[Vídeo] Entrevista com Márcia Jamille sobre a Arqueologia Egípcia

 

Abaixo está o vídeo feito comigo onde sou entrevistada pelo João Carlos Moreno de Sousa (estudante de Arqueologia no MAE-USP e administrador do Arqueologia e Pré-História) acerca de assuntos tais como a Arqueologia Egípcia, os egiptólogos que mais admiro, algumas pesquisas no Egito, minhas próprias pesquisas e um pouco acerca do meu site.

Também faço o anuncio do tema do meu primeiro livro que será lançado em breve. Abaixo o vídeo:

Perguntas de final de ano para Márcia

Respostas datadas no dia 31/12/2011 por Márcia Jamille N. Costa.

Primeiramente quero agradecer a todos que enviaram suas questões. Senti ter que excluir algumas, mas durante as avaliações foi tomada como meta escolher as que se tornavam uma dúvida comum e as mais ousadas, afinal, é uma postagem de final de ano e não há nada mais importante do que transformar este dia em um momento diferente. Quando abro momentos como este é extremamente gratificante, pois me sinto mais próxima a vocês de alguma forma. O Arqueologia Egípcia em fim torna-se um diálogo e não uma explanação única e simplesmente.

Fiz um sorteio para saber quantas perguntas escolher, desta forma teria que responder seis questões. Para manter o mesmo número do ano passado resolvi sortear a sétima.

Vejamos as escolhidas:

1ª pergunta (Ingrid):

Eu gostaria de saber se é muito difícil conseguir emprego em arqueologia no Brasil quando se é recém graduado.

Oi Ingrid. Quando terminei minha graduação não procurei por emprego, mas outros colegas sim, e alguns já estão empregados, inclusive um amigo que acabou de se formar já está com o emprego praticamente garantido em uma empresa de consultoria em Arqueologia. A idéia é não ficar em casa esperando alguém ligar com a proposta, é ir atrás. Fique de olho nos boletins da Sociedade de Arqueologia Brasileira (SAB) para saber como ficará a situação dos graduados em Arqueologia no nosso país.

Outra coisa importante: invista no seu currículo. Vá para eventos e produza artigos ou ensaios. Não espere para fazer estas coisas durante o mestrado. Este importante detalhe vai te valorizar.

2 ª pergunta (Thatyane):

Olá!

Gostaria de saber como faz para estudar egiptologia no Egito.

Provas, a universidade que aceita estrangeiros, se tem como fazer um intercambio, e se precisa de algum diploma para poder entrar (feito aqui no Brasil).

Obrigada!

Oi, tudo bom? Não sei dizer em quantas Universidades no Egito você pode estudar Egiptologia, nem como entrar, mas na Americana do Cairo, por exemplo, teve um processo de seleção neste final de ano em que para ingressar dois dos pré-requisitos básicos era ser PHD e saber traduzir Hieróglifos. Você tem que buscar pelos Editais. Outra coisa, nem todas as Universidades são unanimes (darei exemplos de fora do Egito), algumas estão pedindo experiência na área de História, outras querem Artes, outras a Arqueologia e outras conservação in situ, depende muito da finalidade do programa. A forma de ingresso também consta em Edital. O diploma é uma questão que deve ser vista com a própria Universidade de interesse já que da mesma forma que alguns dos nossos diplomas não são válidos fora os de fora também podem não ter validade aqui.

Meu conselho totalmente pessoal é que se quer investir em uma educação em Egiptologia fora do nosso país é que procure Universidades nos EUA ou alguma na França ou Inglaterra, pois além da língua ser mais acessível o corpo de Egiptologia é mais experiente em termos de ter uma tradição com pesquisa em campo. No Egito tudo ainda está muito novo e os recém formados de lá estão em choque com as autoridades porque não estão recebendo experiência de campo.

3ª pergunta (Anônimo):

Com um diploma de graduação em Arqueologia Brasileira eu posso trabalhar no Egito?

Trabalhar no Egito exige uma série de questões, algumas de teor político.  Nunca trabalhei lá, mas temos profissionais brasileiros que mesmo sem uma formação ampla em Egiptologia (ampla para o contexto brasileiro é se formar com uma monografia, dissertação ou tese relacionadas ao Antigo Egito em uma instituição reconhecida pelo MEC e desenvolver uma vida acadêmica sobre) escavam no Egito com equipes estrangeiras. Às vezes são contatos estabelecidos ou indicações. Talvez se tivéssemos um corpo forte de Arqueologia Egípcia isto não seria algo tão “segregado”. Entendo que sua pergunta seja exclusivamente trabalhar em escavações, mas a Arqueologia não se resume a isto. Você pode trabalhar com acervos, catálogos, escrever livros ou matérias para o publico leigo ou amador. O museu Britânico possui inclusive programas para estrangeiros que necessitam de treino. Existem possibilidades para se preparar para o mercado de trabalho, mas é preciso procurar e se dedicar.

4 ª pergunta (Jayna Melo)

Na sua visão, há uma maior valorização/interesse da arqueologia egípcia por se tratar de dinastias, múmias; enfim, uma grandeza arquitetônica e uma riqueza de materiais, em detrimento da arqueologia brasileira que praticamente se resume a questão indígena?

Por muito pouco pensei que era a professora Janaina Mello quem tinha redigido esta pergunta. Ela está fazendo aniversário hoje (Parabéns para ela! Muitos anos de vida!). E em fim: Por parte do público comum sim. Frequentemente vejo pessoas se referirem a Arqueologia Egípcia como a verdadeira Arqueologia não só por sua antiguidade em termos de constituição de sociedade e cultura, mas em termos de artefatos os quais consideram mais “evoluídos” o que tornaria o Egito faraônico extraordinário. Recentemente comentei em meu blog que as pessoas se apegam mais as questões de gestão dos artefatos egípcios do que aos artefatos do seu próprio país e finalizei com um “basta refletimos acerca dos motivos”, mas na verdade eu já tinha dado a resposta, a mídia de certa forma tem sua parcela de culpa, todos os anos temos especiais sobre a Antiguidade Egípcia, mas quase não temos nenhum sobre Arqueologia Brasileira e neste caso quando são produzidos recebem pouca divulgação. Já que mencionou a questão indígena temos a Arqueologia Amazônica, poucos eram os brasileiros que ouviam falar até que começaram a aparecer documentários e matérias de revistas sobre a Terra Preta de Índio. A Amazônia, desde então, parece ter virado a Meca da Arqueologia Brasileira, muito se fala sobre ela e seus sítios. Os próprios arqueólogo brasileiros também são culpados já que alguns levantam como Arqueologia somente o que relacionam com a “Pré-História” e tudo o que tem a ver com as sociedades com escrita como o objeto de estudo da História, desta forma a Arqueologia Histórica no nosso continente vem sofrendo um bocado com isto inclusive na sua constituição. Voltando a questão egípcia parte do público observa tudo de uma forma lúdica o que acaba refletindo na busca por um passado glorioso (é tanto que não é estranho encontrarmos no Brasil tantas pessoas que se dizem reencarnações de rainhas e faraós) e normalmente para a nossa sociedade infelizmente o índio é visto como o símbolo da inferioridade, uma semente ruim, um passado de decadência. É mais propício se relacionar a faraós do que com índios, a pena é que a Arqueologia dos índios do Brasil tem tanto a mostrar, as últimas pesquisas têm indicado coisas incrivelmente maravilhosas, mas infelizmente o público vê com pouco interesse.

 

5ª pergunta (Natália):  

Primeiro queria deixar claro que amei a idéia de ver isso de novo, e que agora vou conseguir participar… Mas vamos lá…

Se você tivesse a oportunidade de falar cinco minutos com (vou usar meu favorito aki ^^ he he) Tutankhamon,o que diria a ele?

Oi Natália! Tudo bom? Creio que é a Natália que sempre aparece por aqui! Feliz Ano Novo!

O Tutankhamon é quase meu garoto propaganda, é a foto dele que está como background no meu Twitter, ele abre o meu mural no Facebook e é minha imagem de assinatura aqui no Arqueologia Egípcia. Foi graças a ele que me interessei de vez pela Arqueologia. Teríamos quase uma relação de cumplicidade se mais de 3000 anos não nos separasse, desta forma, cinco minutos jamais daria para falar muito, porém tentaria dizer que hoje em dia ele é quase uma estrela do Rock, por incrível que pareça ele possui groupies e é muito amado pelas crianças, fora as pessoas que o tomam como objeto de culto e outros que se inspiram nele. Embora o tratem como irrelevante para a Arqueologia é incrível ver como existem pessoas que se iluminam ao ver os artefatos ligados a ele, as crianças, por exemplo, se encantam profundamente, neste último caso já cheguei a ler um comentário de que é porque existe uma identificação, mas nunca vi uma criança se encantar com o garoto por ele ter sido um faraó jovem, mas pelas imagens, para os adultos é só um rapaz que morreu drasticamente e foi enterrado com as suas coisas, para as crianças é uma pessoa que parecia ser legal e os seus artefatos é um playground para conhecer coisas novas. Parece bem uma atração muito afetuosa.

6ª pergunta (Jane Viana):

Quando é que você vai trazer um curso deste de egiptologia ou religião egípcia para UFS? Ou para SE? Estamos aguardando!

Pessoal, a Jane é uma das alunas da graduação em Arqueologia na UFS.

Jane! Primeiramente feliz Ano Novo e estude muito para quando voltar para o próximo período. Obrigada por enviar uma pergunta que embora descarada (gente, ela sempre me importuna com esta pergunta =D ) é válida. Ainda não tirei meu mestrado, mas até lá só sobra os eventos e o próximo período, pois nele tenho que fazer minha livre docência, então, quem sabe…

7ª pergunta (Eugênio – Brusque –SC)

Márcia, parabéns

Admiro o seu trabalho, e gostaria de te conhecer, e dividir o nosso amor pelo Egito.

Bom 2011, vida, prosperidade e saúde

Esta foi a pergunta sorteada, não é bem uma pergunta, mas vamos lá:

Eugênio, fico feliz que tenha enviado uma mensagem já que nos últimos meses tem participado bastante aqui no Arqueologia Egípcia. Realmente seu interesse pela sociedade egípcia tem sido admirável.

Um dia espero que cada cidade do Brasil tenha sua cota de egiptólogos e que montem mais eventos pelo território. Quem sabe não nos vemos em um destes.

Ankh, Wdja, Seneb* e até o próximo ano!

E para todos os leitores do Arqueologia Egípcia: Tenham o início de um Ano Novo Feliz!

Vale dos Reis. Imagem disponível em < http://www.touristspots.org/the-valley-of-the-kings-in-thebes-egypt/ >. Acesso em 09 de novembro de 2011.

(*Vida, prosperidade e saúde)

 

 

Perguntas de final de ano para Márcia

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Perguntas enviadas pelos leitores para Márcia Jamille N. Costa (publicado dia 31/12/2010)

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Na penúltima semana de dezembro recebi questões de vocês leitores e agora as respostas estão disponíveis. Pode parecer clichê, mas não foi tarefa fácil descartar algumas perguntas.

Gostaria de falar que fiquei extremamente feliz pela disposição de todos que enviaram as questões e que esta foi uma experiência muito bacana. Lembrando que foi permitido que algumas perguntas fossem marcadas como anônimas.

Algumas foram extremamente criativas e bem interessantes, mas eu deveria escolher somente cinco perguntas e acabei respondendo sete, o que não deveria ser feito. Eu realmente responderia todas se pudesse.

Vamos para as perguntas e as respostas:

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1ª pergunta (enviada por Rodolfo Francisco Marques):

Como surgiu seu interesse pela arqueologia e pelo Egito?

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Olá Rodolfo! Ambos surgiram ao mesmo tempo enquanto eu assistia o documentário “Egito: em busca da imortalidade”, antes desde episódio a história do Egito faraônico era irrelevante para mim, mas quando vi as cenas iniciais que mostravam o túmulo de Tutankhamon e o cuidado que os antigos tinham por seus mortos me senti comovida, aquela gente queria ser lembrada a todo custo, tinham mais medo do esquecimento do que da própria morte, é um sentimento muito profundo. Pois é, desde então  eu quis seguir a carreira.  Eu tinha treze anos e brincava com pinceis tirando as poeiras dos moveis dizendo que estava recuperando um objeto… Eu hoje imagino o que a minha mãe andava pensando de mim naquela época…

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Rosto de um dos ataúdes de Tutankhamon. Fotografia tirada pela a expedição ao Egito realizada pelo o Metropolitan Museum of Art. (Ano desc.)

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2ª pergunta (anônima):

Como surgiu a idéia de criar o site?

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Eu já navegava muito na internet em 2003 (e até 2004, acredite, eu achava que era a única pessoa no mundo que colecionava livros e revistas sobre a civilização egípcia…) e acompanhei o desenvolvimento de sites de Egiptologia em português e muitos me decepcionavam ao extremo, eram conteúdos sem fundamento, impressões de pessoas que nem sequer tinham lido as pesquisas sobre o assunto, então quando tinha chegado 2008 eu resolvi fazer um site só por “diversão”, armazenando cópias digitalizadas de revistas e artigos, passando horários de documentários, divulgando as revistas publicadas, etc, mas voltado só para os meus amigos. No entanto, notei que o site estava recebendo muitas visitas e pessoas começaram a escrever para mim. Estava começando a ficar clara a necessidade de comprar um espaço e tornar o Arqueologia Egípcia algo grande. Acredito que este site que estamos vendo agora faz ainda parte do embrião de 2008 e pela a visível mudança que ele veio sofrendo acredito que vai ficar ainda mais interessante.

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3ª pergunta (enviada por Rennan Lemos):

O Arqueologia Egípcia é uma ferramenta importantíssima para a disseminação de conhecimento egiptológico atualizado no nosso país, principalmente aquele produzido por egiptólogos nacionais. Para você, então, qual é a importância de se manter um canal de divulgação da Egiptologia no Brasil – um país onde a área não é, ainda, um setor constituído nos cursos de pós-graduação? Parabéns pelo site!

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Olá Rennan! Esta é uma questão muito importante, mas que está sendo tão ignorada. Nós temos no Brasil egiptólogos tão maravilhosos, mas cujo trabalho é tão pouco acessível e esta é  uma situação desconfortável, principalmente porque a população precisa saber do resultado do nosso trabalho. Existem também as pessoas que não têm uma especialização na área, mas que saem por aí se apresentando como egiptólogos, não preciso nem mencionar que isto é crime. Então, manter um canal de divulgação da Egiptologia nacional ajudaria bastante não só o público, como também a academia a saber se não estamos escutando o papo de um charlatão.

O Arqueologia Egípcia tenta fazer a sua parte, mas não é muito fácil, nem todos querem divulgar seus trabalhos na rede, mas o site está aberto para receber o material que for necessário.

Se eu pudesse faria uma faixa enorme e estenderia na frente de todas as universidades com os dizeres “Egiptologos, saiam um pouco da biblioteca e criem um blog”. Montar uma página na web é a coisa mais fácil do mundo. Façam um grupo com amigos egiptólogos e montem um grande blog e postem toda a sexta-feira. O Brasil está tão carente disto, está muito necessitado dos nossos egiptólogos. Acreditem, eles querem conhecê-los.

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4ª pergunta (enviada por João Carlos):

Que tal fazer uma sessão no site com sugestões de livros sobre o Egito?

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Quando li esta pergunta me senti no direito moral de respondê-la. Pois é João, eu nunca tinha pensado nisto! Existe uma parte no site para anunciar publicações, mas estas atualizações só são feitas quando eu acabo de ler um livro. Vou estudar a sua idéia para ver como ela pode se encaixar no site.

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5ª pergunta (enviada por Ana):

Primeiramente parabéns pelo site! Queria saber se a vida de um arqueólogo é muito difícil. As descobertas são escassas? Vale a pena se tornar um?

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Olá Ana, obrigada. Primeiramente se a vida fosse fácil a vida não seria vida… Todas as profissões possuem desafios, a Arqueologia não poderia ficar de fora. A sua pergunta é em termos financeiros? Neste caso a resposta vai variar de pessoa para pessoa, em outras profissões mais conhecidas como advocacia, por exemplo, você tem aqueles que ganham muito ou que ganham pouco, é tanto que existem os chamados “advogados de porta de cadeia”. O mercado brasileiro até que é favorável para os arqueólogos, mas muita coisa ainda está em uma total bagunça em termos de fiscalização, pessoas de má fé ainda estão trabalhando com escavação, danificando artefatos (neste sentido o que nos resta é denunciar). Desemprego existe, mas este é um risco a se correr como em qualquer outra profissão.

Dizem que arqueólogo é um aventureiro, entra no mato com uma pederneira e nada mais, passa dias a fio no meio do nada, não tem onde fazer suas necessidades, etc, mas a realidade não é bem assim, arqueólogo não precisa ser masoquista, e ninguém precisa ser radical como F. Petrie que normalmente dormia dentro de túmulos ao lado de múmias. Existem os que tentam apavorar as moças falando, por exemplo, que elas deveriam fazer o mesmo serviço braçal que eles, tudo bem que em alguns campos elas acabam fazendo, mas existem coordenadores de escavação que não obrigam nem os rapazes, nem as moças a fazer o que eles não conseguem. Se você não consegue subir um matacão para analisar pinturas eles não vão te obrigar ou apontar o dedo para a sua cara dizendo que você não serve para a profissão. Outra coisa, dizem que o trabalho de Arqueologia é tão “perigoso” que só pode ser exercido por homens, esta é uma visão equivocada, não só no Brasil, mas no mundo, temos muitos exemplos de arqueólogas de destaque no ramo.

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Flinders Petrie. Fonte: http://www.athenapub.com/aria-PE-Petrie1.GIF

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Agora sua pergunta “se as descobertas são escassas”, felizmente não. Trabalhamos com cultura material, coisa produzida pelo o homem, ou seja, enquanto existirmos sempre será produzida cultura material. Certa vez em um evento uma pessoa do público perguntou se os cursos de graduação em Arqueologia iriam deixar escassos os sítios para serem estudados. De forma alguma! Existem vários tipos de Arqueologias, inclusive aquela que trabalha com o meio urbano, ou com lixo moderno e até mesmo com o lixo espacial! Arqueologia não é só escavar.

Se vale a pena se tornar um arqueólogo? Creio que isto conta principalmente do que você ama fazer… Se esta coisa te traz satisfação pessoal. Amo a Arqueologia desde pequena, sempre quis fazer isto e não me imagino mesmo fazendo outra coisa. Ao menos para mim está valendo a pena, apesar dos apesares eu gosto de falar sobre Arqueologia, eu amo ficar procurando fragmentos, amo conhecer lugares novos e pessoas novas. Sinceramente estou muito feliz com a minha decisão de me tornar arqueóloga.

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6ª pergunta (anônima):

As possibilidades de se fazerem grandes descobertas sobre a civilização egípcia ainda são grandes?

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“Grandes descobertas” seriam ao estilo da tumba do faraó Tutankhamon? A Arqueologia Egípcia por vezes pode ser uma caixinha de surpresas, antes da descoberta do sepulcro do Tutankhamon um rico chamado Theodore Davis que estava pagando alguns arqueólogos para escavar no Vale dos Reis falou a celebre frase “Receio que o Vale das Tumbas já esteja esgotado”, isto em 1912, daí em 1922 “pimba”! Howard Carter encontra a KV-62. Depois muitos outros acharam que não se tinha mais nada “grande” para se encontrar em todo o Egito até que em 2003 um camponês encontra o sepulcro das múmias douradas (pesquisado então por Zahi Hawass) no oásis Baharia. Estou dando somente dois exemplos que foram assediados pela a mídia, mas tiveram outros como a tumba da princesa Khnumet (Dashur), a tumba do general Psusennes I (Tânis), a tumba da rainha Heteferes, mãe de Quéops (Giza) e assim por diante. O próprio Vale dos Reis promete outras descobertas, acreditam que a tumba da rainha Nefertiti esteja lá. Fora a tumba de Marco Antonio e Cleópatra que alguns acreditam estar em Taposiris Magna. Mas não podemos ignorar as descobertas “menores”, talvez elas não sejam importantes para a imprensa, mas são importantes para entender um contexto de uma sociedade.

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7ª pergunta (enviada por Paulo H.):

Que múmia você gostaria de descobrir escavando o Vale dos Reis, caso houvesse uma expedição e você fosse convocada para a equipe.

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Tesoureiro Maya. Foto: Kenneth Garrett. 2003.

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Olá Paulo! Se fosse para desejar eu gostaria de encontrar Tutmés III ou Amenofis III, mas já encontraram!! Tutmés III era, pelo o que sabemos, um faraó concentrado em suas atividades, não era um relaxado. E Amenofis III usava a paz como estratégia, fazia muito uso da diplomacia, ele parecia ser mesmo um cara muito esperto. Se a sua pergunta fosse em relação as necrópoles de Saqqara eu me sentiria muito feliz em ver cara a cara Maya (ama de leite), Maya (tesoureiro) ou Huy, os três eram funcionários de Tutankhamon.

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Agora que terminou a lista de perguntas que finalizaram as postagens de 2010 só tenho a desejar para vocês o início de um Ano Novo feliz!

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Entrevista: Pedro Paulo A. Funari

Por Márcia Jamille Costa, estudante de arqueologia na UFS. Entrevista publicada no dia 11/05/2009

No dia 24/04/2009 gentilmente o Dr. Pedro Paulo Funari aceitou o meu convite para uma entrevista. Ele já é um conhecido nosso, teu texto está disponível para leitura na área de artigos e o livro “Arqueologia” já foi indicado no site. Atualmente ele é Professor Titular da UNICAMP além de Coordenador do Núcleo de Estudos Estratégicos da mesma universidade e em sua carreira tem acumuladas dezenas de artigos publicados e é editor de varias revistas cientificas no Brasil e exterior. Confira abaixo a entrevista que abre o nosso novo quadro no site.

Funari é um ícone da arqueologia brasileira e uma das principais bibliografias recomendadas em termos de arqueologia histórica. Foto cedida pelo entrevistado.

Márcia Jamille Costa: Vamos começar pelo o livro Arqueologia (2006) que é usado como bibliografia por muitas pessoas que estão começando, inclusive o indico em meu site, é um material muito pequeno, mas bem explicativo. Como se deu a elaboração dele?

Pedro Paulo Funari: O livro surgiu na década de 1980, para apresentar, de forma clara e didática, a Arqueologia para o público geral e estudantil. Foi publicado pela Ática. No século XXI, o livro foi atualizado, com novas questões e atualizações, mas sempre com essa perspectiva, tanto introdutória, como crítica, ao corrente das discussões no âmbito das Ciências Humanas e Sociais. Sua elaboração contou com literatura, mas também com a experiência de campo e científica, internacional e brasileira.

O que você acha do termo “Arqueologia Histórica”, muitos alunos sentem certa dificuldade em entender do que de fato se trata, deveria haver uma nova definição para este tipo de arqueologia?

P. P. F: O termo surgiu no Estados Unidos, para designar o estudo da cultura material a partir da Idade Moderna, a partir do fim da Idade Média. Na Europa há outras definições, mais ligadas ao estudo das civilizações egípcia, mesopotâmica, grega, romana. Em 1999, publicamos o livro Historical Archaeology, back from the edge (Londres, Routledge), com a participação de estudiosos do mundo todo, propondo uma outra definição: o estudo da cultura material das sociedades com escrita.

Como alguém que participa do corpo editorial de 30 revistas cientificas dentre o nosso país e o exterior, há algum ponto em que a Arqueologia brasileira deveria se espelhar na arqueologia de outros países?

P. P. F: Não se trata de espelhar-se, mas de interagir com a ciência internacional. A Arqueologia brasileira tem, cada vez mais, estado em contato com o que se faz na América Latina, nos Estados Unidos e na Europa, com um grande enriquecimento da disciplina no Brasil. O Brasil, por sua parte, já tem contribuído para a ciência internacional, com a produção de livros e artigos de alcance internacional, em diversos temas e áreas, como no caso da Arqueologia subaquática e na Arqueologia Histórica.

Uma das enciclopédias que você co-edita é a Oxford Encyclopaedia of Archaeology, deve ser uma experiência e tanto!

P. P. F: De fato! Articular autores dos quatro continentes é muito instigante. A diversidade de pontos de vista é impressionante e se aprende muito.

Foto cedida pelo entrevistado.

Quando estive no Rio de Janeiro fiquei sabendo que você estava para dar uma palestra sobre a história militar na antiguidade, sei também da existência de um artigo seu sobre o mundo mulçumano. O arqueólogo se especializar em uma só área seria uma espécie de barreira para explanar varias culturas?

P. P. F: É comum que as pessoas se especializem. Esta é uma tendência da ciência desde o …século XVIII! Contudo, quanto maior a capacidade de tratar de uma diversidade de temas, tanto melhor, pois isto permite que a pesquisa seja mais complexa a abrangente. Hoje, essa tendência é crescente e beneficia estudiosos e público em geral.

Qual você considera sua maior contribuição para a Arqueologia?

P. P. F: A ciência é coletiva e a Arqueologia, em particular, de forma especial. Por isso, qualquer contribuição deve ser entendida como algo coletivo, como parte de um esforço compartilhado. Meu intento sempre foi no sentido do incentivo ao pensamento crítico e independente, de uma Arqueologia integrada à sociedade, antenada com o mundo. Se for para escolher um lema, seria de omnibus dubitandum (“deve duvidar-se de tudo”), pois, como já dizia Sócrates, o pensador grego do século V a.C., só vale viver uma vida de forma crítica.

Entrando agora um pouquinho mais para o tema do site, algumas pessoas que se preparam para se especializar na Arqueologia Egípcia sofrem muitas vezes certa discriminação por ser considerado por alguns como “um tema batido” ou por não ser algum assunto relaciona do ao Brasil. Você tem experiência na área de História Antiga, já sofreu com algo parecido?

P. P. F: Claro! Nem sempre a má fama, contudo, foi sem fundamento. A Antiguidade  reacionária, idealizada ou opressora é terrível. Há quem justifique a opressão das mulheres pela Antiguidade. Contudo e por isso mesmo, o estudo do antigo pode ser muito relevante, pois mostra, pela diferença e semelhança, como podemos viver, hoje, de forma critica,  de modo a transformarmos a sociedade. O Egito Antigo poder servir para tudo isso!

Você trabalha muito com a questão do patrimônio, temos o caso do busto de Nefertiti e da pedra de Roseta, além de muitos outros artefatos egípcios que o Conselho Supremo de Antiguidades do Egito está pedido para que sejam devolvidos. Qual a sua opinião sobre esta atitude?

P. P. F: Franceses e ingleses pilharam o Egito, como tantos outras potências imperiais o fizeram. As antigas colônias ou regiões subjugadas reivindicam que isso seja revisto e isto parece razoável.

Agora a pergunta clichê: Quais caminhos te levaram para a Arqueologia?

P. P. F: Antes de tudo, o que os gregos chamavam de acaso (tykhé) e oportunidade (kairós). Já adolescente, gostava da Arqueologia, como aventura, devorava os livros de Ceram. Contudo, fui levado à Arqueologia por oportunidades concretas, já como estudioso da História, no mestrado.

Gostaria de deixar algum recado para os leitores do arqueologiaegipcia.com.br?

P. P. F: A paixão é o combustível que garante a perseverança necessária para um estudo prazeroso e bem sucedido!

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