20 May 2012

Sobre leão achado no Egito em 2001

Publicado por Márcia Jamille Costa Em 03 - abril - 2012 ADD COMMENTS

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille

 

Leões são animais nativos das savanas, mas seu culto se fez popular no nordeste da África por representar o poder do faraó. Imagem disponível em < http://www.androidwallpaper.us/animals/african-lion/ leão >. Acesso em 02 de abril de 2012.

Vários foram os animais divinizados no Egito, mas poucos são tão populares nas discussões atualmente. É reconhecida a existência de cultos aos gatos e crocodilos, mas raramente é comentado acerca do culto aos leões, animais tão raros no Egito na época dos faraós, mas que eram de suma importância para pensamento religioso e o discurso monárquico, sendo um dos principais símbolos do poder do governante.

Nativo das savanas africanas, os leões deveriam chegar até o Egito transportados pelo rio Nilo. Assim como outros felídeos de grande porte é possível que alguns deles tenham vivido nos palácios reais, servindo como animal de estima do faraó. Em suma, poucos exemplares foram encontrados em sítios arqueológicos o que dificulta fazer uma estimativa de quantos poderiam ter vivido no Egito. Um destes exemplares foi encontrado em 2001 em Bubastis e transformou-se em uma das ocorrências incomuns da Arqueologia Egípcia.

Bubastis encontrava-se próximo a Aváris e Tânis, na literatura clássica ela era conhecida como Bubasteion, mas dentre os egípcios era chamada de Per-Bastet, “casa de Bastet” ou “pertencente à Bastet” (clique aqui e leia mais sobre Bubastis).

Embora a necrópole de Bubastis seja celebre pelas múmias dos gatos votivos a deusa Bastet, cujo culto tornou-se popular durante a Baixa Época e principalmente período Ptolomaico, também existiam múmias de outros animais, dentre elas, a de um leão, o único exemplar descoberto em Saqqara [1]. Ele foi encontrado na tumba de uma funcionária da casa real chamada Maya, que viveu nos anos finais da XVIII Dinastia servindo ao faraó Tutankhamon como ama de leite.

A tumba de Maya foi descoberta em 1996 pela Missão Arqueológica Francesa (MafB), equipe que trabalha até hoje nas ruínas da antiga capital. Foi esta mesma missão que encontrou o este animal em 2001. O espécime está praticamente intacto, exceto pelo o fato de que o seu crânio está parcialmente esmagado, porém não foi encontrado nenhum sinal de violência que poderia ter causado a morte do animal. A sugestão da equipe é de que ele morreu idoso e de forma natural.

Em seu artigo A lion found in the Egyptian tomb of Maïa, o coordenador da expedição, Alain Zivie (et al), destaca que a primeira vista o esqueleto está em uma posição que lembra as das múmias de gatos, embora a disposição dos membros posteriores esteja diferente.

 

Desenho da missão de arqueologia. A cor azul e amarela/laranja representam os membros anteriores e posteriores, respectivamente. Imagem disponível em ZIVIE, Alain; SAMZUN, Anaïck; CALLOU, Cécile. “A lion found in the Egyptian tomb of Maïa”. Nature. 15 January 2004, Vol 427.

 

 

Nos textos clássicos e inscrições faraônicas os leões são citados como animais sagrados no Egito. As esfinges, por exemplo, era um misto de cabeça humana (ou de carneiro) com o corpo de um leão.

Zivie aponta que o leão pode ser o símbolo do deus Mahes, senhor da coragem, filho da deusa Sekhemet (uma mulher com a cabeça de uma leoa) ou Bastet (geralmente apontada como um lado apaziguado de Sekhemet).

A pesquisa no túmulo demonstrou que o leão, apesar de estar em uma tumba da XVIII Dinastia, pertence ao período Helenístico (anos finais da chamada era faraônica), ou seja, em nada tinha a ver com a Maya ou o seu protetor Tutankhamon.

 

Membro da equipe de Arqueologia em frente ao corpo do leão encontrado na tumba da ama de leite de Tutankhamon. Embora esteja em uma tumba da XVIII Dinastia o animal pertence ao período Helenístico. Imagem disponível em ZIVIE, Alain; SAMZUN, Anaïck; CALLOU, Cécile. “A lion found in the Egyptian tomb of Maïa”. Nature. 15 January 2004, Vol 427.

 

[1] Existe outro exemplar, mas datado da Dinastia 0, na época do faraó A-ha.

 

Fontes consultadas:

MÁLEK, J; BAINES, J. Deuses templos e faraós: atlas cultural do Antigo Egito. Barcelona: Ediciones Folio, p 174 – 175. 2008

SILIOTTI, A. Egito. Barcelona: Ediciones Folio, p 59. 2006

ZIVIE, Alain; SAMZUN, Anaïck; CALLOU, Cécile. “A lion found in the Egyptian tomb of Maïa”. Nature. 15 January 2004, Vol 427.   

 

Máscaras Mortuárias na RHBN

Publicado por Márcia Jamille Costa Em 26 - março - 2012 ADD COMMENTS

 

Está nas bancas neste mês de março (2012), na Revista de História da Biblioteca Nacional, o artigo “A face das múmias” de Márcia Severina Vasques. Veja abaixo uma previa do texto:

 

Nós, brasileiros, não estamos alheios à rica civilização antiga que foi a egípcia. Acervos como os do Museu Nacional ou da Fundação Eva Klabin, ambos no Rio de Janeiro, são importantes fontes de pesquisa para quem quiser estudar Egiptologia. Normalmente, este tipo de pesquisa é feito no Brasil com base em coleções de museus e em visitas a sítios arqueológicos. Um estudo sobre máscaras mortuárias pode ser feito a partir da análise das peças de coleções de museus ou por meio de publicações especializadas. É um tipo de pesquisa que exige paciência, persistência e, sobretudo, paixão, pois temos que nos debruçar sobre inúmeras peças e tentar estabelecer conexões entre elas, refletindo sobre sua produção e seu significado.

Em geral, os procedimentos de uma pesquisa arqueológica envolvem trabalho de campo, laboratório, e, por fim, o cruzamento de dados e informações por parte do arqueólogo. Pode ocorrer também o caso de o material já estar disponível em um acervo de museu, pois foi resultado de escavação antiga, ou mesmo já ter sido publicado em um catálogo de coleção. Este fato não impede que um novo estudo seja feito a seu respeito, pois cada pesquisador tem uma nova pergunta para seu objeto de estudo. Em minha pesquisa, estava preocupada em analisar as relações culturais entre egípcios, gregos e romanos no Egito sob domínio romano (30 a.C.- 395 d.C.). Selecionei, a partir de catálogos e publicações, as máscaras confeccionadas em determinadas regiões do Egito – Alto Egito, Médio Egito, Fayum e os Oásis de Kharga e Baharyia, e as classifiquei conforme suas áreas de achado, conhecidas ou prováveis. Assim, poderia observar as mudanças nos costumes funerários tanto pela característica de cada localidade como também a partir da longa duração.

Foi possível notar que a função dessas máscaras permaneceu praticamente inalterada desde o seu aparecimento na época faraônica. A arte egípcia – desenhos, esculturas, pinturas e mesmo os hieróglifos – tinha como função principal manter “vivos” os rituais mágicos. A máscara, em última instância, tinha por objetivo servir como substituto da cabeça do morto, sobretudo se a múmia fosse danificada. No entanto, seu tipo de produção e seus elementos iconográficos não eram exatamente iguais em todo o Egito. Em áreas onde predominava uma população de origem grega e macedônica, a influência cultural romana é mais perceptível, sendo o morto retratado “à romana”, em termos de vestimentas, penteados e adornos. Mas quando nos afastamos do Mar Mediterrâneo e das cidades costeiras em direção ao interior, ao sul do Egito, percebemos maior apego às formas tradicionais egípcias (…).

 

Texto disponível em < http://www.revistadehistoria.com.br/secao/a-historia-do-historiador/a-face-das-mumias >. Acesso em 15 de março de 2012.

 

Leia mais na edição de março.

 

Clique aqui e veja o currículo de Márcia Severina Vasques.

【Artigo】O Saque de Tumbas

Publicado por Márcia Jamille Costa Em 05 - março - 2012 ADD COMMENTS

 

O Saque de Tumbas no Tempo dos Faraós - Moacir Elias Santos| Português |

 

Algumas das tumbas da necrópole tebana descobertas por antiquários e saqueadores, no século XIX, apresentavam um contexto perturbado, resultado da ação de antigos roubos.

Neste trabalho, nos concentraremos em entender a ocorrência dos saques, bem como as tentativas de contê-los, tomando como exemplo a vila de Deir el-Medina, onde residiam os trabalhadores que construíam e equipavam as tumbas.

 

Obtenha o artigo: O Saque de Tumbas no Tempo dos Faraós

Perguntas de final de ano para Márcia

Publicado por Márcia Jamille Costa Em 31 - dezembro - 2011 2 COMMENTS

Respostas datadas no dia 31/12/2011 por Márcia Jamille N. Costa.

 

Primeiramente quero agradecer a todos que enviaram suas questões. Senti ter que excluir algumas, mas durante as avaliações foi tomada como meta escolher as que se tornavam uma dúvida comum e as mais ousadas, afinal, é uma postagem de final de ano e não há nada mais importante do que transformar este dia em um momento diferente. Quando abro momentos como este é extremamente gratificante, pois me sinto mais próxima a vocês de alguma forma. O Arqueologia Egípcia em fim torna-se um diálogo e não uma explanação única e simplesmente.

Fiz um sorteio para saber quantas perguntas escolher, desta forma teria que responder seis questões. Para manter o mesmo número do ano passado resolvi sortear a sétima.

Vejamos as escolhidas:

 

1ª pergunta (Ingrid):

Eu gostaria de saber se é muito difícil conseguir emprego em arqueologia no Brasil quando se é recém graduado.

 

Oi Ingrid. Quando terminei minha graduação não procurei por emprego, mas outros colegas sim, e alguns já estão empregados, inclusive um amigo que acabou de se formar já está com o emprego praticamente garantido em uma empresa de consultoria em Arqueologia. A idéia é não ficar em casa esperando alguém ligar com a proposta, é ir atrás. Fique de olho nos boletins da Sociedade de Arqueologia Brasileira (SAB) para saber como ficará a situação dos graduados em Arqueologia no nosso país.

Outra coisa importante: invista no seu currículo. Vá para eventos e produza artigos ou ensaios. Não espere para fazer estas coisas durante o mestrado. Este importante detalhe vai te valorizar.

 

2 ª pergunta (Thatyane):

Olá!

Gostaria de saber como faz para estudar egiptologia no Egito.

Provas, a universidade que aceita estrangeiros, se tem como fazer um intercambio, e se precisa de algum diploma para poder entrar (feito aqui no Brasil).

Obrigada!

 

Oi, tudo bom? Não sei dizer em quantas Universidades no Egito você pode estudar Egiptologia, nem como entrar, mas na Americana do Cairo, por exemplo, teve um processo de seleção neste final de ano em que para ingressar dois dos pré-requisitos básicos era ser PHD e saber traduzir Hieróglifos. Você tem que buscar pelos Editais. Outra coisa, nem todas as Universidades são unanimes (darei exemplos de fora do Egito), algumas estão pedindo experiência na área de História, outras querem Artes, outras a Arqueologia e outras conservação in situ, depende muito da finalidade do programa. A forma de ingresso também consta em Edital. O diploma é uma questão que deve ser vista com a própria Universidade de interesse já que da mesma forma que alguns dos nossos diplomas não são válidos fora os de fora também podem não ter validade aqui.

Meu conselho totalmente pessoal é que se quer investir em uma educação em Egiptologia fora do nosso país é que procure Universidades nos EUA ou alguma na França ou Inglaterra, pois além da língua ser mais acessível o corpo de Egiptologia é mais experiente em termos de ter uma tradição com pesquisa em campo. No Egito tudo ainda está muito novo e os recém formados de lá estão em choque com as autoridades porque não estão recebendo experiência de campo.

 

3ª pergunta (Anônimo):

Com um diploma de graduação em Arqueologia Brasileira eu posso trabalhar no Egito?

 

Trabalhar no Egito exige uma série de questões, algumas de teor político.  Nunca trabalhei lá, mas temos profissionais brasileiros que mesmo sem uma formação ampla em Egiptologia (ampla para o contexto brasileiro é se formar com uma monografia, dissertação ou tese relacionadas ao Antigo Egito em uma instituição reconhecida pelo MEC e desenvolver uma vida acadêmica sobre) escavam no Egito com equipes estrangeiras. Às vezes são contatos estabelecidos ou indicações. Talvez se tivéssemos um corpo forte de Arqueologia Egípcia isto não seria algo tão “segregado”. Entendo que sua pergunta seja exclusivamente trabalhar em escavações, mas a Arqueologia não se resume a isto. Você pode trabalhar com acervos, catálogos, escrever livros ou matérias para o publico leigo ou amador. O museu Britânico possui inclusive programas para estrangeiros que necessitam de treino. Existem possibilidades para se preparar para o mercado de trabalho, mas é preciso procurar e se dedicar.  

 

4 ª pergunta (Jayna Melo)

Na sua visão, há uma maior valorização/interesse da arqueologia egípcia por se tratar de dinastias, múmias; enfim, uma grandeza arquitetônica e uma riqueza de materiais, em detrimento da arqueologia brasileira que praticamente se resume a questão indígena?

 

Por muito pouco pensei que era a professora Janaina Mello quem tinha redigido esta pergunta. Ela está fazendo aniversário hoje (Parabéns para ela! Muitos anos de vida!). E em fim: Por parte do público comum sim. Frequentemente vejo pessoas se referirem a Arqueologia Egípcia como a verdadeira Arqueologia não só por sua antiguidade em termos de constituição de sociedade e cultura, mas em termos de artefatos os quais consideram mais “evoluídos” o que tornaria o Egito faraônico extraordinário. Recentemente comentei em meu blog que as pessoas se apegam mais as questões de gestão dos artefatos egípcios do que aos artefatos do seu próprio país e finalizei com um “basta refletimos acerca dos motivos”, mas na verdade eu já tinha dado a resposta, a mídia de certa forma tem sua parcela de culpa, todos os anos temos especiais sobre a Antiguidade Egípcia, mas quase não temos nenhum sobre Arqueologia Brasileira e neste caso quando são produzidos recebem pouca divulgação. Já que mencionou a questão indígena temos a Arqueologia Amazônica, poucos eram os brasileiros que ouviam falar até que começaram a aparecer documentários e matérias de revistas sobre a Terra Preta de Índio. A Amazônia, desde então, parece ter virado a Meca da Arqueologia Brasileira, muito se fala sobre ela e seus sítios. Os próprios arqueólogo brasileiros também são culpados já que alguns levantam como Arqueologia somente o que relacionam com a “Pré-História” e tudo o que tem a ver com as sociedades com escrita como o objeto de estudo da História, desta forma a Arqueologia Histórica no nosso continente vem sofrendo um bocado com isto inclusive na sua constituição. Voltando a questão egípcia parte do público observa tudo de uma forma lúdica o que acaba refletindo na busca por um passado glorioso (é tanto que não é estranho encontrarmos no Brasil tantas pessoas que se dizem reencarnações de rainhas e faraós) e normalmente para a nossa sociedade infelizmente o índio é visto como o símbolo da inferioridade, uma semente ruim, um passado de decadência. É mais propício se relacionar a faraós do que com índios, a pena é que a Arqueologia dos índios do Brasil tem tanto a mostrar, as últimas pesquisas têm indicado coisas incrivelmente maravilhosas, mas infelizmente o público vê com pouco interesse.

 

5ª pergunta (Natália):  

Primeiro queria deixar claro que amei a idéia de ver isso de novo, e que agora vou conseguir participar… Mas vamos lá…

Se você tivesse a oportunidade de falar cinco minutos com (vou usar meu favorito aki ^^ he he) Tutankhamon,o que diria a ele?

 

Oi Natália! Tudo bom? Creio que é a Natália que sempre aparece por aqui! Feliz Ano Novo!

O Tutankhamon é quase meu garoto propaganda, é a foto dele que está como background no meu Twitter, ele abre o meu mural no Facebook e é minha imagem de assinatura aqui no Arqueologia Egípcia. Foi graças a ele que me interessei de vez pela Arqueologia. Teríamos quase uma relação de cumplicidade se mais de 3000 anos não nos separasse, desta forma, cinco minutos jamais daria para falar muito, porém tentaria dizer que hoje em dia ele é quase uma estrela do Rock, por incrível que pareça ele possui groupies e é muito amado pelas crianças, fora as pessoas que o tomam como objeto de culto e outros que se inspiram nele. Embora o tratem como irrelevante para a Arqueologia é incrível ver como existem pessoas que se iluminam ao ver os artefatos ligados a ele, as crianças, por exemplo, se encantam profundamente, neste último caso já cheguei a ler um comentário de que é porque existe uma identificação, mas nunca vi uma criança se encantar com o garoto por ele ter sido um faraó jovem, mas pelas imagens, para os adultos é só um rapaz que morreu drasticamente e foi enterrado com as suas coisas, para as crianças é uma pessoa que parecia ser legal e os seus artefatos é um playground para conhecer coisas novas. Parece bem uma atração muito afetuosa.

 

6ª pergunta (Jane Viana):

Quando é que você vai trazer um curso deste de egiptologia ou religião egípcia para UFS? Ou para SE? Estamos aguardando!

 

Pessoal, a Jane é uma das alunas da graduação em Arqueologia na UFS.

Jane! Primeiramente feliz Ano Novo e estude muito para quando voltar para o próximo período. Obrigada por enviar uma pergunta que embora descarada (gente, ela sempre me importuna com esta pergunta =D ) é válida. Ainda não tirei meu mestrado, mas até lá só sobra os eventos e o próximo período, pois nele tenho que fazer minha livre docência, então, quem sabe…

 

7ª pergunta (Eugênio – Brusque –SC)

Márcia, parabéns

Admiro o seu trabalho, e gostaria de te conhecer, e dividir o nosso amor pelo Egito.

Bom 2011, vida, prosperidade e saúde

 

Esta foi a pergunta sorteada, não é bem uma pergunta, mas vamos lá:

Eugênio, fico feliz que tenha enviado uma mensagem já que nos últimos meses tem participado bastante aqui no Arqueologia Egípcia. Realmente seu interesse pela sociedade egípcia tem sido admirável.

Um dia espero que cada cidade do Brasil tenha sua cota de egiptólogos e que montem mais eventos pelo território. Quem sabe não nos vemos em um destes.

Ankh, Wdja, Seneb* e até o próximo ano!

 

E para todos os leitores do Arqueologia Egípcia: Tenham o início de um Ano Novo Feliz!

 

 

Vale dos Reis. Imagem disponível em < http://www.touristspots.org/the-valley-of-the-kings-in-thebes-egypt/ >. Acesso em 09 de novembro de 2011.

 

 

(*Vida, prosperidade e saúde)

 

 

Tumba de Maya na National Geographic

Publicado por Márcia Jamille Costa Em 14 - novembro - 2011 2 COMMENTS

Esta matéria publicada em 2003 na revista National Geographic Brasil conta um pouco sobre a tumba de Maya, o tesoureiro real de Tutankhamon (e que provavelmente foi o responsável pela supervisão do encerramento da tumba do faraó).

Confira o texto com as palavras de Alain Zivie, o arqueólogo responsável pelas pesquisas no sepulcro:

 

 

O guardião do tesouro do deus-sol (Edição 43/Novembro de 2003)

A descoberta do túmulo do guardião das finanças do faraó Akhenaton intriga cientistas

 

Por Alain Zivie

Fonte: National Geographic Brasil

 

 

O túmulo do guardião do patrimônio dos templos do Egito, no reino do Deus-Sol Akhenaton, há mais de 3,3 mil anos

 

Muita experiência, intuição e um pouco de sorte fizeram com que eu chegasse até esse túmulo no antigo cemitério de Saqqara.

 

Com o apoio do Ministério de Assuntos Exteriores da França, eu já encontrara sítios funerários num penhasco da região, inclusive um que pertencera a um alto funcionário de Ramsés, o Grande (consulte “O enviado de paz do faraó”, outubro de 2002) e outro preparado para Maïa, ama-de-leite de Tutankhamon. À medida que minha equipe trabalhava, as pás iam revelando uma abertura na rocha. Assim que a areia foi removida, vi uma capela mortuária sustentada por uma colunata, com uma estela de pedra entalhada. Na escarpa atrás dela, descobrimos dois aposentos cobertos de relevos e uma escadaria levando a uma câmara sepulcral inacabada. Inscrições revelam que o proprietário tinha dois nomes: Raïay e Hatiay. Ele foi um importante administrador dos templos de Aton em Akhetaton (a nova capital) e em Mênfis (a antiga). Ou seja, esse homem cuidava do ouro e das oferendas para Aton em duas das principais cidades egípcias. Suas relações com Akhenaton eram próximas: relevos na tumba refletem a devoção de Raïay à religião extremista do faraó. Mas alguns deles foram modificados, e isso aconteceu provavelmente durante a vida de Raïay. Agora, a pergunta que fica no ar é: por quê?

 

Lindos relevos, executados pelos melhores artistas do país, enfeitam a tumba de Raïay. Mas sua função não é só decorativa. Envoltos em magia, facilitavam o caminho dele de volta à vida após a morte. Na cerimônia de “abrir a boca,” um sacerdote devolve os sentidos à múmia de Raïay, segura por um parente de luto. Esta imagem mostra que preparativos tradicionais para a vida eterna eram feitos mesmo durante o reinado nada ortodoxo de Akhenaton. Mas, como os textos que acompanham a cena estão de acordo com a adoração do faraó ao deus Aton, referências normais a Osíris, o deus da morte, foram omitidas. De fato, os relevos das paredes da tumba homenageiam apenas Aton.

 

A estela da entrada da tumba, porém, menciona diversos deuses egípcios. Num painel, Raïay e sua mulher fazem oferendas a Osíris. Inscrições mencionam deuses como Ptah, patrono de Mênfis, e Amon, a quem a esposa de Raïay ofereceu canções sagradas. Essa estela é fundamental para interpretar a tumba. Teria sido colocada depois que Akhenaton morreu, quando Raïay e seus contemporâneos retomaram antigos costumes, sob a autoridade de um novo faraó, Tutankhamon.

 

Raïay construiu essa tumba para sua mulher e para si mesmo. A esposa aparece sentada atrás dele ofertando flores. Mas ninguém foi enterrado nesse local.

 

A imagem de Raïay vigia a entrada de uma câmara mortuária inacabada. À medida que o povo deixou de lado as obsessões de Akhenaton, essa tumba provavelmente transformou-se numa ameaça, apesar das alterações feitas. Ao sentir o perigo iminente, Raïay parece ter abandonado o complexo funerário. Inscrições revelam que o nome de sua mulher era Maïa. Seria Maïa a que foi a ama-de-leite do rei Tutankhamon? Se for, será que a influência dela ajudou Raïay a recuperar a confiança real? E será que ele foi, afinal, enterrado em uma tumba ao lado da mulher? As respostas podem estar escondidas no penhasco de Saqqara.

 

Disponível em < http://viajeaqui.abril.com.br/materias/egito-tumba >. Acesso em 02/11/2011.

 

 

Tutankhamon e o 4 de novembro de 1922

Publicado por Márcia Jamille Costa Em 04 - novembro - 2011 7 COMMENTS

Uma breve reflexão acerca da descoberta da KV-62 e sobre o próprio Tutankhamon

 

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille

 

A ciência, como conhecemos hoje, passou por várias etapas em termos metodológicos. Após anos de divagações ela tornou-se o sinônimo de certeza para as pessoas, mas é preciso explanar que a ciência pode, muitas vezes, não ser neutra. Momentos sócio-políticos podem delimitá-la ou usá-la para os mais variáveis fins. Desta forma, com a ciência Arqueologia não foi, e não está sendo, diferente. Ano após ano, vemos interpretações diferentes para os mesmos vestígios e não raramente com pesquisadores diferentes a frente das novas hipóteses.

Após a invasão de Napoleão e a dominação inglesa, o nordeste da África era agora palco de disputas européias para saber quem conseguia o melhor artefato, com o fim de levar para o seu país de origem um pedaço da história antiga, assim, a Arqueologia entrou no Egito no momento em que a Europa procurava dominar para si os países “atrasados”, mas que possuíam na veia os primórdios das civilizações. Fora, em parte, do enlaço político, ricos e aventureiros buscavam no Egito uma forma de extravasar o seu dinheiro ou conhecer os mistérios que rondavam a antiguidade, para isto, contratavam arqueólogos experientes para procurar túmulos ou eles mesmos saiam na busca por tesouros do deserto para expô-los em suas galerias fechadas ou em museus suntuosos. Olhando assim, não seria uma afronta afirmar que, para muitos magnatas e nobres do século XIX, a Arqueologia era um esporte a ser praticados em países quentes, exóticos e subdesenvolvidos.

Neste meio tempo, no início do século XX, um arqueólogo inglês descobriu o túmulo real, praticamente intacto de um faraó que tinha falecido com não mais que 18 ou 19 anos, Tutankhamon. A abertura do seu sepulcro e a revelação para o mundo do que existia ali dentro, fez mudar na forma de como os nativos egípcios tratavam sua cultura material da era faraônica. Não mais os artefatos poderiam sair do Egito, a idéia de que o escavador estrangeiro poderia levar seus achados para seu país natal agora era algo impensável e anacrônico: ironicamente, foi este mesmo achado quem acabou emprestando glamour à Arqueologia Egípcia e criando nela ainda um fascínio maior para a caça ao tesouro. Ocorrida no dia 04 de Novembro de 1922, esta descoberta foi o estopim para que o governo egípcio acordasse para a proteção dos seus bens culturais. Hoje, quase nove décadas após a descoberta da tumba de Tutankhamon pelo o arqueólogo inglês Howard Carter, muita coisa mudou para a Arqueologia Egípcia: as descobertas estão sendo anunciados em sites – muitas vezes atualizados pelos os próprios arqueólogos -, foram criados jogos cada vez mais educativos para crianças, são elaborados ambientes virtuais que imitam sítios arqueológicos e exposições itinerantes visitam vários países não só da Europa ou América do Norte, mas pelo o mundo todo.

É de se orgulhar que tenhamos evoluído tanto, mas como evolução não quer dizer propriamente perfeição, noto que ainda temos muito ao que nos dedicar, principalmente em prol do novo intuito da Arqueologia, que é trabalhar pelo o social. Nesta data que estamos relembrando hoje nós curiosos, historiadores e arqueólogos devemos também parar e refletir sobre as pesquisas acerca dos artefatos encontrados naquela época.

Desde a descoberta da tumba de Tutankhamon, o grande público tem sido bombardeado com histórias que não raramente são cheias de intrigas. Documentários muito bem elaborados, mas que trazem mais uma e “revolucionaria” “conclusão” para a morte de Tutankhamon. Porém, não é “revolucionaria” porque em nada mudará nossas vidas, e tão pouco “conclusão” porque sempre sabemos que nos próximos anos alguém virá com mais uma hipótese. Será que o mais importante é descobrir a verdadeira causa da morte de Tutankhamon ou tentar entender quem ele realmente era e a sociedade a qual pertencia? Cada vez mais colegas estão se entregando ao entretenimento e se jogando no mesmo turbilhão em que a impressa da década de vinte estava envolta, criando qualquer caso sobre a tumba deste rapaz falecido em 1322 a.C com o fim de ganhar dos seus leitores algumas gordas migalhas de pão.

Espero que estas breves palavras sirvam para a reflexão, não precisamos cometer mais erros com a pessoa de Tutankhamon, não é necessário expô-lo a qualquer preço para vender algum livro ou documentário, se continuarmos praticando isto estaremos incorrendo as mesmas falhas daqueles arqueólogos do século XVII, XVIII e XIX que buscavam tesouros, não pessoas e atos, para expor para a sociedade em galerias de museus. É como se aprisionássemos um animal feroz para o deleite do público, mas não fizéssemos as pessoas raciocinar sobre a biologia daquele ser que está enjaulado.

 

O vídeo abaixo mostra um pouco de como foi o ambiente da descoberta da tumba e alguns comentários acerca do faraó:

 

 

 

Algumas das fotográficas feitas por Harry Burton (fotógrafo oficial da equipe) após Carter abrir a tumba. Clique na imagem com o botão direito do mouse e use o comando “Abrir link na Nova Guia”, para sua melhor navegação pelas fotos:

 

 

 

 

Abaixo links de algumas matérias já publicadas aqui relacionada a Tutankhamon:

 

10 coisas sobre Tutancâmon

Tutankhamon (Tutancâmon) reinou durante cerca de uma década durante a XVIII Dinastia (Novo Império). Seu túmulo foi encontrado praticamente intacto em 1922 pelo o arqueólogo inglês Howard Carter e desde então qualquer descoberta relacionada a ele vira um furor na mídia mundial.

Apesar de ser uma das figuras faraônicas mais conhecidas, perdendo somente para a rainha Cleópatra, muitas coisas sobre a sua vida é desconhecida pelo o grande público, mas algumas delas listei abaixo:

http://arqueologiaegipcia.com.br/2010/09/15/10-coisas-sobre-tutancamon/

 

Algumas palavras sobre Ankhesenamon

Embora seja ainda tão ignorada pelo o meio acadêmico, ritualisticamente e administrativamente Ankhesenamon toma papeis importantes durante e após o reinado do esposo. Ela, em termos religiosos, é em parte a essência de Tutankhamon e quando este morre a governante participa ativamente dos ritos de passagem do marido para a vida após a vida. Sua imagem está em muitos lugares dentre os artefatos da KV-62, assim, quando unimos esta situação ao fato de que Tutankhamon era um colecionador de lembranças e levou consigo todas as coisas que mais apreciava, não seria incomum que ele levasse também tantas imagens de sua dúplice e consorte.

http://arqueologiaegipcia.com.br/2010/10/28/algumas-palavras-sobre-ankhsenamon/

 

(Imagem) Artista esboça relevo de templo

A artista do Arquivo Epigráfico do Instituto Oriental da Universidade de Chicago esboça os detalhes de um relevo da época de Tutankhamon. O principal intuito deste trabalho é documentar de forma precisa as inscrições e desenhos das paredes dos santuários para que sirvam como base para a interpretação em tempos futuros caso a documentação original se perca. Foto: Instituto Oriental da Universidade de Chicago (Divulgação).

http://arqueologiaegipcia.com.br/2010/10/12/imagem-artista-esboca-relevo-em-templo/

 

Como desenhar o rei Tut (Para crianças)

Encontrei este material em um site estrangeiro e sinceramente achei bem interessante já que ensina para as crianças como desenhar o faraó Tutankhamon.

De acordo com a pesquisa publicada pela a professora Raquel Funari em seu livro “Imagens do Egito Antigo: Um Estudo de Representações Históricas” (São Paulo: 2006, Annablume: Unicamp) este faraó é a segunda personalidade egípcia, perdendo para a Cleópatra, a ser reconhecida pela a criançada, então, em uma aula sobre antigo Egito seria bem divertido contar com esta boa atividade em sala.

http://arqueologiaegipcia.com.br/2010/11/10/como-desenhar-o-rei-tut-para-criancas/

 

O funeral de Tutancâmon (comentários)

Desde que a tumba de Tutankhamon foi encontrada em 1922 o frenesi sobre a sua descoberta despertou a curiosidade de vários espectadores, alguns dos quais simples curiosos que pouco sabiam sobre a Arqueologia ou de quem se tratava Tutankhamon, mas que estavam dispostos a visualizar aquele universo tão misterioso que era a de uma tumba milenar intacta e cheia de tesouros. Este faraó falecido em 1322 a. C. desperta ainda hoje o interesse de muitos por sua morte tão prematura e os artefatos (a maioria feito de ouro e pedras semipreciosas) encontrados na sua tumba. Esta curiosidade nada acanhada tem se tornado cada vez mais freqüente desde que as primeiras imagens de seu espólio funerário foram lançadas ao mundo, fazendo assim com que o interesse por esta figura antiga esteja cada vez mais gritante. Este fato está refletido mais fortemente nos muitos documentários veiculados por canais fechados onde uma simples menção ao nome do “faraó-menino” está sendo obrigatória. Indo de acordo com a moda da “Tutmania” é onde entra o documentário “O funeral de Tutancâmon” (“Burying King Tut” no original, ano de lançamento 2009) da National Geographic.

http://arqueologiaegipcia.com.br/2011/10/10/o-funeral-de-tutancamon-comentarios/

 

O funeral de Tutancâmon (comentários)

Publicado por Márcia Jamille Costa Em 10 - outubro - 2011 6 COMMENTS

 

O funeral de Tutancâmon da National Geographic Brasil: uma idéia boa, mas mal direcionada.  

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille

 

 

Desde que a tumba de Tutankhamon foi encontrada em 1922 o frenesi sobre a sua descoberta despertou a curiosidade de vários espectadores, alguns dos quais simples curiosos que pouco sabiam sobre a Arqueologia ou de quem se tratava Tutankhamon, mas que estavam dispostos a visualizar aquele universo tão misterioso que era a de uma tumba milenar intacta e cheia de tesouros. Este faraó falecido em 1322 a. C. desperta ainda hoje o interesse de muitos por sua morte tão prematura e os artefatos (a maioria feito de ouro e pedras semipreciosas) encontrados na sua tumba. Esta curiosidade nada acanhada tem se tornado cada vez mais freqüente desde que as primeiras imagens de seu espólio funerário foram lançadas ao mundo, fazendo assim com que o interesse por esta figura antiga esteja cada vez mais gritante. Este fato está refletido mais fortemente nos muitos documentários veiculados por canais fechados onde uma simples menção ao nome do “faraó-menino” está sendo obrigatória. Indo de acordo com a moda da “Tutmania” é onde entra o documentário “O funeral de Tutancâmon” (“Burying King Tut” no original, ano de lançamento 2009) da National Geographic.

Embora realizado para a National Geographic Channel, o documentário em si é quase um fiasco, mas não no que diz respeito ao trabalho de alguns dos pesquisadores presentes, mas da forma como a história foi construída e organizada. O desconhecimento de aspectos da egiptologia por parte da produção da fita é visível a cada momento, principalmente nas montagens ligadas ao historiador Nicholas Reeves (Egiptólogo e autor de “The Conplete Tutankhamun”, sem tradução para o Brasil) que por sinal foi mal encaixado: suas falas além de polêmicas excluem o público de uma grande discussão que existe não só por trás deste, mas de outros documentários agraciados por sua participação, como, por exemplo, a sua teoria de que os pequenos esquifes que guardam as vísceras de Tutankhamon (VER IMAGEM) na verdade pertenciam a Nefertiti. De fato estas imagens não possuem o nome de Tutankhamon, e sim de Smenkará (Smenkaré), porém Reeves afirma categoricamente que neles está o nome da rainha Nefertiti, mas isto devido a uma de suas teorias desenvolvidas há alguns anos onde ele defende que Smenkará, que foi co-regente de Akhenaton e esposo de Meriaton (filha mais velha da rainha), na verdade seria Nefertiti, já que a governante possuía o mesmo sobrenome desta incógnita figura.

 

Mini esquife que apesar de ter guardado as vísceras de Tutankhamon é nominado em nome de seu antecessor Smenkara. Fonte da imagem: JAMES, Henry. Tutancâmon (Tradução de Francisco Manhães). 1ª Edição. Barcelona: Editora Folio, 2005. P. 109.

Reeves sugere também que os vasos canopos (VER IMAGEM) não eram verdadeiramente de Tutankhamon porque os rostos presentes nas peças são femininos e ele ainda aponta que seriam também de Nefertiti. Esta é a hipótese dele e que particularmente não é possível concordar plenamente uma vez que : (a) em primeiro lugar ele está sendo muito simplista ao sugerir que “por se tratar de imagens femininas” automaticamente não foram encomendadas por Tutankhamon. Para levantar hipóteses poderiam ser a representação mágica das deusas que protegem as suas vísceras e que estão presentes na arca que guardavam outrora estes canopos ou até mesmo uma representação da sua esposa, a Ankhesenamon, que na tumba toma o papel de deusas funerárias ao conduzir em vários momentos o marido no além túmulo. (b) Em segundo Tutankhamon era um rapaz cuja morfologia craniana é grácil, ele possuía feições finas. O canopo possui um rosto um pouco andrógeno e apontar justamente para uma mulher pode acabar sendo mais uma vez simplista, mas, apesar de ser uma possibilidade, ainda sim a face nos canopos não parecem muito com ele, assim é algo que fica em aberto.

Outros apontamentos de Reeves são sobre a possibilidade de que Akhenaton também fosse o dono de algumas das peças encontradas, a exemplo do peitoral com a imagem de um abutre que ele suspeita ser deste rei devido a um título deste faraó presente na peça: “bom soberano, senhor das duas terras”. Caso este artefato tenha sido de fato pertencente a Akhenaton só o seria nos primeiros anos do seu reinado, já que nele está presente uma menção a deusa Nut (JAMES, 2005), que foi uma das muitas divindades excluídas do círculos de rituais anuais e cotidianos durante o ápice do reinado deste faraó.

 

Face dos canopos de Tutanlhamon. Foto: Acervo National Geographic. Kenneth Garrett. 1995.

Parte da teoria de Reeves – de que algumas das peças da tumba originalmente não são de Tutankhamon – tem como base a presença do “símbolo solar” nos aparelhos funerários, a exemplo dos férreos que guardavam os sarcófagos. Para o egiptólogo estes símbolos são exclusivos de Akhenaton, porém sabemos que até certo limite Tutankhamon seguia uma ideologia atoniana. Sobre esta situação é importante citar uma das falhas do documentário no momento em que Reeves está assinalando um dos “símbolos solares”, na cena o pesquisador está apontando para os hieróglifos que significam “eternidade”, o que não justifica de forma alguma ser uma assinatura atoniana. Reeves é um egiptólogo experiente e creio que não cometeria um erro tão primário, assim, imagino que foi um erro da edição da fita. O egiptólogo também aponta para a possibilidade de que um dos sarcófagos de Tutankhamon onde o rei é representado com um toucado cuja ponta lembra um motivo trançado seria de Akhenaton. Esta é outra idéia que não é possível sair do campo das hipóteses, uma vez que padroniza os toucados como se fossem uma identidade para determinados indivíduos. Um exemplo é uma antiga discussão sobre o sarcófago do indivíduo da KV-55 o qual já foi levantada a conjetura de que deveria ser da rainha Tiye, uma vez que o toucado do caixão lembrava as perucas que a soberana utilizava em vida. Sendo desta forma, o caixão seria também de Kiya, Nefertiti e assim por diante?

 

Máscara mortuária de Tutankhamon (Sem o tradicional cavanhaque). Foto: Acervo Griffith Institute, University of Oxford. Harry Burton. Disponível em < http://www.griffithinstituteprints.com/image/433271/harry-burton-the-gold-mask-of-tutankhamun-3-4-view > Acesso em 26 de setembro de 2011.

Outra crença de Reeves é de que a máscara funerária (VER IMAGEM) também não foi feita a princípio para Tutankhamon. Esta é mais uma história particular deste pesquisador: quando “O funeral de Tutancâmon” foi lançado pela primeira vez no Brasil fiquei impressionada em ver que desta vez Nicholas Reeves estava considerando que o rosto pertencia a Tutankhamon, porém não o toucado, já que anteriormente ele acreditava que a máscara também seria de Nefertiti (usando a mesma teoria dos canopos). Com este documentário ele mudou a abordagem, mas não deixa de ser inconsistente e reducionista já que desta vez argumenta que o toucado não seria do Tutankhamon pelo fato das pedras azuis da máscara em si e do toucado serem de materiais diferentes. Para aqueles que não assistiram ao documentário ou para quem não entendeu onde Reeves queria chegar é que provavelmente os rostos das máscaras mortuárias reais eram feitas separadamente do toucado em si e eram reunidos posteriormente. O problema da hipótese de Reeves é que ele desconsidera que os objetos poderiam ter sido encomendados em épocas diferentes ou feitos por ourives diferentes, não precisando necessariamente ter pertencido à outra pessoa e o responsável pela encomenda da tumba (no caso da proposta da fita ser este o Ay, vizir de Tutankhamon) ter simplesmente “por falta de tempo” resolvido saquear bens de terceiros, embora esta seja a idéia do documentário já que a muito tem sido impensável para alguns egiptólogos e amadores a possibilidade de que Tutankhamon, praticamente uma criança, ao menos para os nossos padrões ocidentais, ter tido tão pouco tempo para arrecadar tantos artefatos preciosos e de manufatura tão complexa. Ignora-se que Tutankhamon já era adulto a partir do momento que fora coroado e que o nosso conceito de infância é atual.

Um dos momentos mais interessantes do documentário, mas que deixou muito a desejar devido à metodologia aplicada, é quando o arqueólogo Denys Stocks (Arqueólogo Experimental) se questiona se o sarcófago de quartzito poderia ser feito em 70 dias (período tido como base para os preparativos funerários). Na época de Tutankhamon já existiam ferramentas de bronze que ilusoriamente adiantaria o trabalho, no caso do documentário eles utilizaram uma de pedra, que se mostrou mais eficiente. Com a ajuda do artista Dave Willett, Stocks chega à conclusão de que, a partir de uma estimativa com o auxílio de cálculos, uma pessoa sozinha levaria 06 anos para concluir todo o sarcófago, mas como estes trabalhos eram feitos em equipe (de 08 a 10 trabalhando, de acordo com a estimativa de Willett) levariam 08 meses (isto sem contar o tempo para se escavar o interior do bloco de quartzito que de acordo com Stocks levariam 18 meses), o que é inconcebível para quem tinha pouco mais de dois meses para sepultar o faraó. A falha no quesito metodológico se dá devido ao artista ter feito somente um rosto e só uma vez, esperando comparar este experimento com a técnica de pessoas já especializadas no assunto. O experimento foi válido, mas no sentido de Arqueologia Experimental possui falhas. Para sustentar a hipótese de que o sarcófago não teria terminado a tempo entra na fita Marianne Eaton-Krauss (Autora de “The Sarcophagus in the Tomb of Tutankhamun“, sem tradução para o Brasil) apontando que algumas das deusas que protegem o sarcófago estão incompletas já que enquanto partes delas estão entalhadas outras estão simplesmente pintadas. Marianne também aponta a possibilidade de que o sarcófago poderia ter sido reaproveitado, ou seja, não foi feito originalmente para Tutankhamon, uma vez que existem incoerências nos entalhamentos, a exemplo de hieróglifos que parecem terem sido suplantados ou ocultados pelas asas das deusas. Outra sugestão de que o funeral de Tutankhamon teria ocorrido às pressas é o fato das imagens da sua tumba terem sido feitas tão grandes (VEJA O VÍDEO NO FINAL DO TEXTO), na espera que sobrassem menos espaços para se ilustrar. Porém, imagens de tal tamanho não relatam nada incomum, a tumba da rainha Nefertari, conhecida por seu primor artístico, possuem imagens enormes, assim como a de Seti I, e ambos tiveram anos de vida para planejar seu sepulcro.

 

Salima Ikram no documentário "O funeral de Tutancâmon". Captura da imagem: Márcia Jamille Costa.

A participação mais interessante parte da Dra. Salima Ikram onde vemos uma das raras vezes em que ela opina sobre o estado do corpo de Tutankhamon. Ikram é amplamente conhecida entre egiptólogos devido ao projeto Múmias de Animais e seus experimentos com conservação de corpos de animais. De acordo com a Dra. a múmia de Tutankhamon parece ter sofrido, aparentemente, uma mumificação deficiente e que antes do processo de conservação o corpo já teria começado a se deteriorar. Outro detalhe apontado é a ambulância de óleo e resina que acabou carbonizando a pele do faraó, a quantidade é tanta que explicaria a “ausência” do coração do rapaz nas chapas de Raios-X, uma vez que a substancia estaria ocultando o órgão. É importante citar que esta quantia excessiva já tinha sido notada quando a múmia de Tutankhamon começou a ser desenfaixada logo após a abertura do sarcófago. Tamanho foi o trabalho do médico responsável pela remoção que ele teve que esquentá-la para tentar desgrudar os artefatos do corpo do rei. Um detalhe importante (e que teria sido interessante se abordado no documentário) é que sabemos de histórias de faraós embebidos em resina através de um texto de relatos de ladrões de tumbas onde o saqueador explica que para soltar as jóias do corpo do falecido precisou atear fogo na múmia, desgrudando assim a resina.

A proposta do documentário é mostrar que Tutankhamon, que morreu jovem e sem filhos vivos, necessitava urgentemente de um herdeiro para o seu trono, desencadeando assim uma corrida pela sucessão por parte de Ay, seu até então vizir que, aproveitando-se da ausência do general do rei, Horemheb, se proclama faraó (a despeito dos inúteis esforços da rainha viúva, Ankhesenamon) se utilizando das mais variadas artimanhas para sepultar Tutankhamon o mais breve o quanto fosse possível. Seguindo este pensamento o Dr Kent R. Weeks (Diretor do Theban Mapping Project) e Dr Peter J. Brand (Egiptólogo da Universidade de Menphis) acreditam que a KV-62 não pertencia primordialmente a Tutankhamon, e sim a KV-23, onde Ay foi sepultado. Outra linha que o documentário segue é de que Tutankhamon teria transformado Horemheb em seu herdeiro, embora isto possa não ter sido verdade, já que Horemheb armou várias justificativas para estar no trono, se declarando, inclusive, herdeiro direto de Amenhotep III, avô de Tutankhamon, e excluindo tanto o seu jovem falecido amo, assim como Ay, Akhenaton (filho de Amenhotep III) e Smenkará da linhagem real.

 

 

A fita possui vários pontos negativos que embora atrativo para um espectador comum não será visto com bons olhos pela academia (a exemplo do fato do Dr. Zahi Hawass entrar no férreo de ouro, evento que poderia ser desastroso para o artefato). Este é um material relativamente ruim onde poucos aspectos podem salvá-lo, como a participação da Dra. Salima Ikram. Não ignoro o fato (ou possibilidade) de alguns dos artefatos da KV-62 terem sido “terceirizados”, mas pela forma como o documentário foi conduzido é difícil poder se levar muita coisa a sério, principalmente porque “O funeral de Tutancâmon” parece ser mais um dos afãs frutos da “moda Rei-Tut” que andam enchendo o currículo de vários pesquisadores. No final das contas, quando observamos as metodologias aplicadas pela maioria dos convidados da fita o documentário em si acaba não possuindo muito de substancial no final das contas.

 

Veja também:

Página Oficial do documentário: Burying King Tut: < http://natgeotv.com/asia/burying-king-tut >, Acesso 17/09/2011.

JAMES, Henry. Tutancâmon (Tradução de Francisco Manhães). 1ª Edição. Barcelona: Editora Folio, 2005.

 

Ensaio sobre a Egiptologia

Publicado por Márcia Jamille Costa Em 02 - outubro - 2011 4 COMMENTS

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille

 

Jean-François Champollion. Retirado de < http://www.heritage-key.com/jean-francois-champollion > Acesso em 01 de outubro de 2011.

Não é de todo errôneo afirmar que a Egiptologia nasceu com a intervenção militar de Napoleão no Egito em 1798, já que na ocasião em que este até então general francês esteve no Cairo ele criou o Instituto Francês do Egito que contou com o trabalho de pesquisadores de diferentes disciplinas, assim como artistas, cartógrafos e engenheiros para pesquisar e catalogar as evidências do Antigo e Egito Islâmico (BARD, 2007, pág 07). A campanha influenciou de fato, mas para alguns é tido como marco inicial da Egiptologia tal qual como a conhecemos a decifração dos hieróglifos pelo filólogo francês Jean-François Champollion em 27 de setembro de 1822, isto porque a Egiptologia tem como base primordial de estudo a decifração destes caracteres. Porém, apesar de primariamente filóloga, hoje para a formação de um egiptólogo não é totalmente necessário ser fluente em decifração de egípcio antigo, embora seja um grande bônus para quem planeja seguir a carreira. Isto ocorre justamente devido as especializações propiciadas pela ciência moderna, assim, se imaginarmos a situação de um Arqueólogo Experimental especialista em manufatura de ferramentas de bronze da XIX Dinastia perceberemos que dificilmente ele vai se ver na necessidade de compreender os hieróglifos, e caso seja mais do que necessário poderá agregar a sua equipe um filólogo especialista em egípcio antigo do Novo Império. Por este motivo é compreensível entender porque ultimamente o discurso para o arqueólogo egiptólogo esteja começando a ser o da busca por um trabalho em equipe.

A Egiptologia nos surgiu como uma “irmã mais nova” da Arqueologia Clássica – cujo estudo também está fortemente ligado a filologia – mas que estendeu com o tempo o seu objeto de estudo indo do período Pré-dinástico até a História Contemporânea do Egito. Embora se espere que o egiptólogo estude a sociedade no geral a Egiptologia ainda está fortemente focada no estudo da vida dos faraós (ou pessoas que tinham uma relativa importância econômica) onde está incluso o lado funerário (túmulos e múmias) e o estudo de textos que em parte foram feitos por uma minoria de privilegiados. Os campos para se alcançar esta ciência são plurais, os mais propícios (e inclusive comuns) são os graduandos[1] de áreas como Arqueologia[2] ou História apresentarem trabalhos de conclusão ligados ao tema em cursos devidamente reconhecidos pelo o Ministério da Educação (MEC) – no caso do Brasil -. Este procedimento também é comum em locais como a Espanha, país cujo papel na Egiptologia cada vez mais se tornar promissor. Esta possibilidade dá espaço para o pesquisador tornar-se egiptólogo, mas isto não é o bastante, ele precisa manter sua produtividade acadêmica com a elaboração de artigos e projetos.

 

A Egiptologia é um trabalho admirado por muitos, o que gera certo assédio,  desta forma não é incomum encontrarmos livros, documentários, entrevistas ou textos de revistas com temas contraditórios, sensacionalistas ou supérfluos na busca de abastecer o afamado mercado da “Egiptomania” o que não raramente desvirtua o público da real razão desta ciência.  A importância desta ciência no debate da história da humanidade está em, dentre tantos aspectos, no fato de estudar as sociedades em si tentando entender as relações plurais entre os indivíduos e a forma como eles poderiam estar observando o seu entorno. Não é certo dizer que a Egiptologia busca a verdade, mas sim elucidar questões cujas respostas podem variar de acordo com as correntes de pensamento onde nestas estão inclusas valores morais do ambiente de convívio do pesquisador e a valorização de determinados tipos de artefatos tidos como “mais importantes”, como um sarcófago ou uma pirâmide, embora isto não seja o ideal. Poucos são os alunos que se interessam em estudar os assuntos menos populares uma vez que muitos entram para o ramo da Egiptologia por amor a um determinado tema, ou seja, não é difícil notar que fãs da história de Cleópatra VII tenham interesse em levar a cabo artigos e conclusão de curso com temas relativos à rainha. Não que isto seja negativo, mas pode gerar um empobrecimento em termos de variação do conhecimento para a Egiptologia nacional.

 

Imagem divulgação retirado do "Manual do futuro profissional". Difusão cultural do livro.

Seja qual for a formação base do pesquisador da área da Egiptologia (Arqueologia, História, Arquitetura, Artes, Literatura, etc), basicamente o seu interesse de estudo estará agregado aos objetos e pessoas relativos ao Egito. Esta disponibilidade das várias áreas de formação é o que dá para esta ciência social um teor mais plural, embora algumas instituições se mostrem ainda muito introspectivas. Vários países que não possuem uma longa tradição na Egiptologia (ao contrário da França, Alemanha ou Inglaterra que são grandes centros formadores) estão começando a formar pesquisadores, o Japão é um deles, assim como o México e a República Dominicana (dentre outros). O Brasil parece ainda tímido, embora existam egiptólogos formados ou em formação, mas que não seguiram carreira ou que se dedicam a outras áreas para abarcar como sustento, a exemplo de arqueólogos e historiadores que não raramente se dedicam a Arqueologia de Contrato (para os primeiros) ou ao ensino de História (para os segundos).

 

É importante para quem se interessa em trabalhar com Egiptologia que procure iniciar seus estudos de modo formal, já que a Universidade é um dos veículos que podem ajudar com as instituições de fomento para as pesquisas. A língua estrangeira é extremamente necessária, principalmente porque os principais livros do ramo estão em inglês (assim como em francês e alemão), língua falada por muitos egípcios inclusive. Trabalhar neste ramo pode ser uma grande batalha não só para brasileiros, muitos estrangeiros também sofrem com a ausência de auxílio financeiro para os seus estudos ou um espaço para trabalhar em escavações. Desta forma uma das maiores dicas para quem deseja se empenhar na área é manter o seu objetivo de estudo e ficar de olho nas oportunidades, e o mais importante que é lembrar que os demais estudantes e pesquisadores não são seus concorrentes, mas seus colegas. Para os amadores interessados em conhecer mais sobre as pesquisas participem mais dos eventos que são lançados aqui no Brasil, o Arqueologia Egípcia normalmente anuncia alguns dos eventos que ocorrem pelo país, e em caso de dúvida sobre a formação do palestrante exija seu currículo. Estamos em uma época em que não há mais desculpas em ter uma formação deficiente e os cientistas brasileiros já possuem a capacidade de se aprimorar e levar esta ciência no nosso país a um patamar mais alto.

 

[1] Ou uma pós-graduação.
[2] Espaço relativamente novo no Brasil, a despeito do antigo curso de Arqueologia na Estácio de Sá que foi fechado em poucos anos. Para ver uma lista dos novos cursos clique aqui.

 

Fonte:

BARD, Kathryn. Encyclopedia of the Archaeology of Ancient Egypt. 1ª Edição. Londres: Routledge, 1999.

BARD, Kathryn. An Introduction to the Archaeology of Ancient Egypt. 1ª Edição. Blackwell, 2007.

TRIGGER, Bruce. História do Pensamento Arqueológico. 1ª Edição. São Paulo: Odysseus, 2004.

Revista online com entrevista e artigos

Publicado por Márcia Jamille Costa Em 20 - agosto - 2011 4 COMMENTS

Enviado por Rennan Lemos (Via Facebook):

 

Está disponível on-line a primeira edição da revista discente Plêthos, de História Antiga e Medieval. Nessa edição há dois artigos egiptológicos e uma entrevista com a arqueóloga Anna Stevens, do Amarna Project, sobre as escavações recentes que estão sendo realizadas na antiga cidade de Akhetaton.

 

 

Link para a revista online: www.historia.uff.br/revistaplethos

Entrevista com Anna Stevens (em português): http://www.historia.uff.br/revistaplethos/arquivos/numero1/annastevens%20portugues.pdf

 

Artigos:

Urbanismo e cidade no antigo Egito: algumas considerações teóricas: http://www.historia.uff.br/revistaplethos/arquivos/numero1/liliane.pdf

O senhor da ação ritual: um estudo da relação faraó-oferenda divina durante a reforma de Amarna (1353-1335 a.c): http://www.historia.uff.br/revistaplethos/arquivos/numero1/gisela.pdf

 

 

Um vislumbre da faraó-mulher Hatshepsut

Publicado por Márcia Jamille Costa Em 28 - julho - 2011 8 COMMENTS

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille

 

“A garota da qual falaste chama-se Ahmés, é a mulher mais bela desta terra. É a esposa do soberano Ankhkheperkare, rei do Alto e Baixo Egito, que está dotado de vida eterna.

O sublime Amon, senhor do trono de ambos os reinos havia se transformado em sua Majestade seu marido, rei do Alto e Baixo Egito. Encontrou-a adormecida no meio do luxo do seu palácio. Quando acordada pela fragrância divina, sorriu para sua Majestade. Ele então se aproximou ardentemente e se mostrou em sua forma divina. Ela exaltou-se a vista de sua beleza. O amor inundou todo seu corpo e o palácio se encheu da doçura divina de todos os perfumes da Terra de Punt.

Depois de ter feito com ela o que fez, Ahmés, o real consorte e a mãe disseram a sua Majestade, o divino deus Amon: ‘Que poderosa é a tua força, meu senhor! Que magnífico teu semblante! Uniste minha majestade com tua glória. Todo o meu corpo está impregnado de ti’.

Khenemetamon Hatshepsut é o nome de teu filho, que eu depositei dentro de teu corpo. (STROUHAL, 2007, 11)

 

São estas as palavras gravadas no templo funerário da faraó Hatshepsut (em Deir el-Bahari), uma das governantes com mais sucessos na história do Egito faraônico e cujos feitos ela ainda recebe forte crédito por parte dos egípcios da atualidade. O que é visto de tão especial em Hatshepsut é o fato de que ela tornou-se faraó, embora não tenha sido um caso exclusivo: temos exemplos de outras mulheres que tomaram tal empreitada, dentre algumas conhecidas, e antecessoras de Hatshepsut, temos Nitokerty (Antigo Império) e Sobeknefru (Médio Império).

Conhecemos muito acerca da vida de Hatshepsut, sabemos que ela era a filha mais velha do faraó Tutmósis (Ankhkheperkare) com a Grande Esposa Real Ahmés, mas que, como ditava o costume do poder real, para ser coroada um dia ela tinha que montar um par, assim casou com o seu meio irmão Tutmósis II, filho do faraó com uma esposa secundária chamada Mutnofret.

A então rainha Hatshepsut só deu ao marido uma filha, Néfruré, em compensação, uma esposa secundária, chamada Ísis, deu a ele um filho, que recebeu o nome de Tutmósis III, que, ao completar a idade de oito anos ficou órfão do pai, tendo então que Hatshepsut, em seu papel de Grande Esposa Real, assumir uma co-regência até que o garoto tivesse uma idade mais apropriada para reinar, porém, quando o rapaz alcançou a idade de quinze anos a rainha se declarou faraó e iniciou uma campanha para atestar sua autoridade: “Eu própria sou um deus”, uma vez declarou, “que decide o que vai acontecer. Nenhum dos meus julgamentos será errado” (ROSE, 122).     

Hatshepsut herdou um país que ainda se recuperava da guerra contra os hicsos e em uma tentativa de fixar sua autoridade empreendeu obras de manutenção do país, a maioria que ressaltasse seu estado divino. Uma das mais imponentes das suas campanhas é sem dúvida seu templo funerário em Deir el-Barari, cujo o desenho não é de pura exclusividade, ele imita a arquitetura do templo funerário do rei Mentuhotep II (feito cerca de 500 anos antes), localizado também em Deir el- Bahari. A semelhança é vista na construção dos dois terraços (WILDUNG, 2009, p 70).

 

 

Deir el-Bahari. Imagem retirada de MARIE, Rose; HAGEN, Rainer. Egipto. (Tradução de Maria da Graça Crespo) 1ª Edição. Lisboa: Editora Taschen, 1999. P. 125.

Na esquerda retos do templo funerário do faraó Mentuhotep II e na direita reconstituição do mesmo. Imagem retirada de WILDUNG, Dietrich. O Egipto: da pré-história aos romanos. (Tradução de Maria Filomena Duarte). 1ª Edição. Lisboa: Editora Taschen, 2009. P. 72.

 

 

O idealizador do templo funerário de Hatshepsut foi Senenmut que possuia um alto cargo no palácio como Fiscal de Obras tendo, inclusive, o direito de assinar sua obra. Muitos arqueólogos acreditam que ele e a faraó eram amantes, não só por ter tido regalias especiais (como ter o direito de ter o seu túmulo construído dentro do templo funerário da governante), mas também por ser retratado algumas vezes com a filha de Hatshepsut no colo. 

 

Senenmut e a princesa Néfruré. Imagem retirada de MARIE, Rose; HAGEN, Rainer. Egipto. (Tradução de Maria da Graça Crespo) 1ª Edição. Lisboa: Editora Taschen, 1999. P. 124.

 

Uma das principais preocupações da faraó era que o seu legado fosse lembrado, desta forma, retratou algumas das passagens mais importantes do seu reinado, dentre eles a expedição ao reino de Punt (cuja localidade ainda é desconhecida, uma das sugestões é que de que este local se situava na costa do Mar Vermelho, perto do norte da Somália), que foi muito bem documentada por palavras e imagens. De acordo com a narrativa a frota naval da faraó estava constituída de cinco navios, cada um deles com quarenta pessoas, dos quais trinta eram remeiros que trabalhava igualmente ao ritmo marcado por um tambor, uma flauta ou um chocalho (DERSIN, 2007, p. 120).

Uma das marcas excêntricas de seu reinado era o fato dela se vestir de homem, iniciativa tomada para atestar sua permanecia como faraó, mas ela não fazia segredo quanto ao seu real gênero, pois suas inscrições com freqüência estão acompanhadas por terminações femininas (BROWN, 2009). Porém, a imagem de Hatshepsut mudou com o tempo, o que antes era uma figura feminina com artefatos masculinos (os objetos típicos de um faraó), mudou completamente para uma imagem masculina (BROWN, 2009). Vemos isto inclusive na descrição do seu nascimento, onde Amon pede que Khnum modele Hatshepsut em um monte de barro (como ditava a crença egípcia), e então ela é feita como um garoto (BROWN, 2009). Estas atitudes da faraó tem um cunho político muito forte, e vemos isto inclusive na forma como se preocupava com o apoio do povo. Frequentemente em seus textos ela tenta uma aproximação com a gente comum usando um termo egípcio que lembra o nosso moderno “meu povo” (BROWN, 2009). 

 

 

Faraó Hatshepsut usando uma barba falsa. Imagem retirada de MARIE, Rose; HAGEN, Rainer. Egipto. (Tradução de Maria da Graça Crespo) 1ª Edição. Lisboa: Editora Taschen, 1999. p. 123.

 

 

Hatshepsut retratada com traços masculinos. Deir el-Bahari. Imagem retirada de MARIE, Rose; HAGEN, Rainer. Egipto. (Tradução de Maria da Graça Crespo) 1ª Edição. Lisboa: Editora Taschen, 1999. P. 122.

 

 

A faraó reinou por vinte e um anos e nove meses [1] (como denota Manétho) até que uma ameaça dos inimigos, os Mitanni, surgisse. Tutmosis III, que até então estava levemente longe do governo surge sob o comando das tropas e assume o posto de faraó. Hatshepsut então desaparece.

 

 

Destruição a sua memória

 

Em Deir el-Bahari suas estátuas foram quebradas e postas em um fosso em frente ao seu templo mortuário (BROWN, 2009). No mesmo local as imagens em relevo também foram destruídas. Acredita-se que o autor do estrago foi ninguém mais que seu enteado, Tutmóses III, mas Zbigniew Szafraski, diretor da equipe que trabalha em Deir el-Bahari desde 1961 crê que as implicações de Tutmósis III foram mais políticas do que movida pelo o ódio (BROWN, 2009), já que foi descoberto que a destruição das imagens da faraó só ocorreram após passados vinte anos da morte da mesma. A sugestão que é levantada então é de que Tutmósis III precisava fortificar o poder real do seu filho, Amenhotep II (BROWN, 2009). 

 

 

Esta é uma das imagens de Hatshepsut que foi violada por Tutmósis III. No lado esquerdo vemos o deus Thot e do lado direito Hórus. No centro a faraó. Santuário de Hatshepsut em Kanark. Imagem retirada de MARIE, Rose; HAGEN, Rainer. Egipto. (Tradução de Maria da Graça Crespo) 1ª Edição. Lisboa: Editora Taschen, 1999. P. 123

 

 

Sua múmia, ou não?

  

Por muito tempo não se sabia qual teria sido o destino final de Hatshepsut, no entanto, o seu sarcófago tinha sido encontrado em 1903 na KV-20 pelo arqueólogo inglês Howard Carter, que na época era supervisor das antiguidades, e enquanto realizava seu trabalho de vistoria no Vale dos Reis achou na KV-60 duas múmias femininas: uma dentro de um caixão e outra no chão sem abrigo algum. Com elas foi descoberto também uma caixa com o nome da faraó Hatshepsut. Em 1989 a KV-60 foi então supervisionada mais uma vez, mas agora pelo egiptólogo estadunidense Donald Ryan que já desconfiava que aquela era a múmia de uma rainha, já que tinha o braço esquerdo dobrado, além do primor em termos de mumificação. Antes de finalizar o seu trabalho e encerrar a tumba, Ryan encomendou um caixão para prover mais segurança para a múmia.

Em 2005, Zahi Hawass, até então Secretário Geral do SCA e diretor do Projeto Múmia Egípcia, examinou as duas múmias encontradas na KV-60 e identificou uma delas como a da faraó devido a um dente. A múmia em questão foi a que tinha sido resguardada por Ryan. Ela tinha passado por um tomógrafo e notou-se que lhe faltava um dente na mandíbula superior direita. Coincidentemente, na caixa com o nome de Hatshepsut, que também tinha passado pelo o tomógrafo, possuía um dente (um molar secundário) que após a medição do local quebrado e tendo sido medida a região faltosa na múmia, o dentista da equipe, Ashraf Selim, constatou que o dente se encaixava perfeitamente no local (BROWN, 2009). Devido a esta coincidência, é tido que esta múmia deixada anônima no chão da KV-60 seria então a da rainha, e depois faraó, Hatshepsut.

 

 

Múmia de Hatshepsut. Foto: . Disponível em < http://viajeaqui.abril.com.br/national-geographic/edicao-109/fotos/hatshepsut-mulher-farao-antigo-egito-449366.shtml >. Acesso em 27 de julho de 2011.

 

 

Sua múmia demonstra uma senhora, cujo crânio possui traços robustos e o nariz hoje está deformado por molhinhos de tecido, o pescoço coberto por um lenço e um leve sorriso nos lábios, paradoxalmente a análise das imagens capturadas pelo tomógrafo mostram que ela morreu devida uma infecção causada por um abscesso em um dente que foi complicada por um câncer ósseo avançado causado por diabetes (BROWN, 2009). 

 

  

Considerações finais:

  

Talvez Hatshepsut não estivesse se desvirtuando ou feito algo além do que o seu gênero permitia (lembrando que a idéia de gênero é algo socialmente construído), mas, tendo ciência de que o faraó só poderia ser um homem – porque o fato é que Hórus (o qual o faraó representava) é uma figura masculina – ela moldou sua imagem para feições másculas e maquinou um mito acerca do seu nascimento divino. Quando olhamos deste ponto de vista vemos que, no final das contas, Hatshepsut não estava fazendo nada de tão diferente dos outros faraós, que agregavam a sua imagem a de seus predecessores.

Por fim, para finalizar este texto o mais digno será por as palavras da própria faraó:

“Meu coração palpita de preocupação só de pensar no que dirão as futuras gerações. Aqueles que irão de ver meus monumentos nos anos vindouros e tecer comentários sobre meus feitos” (BROWN, 2009).

 

 

[1] Entre 1479 e 1458 a.C. de acordo com Chip Brown.

 

Fontes:

  

BROWN, Chip. O rei está nu(a). National Geographic Brasil. São Paulo. Editora: Abril. Abril, 2009. Também disponível em < http://viajeaqui.abril.com.br/national-geographic/edicao-109/hatshepsut-mulher-farao-antigo-egito-448527.shtml>, Acesso em 27 de Julho de 2011.

DERSIN, Denise. A história cotidiana às margens do Nilo (Tradução de Francisco Manhães, Marcelo Neves, Carlos Nougué, Michael Teixeira).  1ª Edição. Barcelona: Folio, 2007.

MARIE, Rose; HAGEN, Rainer. Egipto. (Tradução de Maria da Graça Crespo) 1ª Edição. Lisboa: Editora Taschen, 1999.

WILDUNG, Dietrich. O Egipto: da pré-história aos romanos. (Tradução de Maria Filomena Duarte). 1ª Edição. Lisboa: Editora Taschen, 2009. P. 72.

STROUHAL, Eugen. A vida no Antigo Egito. (Tradução de Iara Freiberg, Francisco Manhães, Marcelo Neves).  1ª Edição. Barcelona: Editora Folio, 2007.

 

 

Julho na NatGeo: Em busca de Cleópatra

Publicado por Márcia Jamille Costa Em 28 - junho - 2011 1 COMMENT

Estará nas bancas neste mês de julho, como matéria de capa na National Geographic, o artigo “Em busca de Cleópatra”, escrita por Chip Brown. A capa está simplesmente genial e já pode ser visualizada no site da National Geographic Brasil.

Em Busca de Cleópatra - NatGeo 2011

As fotografias estão assinadas por Kenneth Garrett, que é bastante popular entre os egiptólogos, já que é o responsável pela maioria das imagens da National relacionadas ao Egito.

A National Geographic Brasil já liberou a matéria em seu site. Clieque aqui e confira.

Revista especial sobre o Egito Antigo

Publicado por Márcia Jamille Costa Em 26 - junho - 2011 4 COMMENTS

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille

 

Está nas bancas deste mês (Junho) a Edição Especial Egito da Aventuras na História.

 

 

Edição Especial Egito. Aventuras na Historia. Junho de 2011.

 

 

A capa, mais uma vez, saiu da mesmice de sempre ser o Tutankhamon e  a revista está vindo com curiosidades pertinentes. O material está extremamente organizado, começando com uma seção para falar sobre a origem da civilização egípcia, com imagens explicativas e quadros de informações complementares. Depois o leitor é levado ao cotidiano, guerras e religião (onde trouxeram a hierarquia de nascimentos dos deuses). Alguns dos textos foram escritos pela jornalista Cláudia de Castro Lima, que escreveu a matéria “A última faraó” na edição de Abril de 2011 da revista Aventuras na História.

 

 

Edição Especial Egito da Revista Aventuras na História. Junho de 2011. Foto: Márcia Jamille Costa. 2011

 

 

Duas das páginas nesta edição são as mesmas da revista Super Interessante especial “Arqueologia” de Agosto de 2008, sendo que foi mudado o designer e algumas informações estão atualizadas, exceto a do quadro que fala da descoberta da KV-63: eles repetiram o erro onde escrevem que a KV-63 foi descoberta em 2005 com seis sarcófagos dentro, na verdade a informação correta é 2006 com sete sarcófagos. Em uma página para o faraó Tutankhamon também existe um errinho, ele não é o ultimo faraó da XVIII Dinastia, quem fecha é o Ay, seu sucessor.     

 

 

Capa da Edição Especial Egito da Aventuras na História (2011) e Super Interessante Especial Arqueologia (2008). Foto: Márcia Jamille Costa. 2011.

 

 

Mesmas páginas, mas isto em nada diminui a qualidade da revista. Edição Especial Egito da Revista Aventuras na História. Junho de 2011. Foto: Márcia Jamille Costa. 2011

 

 

De uma forma geral a edição é muito boa e bem organizada não só graficamente como em termos de conteúdo. Fiquei bem satisfeita com a compra.

 

Ficha técnica:

 

Revista: Aventuras na História: Especial Egito

Autor:  Vários

Ano de publicação (Brasil): 2011

Distribuição: Editora Abril

Tema: Arqueologia, Antigo Egito, Egiptologia.

Rei Tut: segredos de família (Nat Geo)

Publicado por Márcia Jamille Costa Em 28 - maio - 2011 8 COMMENTS

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille

 

Ano passado (2010) saiu uma matéria na National Geographic Brasil sobre o exame de DNA de 11 múmias para poder ser encontrada a família do faraó Tutankhamon. O resultado foi divulgado previamente no jornal cientifico JAMA e só depois espalhado pelo o mundo (inclusive com um documentário dividido em duas partes da Discovery Channel).  

Muitas pessoas já enviaram mensagens perguntando sobre este exame, e para não ficar me repetindo estou colocando aqui os links do site da National Geographic Brasil falando sobre o assunto:

 

Rei Tut: segredos de família

Rei Tut: segredos de família (fotos)

Nobres relações: a genealogia do faraó Tutankhamon

【Tese】Ushabts do Museu Nacional

Publicado por Márcia Jamille Costa Em 28 - maio - 2011 ADD COMMENTS

Os servidores funerários da coleção egípcia do Museu Nacional: Catálogo e interpretação – Cintia Alfieri Gama | Português |

 

O uso da magia para suprir as necessidades do morto, e melhorar a sua existência na vida após a morte, levou à criação de um numeroso grupo de imagens no equipamento funerário.

Dentre estas estão as estatuetas funerárias que são conhecidas por três nomes alternativos shabti, chauabti e ushabti. O significado das estatuetas era complexo, e mudou com o passar do tempo.

Desde a substituição da função dos antigos modelos, estas estatuetas possuem um caráter de servas do morto ou, mais ainda, agem como um substituto pessoal para o seu mestre.

A fonte básica para este trabalho são os 244 servidores funerários da Coleção egípcia do Museu Nacional do Rio de janeiro. Num pano de fundo mágico-religioso e tipológico, este material foi analisado levando-se em conta o  seu uso no contexto funerário, que vai do Médio Império até o Período Ptolomaico.

Buscamos entender, por meio das estatuetas  funerárias, as crenças egípcias relacionadas com o Além.

 

Palavras-chave: egiptologia, shabti, ushabti, coleção, religião, funerário, magia.

 

Obtenha a tese Os servidores funerários da coleção egípcia do Museu Nacional: Catálogo e interpretação (Disponível online no site do Museu Nacional do Rio de Janeiro)