Aliens construíram as pirâmides!

Esta é a minha tradução do texto Aliens built the pyramids!” (Aliens construíram as pirâmides!) escrito pelo arqueólogo egípcio Zahi Hawass para o site Egypt Independent. Aqui o Hawass discute sobre o fascínio de algumas pessoas em relação às pirâmides egípcias e sobre a descoberta dos Papiros Wadi al-Jarf, que falam sobre a construção da Grande Pirâmide.

Aliens construíram as pirâmides!

Por Zahi Hawass

Pirâmides do Paltô de Gizé. Foto: Ricardo Liberato.

As pirâmides ainda estimulam a imaginação das pessoas de todo o mundo e geram fãs que ficam obcecados com elas dia após dia!

Muitos, especialmente nos EUA, acreditam que existem criaturas espaciais que vieram de Marte e construíram as pirâmides. Isso não é científico de forma alguma. As teorias ainda aparecem em um show transmitido e produzido pelo canal norte americano History[1], intitulado “Ancient Aliens”[2].

Muitos cidadãos dos EUA e de outros países me enviam e-mails (como qualquer pessoa pode fazer através do meu site). Acusam-me de mascarar todos os fatos que descubro e que, no seu ponto de vista, mostram que os egípcios não são os construtores das pirâmides! Eles erroneamente acreditam que sob a Esfinge estão evidências de Atlântida! Todas essas mentiras levantam a muitas ideias falsas sobre as pirâmides e os fatos reais e contos associados.

E eu escavo embaixo da Esfinge não apenas para saber o nível das águas subterrâneas, mas para provar a ausência de qualquer evidência para essa bobagem.

Infelizmente, alguns egípcios também pregam temas infundados como a “mentira da segunda Esfinge” e outras mentiras que distorcem a grande civilização egípcia antiga, nas mãos de alguns de seus filhos que anseiam por uma fama que não é baseada em trabalho duro, ciência e diligência. Deus salve o Egito e seus grandes monumentos dessas pessoas imprudentes!

Há uma semana, fiz uma ligação para um canal estrangeiro. Expliquei que, infelizmente, o público em toda parte não sabe nada sobre a maior descoberta arqueológica do século 21, que é a descoberta dos papiros “Wadi al-Jarf” perto de Suez.

É o maior e mais antigo papiro em todo o mundo, que remonta ao reinado do rei Khufu, e a primeira descrição conhecida de como a pirâmide de Khufu foi construída. Este papiro foi escrito tanto em linguagem hieroglífica como hierática, e publicado com tradução. Atualmente está no Museu Egípcio em Tahrir.

Nela, o inspetor Merer transcreve o diário de seu trabalho na construção da Grande Pirâmide. Merer era o chefe de 40 trabalhadores, que ele levou para as pedreiras de Tora.

Por sua descrição, Merer preparou um grande barco para transportar as pedras pelo Nilo. Ele descreve o método de transporte até as pedras atingirem a área de construção em Gizé. Ele indica que o peso da pedra chega a 2,5 toneladas cada, e registra que essas pedras, que foram cortadas, foram arrastadas para os barcos.

Então ele nos conta sobre o rei Khufu, e que ele estava morando em seu palácio em Gizé – em vez de viver em Memphis, como alguns livros de história afirmam. Merer aponta que ele tinha um chefe chamado Dede e que o principal responsável pela entrada das pedras e itens alimentares era Ankh-Haf.

A área ao redor da pirâmide foi denominada “Ankh – Khufu”, que significa “a vida do rei Khufu”, enquanto as áreas de sepultamento foram denominadas “Akht Khufu”, que significa “horizonte de Khufu”.

O trabalho foi registrado durante o vigésimo sétimo ano do governo do rei Khufu, o que pode indicar que Khufu governou por cerca de 32 anos.

Isso é o que a ciência nos diz sobre o maior edifício do Egito faraônico, a Grande Pirâmide.

Por outro lado, infelizmente, alguns falam palavras estranhas sem nenhuma evidência científica, como a de que a pirâmide foi usada para gerar eletricidade! Existe quem diga que o rei estava armazenando trigo dentro da pirâmide para uso em tempos de fome! Essas alegações são inválidas, porque há evidências escritas indicando que a pirâmide foi feita especificamente para enterrar o rei e transformá-lo em um deus na vida após a morte.

Eu diria também que a pirâmide foi o projeto nacional do Egito, e que as pirâmides construíram o Egito.

Alguém pode dizer então que existem aliens espaciais que construíram as pirâmides?

Eu digo a todos aqueles que estão obcecados com as pirâmides do Egito: você tem o direito de se surpreender e até mesmo se impressionar com as nossas pirâmides atemporais, mas não vamos permitir que você distorça nossos monumentos, que é a nossa mais querida posse. Pare com esse absurdo. Deus te abençoe!


[1] Provavelmente ele está falando do canal History Channel.

[2] “Alienígenas do Passado”, aqui no Brasil.

Texto original: 

Aliens built the pyramids! Disponível em < https://www.egyptindependent.com/aliens-built-the-pyramids/ >. Acesso em 11 de novembro de 18.

Uma forma de encarar a morte: O que são múmias?

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

As milhares de comunidades espalhadas pelo mundo — do presente ou do passado mais remoto — tinham cada uma a sua própria forma de tentar entender a morte. Muitas sociedades ocidentais atuais, por exemplo, tentam torná-la “invisível”, excluindo-a do dia a dia, tratando, consequentemente, os assuntos relacionados com ela como um tabu.

Contudo, este não é um pensamento unânime e em algumas sociedades a dor da separação pode ser contornada ou aliviada através de práticas funerárias distintas. Uma delas é a mumificação de cadáveres.

Múmia do faraó Ramsés II. Fotografo desconhecido (Wikimedia Commons).

A adoção de estruturas funerárias tais como pirâmides ou jazigos costuma apontar para uma resistência à morte e a tentativa de perpetuar, mesmo que simbolicamente, a existência do falecido como uma figura social (SOUZA, 2015). E a mumificação entra aqui como uma destas tentativas de permanência (RADLEY, 1992 apud SOUZA, 2015).

A mumificação pode ser definida como a paralisação do processo cadavérico antes da esqueletização total ou parcial. A intenção de preservar os cadáveres é manter a individualidade depois da morte e ter a pessoa falecido mais próximo do mundo dos vivos.

Embora tenham se popularizado em filmes hollywoodanos e mesmo em documentários como peças de curiosidades, as múmias, quando analisadas do ponto de vista biológico, podem contribuir para o conhecimento arqueológico, proporcionando informações sobre condições de vida, dieta, saúde, modificações corporais (utilização de alargadores, tatuagens, estilos de cortes de cabelos ou penteados, etc), ou sobre produtos de origem animal ou vegetal usados como ornamentos ou vestimenta (cores de tecidos, padrões de costuras, padrões de desenhos, tampões vaginais, sapatos, etc) que por ventura tenham sido conservados com o corpo.

Corpo com mais de 5.000 anos encontrado nos Alpes de Venoste. Estas marcas são tatuagens. Foto: The South Tyrol Museum of Archeology.
Os envólucros de múmias egípcias, por exemplo, dão detalhes da manufatura têxtil. Fotografo desconhecido (Wikimedia Commons).

Em termos simples, os tipos de múmias são divididos em dois grupos: múmias naturais e múmias antrópicas (AUFDERHEIDE, 2010).

Múmias naturais:

Nesse grupo de múmia entram os corpos preservados total ou parcialmente de forma natural devido a diferentes fatores que podem ter relação com o clima, o tipo de solo, o tipo de morte ou mesmo o tipo de involucro. Alguns exemplos são as múmias de Palermo (Itália), Otzi (Itália), as múmias do vulcão Llullaillaco (Argentina e Chile), múmias Pré-dinásticas do Egito e as Sokushinbutsu (Japão).


O “Homem de Tollund” é um exemplo de múmia natural. Foto: Robert Clark; National Geographic.

Múmias culturais ou antrópicas:

Tendo em vista que a própria denominação “cultura material” tem como objetivo ressaltar os artefatos como resultado do trabalho humano (MATTHEW, 2004 apud SOUZA, 2015), as múmias culturais são consideradas artefatos arqueológicos, já que para serem criadas necessitaram da manipulação humana (AUFDERHEIDE, 2010). São várias as formas de se criar múmias culturais, mas os espécimes mais populares indiscutivelmente advêm do Egito.

A confecção de múmias possui vários motivos que vão desde o religioso ao prático, como foi o caso de alguns dos corpos resgatados da área do naufrágio do Titanic, que foram embalsamados para que pudessem ficar reconhecíveis o maior tempo possível, facilitando assim a sua identificação. Ou dos soldados mortos durante a Guerra Civil Norte-americana.

Homem da época da Guerra Civil Norte-americana sendo embalsamado. Foto: Library Congress.

E nos dias atuais a mumificação ainda é empregada, seja para fins científicos — as múmias feitas durante as pesquisas de Arqueologia Experimental —, para uso estético ou higiênico — fazendo uso da Tanatopraxia — ou para manter a memória do falecido viva, a exemplos de líderes políticos ou religiosos.


Evita Peron. Foto: Getty Images.

Referências bibliográficas:

AUFDERHEIDE, Arthur. The Scientific Study of Mummies. Nova York: University of Cambridge, 2010.

SOUZA, Camila Diogo de. As práticas mortuárias na região da Argólida entre os séculos XI e VIII a. C. Tese (Doutorado em Arqueologia) – Museu de Arqueologia e Etnologia, USP, São Paulo, 2010.

SOUZA. Camila Diogo de. Aportes arqueológicos na produção do conhecimento histórico. Vol. XII | n°24 | 2015.

VIDAL, Irma Ason; OLIVEIRA, Claudia; VERGNE, Cleonice. SOUZA, Sheila Maria Ferraz Mendonça de. Mumificação natural na Toca da Baixa dos Caboclos, sudeste do Piauí: uma interpretação integrada dos dados. Canindé, Aracaju, v. 2, p. 83-102, 2002.

Uma entidade maligna do Egito Antigo na série “Penny Dreadful”?

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

“Penny Dreadful” é uma série de terror e fantasia que se passa durante a Era Vitoriana. Seu enredo faz várias analogias a personagens de histórias literárias clássicas de horror tais como “Drácula” de Bram Stoker, “Frankenstein” de Mary Shelley e “O Retrato de Dorian Gray” de Oscar Wilde. O seu nome vem de publicações de terror e horror que eram vendidas no século XIX na Inglaterra por centavos; Penny Dreadfuls: “centavos do horror” (DAVINO, 2014; MOREIRA, 2017).

Mas, além de tirar inspirações nestas publicações, a produção também se inspirou em algumas das coisas que eram vistas como instigantes para os ricos da Era Vitoriana, como era o caso do ocultismo, onde a ele poderia ser misturado um pouco de mitologia egípcia, isto graças a Egiptomania.

 

Egiptomania e o ocultismo:

São várias as formas de apropriação do passado egípcio. Algumas delas são através de movimentos sociais, outras por meio da espiritualidade. Esta insistência em se ter um pedaço do passado egípcio para si têm levado muitas pessoas desde o século XIX a criar narrativas onde os antigos mitos egípcios se encaixavam com suas crenças pessoais. Nisso criaram novas roupagens para o Egito Antigo. Estas novas roupagens são tema de estudo da Egiptomania a qual, falando de forma bem básica, é a apropriação de elementos das antigas sociedades egípcias — tais como imagens, gramática, mitos, etc — mas, dando a ela uma nova vida ou um novo uso (BAKOS, 2004).

Fotos: Penny Dreadful (Divulgação)

E é um dos ramos da Egiptomania que estuda o fascínio dos ocultistas em se misturar em suas sessões elementos da antiga civilização egípcia. Durante o século XIX essas sessões costumavam ocorrer em salões particulares ou em gabinetes de pessoas ricas. E é em um desses salões que os personagens principais de Penny Dreadful se depararam com o nome Amonet. Referida no enredo como “A Oculta”, Amonet é tomada como um demônio bastante perigoso e que se cujo poder foi libertado trará catástrofe. Mas, será que era isto mesmo?

 

Amonet: um demônio egípcio?

No Egito Antigo uma das tradições que existia era empregar a dualidade. O deserto versus o Nilo, a ordem versus o caos, a vida versus a morte. E também algumas divindades possuíam sua contraparte. É o caso dos deuses da “Ogdóade de Hermópolis”. Este grupo de deuses têm esse nome porque o “ogdóade” refere-se ao número 8 (LESKO, 2002).

Assim temos Nun e Naunet representando as águas primordiais, Kuk e Kauket a escuridão, Hu e Hauhet a ausência de forma e Amon e Amonet que representavam o ocultamento. O “ocultamento” de Amon e Amonet não é porque eles eram demônios que espreitavam no escuro, mas, pelo motivo de serem divindades cuja natureza expressava conceitos da criação de acordo com a concepção religiosa egípcia (LESKO, 2002).

 

Fontes:

BAKOS, Margaret. Egiptomania. O Egito no Brasil. 1a.. ed. São Paulo: Paris (Contexto), 2004.

DAVINO, Vanessa. Penny Dreadful: Rastros de clássicos góticos em palimpsesto televisivo de horror; Davino (UFBA); BABEL: Revista Eletrônica de Línguas e Literaturas Estrangeiras; ISSN: 2238-5754 – n.07, ago/dez de 2014.

LESKO, Leonard. “Cosmogonias e Cosmologia do Antigo Egito”. In: SHAFER, Byron; BAINES, John; LESKO, Leonard; SILVERMAN, David. As religiões no antigo Egito (Tradução de Luis Krausz). São Paulo: Nova Alexandria, 2002.

MOREIRA, Maria Elisa Rodrigues. Penny Dreadful: a literatura e o cinema nas telas da TV. In: Anais do XV Congresso Internacional da Associação Brasileira de Literatura Comparada. ABRALIC. Rio de Janeiro: UERJ, 2017. v. 3. p. 5324-5332.

 

Guerras ao modo antigo: resenha do livro “Fortificar o Nilo”

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Não possuímos muitos títulos acadêmicos em português sobre a Antiguidade egípcia e quando um surge precisamos aproveitar a oportunidade. Este é o caso da obra “Fortificar o Nilo: a ocupação militar egípcia da Núbia na XII Dinastia (1980-1790 A.C.)”, do historiador e arqueólogo Eduardo Ferreira, que é mestre em História Militar.

Publicado pela Chiado Editora, editora parceira do nosso site, esse livro é o resultado de uma dissertação de mestrado cujo foco são as fortificações egípcias da 12ª Dinastia; como eram usadas, construídas, etc. As fortalezas abordadas são aquelas da Segunda Catarata do Nilo, na Baixa Núbia, atual Sudão, e que passaram por um resgate de emergência na década de 1970, por conta da construção da Represa de Assuã. E é graças a essa represa que alguns desses edifícios hoje encontram-se em baixo da água, estando somente duas ainda visíveis.

O autor, já de início, deixa claro que os pesquisadores, no geral, têm pouco interesse em História Militar, preferindo então focar em temas culturais ou religiosos. Esclarecendo isso é possível entender melhor a importância desta obra.

O livro é dividido em 4 capítulos, todos possuindo subcapítulos. E ao longo de suas páginas vocês encontrarão termos que não são muito comuns para o público não acadêmico, como é o caso de “Grupo C”, “Uauat”, que se refere a Baixa Núbia, “Kerma”, “ta-seti”, que significa “Terra do Arco” e que era um dos nomes dados pelos egípcios para Núbia, etc. No canal do Arqueologia Egípcia no Youtube fiz uma resenha bem completa deste livro. Confira a seguir:

No primeiro capítulo ele fala sobre o papel de alguns faraós da 12ª Dinastia na construção de fortes e a ameaça bélica da Núbia. Também apresenta os medjay e os satu. Os primeiros, a priori, eram relacionados com os núbios, até que o termo se tornou uma designação para qualquer tipo de militar. É tanto que nesse livro são citadas as mulheres medjay, mas isso em relação a sua etnia. E os segundos eram os arqueiros núbios.

Um dos pontos que o autor salienta é que os exércitos núbios, em especial o de Kerma, usualmente são subestimados por alguns pesquisadores, que os tomam como inferiores em relação aos egípcios. É aí que ele explica a sofisticação militar desses povos que, inclusive, faziam uso de frotas.

No segundo capítulo um dos primeiros tópicos abordados é sobre a demografia no Egito e as cidades muradas. E então o autor parte para as fortalezas, explicando que não se sabe muito sobre como os habitantes delas viviam nem sobre a sua organização.

O motivo de se fixar fortes na fronteira com a Núbia também é explicado: em termos simples era para controlar e fixar uma fronteira, além de, claro, servir de apoio e base para as operações militares.

Ele também explica muito brevemente a presença de artefatos arqueológicos pertencentes aos núbios dentro dessas estruturas, e esclarece que algumas populações nativas levantaram residências próximas as fortalezas. A conclusão do autor do porquê da presença dessas pessoas em um “território hostil” como esse é de que essa proximidade com as fortalezas teria relação com a busca por proteção contra outros grupos também nativos da Núbia.

No terceiro capítulo ele trata dos elementos arquitetônicos dessas estruturas, abordado pontos como proteção e captação de água. Assim como questões sobre a vida dos soldados egípcios que viviam nesses lugares. As discussões sobre as formas de acesso, como portas e escadas, claro que também estão inclusas, assim como a existência, ou suposta existência, de espaços como quartel-general, arsenal, celeiros e casas de banho.

Já sobre a residência de generais e dos soldados comuns é uma grande incógnita e em complemento o autor se pergunta quantos indivíduos poderiam viver lá e qual a capacidade agrícola de um lugar desses.

Então no quarto capítulo é levantada a questão de quem eram as pessoas destacadas para ir para os fortes, discutindo o número de contingentes. Que tipo de pessoa aceitaria esse trabalho? O que eles ganhariam em troca? Eles recebiam algum incentivo financeiro? Novos cargos? Sabe-se que no Médio Reino os comandantes possuíam o cargo de “Generalíssimo” e no Novo Império eles passaram a ser vice-reis da Núbia, e isso seria um grande estímulo para ir morar em um lugar tão isolado. Porém, não está comprovado a existência física de um generalíssimo nas fronteiras.

Ele igualmente aborda como o recrutamento era realizado, explicando que a cada 100 jovens de um determinado local, um era levado para servir. E ele complementa falando que os recrutas poderiam exercer funções de policiamento ou escolta. Então temos a apresentação do cargo de patrulheiro, que também eram chamados de “caçadores”. Eles patrulhavam o deserto, as fronteiras e as cidades.

Em seguida ele faz uma abordagem sobre os armamentos, locais para a sua manufatura e materiais usados para fazê-los. Dentre as armas citadas estão as lanças, arcos, flechas, maçãs, machado, punhais e espadas.

E finalmente chegamos as conclusões finais, onde ele faz um resumo do que levantou no livro.

 

Uma abordagem geral sobre “Fortificar o Nilo”:

Em um livro cujo foco está em estruturas arquitetônicas, senti muita falta de boas reconstituições das fortalezas, muralhas, torres de vigia e postos sinaleiros. Na verdade, a obra contém ilustrações, mas algumas estão com a qualidade comprometida ou não possuem muitas informações. Por isso, acredito que quem é só um curioso que está interessado em conhecer um pouco mais sobre a história egípcia pode ter certa dificuldade, enquanto que um acadêmico se sentirá mais à vontade.

Eu também queria ver uma lista com os nomes das fortalezas em um mapa maior e com uma qualidade melhor. Alguns dos encontrados no livro infelizmente possuem letras pequenininhas.

Tirando esses detalhes, a obra é bem referenciada, ou seja, os interessados no assunto terão várias sugestões de bibliografia. Sem contar que ele é uma ótima base para quem quer estudar o tema militar, até porque está em português. É desnecessário dizer que isso é um grande bônus.

Esteticamente é um livro bonito e as folhas amareladas tornam a leitura agradável. Isso me deixa ansiosa para saber qual será a próxima publicação sobre o Egito Antigo da Chiado Editora. Lembrando que eles publicaram também o livro “Gramática Fundamental de Egípcio Hieroglífico”.

Tenha em casa: A Edições Del Prado, uma editora especializada em vendas de fascículos com imagens colecionáveis, possui uma coleção intitulada “Cenas do Egito Antigo”. Em uma delas você poderá ver o faraó pronto para a batalha em seu carro de guerra.

Clique aqui para conferir a peça ou aqui para ver as demais cenas.

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Quais são os principais deuses do Egito Antigo

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Certamente você já ouviu falar de Anúbis, Ísis, Osíris e Hórus. Mas sabe quem é Atum? Hapi? Khepri? Veja este post até o final e conheça algumas das mais importantes divindades do Egito Antigo.

Entender a função de cada deus e deusa ajuda e conhecer mais obre o pensamento de uma determinada sociedade. No caso da Antiguidade egípcia, por exemplo, só de dar uma simples olhada na composição dos deuses, formas e funções já podemos arrecadar várias informações. Uma delas é que certamente os egípcios eram bastante ligados à natureza e outra é que não tinham tabus em relação a morte, tentando até dar algum significado para ela.

No nosso episódio piloto da série “Deuses do Egito Antigo” explico de uma forma geral e didática sobre o surgimento e aparência das divindades egípcias. Também ensino como é que os egípcios chamavam os seus deuses:

Rá, Atum, Khepri

Estas três divindades eram relacionadas com o Sol. Atum era um deus criador, nascido no Mar Primordial e quem iniciou a criação de todas as outras divindades e os humanos. Khepri era a manifestação do sol nascente, representado por um escaravelho e Rá a manifestação do Sol do meio-dia.

Sekhmet, Thot, Amon

Sekhmet era filha de Rá e deusa da cura e das artes bélicas, sua forma era a de uma mulher com a cabeça de uma leoa. Já Thot um deus lunar, senhor da sabedoria e escrita, sendo assim o padroeiro dos escribas. E Amon, outrora um deus menor, foi transformado em divindade suprema do Egito a partir do Novo Império.

Tefnut, Shu, Nut, Geb

O casal Tefnut e Shu eram filhos de Atum. A primeira era a representação da umidade e o segundo o deus do ar. Ambos eram os pais de Nut e Geb. Nut era a divindade do céu noturno e Geb o deus que representava a terra. Os dois eram os pais de Ísis, Osíris, Néftis e Seth.

Ísis, Osíris, Seth e Néftis

Estes quatro deuses fazem parte de um dos mitos mais importantes do Egito. Ísis e Osíris era um casal, assim como Seth e Néftis. Os primeiros eram governantes do Egito, até que Osíris foi assassinado por seu irmão invejoso Seth. Para reverter isso Ísis ressuscita o seu esposo que passa a ser o deus do mundo dos mortos.

Hórus, Anúbis, Hathor

Hórus era o filho de Ísis e Osíris e a representação do faraó. Já Anúbis filho de Néftis e Osíris. Seu papel era o de ser o senhor da mumificação e guardião dos cemitérios. Hathor era a deusa do amor, das festas e do desejo sexual.

Maat, Hapi

Maat era a personificação do equilíbrio de tudo. Era a ela quem o faraó deveria responder, assim como todos os humanos. Inclusive está presente durante a pesagem do coração, onde a sua pena deveria ser pesada contra o coração do falecido. Hapi era a divindade que enviava as cheias do Nilo.

Saiba mais: Para uma lista mais completa adquira o livro “Uma Viagem pelo Nilo”. Lá você encontrará um glossário com dezenas de divindades, inclusive as estrangeiras que foram cultuadas no Egito.

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Livro “Fatos e Mitos do Antigo Egito”, de Margaret Bakos

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

A Margaret Bakos é uma historiadora brasileira especialista em história da antiguidade egípcia. Ela escreveu “Fatos e Mitos do Antigo Egito” (1994) tendo como objetivo abordar algumas características dessa antiga civilização.

O livro é composto por uma coletânea de 8 artigos relacionados com temas que ela chegou a abordar em congressos. A escritora não perderá tempo explicando diferenças na cronologia ou acontecimentos históricos, afinal, é um livro acadêmico em sua essência e subtende-se que o seu público-alvo já tenha alguma bagagem no assunto. Contudo, se você tem uma ideia de divisão da cronologia egípcia ou conhece algumas características básicas desta civilização muito provavelmente irá lê-lo bem.

Outro ponto que precisa ser abordado é que esta é uma edição antiga dessa obra e talvez por isso ela possua alguns problemas, a exemplo da sua diagramação e datilografia. Porém, são quesitos que é quase certo que tenham sido consertados nas edições mais recentes[1].

No 1º Capítulo ela fala sobre o processo de urbanização e a diferença entre cidade e aldeia. Ela igualmente levanta que o que antes existia entre os acadêmicos era a preocupação em se observar a organização urbana de civilizações como a Grécia e Roma, mas não do Egito.

Ela também apresenta o hieróglifo que define cidade e sua provável origem e ainda salienta que já nas primeiras dinastias houve uma preocupação em se promover a construção de cidades.

E quase que como um complemento do anterior, no 2ª Capítulo a definição de urbanidade é apresentada e é discutido se é possível aplicá-la ao Egito Antigo. Ela também levanta questões sobre ocupação espacial, destacando a diferença entre cidade e aldeia.

O 3º e 4º Capítulos são dedicados a falar sobre o papel das mulheres na sociedade, relacionando a sua posição social com a economia vigente e paralelamente com os mitos, uma vez que a organização estatal e a religião andávamos lado a lado.

No 5º Capítulo é apresentado o papel da “memória”, que era cultivada através da tradição oral e a escrita. Esta memória em questão refere-se à história dos deuses e aspectos do dia a dia como comportamento social, afazeres domésticos e como os egípcios se relacionavam com a natureza.

O 6º Capítulo é sobre o consumo do vinho. Aqui ela fala sobre a sua origem, produção e consumo, inclusive cita uma pesquisa que aponta que a vinicultura chegou no Egito durante o Pré-dinástico. Aproveitando o gancho ela explica quais outras frutas, além da uva, foram utilizadas para fazê-lo.

Margaret Bakos

No 7º Capítulo ela apresenta um resumo sobre o que ocorreu durante o 4º Congresso Internacional de Egiptologia, realizado em 1991 na cidade de Turim, Itália. Este é interessante para saber quais eram os questionamentos acadêmicos na época e quem sabe até comparar com os interesses dos estudantes de hoje.

E por fim, o 8º Capítulo é dedicado a falar sobre a coleção do Museu Nacional do Rio de Janeiro. Ele tem início com ela contextualizando a história do edifício em que hoje está o museu, depois parte para como foi que as peças egípcias foram adquiridas. Em seguida ela aponta quais foram os primeiros pesquisadores a catalogar as peças e a contextualiza-las historicamente e finaliza fazendo uma breve apresentação de algumas das peças mais notáveis da coleção.

 

Conclusão

Se você tiver interesse neste título lembre-se de comprar uma edição mais atualizada. Este volume aqui comprei em um sebo, mas é possível encontrar as edições atualizadas em grandes livrarias. Ele não será um grande complemento para quem já possui uma leitura bem madura sobre a antiguidade egípcia, mas para quem ainda está começando no meio acadêmico pode ajudar.

Caso queira comprar este livro a um bom preço no meu blog pessoal escrevi um texto dando dicas de como adquirir produtos sobre o Egito Antigo na internet de forma barata. Clique aqui para ler.

 

Dados do livro:

Título: Fatos e Mitos do Egito Antigo

Gênero: Egiptologia

Autor: Margaret Marchiori Bakos

Editora: Edipucrs

Ano de Lançamento: 1994

Edição: 1ª Edição

Clique aqui para acessar o seu perfil no Skoob.


[1] É muito mais comum do que vocês imaginam a primeira edição de um livro sair com problemas. É por isso que algumas editoras encorajam os leitores a escrever para elas para apontar tais erros.

10 brinquedos do Egito Antigo que você precisa conhecer

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Muitos brinquedos da antiguidade egípcia são bastante parecidos com os nossos atuais. As crianças do Período Faraônico poderiam se distrair brincando com bonecos de pano ou madeira, animais com bocas móveis, bolas, jogos de azar ou aqueles que envolviam o raciocínio. Os arqueólogos encontraram ao longo dos anos uma série de artefatos do tipo, mas a pena é que entre alguns o uso se perdeu com o tempo.

Nesta modesta lista vocês poderão conferir um pouco deste lado lúdico dos antigos egípcios e quem sabe rememorar a sua própria infância.

1 – Jogo dos cães contra chacais:

Fonte: Met Museum

Este jogo possui uma gaveta para armazenar as peças as quais são cinco pinos com cabeças de cães e cinco com cabeças de chacais. Já o tabuleiro tem a forma de uma lâmina de machado e possui 58 furos na superfície, além do desenho de uma palmeira e um sinal de shen no centro. O shen era o símbolo hieroglífico para ouro. Como outros jogos advindos do Egito Antigo não se possuem registros de quais eram as suas regras. Howard Carter e Lord Carnarvon em sua publicação Five Years of Explorations at Thebes, A Record of Work Done 1907-1911 (1912, página 58) deduziu como ele pode ter funcionado:

“Presumindo que o símbolo ‘Shen’… seria o objetivo, encontramos em ambos os lados vinte e nove buracos, ou incluindo o objetivo, trinta à parte. Entre esses buracos, de cada lado, dois estão marcados… ‘nefer’, ‘bons’; e quatro outros estão ligados entre si por linhas curvas. Supondo que os buracos marcados como ‘bons’ incorrem em um ganho, parece que os outros, conectados por linhas incorrem em uma perda. Agora, os movimentos em si poderiam ter sido facilmente definidos pela possibilidade do lançamento de ossos ou dados… e, portanto, temos diante de nós um jogo de azar simples, mas excitante”.[1]

Esta peça pertence ao Médio Reino, 12ª Dinastia.

2 – Senet

Fonte: Egypt About

O senet era um jogo de tabuleiro o qual era dividido em três fileiras de dez quadrados. Alguns dos quadrados tinham símbolos que representavam a má e boa fortuna. Sabe-se que era um jogo de estratégia, mas não existe certeza de quais eram as suas regras. Entretanto, no geral a crença é de que o vencedor era aquele que conseguisse levar suas peças para o final do lado do seu oponente.

3 – Cavalo com rodinhas

Fonte: British Museum

Outrora colorido, este cavalinho de madeira com rodinhas provavelmente era puxado por uma cordinha, a julgar pelos orifícios que se encontram na área da sua boca. Esta peça foi datada como sendo do Período Romano.

4 – Boneco de madeira representando uma pessoa moendo grãos

Fonte: Rob Koopman

Não são somente as nossas atuais Barbies que exercem profissões no mundo das brincadeiras. Entre os antigos egípcios brincar de estar exercendo alguma tarefa na comunidade também era comum. Neste exemplo temos uma pessoa segurando uma pedra que serve como um moedor de grãos. O brinquedo possui uma mecânica que torna capaz o indivíduo que está brincando poder mover o bonequinho: puxando a cordinha o tronco dele se move fazendo com que ele se mexa como se estivesse moendo grãos.

5 – Gato de madeira

 

Fonte: British Museum

Este gato de madeira (ou talvez uma leoa) com dentes de bronze poderia ter sua mandíbula mexida graças a uma corda (a qual atualmente é uma réplica) que atravessa a parte superior da sua cabeça. Este exemplar provavelmente pertente ao Novo Império.

6 – Rato de cerâmica e madeira

Fonte: British Museum

Este é um rato feito de cerâmica e possui uma mandíbula de madeira articulada, que era operada por um fio. A questão é: como se brincava com ele?

7 – Mehen

Fonte: Neues Museum

O mehen, que também é chamado de Jogo da Cobra, trata-se de uma placa circular que mostra um padrão imitando este animal. Seu nome faz referência ao deus Mehen, divindade relacionada justamente com as cobras. Embora apareça em alguns registros iconográficos não se sabe quais eram as suas regras.

8 – Bola

Fonte: British Museum 

As bolas egípcias naturalmente eram diferentes das nossas. No caso da antiguidade elas eram feitas com farrapos de tecido, couro, folhas de palmeira ou outros vegetais, que usualmente eram atados com cordas. Contudo, existem exemplos ocos deste brinquedo.

9 – Bonecos de pano

Fonte: British Museum

Bonecos de pano também faziam parte da brincadeira. Feitos usualmente de linho e recheados com trapos e papiro, eles eram enfeitados com ornamentos, a exemplo desta peça, que no passado provavelmente possuía um pequeno enfeite para cabelos. Pensa-se nisso por conta da presença de uma pequenina pedra azul na lateral esquerda da sua cabeça. Esse artefato é datado do Período Romano.

 

10 – Dados

Fonte: Met Museum

Em sítios arqueológicos egípcios foram encontrados diferentes tipos de dados onde alguns lembram os nossos usuais de seis lados (com direito ao uso de pontinhos para, provavelmente, indicar quantidades) e outros de formato poliedro, muito parecidos aos utilizados pelos jogadores de RPG. Não se sabe os tipos de regras que envolvem um dado poliedro, mas acredita-se que eles poderiam ser utilizados tanto para jogos, como para adivinhações oraculares. Este da imagem é datado do Período Greco-Romano.

Fontes:

[1] Game of Hounds and Jackals. Disponível em < https://www.metmuseum.org/art/collection/search/543867 >. Acesso em 11 de outubro de 2017.

Ancient Egyptian Games. Disponível em < http://www.ancient-egypt-online.com/ancient-egypt-games.html >. Acesso em 11 de outubro de 2017.

The Game of Senet. Disponível em < http://www.gamecabinet.com/history/Senet.html >. Acesso em 11 de outubro de 2017.


  • Para fontes adicionais consulte as legendas das imagens.

O que mais você precisa saber sobre o Egito Antigo em Overwatch

Lançado pela Blizzard Entertainment, Overwatch é um game onde os jogadores competem entre si em equipes usando heróis com diferentes características e origens, que exercem funções de defesa, ataque ou cura. A exemplo de muitos outros jogos ele traz algumas inspirações relacionadas com a antiguidade egípcia e foi isso o comentado no post “O Egito Antigo em Overwatch: um dos maiores games do momento” (clique aqui para ler). Depois de ter sido publicado, a leitora Isabella Czamanski pontuou alguns detalhes do jogo que não foram comentados. Abaixo o texto dela:  

Antes de mais nada, adorei sua iniciativa de falar de Overwatch no AE, principalmente por existirem até cenários bem inspirados na antiguidade egípcia no jogo. Mas, como jogadora eventual de Overwatch (mas muito, muito fã), me sinto na obrigação de fazer alguns adendos à sua matéria.

Além da skin normal da Pharah, existem mais duas inspiradas no Anúbis (mudando apenas a cor entre uma e outra, gosto particularmente da preta).

Além disso, existe mais uma personagem egípcia, a Ana, que é mãe da Pharah e também possui uma tatuagem do Olho de Hórus em seu próprio olho.

Fora isto, existe uma skin para o personagem Zenyatta (que é um robô zen) claramente inspirada em Rá e com alguns detalhes muito interessantes, como o nemes e o uso de azul e dourado.

Eu realmente acho interessante a forma como a Blizzard conseguiu inserir história em Overwatch, mesmo se tratando de um futuro distópico. Podemos ver alta tecnologia em meio a cenários outrora históricos, como o templo de Anúbis, sem que pareça forçado ou irreal. As skins dos personagens também foram muito bem construídas.