: Divulgação.

Figura feminina egípcia com marcas que provavelmente são tatuagens. Museu do Louvre.

Já quando Ahmanet recebe o poder de Set tatuagens passam a cobrir o seu corpo. Em entrevista um dos membros da equipe de gravação afirmou que isso era para dar um ar mais bizarro para a personagem, mas, tatuagens muito parecidas eram utilizadas por mulheres na antiguidade egípcia. Existem registros arqueológicos que retratam corpos femininos com pontinhos espalhados pelo corpo, figuras geométricas, imagens de deuses ou formas amuléticas. Tatuagens no Egito Antigo é um tema um pouco nebuloso, mas, caso queira saber mais sobre este assunto assista ao vídeo “Tatuagens no Egito Antigo” clicando aqui.

Outro ponto são os cruzados possuírem um artefato egípcio. O Egito era um ponto estratégico para o domínio do Levante, então é plausível que esses soldados carregassem consigo algo do país.

E por fim existem casos de mulheres ter o poder supremo do Egito, no vídeo Mulheres Faraós comento brevemente sobre elas. Se a personagem Ahmanet não fosse inclinada para o mal ela provavelmente teria tornando-se regente do irmão e se tivesse uma boa rede política assumiria como faraó tendo o seu irmão como herdeiro. Foi esse o caso da Hatshepsut, a diferença é que o seu herdeiro foi o seu enteado, Tutmés III.

 

Referências aos demais filmes:

A Múmia é uma franquia com quase 100 anos com um filme inspirando ou alimentando os outros. Neste de 2017 as maiores inspirações vieram dos de 1999 e 2001. Desta forma, fiquem de olho nas cenas de luta, porque ao menos duas delas foram inspiradas nas desses dois títulos. Prestem também atenção no som emitido pelas múmias, são os mesmos das que aparecem nesses dois filmes. O rosto do monstro na tempestade de areia foi novamente utilizado e os famosos escaravelhos carnívoros foram substituídos por aranhas-camelos venenosas. Mas, a melhor referência, sem dúvida, foi o aparecimento do Livro de Ouro de Amon-rá.

O Livro de Ouro de Amon-Rá no filme de 1999. Captura.

Ser sepultada viva é um ingrediente presente em todos os outros filmes. A única diferença, como já foi citado, foi ela não ser despertada por meio de encantamentos.

Ser sepultado vivo faz parte de todas as tramas do monstro “A Múmia” da Universal.

A tempestade de areia: uma das referências a outros dois títulos da franquia.

Um monstro mulher foi o grande trunfo, mas sua sexualização o desvinculou do restante da franquia. Enquanto tínhamos um Imhotep ou um Kheris com o objetivo de despertar a amada, Ahmanet vê em seu “escolhido” a chave para o poder com um discurso sexual nas entrelinhas. Mas, isso não para aí: enquanto que o Imhotep de 1999 e 2001 suga a vida das suas vítimas pelo ar a Ahmanet se utiliza do beijo. Isso nos remonta ao texto de Craig Barker, Friday essay: desecration and romanticisation – the real curse of mummies — que foi traduzido aqui no A.E. — onde ele faz a seguinte pontuação:

Um número de estudiosos, especialmente Jasmine Day, têm investigado o papel das múmias na ficção do século XIX e um aspecto interessante é o número de escritoras femininas desses contos.

Uma das, se não a mais antiga, história de múmia é The Mummy!: Or a Tale of the Twenty Second Century (1827) de Jane Webb (Loudon), que mostra o avivamento de Quéops no ano 2126. Outras escritoras apresentaram um interessante subtexto e perspectiva.

Os túmulos de múmias egípcias da realeza haviam sido violados e explorados por saqueadores, e uma analogia com o estupro é clara dentre as antigas ficções de maldição de múmias escritas por mulheres. Em contraste, escritores masculinos, como o Gautier, apresentavam muitas visões mais romantizadas ou eróticas dos mortos.

E de fato. “A Múmia” passou pelas mãos de quatro roteiristas, todos homens: Jon Spaihts, Christopher McQuarrie, David Koepp e Dylan Kussman.

Ahmanet e o seu “escolhido”.

O futuro da Dark Universe e de “A Múmia”:

O futuro para a franquia parece incerto, ao menos para alguns veículos de imprensa que apontam o “fracasso” e o prejuízo financeiro gerado pela bilheteria baixa. O objetivo do A.E. é falar principalmente da Arqueologia, Egiptologia e o uso do Egito Antigo em obras de ficção e não de questões que envolvam roteiro, efeitos especiais, etc. Entretanto, observando com um olhar mais crítico, não é difícil notar as grandes falhas de “A Múmia” em parte do seu roteiro e construção de alguns dos seus personagens. Especialmente como fã da franquia este é um filme divertido, mas com problemas que podem comprometer suas futuras continuações… Se existirem.

Tenha em casa: A Edições Del Prado, uma editora especializada em vendas de fascículos com imagens colecionáveis, possui uma coleção intitulada “Cenas do Egito Antigo”. Uma delas recria um momento durante a mumificação.

Clique aqui para conferir a peça ou aqui para ver as demais cenas.

 


Notas:

[1] A Adaga de Set é um artefato plenamente fictício inventado unicamente para o enredo do filme.

[2] Para quem tem curiosidade: existe um pequeno verbete sobre o raro uso de mercúrio no Egito no livro “Ancient Egyptian Materials and Technology” editado por Paul T. Nicholson e Ian Shaw (Cambridge University Press).

[3] Nemes: toucado listrado representado na cabeça de faraós.