Livro “Nefertiti: O Livro dos Mortos” de Nick Drake: uma trama policial no Egito Antigo (Comentários sem spoiler)

Um homem poderoso comandando é uma coisa; uma mulher poderosa é outra bem diferente.

— ‘Nefertiti: O Livro dos Mortos’, Nick Drake, página 150.

Escrito por Nick Drake, “Nefertiti: O Livro dos Mortos” (Nefertiti: The book of Death) é o primeiro livro da série policial protagonizada pelo detetive Rahotep. Baseado em cenários e alguns personagens reais, a história se passa durante o final da 18ª dinastia (Novo Império), mais especificamente na época do reinado do faraó Akhenaton. Narrado em primeira pessoa o enredo conta a história de Rahotep, um integrante incomum da medjay que faz uso de técnicas de investigação bem anormais para o contexto do Egito Antigo e que por conta disso é acionado pelo faraó Akhenaton para resolver um mistério: o desaparecimento da rainha Nefertiti.

Sabendo qual a sua missão e que tem um tempo curto para resolver tal enigma— e que se falhar não somente ele, mas a sua família sofrerá uma terrível punição — Rahotep se aprofunda cada vez mais na vida da realeza, suas crenças, hipocrisias e mundo de aparências. E paralelamente passa a conhecer mais sobre a personalidade da rainha sumida e sua importância para a manutenção do equilíbrio político no reino.

— Esta cidade, este mundo novo esplêndido e iluminado, este futuro glorioso. Tudo parece glorioso, mas está construído sobre areia. Todos estão determinados ou são forçados a acreditar nisso para torná-la possível. Mas sem ela, sem Nefertiti, não é possível acreditar nisso. Não é verdadeiro. Não vai funcionar. Vai desmoronar.

— ‘Nefertiti: O Livro dos Mortos’, Nick Drake, página 85.

O mistério do sumiço de Nefertiti faz Rahetep enfrentar vários perigos mortais e sofrer experiências incomuns. A partir do momento em que ele entrevista os indivíduos que fizeram parte do convívio dela muitos tornam-se suspeitos em potencial e a cada página parecem ter algo a esconder ou a proteger, mesmo que sejam somente interesses pessoais.

Nick Drake. Foto: Divulgação.

Nascido em Londres em 1961, Drake além de escritor de mistérios é poeta e dramaturgo. Estudou na Universidade de Cambridge e trabalhou em vários projetos envolvendo outros artistas e cientistas. Seu primeiro livro envolvendo o Egito Antigo, Nefertiti: Book of the dead, foi publicado pela primeira vez em 2006. Nesta época ele foi indicado para o prêmio Crime Writers’ Association Best Historical Crime Novel (Melhor Romance Histórico Policial da Associação de Escritores Policiais) e atualmente está sendo adaptado para a TV por Patrick Harbinson, produtor de Lei e Ordem: Unidade de Vítimas Especiais, Homeland, 24 Horas, dentre outros.

O universo criado por Drake nos apresenta um Egito Antigo quase convincente e factual. O que está explicito é que ele realmente se dedicou a estudar variados aspectos essenciais das sociedades egípcias do faraônico, mas incluindo muitos pontos da nossa e várias licenças poéticas, como vocês poderão conferir mais a diante. Ele conseguiu trabalhar com esse conhecimento e recriar um egípcio do faraônico sem parecer artificial; Nós estamos o tempo todo com o Rahotep, estamos em sua cabeça e conferindo suas anotações, ou seja, nós estamos na antiguidade egípcia.

Confira a resenha em vídeo deste livro no canal do Arqueologia Egípcia no Youtube; muitas das pontuações que não estão aqui estão presentes no vídeo, então assista-o para ter uma abordagem mais completa.

O que chama a atenção na obra é que Drake não cria um Egito Antigo místico, bucólico e saudosista a exemplo de muitas criações que trazem o tema, onde os leitores são apresentados a um personagem principal prefeito e belo, extremamente inteligente ou com outras qualidades superiores quanto. Aqui o escritor apresenta um Egito mais próximo da realidade, partindo do ponto de vista de alguém da população comum que precisa por comida na mesa, educar seus filhos e tem seus próprios pensamentos sombrios e pouco belo do mundo. Rahotep tem uma inteligência única, contudo, é vulnerável, tem suas dúvidas existenciais, mas, não busca por respostas na religião.

E foi aí que fiz a coisa mais difícil da minha vida. Vestindo minha melhor roupa de linho e com minhas autorizações na pasta, fiz uma breve libação para o deus da casa. Orei com sinceridade incomum (pois ele sabe que não acredito nele), por sua proteção e pela proteção de minha família.

— ‘Nefertiti: O Livro dos Mortos’, Nick Drake, página 17.

E como cenário para o desenvolvimento da trama temos o afamado Período Amarniano apresentado aqui como caótico, à beira de um colapso, onde há a escassez de alimentos e o faraó não está em bons termos com os sacerdotes de Tebas. É fato que o faraó Akhenaton se desvinculou do culto a Amon para se dedicar ao deus primordial Aton. Contudo, o caos social pelo qual o Egito passou naquela época está mais próximo de uma propaganda política negativa posterior. Não que a população não tenha sofrido em vários momentos, mas, ao que parece não foi tão diferente do que no reinado do seu pai, Amenhotep III.

Para aqueles que leram o livro, mas não conhece a história egípcia ou a conhece de forma artificial é preciso realizar uma apresentação geral do que ocorreu na época em que o faraó Akhenaton viveu: Como já citado, o deus Aton era uma divindade primordial, sendo um dos aspectos do deus Rá. Recebeu pouca atenção dos faraós, em especial durante o Novo Império, quando o patrono da cidade de Tebas, Amon, tornou-se o deus principal se tornou. Tebas, a princípio, era uma cidade pequena, mas que foi alçada a capital após a invasão dos hicsos e a reunificação do Egito por parte dos seus príncipes devotos a Amon. Como consequência, templos a este deus foram erguidos e o seu clero enriquecendo.

Akhenaton. Foto: Rena Effendi.

Décadas mais tarde, com a chegada do reinado do faraó Amenhotep III os sacerdotes de Amon já eram extremamente poderosos e o rei percebeu que algo necessitava ser feito. Assim, começou a dar espaço para outras divindades, entre elas Aton. Porém, foi com o reinado do seu filho que as coisas se tornaram mais radicais: Nascido Amenhotep IV, Akhenaton construiu um pequeno templo a Aton dentro do templo de Amon em Luxor e posteriormente transfere a capital para a recém-criada cidade de Aketaton. Lá muda o seu nome e passa a cultuar somente Aton.

Inaugurada no Ano 6 (e não no Ano 12, como afirmado no livro), Aketaton é uma das primeiras cidades planejadas da antiguidade. Foi nela onde três das seis filhas do rei com Nefertiti nasceram (as outras três foram em Tebas) e onde Akhenaton faleceu após 17 anos de reinado.

— Conheça mais sobre este Casal Real: Nefertiti e Akhenaton: o casal egípcio impossível de ser ignorado

Nos seus sítios arqueológicos foram encontrados vários registros da família real executando tarefas religiosas ou em simples momentos de deleite. Na maioria destas obras tanto Akhenaton — assim como a sua esposa e suas filhas — foi representado com feições excêntricas (crânios alongados, braços longos, coxas bem roliças e seios proeminentes). Estas características artísticas levantaram alguns debates sobre a possibilidade de que a família possuísse alguma deformidade, mas com o avanço dos estudos da Arqueologia Egípcia a maior probabilidade na atualidade é que essas representações sejam um discurso político onde o rei queria se representar especial, diferente da população comum.

Nefertiti, Akhenaton e uma de suas filhas prestando homenagens a Aton. Foto: Wikimedia Commons.

Retornando a obra, além de Akhenaton e Nefertiti os leitores são apresentados a outros personagens históricos reais tais como Mahu (chefe de polícia), Meryra (Sumo sacerdote de Aton), Horemheb (general), Ay (Sacerdote Pai Divino, Escriba Real, Intendente dos Cavalos e mais outros títulos honoríficos), Tiye (Rainha Mãe), Kiya (esposa secundária de Akhenaton), as filhas de Nefertiti, Tutmosis (escultor) e Nakht[1]. Porém, todas as situações em que eles estão envolvidos e suas personalidades são totalmente fictícias, não tomem como realidade histórica. São acontecimentos criados pelo autor unicamente para a sua trama.

E falando em criação para a trama, abaixo elenquei alguns pontos que são puros equívocos do Drake:

 

Os equívocos:

Vários dos objetos apresentados na obra não existiam no Egito Antigo, entre eles os livros, pipas, cabides, guarda-roupas, chafarizes, chaves e trancas. Outros erros é dar certas utilizações para determinados objetos que não condizia com a realidade, como, por exemplo, os papiros. Na trama eles são utilizados como folhas de diários e para os desenhos das crianças. Mas, na realidade eles eram utilizados para registros mais específicos tais como julgamentos, testamentos, formulas religiosas ou contos. Para anotações do dia a dia o que eram utilizados eram os ostracos.

E em dado momento é citada uma certa sociedade secreta chamada “Sociedade das Cinzas”. Isso também é fruto da imaginação de Drake para atender a sua trama.

 

Os acertos:

Logo nas primeiras páginas o Rahotep fala sobre a neve “no Norte”. Ele não fala exatamente o lugar, mas no Egito já teve ocorrência de neve, a exemplo da virada de 2014 para 2015, quando nevou justamente no Norte do país. Foi uma ocorrência incomum cujo precedente advindo da Antiguidade egípcia é desconhecido, mas nunca se sabe… E em outra das reflexões do personagem ele nos conta de algo que se comentava em sua juventude, de que há muitos anos o Egito era mais verde. Não sei se é plausível a memória oral viver tanto, mas muitos milênios antes do Egito ser unificado o território era muito mais arborizado, com grandes lagos e animais que no faraônico só podiam ser encontrados na África central. Para quem tem curiosidade em saber mais pesquise sobre a “caverna dos nadadores”, uma caverna localizada em Gilf Kebir que possui registros rupestres com cerca de 10 000 anos onde são retratadas pessoas nadando.

Agora, entrando no âmbito de profissões, o nosso investigador Rahotep é um medjay. Eles não só existiram como era um corpo militar responsável pela segurança e a ordem no Egito. Já a profissão de detetive em si não existia, entretanto, as investigações eram geridas pelos próprios medjays. Porém, como não existia ainda os Direitos Humanos as inquirições dos casos mais graves usualmente eram feitas com depoimentos dados após seções de tortura. Não existiam protocolos e no ato do julgamento somente uma pessoa dava o veredito. Alguns casos poderiam chegar até o faraó, entretanto, isso não garantia uma resolução justa.

E algumas vezes é citada a hereditariedade do cargo de sacerdote: Naquela época o mais comum era os filhos assumirem os cargos de seus pais, isso em todos os aspectos da sociedade.

O escultor Tutmosis (Tutmés), já citado rapidamente aqui, faz um passeio com o protagonista por seu ateliê. Lá mostra algumas cabeças de gesso com faces realistas. Elas também existiram e, por acaso, foi ele quem esculpiu o famoso busto da rainha Nefertiti.

Imagem de Nefertiti escupida por Tutmosis (Tutmés). Foto: Nile Magazine.

Rahotep fala de uma mulher nua em um momento de lazer em uma piscina. A nudez não era repreendida, não era um tabu. Este tipo de cena muito provavelmente era mais comum do que nós imaginamos. Ele também comenta sobre a cerveja e o vinho; sobre este último salienta que em seu jarro está gravado o ano de sua confecção e procedência. Isso também poderia ocorrer.

— Saiba mais: A cerveja no Egito Antigo: desde a intoxicação ao seu uso religioso

E uma informação que pode parecer incomum para alguns é o deposito de olhos de vidro em corpos de múmias. E sim, a bibliografia confirma a existência deste ato. Outros costumes e artefatos citados no livro realmente existiram tais como:

☥ O manto de leopardo: usualmente vestido por altos-sacerdotes;

☥ Muletas: utilizadas por vezes como uma representação de poder entre líderes militares;

☥ A existência de Cinco Nomes para o faraó;

☥ A rainha dar de amamentar: era incomum (este era o papel das amas-de-leite), mas é possível que Nefertiti tenha amamentado suas filhas;

☥ Lápis de mesdemet: lembra os nossos atuais lápis de olho. Já falei sobre eles aqui no AE (clique aqui para ler);

☥ Mutilação do rosto para tornar a pessoa irreconhecível no além: isso era feito principalmente com as estátuas e desenhos parietais;

☥ Luvas: inclusive as cito no vídeo “Curiosidade: 7 coisas que existia no Egito Antigo e que também usamos”;

☥ Barcos de junco: que por acaso era o meio de transporte mais comum;

☥ Os arqueiros núbios para a segurança do faraó: inclusive o faraó Tutankhamon, que reinará anos após a morte de Akhenaton, terá um grupo de elite trabalhando para ele;

☥ Meninas como noivas e meninos como reféns: era uma tradição comum no Egito as princesas de países dominados casarem com o faraó e os príncipes serem criados com a alta realeza egípcia dando uma falsa ideia de “irmandade”.

☥ Sacrifício do boi com chifres enfeitados: Este animal enfeitado poderia ser oferecido em sacrifício aos faraós.

☥ Cuxe (Kushe) como sendo a “mina de ouro” do Egito: o ouro que abasteceu o Egito era retirado, principalmente, do atual Sudão, onde antigamente estava localizado o reino de Kushe;

☥ Tempestade de areia: eram, e ainda são, bastante comuns no Egito. A mais perigosa é chamada de khamsin.

 

Ankhkheperura é citada no livro?

Este é um pequeno spoiler. Recomendo que você prossiga somente se já leu todo o livro:

Clique aqui para ler o spoiler

Em um determinado momento Rahotep lê um texto que termina com a seguinte frase: “Quando alcançares o que procuras, verás que é uma mulher. Seu símbolo é a vida.” (página 184). Não sei se foi proposital por parte do Drake, mas existiu entre os reinados de Akhenaton e Tutankhamon o reinado de uma pessoa chamada Ankhkheperura Neferneferuaton. Por muito se achou que ela seria o rei Ankhkheperura Smenkhara. Entretanto, alguns egiptólogos acreditam que Ankhkheperura seria, em verdade, uma mulher e que esta poderia ter sido Nefertiti. O “ankh” (Ankhkheperura) significa “vida”.

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Considerações finais:

“Nefertiti: O Livro dos Mortos” é um livro pouco usual no sentido de que não se apega a um Egito místico, tão comum em obras orientalistas. E apesar de não ter despertado muito o interesse dos booktubers (não encontrei nenhuma resenha) é uma obra que aconselho, em especial para quem gosta de enredos que envolvam mistérios e romances policiais. Embora eu particularmente não tenha achado os acontecimentos finais tão interessantes estou muito empolgada para começar a ler a sua continuação, o “Tutancâmon”.

A Editora Record ainda não demonstrou (ao menos não publicamente) interesse em trazer o volume final, Egypt: The Book of Chaos.

Dados do livro:

Título: Nefertiti: O Livro dos Mortos

Título Original: Nefertiti: The book of dead

Autor: Nick Drake (http://www.nickfdrake.com/)

Tradutor: Ricardo Silveira

EAN: 9788501090430

Gênero: Policial

Coleção: Rai Rahotep

Páginas: 350

Editora: Record

Link no Skoob: https://www.skoob.com.br/nefertiti-o-livro-dos-mortos-235609ed263373.html


[1] Por conta da grafia do nome fiquei com dúvida, mas acredito que ele seja o Nakhtmin.

Briga feia entre vizinhos: um “Casos de Família” do Egito Antigo

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Uma das coisas mais interessantes de se estudar a antiguidade egípcia é conhecer um pouco mais sobre as pessoas que caminharam nas terras do Nilo. As histórias de alguns, infelizmente, se perderam nas areias do tempo, mas outras conseguiram chegar até nós graças aos indícios arqueológicos, como é o caso da vida de Paneb, morador da aldeia de Deir el-Medina conhecido por ter sido muito briguento e altamente perigoso em algumas situações.

Deir el Medina

Restos de residências da aldeia de Deir el-Medina

Como o registro envolvendo violência entre vizinhos no Egito Antigo é de certa forma incomum comentei em tom de brincadeira sobre o assunto no meu Twitter há um tempo:

Então, o leitor Cadu Nogueira ficou curioso e pediu para que eu escrevesse acerca aqui no A.E.:

Pode deixar Cadu, este texto aqui é para você!

O violento Paneb e o seu pai adotivo:

A citada história foi registrada no atualmente chamado de Papiro Salt 124 (Brit. Mus. 10055), datado do início da 20ª Dinastia. Nele conhecemos um pouco sobre a trajetória de vida do encrenqueiro Paneb, um jovem humilde de Deir el-Medina que, a exemplo de muitos dos seus vizinhos com a sua posição social, foi um artesão. Os trabalhadores de Deir el-Medina eram divididos em dois grupos, cada um comandado por um escriba e um capataz. O capataz de um dos grupos chamava-se Ha, o outro Neferhotep — o segundo personagem importante desta nossa história — que gerenciava justamente o grupo de Paneb.

Neferhotep era um homem de meia idade que embora casado com uma mulher chamada Wabjet não possuía filhos. Desta forma, não tinha um herdeiro para ensinar o seu ofício e deixar como herança a sua posição [1]. Ele resolveu então adotar e escolheu justamente o Paneb, embora o rapaz ainda possuísse pais vivos e que cuidavam dele. Não se sabe muitos dos detalhes, mas é fato que Paneb foi entregue para o capataz, que imediatamente o levou para viver em sua casa, com a sua nova família composta pelos irmãos e sobrinhos do Neferhotep.

Deir el MedinaRuínas de Deir el-Medina vistas de longe.

Paneb teve uma mudança radical em sua vida para melhor já que um capataz exercia um papel muito importante em Deir el-medina, podendo usufruir das melhores acomodações, roupas e alimentos. Porém, em vez de se sentir agradecido o garoto tornou-se arrogante e intratável, sendo extremamente agressivo com várias pessoas que faziam parte do seu convívio, além de exagerar no consumo de bebidas alcoólicas. Apesar disso, Neferhotep não o baniu da família.

A segunda sorte de Paneb foi ao casar-se com a filha de Ha, Uabet, o que certamente melhorou muito mais a renda familiar.

— Veja também: Trabalho no Egito antigo: greves, maus-tratos e direitos

Passaram-se cerca de doze anos após o casamento, mas um perigoso incidente abalou os moradores de Deir el-Medina. Não conhecemos os motivos, mas em um ataque de fúria Paneb perseguiu o Neferhotep pelas ruas da aldeia. O idoso conseguiu se afugentar em sua residência, mas teve que escutar gritos de ameaças de morte proferidos por seu filho, que tentava derrubar a porta enquanto alguns aldeões se esforçavam para acalmá-lo. De acordo com o testemunho posterior de um dos irmãos de Neferhotep, o Paneb “Pegou uma pedra e arrebentou a porta” e sem conseguir alcançar o pai voltou-se contra os vizinhos e “bateu em nove homens naquela noite” (DERSIN, 2007; 37). Nada pior ocorreu porque uma vigília foi montada em frente à casa do capataz.

Deir el-MedinaEm algum lugar por aqui Paneb assustou seus vizinhos e parentes.

Neferhotep decidiu denunciar o filho não a um juiz local, mas ao próprio vizir do faraó. Porém, Paneb contra-atacou de maneira ousada, denunciando o próprio vizir a um alto-funcionário. Não se sabe o teor da denúncia, mas o cenário político do Egito na época estava recheado de intrigas palacianas, o que deu a chance dos detratores do vizir de depô-lo do seu cargo antes mesmo que a análise do caso do Paneb chegasse a uma conclusão.

O que se seguiu foi outro momento inesperado: Neferhotep perdoou o filho e não o baniu como seu herdeiro, apesar dos pedidos de seus parentes que o fizesse.

Por fim, o idoso faleceu e Paneb assumiu o seu cargo como capataz. Mas ele não parou de aprontar e mais uma vez arrumou confusão na vizinhança, deitando-se com algumas mulheres casadas. Porém, agora quem o denunciou foi o seu próprio primogênito, Aapethy, que disponibilizou, inclusive, uma lista com os nomes destas mulheres [2]. Entretanto, aparentemente nada ocorreu.

Uma das suas notáveis amantes foi uma moça chamada Hunro, que era casada com um pintor, do qual se divorciou posteriormente e casou-se com outro filho adotivo de Neferhotep, adotado anos depois de Paneb. O casamento não vingou — em parte porque Hunro e Paneb permaneceram como amantes — e três anos depois veio mais um divórcio.

Reconstituição feita por Golvin. Link: http://jeanclaudegolvin.com/deir-el-medineh-2/

Entra então em cena um dos irmãos do falecido Neferhotep, Amennakht, que dedicou anos a coletar evidências dos crimes de Paneb e com tudo completo entregou os dados para as autoridades. Dentre as acusações estavam furtos, agressões, adultério, estupro e assassinato. Na de furto constava que ele tinha surrupiado um ganso de ouro de dentro da sepultura de uma das rainhas de Ramsés II. Nas palavras do tio “Jurou pelo senhor pertinente, dizendo ‘Não está comigo’. Mas foi encontrado em sua casa” (DERSIN, 2007; 43). Desta vez a justiça foi feita e ele foi demitido do cargo de capataz. Não se sabe o seu derradeiro fim, mas uma inscrição do período encontrada em um óstraco [2] pode estar nos dando a dica: “execução do chefe” (DERSIN, 2007; 44).

 

Fonte integral deste post:

DERSIN, Denise. A história cotidiana às margens do Nilo (Tradução de Francisco Manhães, Marcelo Neves, Carlos Nougué, Michael Teixeira).  1ª Edição. Barcelona: Folio, 2007.


[1] Os trabalhos no Egito eram passados de forma hereditária.

[2] Apesar da denúncia o próprio Aapethy, igualmente ao seu pai, tinha sido acusado de estupro de uma mulher da aldeia.

[3] Pedaço de pedra ou cerâmica quebrada onde eram escritas pequenas mensagens, informações breves ou rabiscos. O papiro era muito caro, então os óstracos era uma opção barata.

 

A Múmia (2017): poder antigo e a sexualização de um monstro (Comentários com SPOILER)

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Este é o primeiro filme da Dark Universe, da Universal Studios, que nada mais é que uma franquia de filmes inspirados nos Monstros Clássicos da própria Universal e que incluem “A Múmia”, Drácula, Lobisomem e etc. “A Múmia”, por exemplo, teve o seu primeiro filme em 1932, e que foi a base para os demais onde estão inclusos os grandes sucessos “A Múmia” (1999) e “O Retorno da Múmia” (2001). Ambos estrelando Brendan Fraser.

Todos os “A Múmia” se aproveitaram da ideia de um arqueólogo ou egiptólogo que em busca de conhecimentos acaba despertando um mal antigo. Porém, aqui não existe tempo para acadêmicos: a nossa nova múmia não é desperta por meio de encantamentos lidos por um profissional, mas por um soldado, o Nick Morton (Tom Cruise), que faz bico como contrabandista e que de modo pouco sutil retira o ataúde — ou melhor: a prisão — de uma princesa egípcia maligna, a Ahmanet (Sofia Boutella), de um poço de mercúrio.

A história do nosso novo monstro é simples: Ahmanet era a herdeira do trono do Egito, mas com o nascimento de um menino vê seu futuro como faraó arruinado. Então, ela toma como única solução fazer um pacto com o deus Set (Seth) pedindo por poder e assassina a sua própria família, inclusive o recém-nascido. No entanto, para que o pacto seja válido, ela ainda precisa entregar um homem em sacrifício, que deve ser morto com a Adaga de Set[1], para que ele receba o poder do deus. É aí que tudo dá errado: Na fase final do ritual a princesa é impedida por guardas, o rapaz escolhido para o sacrifício executado e ela sepultada viva.

Ahmanet. Foto: Divulgação.

Foto: Divulgação.

A personagem da Ahmanet despertou a curiosidade de uma parcela do público, que ficou ansiosa em saber se ela de fato existiu. A resposta é curta e simples: não. Entretanto, o seu nome parece ser inspirado no da deusa Amonet, a contraparte feminina do deus Amon.

 

Os equívocos:

E como era de se esperar, uma série de equívocos foram realizados, como a afirmação de que o mercúrio era utilizado pelos antigos egípcios para afastar os “maus espíritos” — isso é irreal [2]— ou que o deus Set é a divindade da morte; em verdade era do caos e do deserto. E ao contrário dos demais filmes que fizeram algum esforço para se inspirar em artefatos egípcios, aqui inspiração é a mínima possível. A Egiptomania ganha destaque e a Egiptologia é pouco levada a sério.

A Arqueologia também não tem muito espaço: o filme é aberto com uma imagem que está cada vez mais comum, que é a de radicais destruindo artefatos arqueológicos. Neste sentido a arqueóloga Jenny Halsey (Annabelle Wallace) era quem supostamente deveria catalogar estes objetos e salvar o que pudesse para manter ao menos algum registro histórico. Contudo, ela só tem olhos para o sarcófago de Ahmanet — o que perpetua a ideia de que o profissional arqueólogo está sempre em busca de coisas particulares que são, em poucas palavras, “a pesquisa da sua vida” — e ainda o transporta da forma mais questionável possível, com o uso de cabos e um helicóptero.

As roupas, penteados e maquiagem têm um apelo estético levemente voltado para a antiguidade egípcia. Nós entendemos que o Egito Antigo está ali, mas ele foi modificado para hora parecer visualmente mais agradável ao espectador (como é o caso da maquiagem da princesa que apesar de linda seu design só tenta se associar a antiguidade egípcia), hora para parecer grotesco (como as cabeças com um toucado nemes[3] que estão no topo da prisão de Ahmanet).

Foto: Divulgação.

Foto: Divulgação.

Foto de bastidor: Divulgação.

Os acertos:

Apesar de terem errado ao classificar Set como deus da morte, acertaram ao associar o poder de Ahmanet com pragas, a exemplo do bando de aves que atacam o avião ou os ratos em Londres da alucinação do Nick.

Personagens Jenny e Nick. Foto: Divulgação.

Figura feminina egípcia com marcas que provavelmente são tatuagens. Museu do Louvre.

Já quando Ahmanet recebe o poder de Set tatuagens passam a cobrir o seu corpo. Em entrevista um dos membros da equipe de gravação afirmou que isso era para dar um ar mais bizarro para a personagem, mas, tatuagens muito parecidas eram utilizadas por mulheres na antiguidade egípcia. Existem registros arqueológicos que retratam corpos femininos com pontinhos espalhados pelo corpo, figuras geométricas, imagens de deuses ou formas amuléticas. Tatuagens no Egito Antigo é um tema um pouco nebuloso, mas, caso queira saber mais sobre este assunto assista ao vídeo “Tatuagens no Egito Antigo” clicando aqui.

Outro ponto são os cruzados possuírem um artefato egípcio. O Egito era um ponto estratégico para o domínio do Levante, então é plausível que esses soldados carregassem consigo algo do país.

E por fim existem casos de mulheres ter o poder supremo do Egito, no vídeo Mulheres Faraós comento brevemente sobre elas. Se a personagem Ahmanet não fosse inclinada para o mal ela provavelmente teria tornando-se regente do irmão e se tivesse uma boa rede política assumiria como faraó tendo o seu irmão como herdeiro. Foi esse o caso da Hatshepsut, a diferença é que o seu herdeiro foi o seu enteado, Tutmés III.

 

Referências aos demais filmes:

A Múmia é uma franquia com quase 100 anos com um filme inspirando ou alimentando os outros. Neste de 2017 as maiores inspirações vieram dos de 1999 e 2001. Desta forma, fiquem de olho nas cenas de luta, porque ao menos duas delas foram inspiradas nas desses dois títulos. Prestem também atenção no som emitido pelas múmias, são os mesmos das que aparecem nesses dois filmes. O rosto do monstro na tempestade de areia foi novamente utilizado e os famosos escaravelhos carnívoros foram substituídos por aranhas-camelos venenosas. Mas, a melhor referência, sem dúvida, foi o aparecimento do Livro de Ouro de Amon-rá.

O Livro de Ouro de Amon-Rá no filme de 1999. Captura.

Ser sepultada viva é um ingrediente presente em todos os outros filmes. A única diferença, como já foi citado, foi ela não ser despertada por meio de encantamentos.

Ser sepultado vivo faz parte de todas as tramas do monstro “A Múmia” da Universal.

A tempestade de areia: uma das referências a outros dois títulos da franquia.

Um monstro mulher foi o grande trunfo, mas sua sexualização o desvinculou do restante da franquia. Enquanto tínhamos um Imhotep ou um Kheris com o objetivo de despertar a amada, Ahmanet vê em seu “escolhido” a chave para o poder com um discurso sexual nas entrelinhas. Mas, isso não para aí: enquanto que o Imhotep de 1999 e 2001 suga a vida das suas vítimas pelo ar a Ahmanet se utiliza do beijo. Isso nos remonta ao texto de Craig Barker, Friday essay: desecration and romanticisation – the real curse of mummies — que foi traduzido aqui no A.E. — onde ele faz a seguinte pontuação:

Um número de estudiosos, especialmente Jasmine Day, têm investigado o papel das múmias na ficção do século XIX e um aspecto interessante é o número de escritoras femininas desses contos.

Uma das, se não a mais antiga, história de múmia é The Mummy!: Or a Tale of the Twenty Second Century (1827) de Jane Webb (Loudon), que mostra o avivamento de Quéops no ano 2126. Outras escritoras apresentaram um interessante subtexto e perspectiva.

Os túmulos de múmias egípcias da realeza haviam sido violados e explorados por saqueadores, e uma analogia com o estupro é clara dentre as antigas ficções de maldição de múmias escritas por mulheres. Em contraste, escritores masculinos, como o Gautier, apresentavam muitas visões mais romantizadas ou eróticas dos mortos.

E de fato. “A Múmia” passou pelas mãos de quatro roteiristas, todos homens: Jon Spaihts, Christopher McQuarrie, David Koepp e Dylan Kussman.

Ahmanet e o seu “escolhido”.

O futuro da Dark Universe e de “A Múmia”:

O futuro para a franquia parece incerto, ao menos para alguns veículos de imprensa que apontam o “fracasso” e o prejuízo financeiro gerado pela bilheteria baixa. O objetivo do A.E. é falar principalmente da Arqueologia, Egiptologia e o uso do Egito Antigo em obras de ficção e não de questões que envolvam roteiro, efeitos especiais, etc. Entretanto, observando com um olhar mais crítico, não é difícil notar as grandes falhas de “A Múmia” em parte do seu roteiro e construção de alguns dos seus personagens. Especialmente como fã da franquia este é um filme divertido, mas com problemas que podem comprometer suas futuras continuações… Se existirem.

Tenha em casa: A Edições Del Prado, uma editora especializada em vendas de fascículos com imagens colecionáveis, possui uma coleção intitulada “Cenas do Egito Antigo”. Uma delas recria um momento durante a mumificação.

Clique aqui para conferir a peça ou aqui para ver as demais cenas.

 


Notas:

[1] A Adaga de Set é um artefato plenamente fictício inventado unicamente para o enredo do filme.

[2] Para quem tem curiosidade: existe um pequeno verbete sobre o raro uso de mercúrio no Egito no livro “Ancient Egyptian Materials and Technology” editado por Paul T. Nicholson e Ian Shaw (Cambridge University Press).

[3] Nemes: toucado listrado representado na cabeça de faraós.

Amuletos egípcios: significados dos símbolos e os seus usos

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Quando pensamos em antiguidade egípcia de forma geral a palavra-chave principal é religião. De fato, os indivíduos que viveram sob a autoridade do rio Nilo — e os oásis mais próximos — eram extremamente religiosos e vinculavam parte do seu sucesso, mesmo que dependessem de muita força humana, a divindades, a forças sobrenaturais.

Contudo, pode-se dizer que existe um grande paralelo na religião egípcia onde por um lado ela era exercida pelo faraó e os sacerdotes, cercada pelo mistério e as relações de poder. Do outro, temos a população comum, impedida de adentrar na maioria dos espaços mais sagrados, tendo como alternativa realizar pequenos rituais ou se utilizar de amuletos para alcançar algum objetivo (ANDREWS, 1994).

Variedades de amuletos do Ashmolean Museum. ISBN 84-7838-737-4

Egyptian Amulets

Variedades de amuletos.

O amuleto, ou talismã, é um ornamento pessoal que graças ao seu formato, matéria-prima ou cor poderia dotar o seu portador de capacidades mágicas ou conceder proteção. Na antiguidade egípcia eles faziam parte do cotidiano tanto das pessoas comuns, como da nobreza e da realeza. Na tumba do faraó Tutankhamon, por exemplo, foram encontrados dezenas deles (TIRADRITTI, 1998; JAMES, 2005). A importância dada a estes objetos era tamanha que eles poderiam ser utilizados tanto em vida como no pós-morte. Ainda tinham aqueles que possuíam um uso unicamente funerário, como era o caso do Livro dos Mortos, que eram confeccionados unicamente para ser postos dentro da sepultura (ANDREWS, 1994).

Os amuletos egípcios foram o tema do vídeo especial do Arqueologia Egípcia em comemoração dos mais de 3.000 inscritos no canal. Assista para conhecer mais sobre o universo da religião egípcia.

Alguns tipos de amuletos

Vários foram os tipos de amuletos que prometiam algum tipo de proteção. Um exemplo é o já citado Livro dos Mortos, uma coletânea de fórmulas mágicas destinadas a proteção do falecido. Existiam também os decretos oraculares, que a partir do Terceiro Período Intermediário passaram a ser registrados em cilindros que eram utilizados ao redor do pescoço do interessado. Imagens de antepassados também poderiam assumir funções amuléticas. Gestantes e recém-nascidos tinham algumas opções de proteção devido ao grau de risco que sofriam: Um amuleto com a imagem da deusa Tauret poderia resguardar a grávida e determinadas vestimentas conferiam proteção na hora do parto. Imagens do deus Bés tinha como intenção guardar o recém-nascido e como proteção extra os pais tinham como opção amarrar um papiro com uma fórmula mágica prometendo a sobrevivência da criança ou adotar um vaso cerâmico para leite retratando a imagem de uma mulher amamentando (ANDREWS, 1994; TIRADRITTI, 1998; DAVID, 2011).

Vaso para leite. www.resignation.bg/gallery

Eye of Horus

Ancient Egyptian amulets

Porém, apesar de sabermos a utilidade de uma série destes objetos, a maioria possui o uso ainda desconhecido ou confuso. Imaginem que são dezenas de amuletos com variadas formas — algumas das quais faziam sentido somente para os antigos egípcios, a exemplo do nefer (veja quadro a seguir) —, com imagens de animais que representavam diferentes divindades e mesmo retratando sincretismos. Abaixo vocês poderão conferir uma simples variedade destes objetos e seus respectivos usos:

Imagem Nome/Forma/Divindade Significado
  Ankh Vida.
  Wedjat Proteção, um amuleto que conferia saúde.
  Djed Estabilidade, permanência.
  Tyet Também chamado de “nó de Ísis”, era colocado no pescoço do morto para a sua proteção.
  Nefer Não se sabe a sua serventia. Provavelmente tem algo a ver com beleza ou perfeição.
  Tauret Amuletos com a forma desta deusa tinham a intenção de proteger as gestantes e promover um bom parto.
  Bés Amuletos com a forma deste deus tinham como objetivo proteger as crianças e afastar os maus sonhos.
  Tartarugas Afastar o mal através da intimidação.
  Relacionados com a deusa Hequet, conferiam a fertilidade e renascimento.
  Ib O coração do falecido. Conferia eternidade.
  Kheper (escaravelho) Eternidade e renascimento.

Referências bibliográficas:

ANDREWS, Carol. Amulets of Ancient Egypt. Londres: British Museum Press, 1994.

BAINES, John; MALEK, Jaromir. Deuses, templos e faraós: Atlas cultural do Antigo Egito (Tradução de Francisco Manhães, Maria Julia Braga, Michael Teixeira, Carlos Nougué). Barcelona: Folio, 2008.

DAVID, Rosalie. Religião e Magia no Antigo Egito (Tradução de Angela Machado). Rio de Janeiro: Difel, 2011.

JAMES, Henry. Tutancâmon (Tradução de Francisco Manhães). Barcelona: Folio, 2005.

MULLER, Hans Wolfgang; THIEM, Esberhard. O ouro dos faraós (Tradução de Carlos Nougué, Francisco Manhães, Maria Julia Braga, Angela Zarate). Barcelona: Folio, 2006.

TIRADRITTI, Francesco. Tesouros do Egito do Museu do Cairo. São Paulo: Manole, 1998.

Profanação e romantismo: a verdadeira maldição das múmias

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Esta é a minha tradução integral do texto “Friday essay: desecration and romanticisation – the real curse of mummies” (Ensaio da sexta-feira: profanação e romantismo – a verdadeira maldição das múmias) de Craig Barker, que é gerente de educação dos museus da Universidade de Sidney. Achei interessante trazê-lo para vocês porque além de falar do uso da imagem de múmias egípcias no cinema e na literatura, faz uma reflexão sobre isso. Então, para os interessados em história do cinema, literatura e claro no Egito Antigo esse artigo será um grande bônus. Aproveito para lembra-los que já traduzi outro texto com um assunto levemente semelhante em “O Antigo Egito e os primórdios do cinema” e fiz minha própria contribuição sobre o tema em “Múmias, múmias e mais múmias no cinema”.

 

Ensaio da sexta-feira: profanação e romantismo – a verdadeira maldição das múmias

Craig Barker, Gerente de Educação, Sydney University Museums, University of Sydney.

Este mês de junho, o túmulo de antigas ideias de Hollywood vai abrir novamente e apresentar o conto de um antigo túmulo egípcio perturbado por um atrapalhado arqueólogo e/ou um herói de ação-aventura, que inadvertidamente e involuntariamente desencadeia uma maldição.

Esta maldição ressuscitará uma múmia buscando vingança ou uma amante perdida, causando estragos na sociedade contemporânea até que nosso herói possa detê-la. Este ano A Múmia, dirigida por Alex Kurtzman, verá os faraós de Hollywood Tom Cruise e Russell Crowe enfrentarem uma múmia feminina interpretada por Sofia Boutella.

Ouvi isso antes? O filme de Kurtzman é apenas o mais recente de uma linha surpreendente da mumiamania e egiptofilia antes da descoberta do túmulo de Tutankhamon em 1922. Enquanto a cultura popular se deleitava com múmias por mais de dois séculos, na mesma época, as antiguidades egípcias foram saqueadas, desejadas e depois profanadas. No século 19, era até moda sediar as festas para “desenrolar”, onde as múmias eram reveladas e dissecadas como um evento social dentro dos salões vitorianos.

Uma múmia é um cadáver de um humano ou animal cuja pele e órgãos foram preservados. Isso pode ser feito deliberadamente, através de processos de embalsamamento químico, ou acidentalmente, graças ao clima. Várias culturas antigas praticavam a mumificação deliberada, tal como o povo Chinchorro da América do Sul, e os mais famosos, os corpos dessecados do Antigo Egito, que foram meticulosamente preparados para a vida após a morte.

O estudo de múmias tornou-se uma disciplina acadêmica importante e mais continua a ser descoberto. No último mês, vimos a descoberta de 17 múmias em uma necrópole perto da cidade de Minya, no Vale do Nilo, e a descoberta da tumba de nobre do Novo Império em Luxor. Apesar desse nível de atenção acadêmica e meticulosa investigação arqueológica, infelizmente, saques e contrabando de antiguidades do Egito, incluindo múmias, continua hoje.

 

Tudo realmente velho é novo novamente

Com um orçamento anunciado em $125 milhões, filmado principalmente em Oxford e no Museu Britânico, A Múmia é um grande orçamento investido pela Universal Studios. A história sugere que esse filme será um grande sucesso.

Entretanto, a mãe de todos os filmes de múmia permanece sendo o filme original de 1932, A Múmia (The Mummy), estrelado por Boris Karloff; Ele define o modelo para os outros seguir. O sacerdote egípcio Imhotep, simpaticamente interpretado por Karloff, foi mumificado vivo por tentar reviver seu amor proibido, a princesa Ankh-es-en-amon. Descoberto pelos arqueólogos que o ressuscitam lendo do Pergaminho de Thoth, Imhotep acredita que uma mulher moderna, Helen Grosvenor (interpretada por Zita Johann), é a reencarnação da princesa e a leva pela Londres moderna[1]. Não é só um monstro, como também um amante incompreendido.

Mais de uma dúzia de filmes se seguiram, a partir da década de 40 (The Mummy’s Tomb), os anos 50 (The Mummy), os anos 80 (The Awakening) e que culminaram com sucesso de bilheteria de 1999, A Múmia, que gerou duas sequencias e um spinoff de franquia prequel[2].

Cada um desses filmes tem fundamentalmente o mesmo enredo. Na versão de 2017, uma mulher é ressuscitada dos mortos em vez de um homem, mas mesmo isso não é novo. Blood From the Mummy’s Tomb (1971) de Hammer apresentou uma múmia feminina (Valerie Leon)[3], que é revivida e depois caminha por aí com poucas roupas para um inverno de Londres.

Valerie Leon em Blood From the Mummy’s Tomb (1971).

De maldições e reis

Por que a múmia é uma tropa popular no cinema de terror? A múmia, pode-se argumentar, simboliza alguns dos nossos medos mais básicos em torno da mortalidade. O apelo duradouro da múmia também pode ser rastreado para a escavação arqueológica que todo mundo no planeta já ouviu falar: o túmulo de Tutankhamon. A descoberta desta tumba por Howard Carter no Vale dos Reis em 1922 fez manchetes internacionais. A tutmania resultante influenciou todo o tipo de cultura popular, desde o design e moda Art Deco, até canções pop e publicidade.

Arquivos da filmagem das escavações de Carter no túmulo de Tutankhamon em 1922.

Uma exposição recente no Museu Ashmolean de Oxford explorou o quão famoso Tutankhamon foi durante esse período-chave da mumiamania. A cobertura de mídia das escavações foi insaciável. Carter teve um acordo exclusivo com o jornal Daily Express[4], que levou outros repórteres a enfeitar suas histórias. Isso levou a relatos de uma suposta (mas inexistente) maldição no túmulo: “A morte vem em asas rápidas para aquele que perturba a paz do rei”. Foi um absurdo, é claro, mas uma vez que o financiador do projeto arqueológico, Lord Carnarvon, morreu no Cairo graças a uma picada de mosquito infectado, a história da maldição decolou mais rápido do que qualquer notícia real. Na cultura popular, múmias e maldições se tornaram irremediavelmente ligadas.

A descoberta de Tutankhamon pelo time de Carter inspirou uma série de relatos ficcionais, de graus variados de fidelidade à história, incluindo o filme The Curse of King Tut’s Tomb (1980), um remake de filme de TV com o mesmo nome em 2006 e a série britânica de televisão Tutankhamun de 2016.

Enquanto Tut perpetuou a loucura de Hollywood por múmias, o fascínio público por maldições antecede a morte infeliz de Carnarvon. Uma série de filmes mudos com temas de múmias foram feitos nos primeiros anos de cinema, incluindo o Cleopatra’s Tomb (1899) pelo cineasta pioneiro George Melies e The Mummy, de 1911. Infelizmente, a maioria destes não sobreviveu.

Havia também uma rica tradição do século XIX de múmias na literatura. As múmias apareceram em tudo, desde trabalhos sérios até penny dreadfuls. Um número de escritores famosos contou histórias que cimentaram a história da maldição, incluindo Lost in a Pyramid: or th Mummy’s Curse (1869) de Louisa May Alcott; Jewel of Seven Stars (1903) de Bram Stoker e Lot No. 249 (1892) de Arthur Conan Doyle.

‘Modern Antiques’ foi uma caricatura de 1806 de Thomas Rowlandson, que satiriza o entusiasmo britânico pelo antigo Egito. Wikipedia.

Outras obras foram além das maldições. Some Words With a Mummy (1845) de Edgar Allan Poe foram um comentário satírico sobre Egiptomania. Havia também romances, talvez melhor tipificados por The Mummy’s Foot, história de 1840 de Théophile Gautier, em que um jovem compra um pé mumificado de uma loja de antiguidades parisiense para usar como papelão. Naquela noite, ele sonha com a bela princesa a quem o pé também pertencia, e os dois se apaixonam, apenas para serem separados pelo tempo.

Um número de estudiosos, especialmente Jasmine Day, têm investigado o papel das múmias na ficção do século XIX e um aspecto interessante é o número de escritoras femininas desses contos.

Uma das, se não a mais antiga, história de múmia é The Mummy!: Or a Tale of the Twenty Second Century (1827) de Jane Webb (Loudon), que mostra o avivamento de Quéops no ano 2126. Outras escritoras apresentaram um interessante subtexto e perspectiva.

Os túmulos de múmias egípcias da realeza haviam sido violados e explorados por saqueadores, e uma analogia com o estupro é clara dentre as antigas ficções de maldição de múmias escritas por mulheres. Em contraste, escritores masculinos, como o Gautier, apresentavam muitas visões mais romantizadas ou eróticas dos mortos.

 

A violação do Nilo

Pote de boticário do século XVIII com a inscrição MUMIA do Deutschen Apothekenmuseum Heidelberg, Alemanha. Wikipedia.

O fascínio europeu pelas múmias egípcias começou há séculos: o “pó de múmia” foi vendido em boticários para uma variedade de fins médicos e afrodisíacos (Shakespeare, a menção a múmias na cena do caldeirão das bruxas de Macbeth).

Enquanto isso, “múmia marrom”, um pigmento colorido feito parcialmente de múmias, era usado na arte europeia (foi particularmente favorecido pelos pré-rafaelitas).

Mas, a egiptomania realmente começou com seriedade no século XIX. Os relatos do explorador britânico de origem italiana, Giovanni Belzoni, de suas aventuras de 1815-8 no Egito tornaram-se lendários, assim como as múmias e outras antiguidades que ele trouxe para Londres.

Seus relatos falavam de entrar em túmulos e os sons cruéis feitos sob seus pés enquanto ele estava sob corpos mumificados.

Cientistas que acompanharam as campanhas egípcias de Napoleão descobriram a pedra de Rosetta, que mais tarde no Reino Unido levaria à decifração de hieróglifos. O turismo egípcio decolou em meados do século XIX. Tudo isso viu um interesse crescente no Egito. Múmias, ou pelo menos restos mumificados, tornaram-se itens valorizados em coleções de museus nacionais e gabinetes pessoais de curiosidades.

O desejo de possuir múmias e outros artefatos egípcios, juntamente com a expansão colonial europeia e o fascínio pelo orientalismo, impulsionaram um enorme mercado de restos humanos e outras antiguidades. Famosamente descrito como “o estrupo do Nilo”, este saque foi em uma escala monumental, literalmente no caso de obeliscos e esculturas gigantes. Egípcios empreendedores estabeleceram lojas de antiguidades para suprir o desejo insaciável de visitantes europeus de possuir o passado.

G.B. Belzoni forçando passagem na segunda pirâmide de Gizé, 1820, gravura à mão. UA1992.24. Coleção de Arte da Universidade de Sydney.

Muitas das múmias terminaram em museus destinados a estudos acadêmicos, mesmo aqui na Austrália. De museus universitários para coleções estaduais para instituições privadas, como MONA, um número surpreendentemente grande de múmias têm feito a este país.

Outros acabaram nas mãos de colecionadores europeus e americanos privados, onde as festas do “desenrolar” públicas e privadas tornaram-se populares. As festas do desenrolar do cirurgião Surgeon Thomas Pettigrew em um Teatro Piccadilly na década de 1820 foram as primeiras do que se tornou um evento popular no meio desse século.

Foi parcialmente por conta da escala dessa perda que levou o Egito a desenvolver uma das primeiras leis de antiguidades do mundo. Promulgada por um decreto de 1835, visava impedir a remoção não autorizada de antiguidades do país.

Múmia de um menino, início do século II dC, de Tebas, Egito. NMR26.1, Nicholson Museum, Universidade de Sydney. Sydney University Museus

Seguiu-se a criação do Conselho Supremo de Antiguidades em 1858 e a abertura do Museu do Cairo cinco anos depois. A inundação das antiguidades egípcias no exterior não parou, mas definitivamente desacelerou e combinada com a ascensão da disciplina acadêmica da arqueologia, viu uma mudança gradual na compreensão da importância do contexto para as antiguidades.

Paul Dominique Philippoteaux, Examen d’une momie – Une prêtresse d’Ammon, óleo sobre tela, Egito, c.1895 – 1910. Peter Nahum at the Leicester Galleries.

O subsequente aperto da legislação no Egito e em outros lugares, seguido da Convenção da UNESCO de 1970 sobre os Meios de Proibir e Prevenir a Importação, Exportação e Transferência de Propriedade Cultural, criou o ambiente moderno para a investigação ética e arqueológica e a exportação legal de antiguidades.

 

Sem fim para a egiptomania

No entanto, o saque ainda continua a ser um grande problema no Egito hoje, particularmente com o declínio do turismo e as dificuldades econômicas que vieram com a turbulência política após a Primavera Árabe de 2011. O número de antiguidades saqueadas e contrabandeadas do Egito continua a ser extraordinário. Cerca de $ 26 milhões em antiguidades saqueadas foram ilegalmente transportadas para os EUA a partir do Egito apenas nos primeiros cinco meses de 2016.

De acordo com o site Live Science, os guardas das antiguidades foram “abatidos” enquanto protegiam um túmulo antigo e “as múmias foram deixadas de fora no sol para apodrecer depois que seus túmulos foram roubados”.

Roubo e destruição de múmias no local de Abu Sir Al Malaq no Egito. HBO.

O problema está em andamento e varia de sindicatos internacionais de contrabando internacional até os locais tentando aumentar o dinheiro extra. As imagens de satélite demonstram grandes áreas que estão sendo saqueadas sistematicamente.

A escavação não supervisionada pode ser perigosa. Dois escavadores ilegais foram mortos este mês, quando sua casa entrou em colapso sobre seu túnel, o último de vários incidentes. É uma lembrança trágica de quão perto estamos do passado e como a atração das múmias é tão grande hoje quanto a Belzoni.

Enquanto comemos nossa pipoca e gostamos de assistir a batalha de Tom Cruise com os mortos reanimados, vale a pena lembrar que a verdadeira maldição das múmias não é o que elas podem nos fazer na ficção e no cinema, mas sim pela maneira como as profanamos e tratamos na vida real.


Texto original:

Friday essay: desecration and romanticisation – the real curse of mummies. Disponível em < http://theconversation.com/friday-essay-desecration-and-romanticisation-the-real-curse-of-mummies-77476 >. Acesso em 01 de junho de 2017.


Tenha em casa: A Edições Del Prado, uma editora especializada em vendas de fascículos com imagens colecionáveis, possui uma coleção intitulada “Cenas do Egito Antigo”. Uma delas recria um momento durante a mumificação.

Clique aqui para conferir a peça ou aqui para ver as demais cenas.

Minhas notas acerca do texto:

[1] Creio que ocorreu um equívoco aqui, já que a história toda se passa no Egito.

[2] Possivelmente ele está falando de “O Escorpião Rei”.

[3] Lembrando que este filme não é da Universal Studios.

[4] Ele falou que foi esse, mas foi o Times de Londres.

Uma Viagem pelo Nilo: desconto de aniversário

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Quando escrevi esse material a ideia era ser uma introdução prática dos aspectos principais da Antiguidade egípcia. Então fico contente em saber que de fato meu livro tem desempenhado bem esse papel.

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Trabalho no Egito antigo: greves, maus-tratos e direitos

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille | Instagram

A sociedade egípcia era extremamente hierarquizada. São raros os exemplos de pessoas de determinadas classes sociais mais baixas que ascenderam na vida[1]. O comum era que o pai/mãe ensinasse a sua função para os seus filhos porque tinham a certeza de que seriam sucedidos por eles (FROOD, 2010; SPENCER, 2010).

A maioria das funções tinha como objetivo suprir as necessidades do Estado tanto no âmbito político-religioso – como era o caso dos sacerdotes, escribas, militares, artesãos, etc. – como para a subsistência/sobrevivência – agricultores, administradores, médicos, etc.-.

Algo que se tem que levar em consideração é que cargos isolados nos dias de hoje no Egito Antigo poderiam ser exercidos por somente um indivíduo, por exemplo, um general estaria apto a exercer também o cargo de arquiteto ou escriba.

Todos recebiam pagamento, que eram feitos através de escambo ou da permuta. É aqui onde entra a questão da escravidão no Egito, tão impregnada no senso comum graças a décadas de uma literatura acadêmica não revisada sobre o tema. Esse é, assim como muitos outros, um assunto muito nebuloso e que requer mais atenção por parte dos pesquisadores. Existia no país um sistema de servidão imposto tanto para o indivíduo egípcio como para o estrangeiro. A servidão nesta área do mundo é algo que necessita ser pensada a parte de outras sociedades as quais eles foram contemporâneos, principalmente porque o sentimento de liberdade entre os egípcios era visto de uma forma diferente, especialmente para os parâmetros modernos.

Já outro tema tem recebido muito mais atenção: alguns artigos e livros têm discutido nos últimos anos a importância do gênero em relação as divisões de trabalho. Não existe um consenso sobre, por exemplo, as limitações que poderiam ser impostas às mulheres, embora saibamos que profissões usualmente vistas como femininas nos dias de hoje não o era na antiguidade egípcia, como era o caso do cozinheiro ou camareiro.

Em algumas iconografias crianças podem ser vistas exercendo algumas atividades ao lado dos pais. Elas começavam com coisas fáceis e simples e com o tempo exerciam atividades mais complexas. Contudo, sabe-se de um caso de trabalho infantil durante o final do Novo Império que foi questionado por seus contemporâneos, onde uma família foi criticada por manter uma criança como empregada doméstica (FROOD, 2010).

 

Direito para os trabalhadores:

Os remanescentes ósseos nos proporcionaram algumas surpresas desagradáveis em relação a populações mais simples, em especial aqueles indivíduos relacionados com as grandes construções: no sítio arqueológico de Amarna, por exemplo, foram encontradas nos ossos marcas de stress provocadas por grandes esforços físicos e anemia severa (ROSE, 2006). E em Gizé exemplos de ossos fraturados por conta de acidentes de trabalho foram identificados [2].

Apesar da visão pouco amistosa que esses trabalhos mais pesados nos proporcionam, no próprio platô de Gizé foi notado que alguns desses mesmos ferimentos foram imediatamente tratados. Evidências arqueológicas inclusive sugerem que médicos estavam disponíveis para tratar os trabalhadores [2].

Pesquisas arqueológicas também nos mostram que mulheres durante a sua menstruação eram liberadas por seus empregadores, que por sua vez davam uma baixa explicando o motivo do afastamento (WILFONG, 2010).

Apesar da visão de mundo que os egípcios possuíam de que era uma honra servir e obedecer ao faraó, alguns momentos históricos nos mostram que não era bem assim. Um importante exemplo é a greve realizada por trabalhadores de Deir el-Medina durante o reinado de Ramsés III (RICE, 1999). Graças a ausência de recebimento de suprimentos os construtores do rei se negaram a exercer suas atividades até que seus direitos fossem respeitados. Eles, inclusive, ocuparam um templo. O resultado? O faraó cedeu [3].

A arqueologia ainda tem um longo caminho pela frente para tentar entender mais acerca de como o trabalho era visto na antiguidade egípcia. Mas o panorama para os próximos anos é favorável, visto o número cada vez mais crescente de bibliografias revisadas e trabalhos mais críticos sobre o assunto.

 

Referências bibliográficas:

Frood, Elizabeth. Social Structure and Daily Life: Pharaonic. In: LLOYD, Alan, B (Ed). A Companion to Ancient Egypt. England: Blackwell Publishing, 2010.

ROSE, Jerome C. Paleopathology of the commoners at Tell Amarna, Egypt, Akhenaten’s capital city. Memórias do Instituto Oswaldo Cruz (Suppl. II), 2006.

Spencer, Neal. Priests and Temples: Pharaonic. In: LLOYD, Alan, B (Ed). A Companion to Ancient Egypt. England: Blackwell Publishing, 2010.

STROUHAL, Eugen. A vida no Antigo Egito (Tradução de Iara Freiberg, Francisco Manhães, Marcelo Neves). Barcelona: Folio, 2007.

WILFONG, T. G. “Gender in Ancient Egypt”. In: WENDRICH, W. (Ed). Blackwell Studies in Global Archaeology: Egyptian Archaeology. New Jersey: Wiley-Blackwell, 2010.

[2] The Pyramid Builders. Disponível em < http://ngm.nationalgeographic.com/ngm/data/2001/11/01/html/ft_20011101.5.fulltext.html >. Acesso em 01 de maio de 2017.

[3] Records of the strike in Egypt under Ramses III, c1155BC. Disponível em < https://libcom.org/history/records-of-the-strike-in-egypt-under-ramses-iii >. Acesso em 01 de maio de 2017.


[1] O conceito de classe social surgiu na contemporaneidade, aqui está sendo utilizado de forma meramente ilustrativa.

A cerveja no Egito Antigo: desde a intoxicação ao seu uso religioso

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille | Instagram

Era um grande costume das pessoas que viveram durante a Antiguidade egípcia registrar nas paredes de suas tumbas cenas da vida cotidiana: são imagens que mostram o cultivo dos campos, os momentos de deleite com os parentes, brigas, brincadeiras e, naturalmente, a alimentação. Graças a isso, possuímos uma vasta informação acerca da alimentação das pessoas que viveram às margens do Nilo e nos oásis durante a era dos faraós e descobrimos que dentre uma variedade de coisas eles consumiam muita cerveja (TALLET, 2006).

Herget 034 - A Middle Kingdom Brewery

Reconstituição da vida no Antigo Egito: equipe em diferentes fases da elaboração da cerveja. Autor: Desconhecido.

Os egípcios eram verdadeiros mestres cervejeiros; sabe-se, devido a um papiro médico, que existia ao menos dezessete tipos, mas é provável que houvera muito mais (STROUHAL, 2007). Por outro lado, infelizmente a maioria dos nomes se perderam ao longo dos séculos (TALLET, 2006).

Rapaz confeccionando cerveja. Imagem disponível em TIRADRITTI, Francesco. Tesouros do Egito do Museu do Cairo. São Paulo: Manole, 1998. p. 102.

Cenas da fabricação dessa bebida também são conhecidas, contudo, não são muito instrutivas, mostrando somente os passos básicos (TALLET, 2006). No canal do A.E. comentei sobre alguns dos processos conhecidos para a elaboração dessa bebida. Confira abaixo:

Porém, relatos do seu preparo igualmente foram registrados por viajantes que visitaram o país anos após o fim do Período Faraônico e que podem dar uma leve ideia de como seria confeccionada a cerveja original. Abaixo o de um homem chamado Zózimo, no século IV depois da Era Cristã:

Para fazer cerveja:  obter cevada branca, limpa e de boa aparência, deixar macerar um dia e depois tirar da água e deixar descansar no lugar resguardado até a manhã seguinte.  A seguir deixar macerar durante mais cinco horas.  Depois derramar num recipiente poroso de um braço de profundidade e conservar úmido. Deixar assim até que se formem flocos, depois deixar secar ao sol até que estes flocos sejam reabsorvidos, pois esta emulsão é amarga. Moer cevada e formar pães, cozê-los superficialmente até que comecem a dourar. Dissolver então em água açucarada e passar através de uma peneira fina. Quando se chega a este ponto, os dois preparados são misturados. Outros fazem os pães e os põem num forno com água e os deixam cozer um pouco, sem permitir que ferva ou esquente de mais. Depois são retirados da água e coberto, é aquecido e provado. (PAULY-WISSOWA, apud TALLET, 2006, pág. 149)

Também tem a de um químico do início do século XX:

Colhe-se trigo de boa qualidade, e três quartos dele são limpos e moídos grosseiramente.

Estas três quartas partes do trigo moído são vertidas num amplo tabuleiro de madeira e amassadas com água para obter uma pasta à qual se acrescenta levedo.

Confeccionam-se pães grossos com a massa assim obtida.

São cozidos muito levemente para não destruir o levedo.

O último quarto de trigo, não moído, é umedecido com água e exposto ao ar durante um tempo. Depois se tritura enquanto ainda está úmido.

Os pães são partidos e colocados num recipiente com água. Acrescenta-se o trigo úmido triturado. A mistura fermenta devido à presença de levedura no pão. Para obter uma fermentação mais rápida, acrescenta-se um pouco de buza de uma colheita anterior. Deixa-se fermentar um dia.

Finalizada a fermentação, o preparado é passado por uma peneira de fibra vegetal espremendo bem o produto com as mãos contra a peneira. (LUCAS, 1962 apud TALLET, 2006, pág. 149)

Sabe-se que a cerveja já era consumida durante o Período Pré-Dinástico (c. 5300-3000 a.E.C) (TALLET, 2006) e ao longo das dinastias tornou-se parte da dieta egípcia, em especial a conhecida como henequet, a mais popular de todas e que fez parte do cardápio cotidiano (TALLET, 2006).

Ela também foi utilizada como forma de pagamento (TALLET, 2006): lembrem-se que a moeda só passou a ser utilizada no Egito nos tempos tardios. A economia era baseada na permuta e no escambo (DERSIN, 2007).

A cerveja egípcia era alcoólica?

Não sabemos o quão alcoólica algumas cervejas egípcias poderiam ser. A henequet, que era consumida mais amplamente, tinha uma propriedade mais energética, entretanto, uma chamada de seremet, que era mais cara, era muito mais alcoólica (TALLET, 2006).

São conhecidas algumas iconografias que retratam pessoas bêbadas, além dos relatos de epifania ou de contato com o sobrenatural, ambos alcançados após o consumo de cerveja ou vinho em festivais religiosos. Em soma, um famoso mito, “A Destruição da Humanidade”, descreve como a deusa Sekhmet/Mut/Hathor ficou totalmente embriagada após beber muita cerveja vermelha, crendo que bebia sangue humano (BRYAN, 2010).

O uso religioso da cerveja:

Embora nos dias de hoje seja vista como sinônimo de futilidade, na Antiguidade egípcia a cerveja era um líquido sagrado ao lado do vinho, do leite e da água. Ela fez parte em grande proporção das listas de oferendas funerárias além dos rituais de libação (POO, 2010).

Mulher preparando cerveja. Imagem disponível em EINAUDI, Silvia. Coleção Grandes Museus do Mundo: Museu Egípcio Cairo (Tradução de Lúcia Amélia Fernandez Baz). 1º Título. Rio de Janeiro: Folha de São Paulo, 2009. p. 49.

Uma das divindades relacionadas com essa bebida foi Hathor, cujo um dos epítetos é “Senhora da Bebedeira”, relacionado com o já citado mito “A Destruição da Humanidade”, que era rememorado no Festival da Bebedeira, uma comemoração realizada no início do ano egípcio, na estação Akhet (nos dias atuais seria entre o final de julho e início de agosto).

— Saiba mais: O Festival da Bebedeira do Egito Antigo

No templo dessa divindade em Dendera é possível encontrar algumas liturgias que citam a cerveja e a importância dada a sua correta confecção:

Pegue a cerveja doce, o fornecimento para a sua majestade, que é fabricado corretamente. Como é doce o seu sabor, como é doce o seu cheiro! (Chassinat and Daumas: Dendara VII: 130 apud POO, 2010).

Nesta é citado que o Ka também se beneficiará da bebida:

Como são belos estes jarros de cerveja, que são fervidas em seu tempo correto, que enchem o seu Ka no momento do seu desejo. Que o seu coração se alegre diariamente (Chassinat and Daumas: Dendara VI: 163: 9 – 11 apud POO, 2010).

Tenha em casa: A Edições Del Prado, uma editora especializada em vendas de fascículos com imagens colecionáveis, possui uma coleção intitulada “Cenas do Egito Antigo”. Uma delas é a elaboração da cerveja.

Clique aqui para conferir a peça ou aqui para ver as demais cenas.

 

Referências bibliográficas:

BRYAN, Betsy. “Hatshepsut and Cultic Revelries in the New Kingdom”. In: GALÁN, José, BRYAN, Betsy, DORMAN, Peter. Creativity and Innovation in the Reign of Hatshepsut. Chicago: The University of Chicago, 2014. Paper from the Theban Workshop 2010

DERSIN, Denise. A história cotidiana às margens do Nilo (Tradução de Francisco Manhães, Marcelo Neves, Carlos Nougué, Michael Teixeira).  1ª Edição. Barcelona: Folio, 2007.

POO, Mu-chou. “Liquids in Temple Ritual”. In: DIELEMAN, Jacco; WENDRICH, Willeke; FROOD, Elizabeth; BAINES, John. UCLA Encyclopedia of Egyptology. Los Angeles: UC Los Angeles, 2010.

STROUHAL, Eugen. A vida no Antigo Egito. (Tradução de Iara Freiberg, Francisco Manhães, Marcelo Neves).  1ª Edição. Barcelona: Editora Folio, 2007.

TALLET, Pierre. A culinária no Antigo Egito (Tradução de Francisco Manhães, Maria Júlia Braga, Joana Bergman). Barcelona: Folio, 2006.

Tutankhamon, Zahi Hawass e Nicholas Reeves: quais são as últimas novidades sobre a tumba do faraó

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille | Instagram

O Ministro das Antiguidades do Egito, Jaled al Anani, deu no início de fevereiro uma entrevista para o jornal El Mundo falando sobre a nova fase das pesquisas na tumba do faraó Tutankhamon (KV-62), cujo objetivo é procurar por espaços vazios que estariam atrás de suas paredes. A possibilidade da existência desses espaços foi sugerida pelo egiptólogo britânico, Nicholas Reeves, em um artigo acadêmico que pontuava sinais que indicariam lugares ocos por trás de duas paredes da câmara funerária do rei, e que eles seriam um segundo túmulo. Ele ainda declarou que o proposto sepulcro poderia pertencer a ninguém menos que a rainha Nefertiti, figura celebre do Período Amarniano.

— Saiba mais sobre essa governante: Nefertiti e Akhenaton: Rainha e faraó

Tutankhamon, Hawass e Reeves.

Embora tais indícios sejam circunstanciais, o anterior Ministro das Antiguidades, Mamdouh al-Damaty, resolveu averiguar, dando início a um verdadeiro hype, deixando a imprensa internacional em polvorosa. Nesse período duas inspeções com radar foram realizadas: a primeira, feita por um pesquisador chamado Hirokatsu Watanabe no início de 2016, apontou a certeza da existência de câmaras ocultas, porém a apresentação do resultado dos seus estudos não convenceu arqueólogos e especialistas em radar ao redor do mundo. Então uma segunda equipe, organizada pela National Geographic, foi averiguar a tumba. Porém, ao contrário do Watanabe, eles foram proibidos de liberar seus resultados.

golden mask king tutMáscara mortuária de Tutankhamon.

Foi nesse meio tempo que o Ministro das Antiguidades foi mudado e dessa vez a pesquisa entrou nos eixos. Isso porque o atual exerceu o seu papel como cientista, pensando como um arqueólogo e não como um correspondente para a imprensa.

Tempos depois uma mesa em um evento de arqueologia foi realizada no Cairo para debater o assunto. Nela participaram o próprio Watanabe, o ex-ministro, Yasser El Shayb, Nicholas Reeves e Zahi Hawass. Na ocasião Watanabe acabou expondo que o seu aparelho tinha sido customizado e por isso os seus pares não seriam capazes de analisar as informações coletados por ele. Esse tipo de comentário no meio cientifico é impensável. Não é análise científica se somente uma pessoa é capaz de ler os dados. Isso é um quesito básico na nossa profissão: desenvolver métodos e técnicas que sejam possíveis de serem utilizados e entendidos por outros profissionais.

Tomb of TutEntrada para a tumba do faraó.

A situação ficou mais complicada quando dias após o evento o jornalista Owen Jarus lançou uma matéria explicando que os dados da National Geographic não tinham sido liberados porque a analise deles apontou que não existia espaços ocos algum. No vídeo abaixo fiz um resumo de tudo isso o que falei aqui, utilizando, inclusive, algumas imagens:

Agora em 2017, meses após essa conferência, foi anunciada que uma equipe italiana iria investigar também a tumba. Outra novidade é a de que Reeves não fará parte desse novo estudo. “A teoria foi elaborada por Reeves, mas a tumba de Tutankhamon pertence ao Egito”[1], declarou o ministro acerca desse assunto. “O projeto não foi cancelado, mas prefiro tratar com instituições científicas. Nos chegou uma proposta séria da Itália. O comitê permanente a estudou e ela foi aprovada” [1]. E ele continuou “Tem que se diferenciar entre a teoria e a pessoa que a formulou. Estamos trabalhando sobre a tese de que pode existir algo”[1], ainda expôs “O senhor Reeves não está relacionado com o novo projeto e não está desenvolvendo nenhuma investigação sobre a tumba no momento, mas, como qualquer outro especialista, pode enviar uma solicitação e será examinada. Até o momento não recebemos nenhuma proposta de uma instituição que leve o nome de Reeves. Para nós é crucial tratar com instituições”.[1]

O ministro também confirmou que a pesquisa teria início no final de fevereiro e começo de março (2017) e ela realizará uma varredura com um radar nas paredes da tumba.

Inside the tomb of the boy king, TutankhamenCâmara funerária da KV-62.

As experiencias anteriores deixaram o público empolgado, mas, muitos arqueólogos preocupados. A arqueologia é uma ciência social que trata do passado da humanidade e não deve ser tratada como uma notícia caça-níquel; ela requer muita paciência e cuidado em suas análises, algo que pode durar meses ou anos e esse foi o erro crucial no caso dessas buscas por câmaras ocultas na tumba de Tutankhamon. Misturar a pressa e até mesmo o sensacionalismo com a Arqueologia pode acabar enterrando carreiras. Essa parece ser uma preocupação semelhante a do atual ministro, que na mesma entrevista salientou: “Temos que dar tempo para a ciência e seus métodos. As expectativas ou os sentimentos não funcionam aqui. Minha esperança é encontrar algo na [tumba] de Tutankhamon e em qualquer outra sepultura do Egito, mas tem que se distinguir entre esperanças e emoções. É tão possível que existam essas cavidades como não ter nada” e continuou “Eu sou um acadêmico. Primeiro teremos que certificar que existe cavidade e, se existe, devemos especificar se é simplesmente um espaço vazio ou uma tumba. No caso do segundo, o seguinte seria investigar a quem pode pertencer”[1].

ToutânkhamonReconstituição da localização dos artefatos encontrados na tumba de Tutankhamon, que foi descoberta em 1922 praticamente intacta pelo arqueólogo inglês Howard Carter.

Ele ainda falou do seu antecessor e suas afirmativas sobre a sua certeza acerca da existência de uma segunda sepultura na KV-62: “Eu sou somente responsável por minhas palavras, mas creio que existe uma diferença entre o que ele disse e o que se entendeu. Al Damati me disse que jamais havia dito dos 90% nesses termos. Simplesmente se limitou a informar de que o especialista do radar afirmava que tinha essa porcentagem de probabilidades de existir algo”[1]. Por fim ele deixou um recado sensato “os procedimentos científicos devem ser respeitados e seguidos com cuidado porque teremos uma credibilidade no mundo”[1].

O jornal El Mundo ainda tentou contato com o professor Reeves, mas não obteve resposta. Fui averiguar no site do pesquisador, mas desde a minha consulta no dia 11 de fevereiro (2017) até o momento ele permanece fora do ar.

Zahi Hawass:

O mundialmente famoso arqueólogo egípcio Zahi Hawass nos últimos dias teceu em sua página no Facebook algumas palavras acerca da possibilidade de existir câmaras ocultas na tumba de Tutankhamon. Abaixo sua mensagem na integra (tradução nossa):

Ancient Egypt Dr. zahi HawassZahi Hawass

Você acredita que a múmia de Nefertiti está no Museu do Cairo, nas câmaras ocultas no túmulo do rei Tut, ou ainda está para ser descoberta?

Eu realmente não acho que a rainha Nefertiti está na KV-62 — o túmulo de Tutankhamon — por muitas razões: um, eu não acho que os sacerdotes de Amon jamais deixariam a rainha que seguiu seu marido Akhenaton ao adorar o Aton ser enterrada no Vale dos Reis; Dois, por que o rei Tut seria enterrado em um túmulo que pertencia à sua mãe? E três: o estilo do túmulo e a cena do Imyduat é exatamente o mesmo estilo encontrado no túmulo de Ay; isto poderia provar que este túmulo foi feito originalmente para Ay e quando Tutankhamon morreu repentinamente, ele deu-lhe essa tumba. Além disso, por que alguém entraria no túmulo e bloquearia o que estava por trás? — isso nunca aconteceu. A evidência mais importante que refuta esta teoria é que quando eu peguei as leituras de radar japonês e as dei a um especialista em radar americano, ele me escreveu oficialmente dizendo que essa leitura não mostra nada. Eu realmente acredito que Nefertiti foi originalmente enterrada em Amarna, e assim como o esqueleto na KV-55 — que descobrimos ser Akhenaton — foi movida, sua múmia poderia ter sido movida mais tarde para algum lugar no Vale dos Reis. Talvez eu esteja certo, talvez eu esteja errado, mas acho que a múmia com uma cabeça encontrada na KV-21 poderia ser Nefertiti. Por quê? Porque os egípcios sempre enterraram uma mãe e uma filha, como na KV-35 onde a múmia da rainha Tiye foi enterrada ao lado de sua filha, a mãe de Tutankhamon. Encontramos algumas evidências de que a múmia sem cabeça na KV-21 poderia ser Ankhesenamon. Portanto, talvez a outra múmia seja Nefertiti.

Para saber o que mais publiquei aqui no Arqueologia Egípcia sobre o assunto clique aqui.

Fontes:

[1] Egipto aparta al arqueólogo Reeves de la investigación de la tumba de Tutankamón. Disponível em < http://www.elmundo.es/ciencia/2017/02/10/589c9bf7ca4741f1318b4639.html >. Acesso em 10 de fevereiro de 2017.

[2] Question 10 – Do you believe Nefertiti’s mummy is in the Cairo Museum, in the hidden chambers in King Tut’s tomb, or it is yet to be discovered? Disponível em < https://www.facebook.com/112384738789408/photos/a.195047590523122.52414.112384738789408/1538410116186856/?type=3&theater >. Acesso em 10 de fevereiro de 2017.