Livro “Fatos e Mitos do Antigo Egito”, de Margaret Bakos

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

A Margaret Bakos é uma historiadora brasileira especialista em história da antiguidade egípcia. Ela escreveu “Fatos e Mitos do Antigo Egito” (1994) tendo como objetivo abordar algumas características dessa antiga civilização.

O livro é composto por uma coletânea de 8 artigos relacionados com temas que ela chegou a abordar em congressos. A escritora não perderá tempo explicando diferenças na cronologia ou acontecimentos históricos, afinal, é um livro acadêmico em sua essência e subtende-se que o seu público-alvo já tenha alguma bagagem no assunto. Contudo, se você tem uma ideia de divisão da cronologia egípcia ou conhece algumas características básicas desta civilização muito provavelmente irá lê-lo bem.

Outro ponto que precisa ser abordado é que esta é uma edição antiga dessa obra e talvez por isso ela possua alguns problemas, a exemplo da sua diagramação e datilografia. Porém, são quesitos que é quase certo que tenham sido consertados nas edições mais recentes[1].

No 1º Capítulo ela fala sobre o processo de urbanização e a diferença entre cidade e aldeia. Ela igualmente levanta que o que antes existia entre os acadêmicos era a preocupação em se observar a organização urbana de civilizações como a Grécia e Roma, mas não do Egito.

Ela também apresenta o hieróglifo que define cidade e sua provável origem e ainda salienta que já nas primeiras dinastias houve uma preocupação em se promover a construção de cidades.

E quase que como um complemento do anterior, no 2ª Capítulo a definição de urbanidade é apresentada e é discutido se é possível aplicá-la ao Egito Antigo. Ela também levanta questões sobre ocupação espacial, destacando a diferença entre cidade e aldeia.

O 3º e 4º Capítulos são dedicados a falar sobre o papel das mulheres na sociedade, relacionando a sua posição social com a economia vigente e paralelamente com os mitos, uma vez que a organização estatal e a religião andávamos lado a lado.

No 5º Capítulo é apresentado o papel da “memória”, que era cultivada através da tradição oral e a escrita. Esta memória em questão refere-se à história dos deuses e aspectos do dia a dia como comportamento social, afazeres domésticos e como os egípcios se relacionavam com a natureza.

O 6º Capítulo é sobre o consumo do vinho. Aqui ela fala sobre a sua origem, produção e consumo, inclusive cita uma pesquisa que aponta que a vinicultura chegou no Egito durante o Pré-dinástico. Aproveitando o gancho ela explica quais outras frutas, além da uva, foram utilizadas para fazê-lo.

Margaret Bakos

No 7º Capítulo ela apresenta um resumo sobre o que ocorreu durante o 4º Congresso Internacional de Egiptologia, realizado em 1991 na cidade de Turim, Itália. Este é interessante para saber quais eram os questionamentos acadêmicos na época e quem sabe até comparar com os interesses dos estudantes de hoje.

E por fim, o 8º Capítulo é dedicado a falar sobre a coleção do Museu Nacional do Rio de Janeiro. Ele tem início com ela contextualizando a história do edifício em que hoje está o museu, depois parte para como foi que as peças egípcias foram adquiridas. Em seguida ela aponta quais foram os primeiros pesquisadores a catalogar as peças e a contextualiza-las historicamente e finaliza fazendo uma breve apresentação de algumas das peças mais notáveis da coleção.

 

Conclusão

Se você tiver interesse neste título lembre-se de comprar uma edição mais atualizada. Este volume aqui comprei em um sebo, mas é possível encontrar as edições atualizadas em grandes livrarias. Ele não será um grande complemento para quem já possui uma leitura bem madura sobre a antiguidade egípcia, mas para quem ainda está começando no meio acadêmico pode ajudar.

Caso queira comprar este livro a um bom preço no meu blog pessoal escrevi um texto dando dicas de como adquirir produtos sobre o Egito Antigo na internet de forma barata. Clique aqui para ler.

 

Dados do livro:

Título: Fatos e Mitos do Egito Antigo

Gênero: Egiptologia

Autor: Margaret Marchiori Bakos

Editora: Edipucrs

Ano de Lançamento: 1994

Edição: 1ª Edição

Clique aqui para acessar o seu perfil no Skoob.


[1] É muito mais comum do que vocês imaginam a primeira edição de um livro sair com problemas. É por isso que algumas editoras encorajam os leitores a escrever para elas para apontar tais erros.

“Memórias de amor, crime e morte”: conheça o filme “A Múmia” de 1932

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Quando muitos escutam a palavra “A Múmia” provavelmente lembram das aventuras cinematográficas hollywoodianas dos personagens fictícios Rick O’Connell (Brendan Fraser) e Evelyn Carnahan (Rachel Weisz), para destruir o vilão Imhotep (Arnold Vosloo), uma múmia egípcia ressuscitada cujo único objetivo é fazer o mal. Entretanto, o que os menos aficionados por esta franquia sabem é que O’Coonell não foi o primeiro a enfrentar um semimorto chamado Imhotep no cinema, ele é só o fruto de uma série de filmes da Universal Studios que traz o monstro “A Múmia”, cujo o último representante no momento é a princesa Ahmanet, de “A Múmia” de 2017.

— Saiba mais: A franquia de filmes “A Múmia” da Universal Studios

Imhotep (Boris Karloff) e Ankhesenamon (Zita Johann). Universal Studios.

O primeiro filme da franquia foi lançado em 1932, estrelando Boris Karloff, como Imhotep e depois dele, até o momento, se somam nove filmes. São os seguintes:

☥ “A Mão da Múmia” (1940);

☥ “A Tumba da Múmia” (1942);

☥ “O Fantasma da Múmia” (1944);

☥ “A Praga da Múmia” (1944);

☥ “Abbott e Costello caçando múmias no Egito” (1955);

☥ “A Múmia” (1999);

☥ “O Retorno da Múmia” (2001);

☥ “A Múmia: tumba do Imperador Dragão” (2008)

☥ “A Múmia” (2017)

 

O “A Múmia” de 32 tem um enredo bem simples: o corpo mumificado de um homem chamado Imhotep e uma misteriosa caixa são descobertos por uma missão britânica de arqueologia. Após uma rápida análise os pesquisadores descobrem que este homem foi sepultado vivo e sem direito as fórmulas mágicas necessárias para a sua viagem pelo além. Já a caixa possui um breve texto com a promessa de mau agouro para quem ousar abri-la.

— Foi gravado para o canal do Arqueologia Egípcia um vídeo supercompleto e cheio de curiosidades sobre esta obra:

Um estagiário curioso ignora a maldição e a abre encontrando em seu interior o Pergaminho de Thot cujas inscrições o rapaz traduz. O texto em questão é um poderoso feitiço que acaba ressuscitando Imhotep, que, por sua vez, foge do local levando consigo o pergaminho.

Anos mais tarde Imhotep reaparece, mas agora se chamando Ardath Bey. Ele tem em sua posse a localização da tumba de uma princesa chamada Ankhesenamon e a passa para um jovem arqueólogo que a encontra em pouco tempo.

Entretanto, o plano de Imhotep é ter acesso a múmia recém encontrada da Ankhesenamon para trazê-la de volta a vida, uma vez que ela foi seu antigo amor. A princesa foi o motivo do cruel fim de Imhotep, já que foi por tentar ressuscitá-la ainda na época do Egito Antigo — fazendo uso do Pergaminho de Thot — que ele recebeu a punição máxima, que era ser sepultado vivo, sem formulas sagradas para protegê-lo e sem oferendas mortuárias.

A execução deste plano seria tranquila se não fosse um problema: a princesa Ankhesenamon reencarnou e agora é uma jovem chamada Helen Grosvenor (Zita Johann). Passando a saber disso Imhotep fará de tudo para recuperar a sua amada.

Ankhesenamon (Zita Johann). Universal Studios.

Este “A Múmia” tornou-se o parâmetro para os demais filmes da temática na Universal Studios (e mesmo de outras produtoras). Se não fosse ele provavelmente nossa visão de maldições egípcias seria um pouco diferente e a presença de fantasias e enfeites retratando múmias na época do Halloween certamente não seria corriqueira.

Helen Grosvenor (Zita Johann). Universal Studios.

Quando assistimos a esta obra e comparamos com o que estava sendo lançado na época é de se admirar com o nível de criatividade. Quantos roteiristas hoje pensariam em ressuscitar uma múmia, seja lá de qual cultura, e fazê-la caminhar pelas ruas modernas? Não é à toa que esta fórmula foi usada e reusada tantas vezes pela Universal sem nenhuma preocupação.

Clique aqui para ler um spoiler

Outro ponto interessante é o desenrolar do filme: preste a sofrer um sacrifício para ser mumificada e libertar a alma de Ankhesenamon a Helen está totalmente indefesa. Em uma história clássica comum ela seria salva pelo mocinho do filme, mas o enredo vai para um outro lado. Ela, em prece a deusa Ísis, pede para que a divindade lhe ensine os antigos encantamentos que esqueceu, graças a reencarnação e é assim que ela consegue dar fim a Imhotep dando um desfecho a trama.

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Existem pontos do filme que são orientalistas, como alguns dos comentários da personagem Helen em relação ao Egito moderno: ela o trata quase como uma doença. O que é perfeito, aos seus olhos, é a antiguidade do país. Parece uma visão romântica do passado, mas também faz parte do discurso imperialista da época que, inclusive, era usado para justificar porque só os europeus podiam praticar a arqueologia no Egito e cuidar dos seus artefatos. Uma visão que assombra a Egiptologia e a Arqueologia Egípcia até os dias atuais.

Imhotep (Boris Karloff) e Helen Grosvenor (Zita Johann). Universal Studios.

Curiosidades:

☥ O nome “Imhotep” é uma homenagem ao arquiteto que construiu a primeira pirâmide egípcia: a “Pirâmide de Djoser”;

☥ O filme teve grande inspiração na descoberta da tumba do faraó Tutankhamon, ocorrida em 1922. É tanto que o nome da princesa, Ankhesenamon, é o nome da esposa desse rei;

☥ “Ardath Bey” é um anagrama que significa “morte por Rá”;

☥ Algumas cenas mostrando outras reencarnações da princesa Ankhesenamon foram gravadas, mas jamais foram utilizadas e se perderam com o tempo;

☥ Em “A Mão da Múmia” algumas cenas de “A Múmia” foram reaproveitadas;

☥ Na série mexicana “Chaves”, no episódio “Filme de Terror”, Chaves e Chiquinha assistem a essa obra;

☥ Na série “Bones” ele é exaustivamente citado no capítulo quinto da quita temporada, “A Night at the Bones Museum”,traduzido no Brasil como “O menino do coração que sangra”.

☥ A personagem Cleo de Nile de “Monster High” foi inspirada no monstro “A Múmia”.

 

Fotos de bastidores:

 

 

Fontes das curiosidades de bastidores:

The Mummy (1932) | UMDB. Disponível em < http://www.imdb.com/title/tt0023245/ >. Acesso em 08 de agosto de 2017.

Mummy Dearest: A Horror Tradition Unearthed (1999; Universal Studios).

Livro “Nefertiti: O Livro dos Mortos” de Nick Drake: uma trama policial no Egito Antigo (Comentários sem spoiler)

Um homem poderoso comandando é uma coisa; uma mulher poderosa é outra bem diferente.

— ‘Nefertiti: O Livro dos Mortos’, Nick Drake, página 150.

Escrito por Nick Drake, “Nefertiti: O Livro dos Mortos” (Nefertiti: The book of Death) é o primeiro livro da série policial protagonizada pelo detetive Rahotep. Baseado em cenários e alguns personagens reais, a história se passa durante o final da 18ª dinastia (Novo Império), mais especificamente na época do reinado do faraó Akhenaton. Narrado em primeira pessoa o enredo conta a história de Rahotep, um integrante incomum da medjay que faz uso de técnicas de investigação bem anormais para o contexto do Egito Antigo e que por conta disso é acionado pelo faraó Akhenaton para resolver um mistério: o desaparecimento da rainha Nefertiti.

Sabendo qual a sua missão e que tem um tempo curto para resolver tal enigma— e que se falhar não somente ele, mas a sua família sofrerá uma terrível punição — Rahotep se aprofunda cada vez mais na vida da realeza, suas crenças, hipocrisias e mundo de aparências. E paralelamente passa a conhecer mais sobre a personalidade da rainha sumida e sua importância para a manutenção do equilíbrio político no reino.

— Esta cidade, este mundo novo esplêndido e iluminado, este futuro glorioso. Tudo parece glorioso, mas está construído sobre areia. Todos estão determinados ou são forçados a acreditar nisso para torná-la possível. Mas sem ela, sem Nefertiti, não é possível acreditar nisso. Não é verdadeiro. Não vai funcionar. Vai desmoronar.

— ‘Nefertiti: O Livro dos Mortos’, Nick Drake, página 85.

O mistério do sumiço de Nefertiti faz Rahetep enfrentar vários perigos mortais e sofrer experiências incomuns. A partir do momento em que ele entrevista os indivíduos que fizeram parte do convívio dela muitos tornam-se suspeitos em potencial e a cada página parecem ter algo a esconder ou a proteger, mesmo que sejam somente interesses pessoais.

Nick Drake. Foto: Divulgação.

Nascido em Londres em 1961, Drake além de escritor de mistérios é poeta e dramaturgo. Estudou na Universidade de Cambridge e trabalhou em vários projetos envolvendo outros artistas e cientistas. Seu primeiro livro envolvendo o Egito Antigo, Nefertiti: Book of the dead, foi publicado pela primeira vez em 2006. Nesta época ele foi indicado para o prêmio Crime Writers’ Association Best Historical Crime Novel (Melhor Romance Histórico Policial da Associação de Escritores Policiais) e atualmente está sendo adaptado para a TV por Patrick Harbinson, produtor de Lei e Ordem: Unidade de Vítimas Especiais, Homeland, 24 Horas, dentre outros.

O universo criado por Drake nos apresenta um Egito Antigo quase convincente e factual. O que está explicito é que ele realmente se dedicou a estudar variados aspectos essenciais das sociedades egípcias do faraônico, mas incluindo muitos pontos da nossa e várias licenças poéticas, como vocês poderão conferir mais a diante. Ele conseguiu trabalhar com esse conhecimento e recriar um egípcio do faraônico sem parecer artificial; Nós estamos o tempo todo com o Rahotep, estamos em sua cabeça e conferindo suas anotações, ou seja, nós estamos na antiguidade egípcia.

Confira a resenha em vídeo deste livro no canal do Arqueologia Egípcia no Youtube; muitas das pontuações que não estão aqui estão presentes no vídeo, então assista-o para ter uma abordagem mais completa.

O que chama a atenção na obra é que Drake não cria um Egito Antigo místico, bucólico e saudosista a exemplo de muitas criações que trazem o tema, onde os leitores são apresentados a um personagem principal prefeito e belo, extremamente inteligente ou com outras qualidades superiores quanto. Aqui o escritor apresenta um Egito mais próximo da realidade, partindo do ponto de vista de alguém da população comum que precisa por comida na mesa, educar seus filhos e tem seus próprios pensamentos sombrios e pouco belo do mundo. Rahotep tem uma inteligência única, contudo, é vulnerável, tem suas dúvidas existenciais, mas, não busca por respostas na religião.

E foi aí que fiz a coisa mais difícil da minha vida. Vestindo minha melhor roupa de linho e com minhas autorizações na pasta, fiz uma breve libação para o deus da casa. Orei com sinceridade incomum (pois ele sabe que não acredito nele), por sua proteção e pela proteção de minha família.

— ‘Nefertiti: O Livro dos Mortos’, Nick Drake, página 17.

E como cenário para o desenvolvimento da trama temos o afamado Período Amarniano apresentado aqui como caótico, à beira de um colapso, onde há a escassez de alimentos e o faraó não está em bons termos com os sacerdotes de Tebas. É fato que o faraó Akhenaton se desvinculou do culto a Amon para se dedicar ao deus primordial Aton. Contudo, o caos social pelo qual o Egito passou naquela época está mais próximo de uma propaganda política negativa posterior. Não que a população não tenha sofrido em vários momentos, mas, ao que parece não foi tão diferente do que no reinado do seu pai, Amenhotep III.

Para aqueles que leram o livro, mas não conhece a história egípcia ou a conhece de forma artificial é preciso realizar uma apresentação geral do que ocorreu na época em que o faraó Akhenaton viveu: Como já citado, o deus Aton era uma divindade primordial, sendo um dos aspectos do deus Rá. Recebeu pouca atenção dos faraós, em especial durante o Novo Império, quando o patrono da cidade de Tebas, Amon, tornou-se o deus principal se tornou. Tebas, a princípio, era uma cidade pequena, mas que foi alçada a capital após a invasão dos hicsos e a reunificação do Egito por parte dos seus príncipes devotos a Amon. Como consequência, templos a este deus foram erguidos e o seu clero enriquecendo.

Akhenaton. Foto: Rena Effendi.

Décadas mais tarde, com a chegada do reinado do faraó Amenhotep III os sacerdotes de Amon já eram extremamente poderosos e o rei percebeu que algo necessitava ser feito. Assim, começou a dar espaço para outras divindades, entre elas Aton. Porém, foi com o reinado do seu filho que as coisas se tornaram mais radicais: Nascido Amenhotep IV, Akhenaton construiu um pequeno templo a Aton dentro do templo de Amon em Luxor e posteriormente transfere a capital para a recém-criada cidade de Aketaton. Lá muda o seu nome e passa a cultuar somente Aton.

Inaugurada no Ano 6 (e não no Ano 12, como afirmado no livro), Aketaton é uma das primeiras cidades planejadas da antiguidade. Foi nela onde três das seis filhas do rei com Nefertiti nasceram (as outras três foram em Tebas) e onde Akhenaton faleceu após 17 anos de reinado.

— Conheça mais sobre este Casal Real: Nefertiti e Akhenaton: o casal egípcio impossível de ser ignorado

Nos seus sítios arqueológicos foram encontrados vários registros da família real executando tarefas religiosas ou em simples momentos de deleite. Na maioria destas obras tanto Akhenaton — assim como a sua esposa e suas filhas — foi representado com feições excêntricas (crânios alongados, braços longos, coxas bem roliças e seios proeminentes). Estas características artísticas levantaram alguns debates sobre a possibilidade de que a família possuísse alguma deformidade, mas com o avanço dos estudos da Arqueologia Egípcia a maior probabilidade na atualidade é que essas representações sejam um discurso político onde o rei queria se representar especial, diferente da população comum.

Nefertiti, Akhenaton e uma de suas filhas prestando homenagens a Aton. Foto: Wikimedia Commons.

Retornando a obra, além de Akhenaton e Nefertiti os leitores são apresentados a outros personagens históricos reais tais como Mahu (chefe de polícia), Meryra (Sumo sacerdote de Aton), Horemheb (general), Ay (Sacerdote Pai Divino, Escriba Real, Intendente dos Cavalos e mais outros títulos honoríficos), Tiye (Rainha Mãe), Kiya (esposa secundária de Akhenaton), as filhas de Nefertiti, Tutmosis (escultor) e Nakht[1]. Porém, todas as situações em que eles estão envolvidos e suas personalidades são totalmente fictícias, não tomem como realidade histórica. São acontecimentos criados pelo autor unicamente para a sua trama.

E falando em criação para a trama, abaixo elenquei alguns pontos que são puros equívocos do Drake:

 

Os equívocos:

Vários dos objetos apresentados na obra não existiam no Egito Antigo, entre eles os livros, pipas, cabides, guarda-roupas, chafarizes, chaves e trancas. Outros erros é dar certas utilizações para determinados objetos que não condizia com a realidade, como, por exemplo, os papiros. Na trama eles são utilizados como folhas de diários e para os desenhos das crianças. Mas, na realidade eles eram utilizados para registros mais específicos tais como julgamentos, testamentos, formulas religiosas ou contos. Para anotações do dia a dia o que eram utilizados eram os ostracos.

E em dado momento é citada uma certa sociedade secreta chamada “Sociedade das Cinzas”. Isso também é fruto da imaginação de Drake para atender a sua trama.

 

Os acertos:

Logo nas primeiras páginas o Rahotep fala sobre a neve “no Norte”. Ele não fala exatamente o lugar, mas no Egito já teve ocorrência de neve, a exemplo da virada de 2014 para 2015, quando nevou justamente no Norte do país. Foi uma ocorrência incomum cujo precedente advindo da Antiguidade egípcia é desconhecido, mas nunca se sabe… E em outra das reflexões do personagem ele nos conta de algo que se comentava em sua juventude, de que há muitos anos o Egito era mais verde. Não sei se é plausível a memória oral viver tanto, mas muitos milênios antes do Egito ser unificado o território era muito mais arborizado, com grandes lagos e animais que no faraônico só podiam ser encontrados na África central. Para quem tem curiosidade em saber mais pesquise sobre a “caverna dos nadadores”, uma caverna localizada em Gilf Kebir que possui registros rupestres com cerca de 10 000 anos onde são retratadas pessoas nadando.

Agora, entrando no âmbito de profissões, o nosso investigador Rahotep é um medjay. Eles não só existiram como era um corpo militar responsável pela segurança e a ordem no Egito. Já a profissão de detetive em si não existia, entretanto, as investigações eram geridas pelos próprios medjays. Porém, como não existia ainda os Direitos Humanos as inquirições dos casos mais graves usualmente eram feitas com depoimentos dados após seções de tortura. Não existiam protocolos e no ato do julgamento somente uma pessoa dava o veredito. Alguns casos poderiam chegar até o faraó, entretanto, isso não garantia uma resolução justa.

E algumas vezes é citada a hereditariedade do cargo de sacerdote: Naquela época o mais comum era os filhos assumirem os cargos de seus pais, isso em todos os aspectos da sociedade.

O escultor Tutmosis (Tutmés), já citado rapidamente aqui, faz um passeio com o protagonista por seu ateliê. Lá mostra algumas cabeças de gesso com faces realistas. Elas também existiram e, por acaso, foi ele quem esculpiu o famoso busto da rainha Nefertiti.

Imagem de Nefertiti escupida por Tutmosis (Tutmés). Foto: Nile Magazine.

Rahotep fala de uma mulher nua em um momento de lazer em uma piscina. A nudez não era repreendida, não era um tabu. Este tipo de cena muito provavelmente era mais comum do que nós imaginamos. Ele também comenta sobre a cerveja e o vinho; sobre este último salienta que em seu jarro está gravado o ano de sua confecção e procedência. Isso também poderia ocorrer.

— Saiba mais: A cerveja no Egito Antigo: desde a intoxicação ao seu uso religioso

E uma informação que pode parecer incomum para alguns é o deposito de olhos de vidro em corpos de múmias. E sim, a bibliografia confirma a existência deste ato. Outros costumes e artefatos citados no livro realmente existiram tais como:

☥ O manto de leopardo: usualmente vestido por altos-sacerdotes;

☥ Muletas: utilizadas por vezes como uma representação de poder entre líderes militares;

☥ A existência de Cinco Nomes para o faraó;

☥ A rainha dar de amamentar: era incomum (este era o papel das amas-de-leite), mas é possível que Nefertiti tenha amamentado suas filhas;

☥ Lápis de mesdemet: lembra os nossos atuais lápis de olho. Já falei sobre eles aqui no AE (clique aqui para ler);

☥ Mutilação do rosto para tornar a pessoa irreconhecível no além: isso era feito principalmente com as estátuas e desenhos parietais;

☥ Luvas: inclusive as cito no vídeo “Curiosidade: 7 coisas que existia no Egito Antigo e que também usamos”;

☥ Barcos de junco: que por acaso era o meio de transporte mais comum;

☥ Os arqueiros núbios para a segurança do faraó: inclusive o faraó Tutankhamon, que reinará anos após a morte de Akhenaton, terá um grupo de elite trabalhando para ele;

☥ Meninas como noivas e meninos como reféns: era uma tradição comum no Egito as princesas de países dominados casarem com o faraó e os príncipes serem criados com a alta realeza egípcia dando uma falsa ideia de “irmandade”.

☥ Sacrifício do boi com chifres enfeitados: Este animal enfeitado poderia ser oferecido em sacrifício aos faraós.

☥ Cuxe (Kushe) como sendo a “mina de ouro” do Egito: o ouro que abasteceu o Egito era retirado, principalmente, do atual Sudão, onde antigamente estava localizado o reino de Kushe;

☥ Tempestade de areia: eram, e ainda são, bastante comuns no Egito. A mais perigosa é chamada de khamsin.

 

Ankhkheperura é citada no livro?

Este é um pequeno spoiler. Recomendo que você prossiga somente se já leu todo o livro:

Clique aqui para ler o spoiler

Em um determinado momento Rahotep lê um texto que termina com a seguinte frase: “Quando alcançares o que procuras, verás que é uma mulher. Seu símbolo é a vida.” (página 184). Não sei se foi proposital por parte do Drake, mas existiu entre os reinados de Akhenaton e Tutankhamon o reinado de uma pessoa chamada Ankhkheperura Neferneferuaton. Por muito se achou que ela seria o rei Ankhkheperura Smenkhara. Entretanto, alguns egiptólogos acreditam que Ankhkheperura seria, em verdade, uma mulher e que esta poderia ter sido Nefertiti. O “ankh” (Ankhkheperura) significa “vida”.

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Considerações finais:

“Nefertiti: O Livro dos Mortos” é um livro pouco usual no sentido de que não se apega a um Egito místico, tão comum em obras orientalistas. E apesar de não ter despertado muito o interesse dos booktubers (não encontrei nenhuma resenha) é uma obra que aconselho, em especial para quem gosta de enredos que envolvam mistérios e romances policiais. Embora eu particularmente não tenha achado os acontecimentos finais tão interessantes estou muito empolgada para começar a ler a sua continuação, o “Tutancâmon”.

A Editora Record ainda não demonstrou (ao menos não publicamente) interesse em trazer o volume final, Egypt: The Book of Chaos.

Dados do livro:

Título: Nefertiti: O Livro dos Mortos

Título Original: Nefertiti: The book of dead

Autor: Nick Drake (http://www.nickfdrake.com/)

Tradutor: Ricardo Silveira

EAN: 9788501090430

Gênero: Policial

Coleção: Rai Rahotep

Páginas: 350

Editora: Record

Link no Skoob: https://www.skoob.com.br/nefertiti-o-livro-dos-mortos-235609ed263373.html


[1] Por conta da grafia do nome fiquei com dúvida, mas acredito que ele seja o Nakhtmin.

A Múmia (2017): poder antigo e a sexualização de um monstro (Comentários com SPOILER)

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Este é o primeiro filme da Dark Universe, da Universal Studios, que nada mais é que uma franquia de filmes inspirados nos Monstros Clássicos da própria Universal e que incluem “A Múmia”, Drácula, Lobisomem e etc. “A Múmia”, por exemplo, teve o seu primeiro filme em 1932, e que foi a base para os demais onde estão inclusos os grandes sucessos “A Múmia” (1999) e “O Retorno da Múmia” (2001). Ambos estrelando Brendan Fraser.

Todos os “A Múmia” se aproveitaram da ideia de um arqueólogo ou egiptólogo que em busca de conhecimentos acaba despertando um mal antigo. Porém, aqui não existe tempo para acadêmicos: a nossa nova múmia não é desperta por meio de encantamentos lidos por um profissional, mas por um soldado, o Nick Morton (Tom Cruise), que faz bico como contrabandista e que de modo pouco sutil retira o ataúde — ou melhor: a prisão — de uma princesa egípcia maligna, a Ahmanet (Sofia Boutella), de um poço de mercúrio.

A história do nosso novo monstro é simples: Ahmanet era a herdeira do trono do Egito, mas com o nascimento de um menino vê seu futuro como faraó arruinado. Então, ela toma como única solução fazer um pacto com o deus Set (Seth) pedindo por poder e assassina a sua própria família, inclusive o recém-nascido. No entanto, para que o pacto seja válido, ela ainda precisa entregar um homem em sacrifício, que deve ser morto com a Adaga de Set[1], para que ele receba o poder do deus. É aí que tudo dá errado: Na fase final do ritual a princesa é impedida por guardas, o rapaz escolhido para o sacrifício executado e ela sepultada viva.

Ahmanet. Foto: Divulgação.

Foto: Divulgação.

A personagem da Ahmanet despertou a curiosidade de uma parcela do público, que ficou ansiosa em saber se ela de fato existiu. A resposta é curta e simples: não. Entretanto, o seu nome parece ser inspirado no da deusa Amonet, a contraparte feminina do deus Amon.

 

Os equívocos:

E como era de se esperar, uma série de equívocos foram realizados, como a afirmação de que o mercúrio era utilizado pelos antigos egípcios para afastar os “maus espíritos” — isso é irreal [2]— ou que o deus Set é a divindade da morte; em verdade era do caos e do deserto. E ao contrário dos demais filmes que fizeram algum esforço para se inspirar em artefatos egípcios, aqui inspiração é a mínima possível. A Egiptomania ganha destaque e a Egiptologia é pouco levada a sério.

A Arqueologia também não tem muito espaço: o filme é aberto com uma imagem que está cada vez mais comum, que é a de radicais destruindo artefatos arqueológicos. Neste sentido a arqueóloga Jenny Halsey (Annabelle Wallace) era quem supostamente deveria catalogar estes objetos e salvar o que pudesse para manter ao menos algum registro histórico. Contudo, ela só tem olhos para o sarcófago de Ahmanet — o que perpetua a ideia de que o profissional arqueólogo está sempre em busca de coisas particulares que são, em poucas palavras, “a pesquisa da sua vida” — e ainda o transporta da forma mais questionável possível, com o uso de cabos e um helicóptero.

As roupas, penteados e maquiagem têm um apelo estético levemente voltado para a antiguidade egípcia. Nós entendemos que o Egito Antigo está ali, mas ele foi modificado para hora parecer visualmente mais agradável ao espectador (como é o caso da maquiagem da princesa que apesar de linda seu design só tenta se associar a antiguidade egípcia), hora para parecer grotesco (como as cabeças com um toucado nemes[3] que estão no topo da prisão de Ahmanet).

Foto: Divulgação.

Foto: Divulgação.

Foto de bastidor: Divulgação.

Os acertos:

Apesar de terem errado ao classificar Set como deus da morte, acertaram ao associar o poder de Ahmanet com pragas, a exemplo do bando de aves que atacam o avião ou os ratos em Londres da alucinação do Nick.

Personagens Jenny e Nick. Foto: Divulgação.

Figura feminina egípcia com marcas que provavelmente são tatuagens. Museu do Louvre.

Já quando Ahmanet recebe o poder de Set tatuagens passam a cobrir o seu corpo. Em entrevista um dos membros da equipe de gravação afirmou que isso era para dar um ar mais bizarro para a personagem, mas, tatuagens muito parecidas eram utilizadas por mulheres na antiguidade egípcia. Existem registros arqueológicos que retratam corpos femininos com pontinhos espalhados pelo corpo, figuras geométricas, imagens de deuses ou formas amuléticas. Tatuagens no Egito Antigo é um tema um pouco nebuloso, mas, caso queira saber mais sobre este assunto assista ao vídeo “Tatuagens no Egito Antigo” clicando aqui.

Outro ponto são os cruzados possuírem um artefato egípcio. O Egito era um ponto estratégico para o domínio do Levante, então é plausível que esses soldados carregassem consigo algo do país.

E por fim existem casos de mulheres ter o poder supremo do Egito, no vídeo Mulheres Faraós comento brevemente sobre elas. Se a personagem Ahmanet não fosse inclinada para o mal ela provavelmente teria tornando-se regente do irmão e se tivesse uma boa rede política assumiria como faraó tendo o seu irmão como herdeiro. Foi esse o caso da Hatshepsut, a diferença é que o seu herdeiro foi o seu enteado, Tutmés III.

 

Referências aos demais filmes:

A Múmia é uma franquia com quase 100 anos com um filme inspirando ou alimentando os outros. Neste de 2017 as maiores inspirações vieram dos de 1999 e 2001. Desta forma, fiquem de olho nas cenas de luta, porque ao menos duas delas foram inspiradas nas desses dois títulos. Prestem também atenção no som emitido pelas múmias, são os mesmos das que aparecem nesses dois filmes. O rosto do monstro na tempestade de areia foi novamente utilizado e os famosos escaravelhos carnívoros foram substituídos por aranhas-camelos venenosas. Mas, a melhor referência, sem dúvida, foi o aparecimento do Livro de Ouro de Amon-rá.

O Livro de Ouro de Amon-Rá no filme de 1999. Captura.

Ser sepultada viva é um ingrediente presente em todos os outros filmes. A única diferença, como já foi citado, foi ela não ser despertada por meio de encantamentos.

Ser sepultado vivo faz parte de todas as tramas do monstro “A Múmia” da Universal.

A tempestade de areia: uma das referências a outros dois títulos da franquia.

Um monstro mulher foi o grande trunfo, mas sua sexualização o desvinculou do restante da franquia. Enquanto tínhamos um Imhotep ou um Kheris com o objetivo de despertar a amada, Ahmanet vê em seu “escolhido” a chave para o poder com um discurso sexual nas entrelinhas. Mas, isso não para aí: enquanto que o Imhotep de 1999 e 2001 suga a vida das suas vítimas pelo ar a Ahmanet se utiliza do beijo. Isso nos remonta ao texto de Craig Barker, Friday essay: desecration and romanticisation – the real curse of mummies — que foi traduzido aqui no A.E. — onde ele faz a seguinte pontuação:

Um número de estudiosos, especialmente Jasmine Day, têm investigado o papel das múmias na ficção do século XIX e um aspecto interessante é o número de escritoras femininas desses contos.

Uma das, se não a mais antiga, história de múmia é The Mummy!: Or a Tale of the Twenty Second Century (1827) de Jane Webb (Loudon), que mostra o avivamento de Quéops no ano 2126. Outras escritoras apresentaram um interessante subtexto e perspectiva.

Os túmulos de múmias egípcias da realeza haviam sido violados e explorados por saqueadores, e uma analogia com o estupro é clara dentre as antigas ficções de maldição de múmias escritas por mulheres. Em contraste, escritores masculinos, como o Gautier, apresentavam muitas visões mais romantizadas ou eróticas dos mortos.

E de fato. “A Múmia” passou pelas mãos de quatro roteiristas, todos homens: Jon Spaihts, Christopher McQuarrie, David Koepp e Dylan Kussman.

Ahmanet e o seu “escolhido”.

O futuro da Dark Universe e de “A Múmia”:

O futuro para a franquia parece incerto, ao menos para alguns veículos de imprensa que apontam o “fracasso” e o prejuízo financeiro gerado pela bilheteria baixa. O objetivo do A.E. é falar principalmente da Arqueologia, Egiptologia e o uso do Egito Antigo em obras de ficção e não de questões que envolvam roteiro, efeitos especiais, etc. Entretanto, observando com um olhar mais crítico, não é difícil notar as grandes falhas de “A Múmia” em parte do seu roteiro e construção de alguns dos seus personagens. Especialmente como fã da franquia este é um filme divertido, mas com problemas que podem comprometer suas futuras continuações… Se existirem.

Tenha em casa: A Edições Del Prado, uma editora especializada em vendas de fascículos com imagens colecionáveis, possui uma coleção intitulada “Cenas do Egito Antigo”. Uma delas recria um momento durante a mumificação.

Clique aqui para conferir a peça ou aqui para ver as demais cenas.

 


Notas:

[1] A Adaga de Set é um artefato plenamente fictício inventado unicamente para o enredo do filme.

[2] Para quem tem curiosidade: existe um pequeno verbete sobre o raro uso de mercúrio no Egito no livro “Ancient Egyptian Materials and Technology” editado por Paul T. Nicholson e Ian Shaw (Cambridge University Press).

[3] Nemes: toucado listrado representado na cabeça de faraós.

Uma Viagem pelo Nilo: desconto de aniversário

Ontem foi aniversário do site Arqueologia Egípcia e para comemorar o livro “Uma Viagem pelo Nilo” (2014), que foi escrito por mim, está com desconto. Ele está custando R$27,00 (com frete incluso) até às 23h59 do dia 14/05/2017.

Quando escrevi esse material a ideia era ser uma introdução prática dos aspectos principais da Antiguidade egípcia. Então fico contente em saber que de fato meu livro tem desempenhado bem esse papel.

Vocês podem encontrar a sua cópia com desconto aqui mesmo no AE (clique aqui para comprar) ou através do meu próprio blog (clique aqui). A compra pode ser feita tanto com cartão de crédito (PayPal) ou depósito bancário (Banco do Brasil ou Caixa Econômica). Veja um vídeo em que apresento meu livro:

Infelizmente a venda do livro físico está disponível somente para o território brasileiro, mas os estrangeiros podem adquirir o e-book, que atualmente está sendo vendido pela Amazon, também com desconto, custando R$3,00. Clique aqui para comprar.

(Resenha – Série) “TUT”, uma série inspirada no faraó Tutankhamon (“Rei Tut”; 2015)

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille | Instagram

Este texto não contém spoiller.

Lançado em 2015, “Rei Tut” (“TUT”, no original), tem o enredo baseado na tentativa do jovem e rebelde faraó Tutankhamon (Avan Jogia) em manter o seu país a salvo, ao mesmo tempo que tenta se manter no trono, que é cobiçado por altos  cortesões e pelo clero tebano do deus Amon.

Assista os comentários em vídeo:

A série ganhou destaque por trazer um Tutankhamon repaginado e inspirado em sua vida militarizada, cujos detalhes estão surgindo graças as descobertas arqueológicas que ocorreram nos últimos anos, em especial os seus talatats que foram encontrados em Luxor e que relatam detalhes de como o exército do jovem rei colocou um fim em uma rebelião na Núbia (atual Sudão) (JOHNSON, 1990).

Porém, como muitas outras produções que envolvem acontecimentos do passado, a série “Rei Tut” não se livrou dos erros históricos, como, por exemplo, apresentar roupas anacrônicas tais como a adoção de túnicas e cortes, cores ou tecidos que não fizeram parte do vestuário egípcio antigo (tema que espero abordar em um futuro próximo, quando o canal do AE no Youtube alcançar 5.000 inscritos; clique aqui e saiba do que estou falando).

É feita também uma confusão em relação aos inimigos do Egito, apresentados na produção como os Mitanis, sendo que o problema naquele período eram os hititas. Explicando de forma rápida: no principio da 18ª Dinastia de fato os mitanis eram inimigos do Egito, no entanto, para estabelecer a paz entre ambos os países, os faraós Tutmés IV e Amenhotep III desposaram princesas desse reino. Entretanto, com o reinado de Akhenaton as coisas não se saíram tão bem, uma vez que o faraó não cedeu auxilio ao mitanis quando esses foram invadidos pelos hititas. Então, com a chegada do governo de Tutankhamon a relação entre essas nações tinha chegado ao fim, em especial devido a derrota anterior mitani (DARNELL, 2007 ).

Outro problema está em o faraó aparecer na frente de várias pessoas sempre. Esta não era uma prática comum, principalmente na época de Tutankhamon.

— Saiba mais: Fatos interessantes sobre os faraós: sua divindade e mais algumas curiosidades

Alguns erros em relação a arquitetura também são apresentados, como o palácio, retratado com andares e colunas em cada um, ou o Vale dos Reis, que está muito longe de parecer geograficamente com o real, além de ter sido montada uma superestrutura [1] para a tumba de Tutankhamon, algo que jamais existiu na realidade.

Como já apresentei anteriormente aqui no site e no canal, alguns dos principais personagens realmente existiram. O primeiro, naturalmente, é o faraó Tutankhamon, sua esposa Ankhsenamon, Akhenaton, seu vizir Ay, seu general Horemheb e dois personagens que na época em que comentei o trailer eu não sabia que tinham sido incluídos, que é o Narkhmind e o rei Tushratta. Os demais, a exemplo dos amantes do casal Tutankhamon e Ankhsenamon, foram inventados para a trama.

O Tutankhamon e a Ankhesenamon da realidade. Para saber como era o rosto dos demais personagens clique aqui. Fonte: STROUHAL, Eugen. A vida no Antigo Egito (Tradução de Iara Freiberg, Francisco Manhães, Marcelo Neves). Barcelona: Folio, 2007.

Tutankhamon e Ankhsenamon.

É citada uma praga no enredo e de fato ela existiu, mas o seu fim em nada tem relação com o desfecho apresentado na trama. Ela, em verdade, se seguiu além da morte de Tutankhamon.

“Rei Tut” estreou no Brasil através da Netflix e do canal fechado The History Channel. E no início de 2016 os seus direitos de exibição na TV aberta foram comprados pela Rede Globo. Contudo, não existe previsão de veiculação.

Fontes: 

JOHNSON, Raymond. The Tutankhamun Talatat. Chicago House Bulletin. Volume 1, N°3, August 15, 1990.
DARNELL, John Coleman; MANASSA, Colleen. Tutankhamun’s Armies: Battle and Conquest During Ancient Egypt’s Late Eighteenth Dynasty. Ney Jersey: John Wiley, 2007.

Links interessantes: 

Nefertiti e Akhenaton: o casal egípcio impossível de ser ignorado
O casal Ankhesenamon e Tutankhamon
7 curiosidades sobre o faraó Tutankhamon
The End of the Amarna Period
Tutankhamun’s War


[1] A “subestrutura” era onde o corpo era sepultado, já a “superestrutura” era a parte externa do túmulo.

(Resenha – filme) As Múmias do Faraó (2010)

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille | Instagram

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Lançado em meados de 2010, “As Múmias do Faraó” (Les Aventures extraordinaires d’Adèle Blanc-Sec, no original) é um filme francês inspirado nas HQs “As Múmias Loucas”, “Adèle e o Monstro” e “O sábio louco” do quadrinista Jacques Tardi. A trama é baseada na tentativa da Adèle Blanc-Sec (Louise Bourgoin) de curar a sua irmã, que sofreu um acidente que a deixou em uma espécie de coma. Para tal, a protagonista rouba uma múmia de um médico egípcio na esperança de ressuscitá-lo, para que ele utilize o seu avançado conhecimento para salvar a moça. Contudo, para que isso ocorra, Adèle precisa da ajuda do professor Marie-Joseph Espérandieu (Jacky Nercessian), um estudioso que descobriu como devolver a vida a pessoas e animais mortos há milênios. O problema é que em um dos treinos da sua técnica ele ressuscita um pterodáctilo (Sim! Um dinossauro!), que agora voa livre pelos os céus da França, levando o pânico à população.

O filme pode não agradar a muitos fãs da Antiguidade egípcia, até porque, apesar do título, o foco da trama está na bagunça proporcionada pelo despertar do dinossauro e nas tentativas da Adèlede de ter acesso a Espérandieu. A múmia roubada é um pequeno fio em toda a trama e o título brasileiro foi pensando totalmente fora do contexto [1]. Exatamente por isso que o título original, cuja a tradução é “As aventuras extraordinárias de Adèle Blanc-Sec”, teria feito muito mais sentido. Inclusive, o homem que aparece na capa brasileira não tem relação alguma com o restante da história, sendo praticamente um mero figurante.

“As Múmias do faraó”, a exemplo de outras produções cinematográficas, apela para a ideia de que o Egito Antigo é um lugar com poderes mágicos ocultos e ciência avançada (em um dado momento, por exemplo, é sugerido que nos tempos dos faraós eram realizados estudos de energias moleculares, o que é um equívoco).

Somado a isso, com a desculpa do entretenimento alguns absurdos, do ponto de vista da Arqueologia, são apresentados. O primeiro é a “máquina de mumificar”, um aparelho presente no início do filme e que, embora divertido, nunca existiu. Todo o processo de mumificação era realizado manualmente. O outro é o de que uma tumba teria uma entrada e uma saída, o que é totalmente errado; uma sepultura possuía somente uma porta que deveria ser lacrada. Em um vídeo para o canal do Arqueologia Egípcia listei e comentei mais algumas incoerências presentes no filme. Assista abaixo:

Uma sacada interessante do filme – e a qual não tenho muita certeza se foi proposital – é que a Adèle, em um momento de fuga, encontra um remo dentro de um sarcófago. Isso realmente poderia ocorrer, já que em espaços funerários egípcios não era incomum por artefatos de cunho aquático, tais como embarcações, desenhos de barcos e mesmo remos. Outra curiosidade, mas que não tem a ver com a Arqueologia, e sim com a história dos HQs na França: em um dado momento do filme alguns rapazes estão vendendo jornais e um deles é o “Excélsior”, que, na vida real, publicava história em quadrinhos. Claramente uma homenagem.

Considerações finais:

“As Múmias do Faraó” foi um filme que demorei para gostar. O assisti em 2010 ou 2011 e não foi do meu agrado. Precisei assisti-lo novamente em 2016 (para realizar esta resenha e gravar o vídeo para o Cine Arqueológico) para ele finalmente se mostrar um bom divertimento, apesar das suas peculiaridades. A Belle Époque, período em que se passa o filme, é apresentada de uma forma detalhada e quase nostálgica. O espectador se sente de fato como se pudesse vivenciar esse período. A direção de arte e figurino realmente fez um trabalho primoroso.

Adéle não é uma personagem feminina habitual. Não espere ver uma mulher dócil e introspectiva. Em verdade a personagem é desbocada, feroz e apaixonada por seus ideais (apesar de as vezes passar por cima da lei para alcançá-los). Suas atitudes acabam passando o recado de “ame-me ou odeia-me”, o que a torna humana, no final das contas. Em contrapartida, temos o personagem Andrej (com “j” de “jardim”, quem assistiu ao filme entenderá), um acadêmico modesto, esperto e correto, uma lufada de ar fresco entre tantos personagens com índole duvidosa (onde a própria Adèle está inclusa).

Por fim, não espere ver um filme de ação ao estilo “A Múmia” de 1999. “As múmias do faraó” está mais para uma comédia com um pouco de humor negro e personagens caricatos. A minha dica é que assistam a esse filme totalmente desprendidos de qualquer realidade histórica, divirtam-se, mas, claro, depois retornem para esse post para aprender um pouco.

Fotos de Bastidores:

Agradecimentos:

Ao Lucas Pimenta, fã das revistas da Adèle, por disponibilizar o seu tempo me auxiliando ao esclarecer alguns pontos sobre a personagem.


[1] ATENÇÃO, clicando no botão abaixo você lerá um spoiler:

Clique aqui para ler o spoiler

As tais múmias referem-se a uma exposição que está ocorrendo no Museu do Louvre. Elas são ressuscitadas pelo o professor e fecham o filme caminhando livres por Paris.

 

(Filme – Resenha) “A pirâmide” (2014)

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

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O filme “A Pirâmide” (“The Pyramid”, no original) é uma ficção de terror cuja trama se baseia na ideia da descoberta de uma misteriosa pirâmide de três paredes encontrada no deserto do Egito no auge da Primavera Árabe. Sua estreia ocorreu em dezembro de 2014.

Filmado em uma mistura de found footage e gravação em terceira pessoa, o enredo nos traz os arqueólogos Nora (Ashley Hinshaw) e Holden (Denis O’Hare), que descobrem uma pirâmide de construção incomum no meio do deserto egípcio através de imagens de satélite. O que chama a atenção da cinegrafista Sunni (Christa Nicola) e o câmera Fitzie (James Buckley) que vão até o sítio arqueológico para poder gravar um especial com a equipe abrindo a tumba pela primeira vez. Porém, assim que eles adentram o local descobrem que sair de lá não será nada simples.

Apesar de algumas loucuras cinematográficas (é de praxe, dificilmente algum filme que queira vender fugirá disso), “A Pirâmide” é um dos pouquíssimos longas que conseguiram usar elementos tão reconhecíveis do Antigo Egito e dos trabalhos de Arqueologia. Dois bons exemplos é a própria descoberta da pirâmide, que me lembra os estudos realizados na pirâmide de Djedfra, que também está localizada no deserto e que cuja pesquisa inspirou um documentário para a The History Channel com mais de duas horas de duração. Outro é a descoberta de sítios arqueológicos com o uso de imagens de satélites ou fotografias aéreas, ferramentas que têm sido utilizadas já há muitos anos. Mas certamente a inclusão desta metodologia no filme foi inspirada por algumas notícias que rolaram na internet e em alguns programas de TV de que pirâmides teriam sido descobertas no deserto egípcio. Infelizmente, tais notícias beiravam ao equívoco.

Foto: Divulgação.

Porém, o filme propõe que alguns arqueólogos são avessos a tecnologia. De fato alguns usam metodologias demasiadamente defasadas, mas isso não é geral. Muitos são extremamente receptivos a novas ferramentas que possam auxiliar na interpretação arqueológica. O problema é saber usar. Aí já é uma outra questão. A desculpa do filme é que usar novas metodologias e ter resultados totalmente diferentes dos alcançados em outras ocasiões implicaria questionar trabalhos de uma vida. Acreditem, existe gente realmente assim, mas novamente este pensamento não é unanime e muitos são ansiosos por novas descobertas.

Sobre o robozinho, o Shorty, há anos pesquisadores tentam utilizar robores com câmeras para entrar em estruturas arqueológicas. Isso, inclusive, foi realizado na pirâmide de Khufu e as imagens foram transmitidas ao vivo para os espectadores em casa pela National Geographic. A pena é que não encontraram nada [1].

Retornando para o enredo, a princípio a pirâmide é associada com o faraó Akhenaton, mas depois corrigem explicando que ela seria de um outro período. Mas só aproveitando a deixa; na época de Akhenaton, o Novo Império, reis não estavam mais sendo sepultados em pirâmides, mas em hipogeus. Somente em duas épocas a alta nobreza foi inumada em pirâmides: durante o Antigo Reino e durante a Baixa Época, quando o Egito esteve sob domínio núbio.

Foto: Divulgação.

E eles fazem um brevíssimo comentário tecendo um paralelo entre o Aspergillus e maldições: Bem no início do filme, quando todos estão esperando a abertura da pirâmide, ocorre uma explosão de um pó verde, que mais tarde nos é revelado que se trata do Aspergillus. Em outro momento, quando todos estão calmos, o Holden, um pouco irritado, diz que nem quer ouvir falar de uma sugestão de maldição. A fala dele tem relação com um acontecimento real; a proposta de que o Lord Carnarvon, patrocinador da descoberta da tumba do faraó Tutankhamon, teria morrido graças a infecção do seu sangue pelo o Aspergillus, isso após ter sido picado por um mosquito e ter machucado o local ao se barbear (- Saiba mais assistindo: “A Maldição de Tutankhamon”). Aqui no Arqueologia Egípcia já até citei a morte de uma turista pelo Aspergillus no texto “(Resenha – Documentário) A Maldição de Tutankamon, da Discovery”.

Foto: Divulgação.

E foi interessante ver no filme o Ministério das Antiguidades do Egito (MSA) ser citado porque ele foi criado justamente na época da Primavera Árabe de uma forma relâmpago. O Ministério é mencionado porque no enredo ele estava retirando todas as equipes de Arqueologia do país. Porém, na realidade os poucos arqueólogos que estavam trabalhando no Egito foram justamente utilizados como propaganda pelo governo para passar para o mundo que estava tudo sob controle no país. Por outro lado, algumas regiões desérticas estão sob o auspício de militares, então os roteiristas do filme podem ter realizado esta relação, embora, mesmo antes da Primavera, pesquisas nessas regiões eram proibidas devido as próprias manobras do exército.

Na cena do arsenal que eles encontraram dentro da tumba vê-los utilizar o luminol foi no mínimo peculiar. Posso estar errada, mas acredito que esta ferramenta não funciona em artefatos arqueológicos. Deixo em aberto aí para quem tem realmente uma boa experiência na área responder.

Foto: Divulgação.

E claro, temos os anacronismos. Nenhum filme que cite algum assunto histórico está de todo imune a esse tipo de erro. Existiam vários tipos de textos funerários, mas o Livros dos Mortos, que é citado no filme, passou a ser popularizado no Novo Império. Na época das pirâmides os que eram utilizados são os chamados hoje de “Textos das Pirâmides”. Também é dito que os Gatos Esfinges são da Antiguidade egípcia, mas a verdade é que eles não existiam no Egito, esta foi uma licença poética do longa. Este tipo de raça surgiu somente na década de 1960 aqui na América.

Também é citado os maçons como ladrões de tumbas. Não sei exatamente de onde eles tiraram esta ideia, mas creio que deve ter alguma relação com o fato de que alguns maçons eram membros da nobreza dos séculos XVIII, XIX e XX, que, por sua vez, costumavam ser colecionistas.

Considerações finais:

Ao contrário das várias críticas negativas que este filme ganhou em alguns sites, em um sentido muito geral (e ignorando alguns efeitos especiais de um gosto bem questionável) gostei do enredo. A pena é que apesar de ter casado, na medida do possível, tão bem com a Arqueologia e a cultura egípcia faraônica, o final, ao menos para mim com o meu olhar de arqueóloga, foi bem decepcionante. Não posso falar do que se trata, porque é um spoiller, mas eu o cito na conclusão do vídeo que gravei para o canal do Arqueologia Egípcia no YouTube, onde também comento sobre este filme:

Dicas de leituras:

Sobre a pesquisa com robôs dentro da pirâmide de Khufu:

The Secret Doors Inside the Great Pyramid. Disponível em <http://www.guardians.net/hawass/articles/secret_doors_inside_the_great_pyramid.htm>. Acesso em 04 de junho de 2016.

Robot to Expose Hidden Secrets of the Pyramids. Disponível em <http://www.livescience.com/6860-robot-expose-hidden-secrets-pyramids.html>. Acesso em 04 de junho de 2016.

Acerca de presença do Aspergillus em sítios arqueológicos:

(Resenha – Documentário) A Maldição de Tutankamon, da Discovery. Disponível em <http://arqueologiaegipcia.com.br/2014/05/08/resenha-documentario-a-maldicao-de-tutankamon-da-discovery/>. Acesso em 04 de junho de 2016.


[1] Somente posteriormente conseguiram ver que no pequeno espaço tenham inscrições hieroglíficas ao estilo das que existem em uma das câmaras da própria pirâmide, que apontam os nomes das equipes de trabalhadores que a construiu.

(Artigo) O Festival de Osíris e a Legitimação da Monarquia Faraônica durante o Reino Médio Tardio

O Festival de Osíris e a Legitimação da Monarquia Faraônica durante o Reino Médio Tardio | Beatriz Moreira da Costa

A manutenção do status divino do faraó no Egito Antigo era de grande importância para a ideologia real. Dessa forma o faraó participava de numerosos rituais e festivais destinados a reforçar a sua divindade e a sua relação com o ka real. A partir do pressuposto que ação ritual é poder, o presente artigo tem como objetivo analisar o Festival de Osíris, tendo como recorte temporal o Reino Médio Tardio.

Obtenha o artigo O Festival de Osíris e a Legitimação da Monarquia Faraônica durante o Reino Médio Tardio.