Livro “Nefertiti: O Livro dos Mortos” de Nick Drake: uma trama policial no Egito Antigo (Comentários sem spoiler)

Um homem poderoso comandando é uma coisa; uma mulher poderosa é outra bem diferente.

— ‘Nefertiti: O Livro dos Mortos’, Nick Drake, página 150.

Escrito por Nick Drake, “Nefertiti: O Livro dos Mortos” (Nefertiti: The book of Death) é o primeiro livro da série policial protagonizada pelo detetive Rahotep. Baseado em cenários e alguns personagens reais, a história se passa durante o final da 18ª dinastia (Novo Império), mais especificamente na época do reinado do faraó Akhenaton. Narrado em primeira pessoa o enredo conta a história de Rahotep, um integrante incomum da medjay que faz uso de técnicas de investigação bem anormais para o contexto do Egito Antigo e que por conta disso é acionado pelo faraó Akhenaton para resolver um mistério: o desaparecimento da rainha Nefertiti.

Sabendo qual a sua missão e que tem um tempo curto para resolver tal enigma— e que se falhar não somente ele, mas a sua família sofrerá uma terrível punição — Rahotep se aprofunda cada vez mais na vida da realeza, suas crenças, hipocrisias e mundo de aparências. E paralelamente passa a conhecer mais sobre a personalidade da rainha sumida e sua importância para a manutenção do equilíbrio político no reino.

— Esta cidade, este mundo novo esplêndido e iluminado, este futuro glorioso. Tudo parece glorioso, mas está construído sobre areia. Todos estão determinados ou são forçados a acreditar nisso para torná-la possível. Mas sem ela, sem Nefertiti, não é possível acreditar nisso. Não é verdadeiro. Não vai funcionar. Vai desmoronar.

— ‘Nefertiti: O Livro dos Mortos’, Nick Drake, página 85.

O mistério do sumiço de Nefertiti faz Rahetep enfrentar vários perigos mortais e sofrer experiências incomuns. A partir do momento em que ele entrevista os indivíduos que fizeram parte do convívio dela muitos tornam-se suspeitos em potencial e a cada página parecem ter algo a esconder ou a proteger, mesmo que sejam somente interesses pessoais.

Nick Drake. Foto: Divulgação.

Nascido em Londres em 1961, Drake além de escritor de mistérios é poeta e dramaturgo. Estudou na Universidade de Cambridge e trabalhou em vários projetos envolvendo outros artistas e cientistas. Seu primeiro livro envolvendo o Egito Antigo, Nefertiti: Book of the dead, foi publicado pela primeira vez em 2006. Nesta época ele foi indicado para o prêmio Crime Writers’ Association Best Historical Crime Novel (Melhor Romance Histórico Policial da Associação de Escritores Policiais) e atualmente está sendo adaptado para a TV por Patrick Harbinson, produtor de Lei e Ordem: Unidade de Vítimas Especiais, Homeland, 24 Horas, dentre outros.

O universo criado por Drake nos apresenta um Egito Antigo quase convincente e factual. O que está explicito é que ele realmente se dedicou a estudar variados aspectos essenciais das sociedades egípcias do faraônico, mas incluindo muitos pontos da nossa e várias licenças poéticas, como vocês poderão conferir mais a diante. Ele conseguiu trabalhar com esse conhecimento e recriar um egípcio do faraônico sem parecer artificial; Nós estamos o tempo todo com o Rahotep, estamos em sua cabeça e conferindo suas anotações, ou seja, nós estamos na antiguidade egípcia.

Confira a resenha em vídeo deste livro no canal do Arqueologia Egípcia no Youtube; muitas das pontuações que não estão aqui estão presentes no vídeo, então assista-o para ter uma abordagem mais completa.

O que chama a atenção na obra é que Drake não cria um Egito Antigo místico, bucólico e saudosista a exemplo de muitas criações que trazem o tema, onde os leitores são apresentados a um personagem principal prefeito e belo, extremamente inteligente ou com outras qualidades superiores quanto. Aqui o escritor apresenta um Egito mais próximo da realidade, partindo do ponto de vista de alguém da população comum que precisa por comida na mesa, educar seus filhos e tem seus próprios pensamentos sombrios e pouco belo do mundo. Rahotep tem uma inteligência única, contudo, é vulnerável, tem suas dúvidas existenciais, mas, não busca por respostas na religião.

E foi aí que fiz a coisa mais difícil da minha vida. Vestindo minha melhor roupa de linho e com minhas autorizações na pasta, fiz uma breve libação para o deus da casa. Orei com sinceridade incomum (pois ele sabe que não acredito nele), por sua proteção e pela proteção de minha família.

— ‘Nefertiti: O Livro dos Mortos’, Nick Drake, página 17.

E como cenário para o desenvolvimento da trama temos o afamado Período Amarniano apresentado aqui como caótico, à beira de um colapso, onde há a escassez de alimentos e o faraó não está em bons termos com os sacerdotes de Tebas. É fato que o faraó Akhenaton se desvinculou do culto a Amon para se dedicar ao deus primordial Aton. Contudo, o caos social pelo qual o Egito passou naquela época está mais próximo de uma propaganda política negativa posterior. Não que a população não tenha sofrido em vários momentos, mas, ao que parece não foi tão diferente do que no reinado do seu pai, Amenhotep III.

Para aqueles que leram o livro, mas não conhece a história egípcia ou a conhece de forma artificial é preciso realizar uma apresentação geral do que ocorreu na época em que o faraó Akhenaton viveu: Como já citado, o deus Aton era uma divindade primordial, sendo um dos aspectos do deus Rá. Recebeu pouca atenção dos faraós, em especial durante o Novo Império, quando o patrono da cidade de Tebas, Amon, tornou-se o deus principal se tornou. Tebas, a princípio, era uma cidade pequena, mas que foi alçada a capital após a invasão dos hicsos e a reunificação do Egito por parte dos seus príncipes devotos a Amon. Como consequência, templos a este deus foram erguidos e o seu clero enriquecendo.

Akhenaton. Foto: Rena Effendi.

Décadas mais tarde, com a chegada do reinado do faraó Amenhotep III os sacerdotes de Amon já eram extremamente poderosos e o rei percebeu que algo necessitava ser feito. Assim, começou a dar espaço para outras divindades, entre elas Aton. Porém, foi com o reinado do seu filho que as coisas se tornaram mais radicais: Nascido Amenhotep IV, Akhenaton construiu um pequeno templo a Aton dentro do templo de Amon em Luxor e posteriormente transfere a capital para a recém-criada cidade de Aketaton. Lá muda o seu nome e passa a cultuar somente Aton.

Inaugurada no Ano 6 (e não no Ano 12, como afirmado no livro), Aketaton é uma das primeiras cidades planejadas da antiguidade. Foi nela onde três das seis filhas do rei com Nefertiti nasceram (as outras três foram em Tebas) e onde Akhenaton faleceu após 17 anos de reinado.

— Conheça mais sobre este Casal Real: Nefertiti e Akhenaton: o casal egípcio impossível de ser ignorado

Nos seus sítios arqueológicos foram encontrados vários registros da família real executando tarefas religiosas ou em simples momentos de deleite. Na maioria destas obras tanto Akhenaton — assim como a sua esposa e suas filhas — foi representado com feições excêntricas (crânios alongados, braços longos, coxas bem roliças e seios proeminentes). Estas características artísticas levantaram alguns debates sobre a possibilidade de que a família possuísse alguma deformidade, mas com o avanço dos estudos da Arqueologia Egípcia a maior probabilidade na atualidade é que essas representações sejam um discurso político onde o rei queria se representar especial, diferente da população comum.

Nefertiti, Akhenaton e uma de suas filhas prestando homenagens a Aton. Foto: Wikimedia Commons.

Retornando a obra, além de Akhenaton e Nefertiti os leitores são apresentados a outros personagens históricos reais tais como Mahu (chefe de polícia), Meryra (Sumo sacerdote de Aton), Horemheb (general), Ay (Sacerdote Pai Divino, Escriba Real, Intendente dos Cavalos e mais outros títulos honoríficos), Tiye (Rainha Mãe), Kiya (esposa secundária de Akhenaton), as filhas de Nefertiti, Tutmosis (escultor) e Nakht[1]. Porém, todas as situações em que eles estão envolvidos e suas personalidades são totalmente fictícias, não tomem como realidade histórica. São acontecimentos criados pelo autor unicamente para a sua trama.

E falando em criação para a trama, abaixo elenquei alguns pontos que são puros equívocos do Drake:

 

Os equívocos:

Vários dos objetos apresentados na obra não existiam no Egito Antigo, entre eles os livros, pipas, cabides, guarda-roupas, chafarizes, chaves e trancas. Outros erros é dar certas utilizações para determinados objetos que não condizia com a realidade, como, por exemplo, os papiros. Na trama eles são utilizados como folhas de diários e para os desenhos das crianças. Mas, na realidade eles eram utilizados para registros mais específicos tais como julgamentos, testamentos, formulas religiosas ou contos. Para anotações do dia a dia o que eram utilizados eram os ostracos.

E em dado momento é citada uma certa sociedade secreta chamada “Sociedade das Cinzas”. Isso também é fruto da imaginação de Drake para atender a sua trama.

 

Os acertos:

Logo nas primeiras páginas o Rahotep fala sobre a neve “no Norte”. Ele não fala exatamente o lugar, mas no Egito já teve ocorrência de neve, a exemplo da virada de 2014 para 2015, quando nevou justamente no Norte do país. Foi uma ocorrência incomum cujo precedente advindo da Antiguidade egípcia é desconhecido, mas nunca se sabe… E em outra das reflexões do personagem ele nos conta de algo que se comentava em sua juventude, de que há muitos anos o Egito era mais verde. Não sei se é plausível a memória oral viver tanto, mas muitos milênios antes do Egito ser unificado o território era muito mais arborizado, com grandes lagos e animais que no faraônico só podiam ser encontrados na África central. Para quem tem curiosidade em saber mais pesquise sobre a “caverna dos nadadores”, uma caverna localizada em Gilf Kebir que possui registros rupestres com cerca de 10 000 anos onde são retratadas pessoas nadando.

Agora, entrando no âmbito de profissões, o nosso investigador Rahotep é um medjay. Eles não só existiram como era um corpo militar responsável pela segurança e a ordem no Egito. Já a profissão de detetive em si não existia, entretanto, as investigações eram geridas pelos próprios medjays. Porém, como não existia ainda os Direitos Humanos as inquirições dos casos mais graves usualmente eram feitas com depoimentos dados após seções de tortura. Não existiam protocolos e no ato do julgamento somente uma pessoa dava o veredito. Alguns casos poderiam chegar até o faraó, entretanto, isso não garantia uma resolução justa.

E algumas vezes é citada a hereditariedade do cargo de sacerdote: Naquela época o mais comum era os filhos assumirem os cargos de seus pais, isso em todos os aspectos da sociedade.

O escultor Tutmosis (Tutmés), já citado rapidamente aqui, faz um passeio com o protagonista por seu ateliê. Lá mostra algumas cabeças de gesso com faces realistas. Elas também existiram e, por acaso, foi ele quem esculpiu o famoso busto da rainha Nefertiti.

Imagem de Nefertiti escupida por Tutmosis (Tutmés). Foto: Nile Magazine.

Rahotep fala de uma mulher nua em um momento de lazer em uma piscina. A nudez não era repreendida, não era um tabu. Este tipo de cena muito provavelmente era mais comum do que nós imaginamos. Ele também comenta sobre a cerveja e o vinho; sobre este último salienta que em seu jarro está gravado o ano de sua confecção e procedência. Isso também poderia ocorrer.

— Saiba mais: A cerveja no Egito Antigo: desde a intoxicação ao seu uso religioso

E uma informação que pode parecer incomum para alguns é o deposito de olhos de vidro em corpos de múmias. E sim, a bibliografia confirma a existência deste ato. Outros costumes e artefatos citados no livro realmente existiram tais como:

☥ O manto de leopardo: usualmente vestido por altos-sacerdotes;

☥ Muletas: utilizadas por vezes como uma representação de poder entre líderes militares;

☥ A existência de Cinco Nomes para o faraó;

☥ A rainha dar de amamentar: era incomum (este era o papel das amas-de-leite), mas é possível que Nefertiti tenha amamentado suas filhas;

☥ Lápis de mesdemet: lembra os nossos atuais lápis de olho. Já falei sobre eles aqui no AE (clique aqui para ler);

☥ Mutilação do rosto para tornar a pessoa irreconhecível no além: isso era feito principalmente com as estátuas e desenhos parietais;

☥ Luvas: inclusive as cito no vídeo “Curiosidade: 7 coisas que existia no Egito Antigo e que também usamos”;

☥ Barcos de junco: que por acaso era o meio de transporte mais comum;

☥ Os arqueiros núbios para a segurança do faraó: inclusive o faraó Tutankhamon, que reinará anos após a morte de Akhenaton, terá um grupo de elite trabalhando para ele;

☥ Meninas como noivas e meninos como reféns: era uma tradição comum no Egito as princesas de países dominados casarem com o faraó e os príncipes serem criados com a alta realeza egípcia dando uma falsa ideia de “irmandade”.

☥ Sacrifício do boi com chifres enfeitados: Este animal enfeitado poderia ser oferecido em sacrifício aos faraós.

☥ Cuxe (Kushe) como sendo a “mina de ouro” do Egito: o ouro que abasteceu o Egito era retirado, principalmente, do atual Sudão, onde antigamente estava localizado o reino de Kushe;

☥ Tempestade de areia: eram, e ainda são, bastante comuns no Egito. A mais perigosa é chamada de khamsin.

 

Ankhkheperura é citada no livro?

Este é um pequeno spoiler. Recomendo que você prossiga somente se já leu todo o livro:

Clique aqui para ler o spoiler

Em um determinado momento Rahotep lê um texto que termina com a seguinte frase: “Quando alcançares o que procuras, verás que é uma mulher. Seu símbolo é a vida.” (página 184). Não sei se foi proposital por parte do Drake, mas existiu entre os reinados de Akhenaton e Tutankhamon o reinado de uma pessoa chamada Ankhkheperura Neferneferuaton. Por muito se achou que ela seria o rei Ankhkheperura Smenkhara. Entretanto, alguns egiptólogos acreditam que Ankhkheperura seria, em verdade, uma mulher e que esta poderia ter sido Nefertiti. O “ankh” (Ankhkheperura) significa “vida”.

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Considerações finais:

“Nefertiti: O Livro dos Mortos” é um livro pouco usual no sentido de que não se apega a um Egito místico, tão comum em obras orientalistas. E apesar de não ter despertado muito o interesse dos booktubers (não encontrei nenhuma resenha) é uma obra que aconselho, em especial para quem gosta de enredos que envolvam mistérios e romances policiais. Embora eu particularmente não tenha achado os acontecimentos finais tão interessantes estou muito empolgada para começar a ler a sua continuação, o “Tutancâmon”.

A Editora Record ainda não demonstrou (ao menos não publicamente) interesse em trazer o volume final, Egypt: The Book of Chaos.

Dados do livro:

Título: Nefertiti: O Livro dos Mortos

Título Original: Nefertiti: The book of dead

Autor: Nick Drake (http://www.nickfdrake.com/)

Tradutor: Ricardo Silveira

EAN: 9788501090430

Gênero: Policial

Coleção: Rai Rahotep

Páginas: 350

Editora: Record

Link no Skoob: https://www.skoob.com.br/nefertiti-o-livro-dos-mortos-235609ed263373.html


[1] Por conta da grafia do nome fiquei com dúvida, mas acredito que ele seja o Nakhtmin.

(Resenha-Livro) “Gramática Fundamental de Egípcio Hieroglífico” do Ronaldo Gurgel Pereira

Por Márcia Jamille | Instagram | @MJamille

Lançado em 2014, a “Gramática Fundamental de Egípcio Hieroglífico” é uma obra completa para os falantes em língua portuguesa interessados em se especializar academicamente na Egiptologia. Ronaldo Guilherme Gurgel Pereira, seu autor, é egiptólogo e leciona gramática egípcia clássica na Universidade de Nova Lisboa, Portugal.

“Gramática Fundamental de Egípcio Hieroglífico”, Ronaldo Guilherme Gurgel Pereira. 2014.

Um dos temas que mais chamam atenção dos curiosos ou estudiosos da história egípcia certamente são os hieróglifos egípcios. Seu nome deriva das palavras gregas hieros “sagrado” e hyphos “escrita”. Essa denominação foi empregada porque os hieróglifos tinham sido uma escrita amplamente utilizada em templos e monumentos sagrados bem como em alguns túmulos, o que deu aos gregos a ideia de que o seu uso era estritamente sagrado, embora igualmente fossem encontrados em objetos banais como peças de toalete ou mobílias. Sabemos que esse tipo de escrita foi utilizada desde a formação do reino egípcio até 396 d.E.C., ano em que o imperador Constantino proibiu o uso deste tipo de linguagem e o culto aos deuses egípcios.

No primeiro capítulo, “Origem da língua Egípcia Antiga”, o autor nos apresenta ao surgimento desta escrita e sua evolução temporal, fazendo uma distinção entre o seu estágio Inicial (antigo) e Final (tardio).

Igualmente ele nos fala sobre o surgimento do “egípcio cursivo”, da “escrita hieroglífica ptolomaica”, da escrita demótica e o “copta antigo”, considerado o último vínculo com a linguagem dos tempos faraônicos e que atualmente é utilizada como língua litúrgica da Igreja Ortodoxa copta.

Ronaldo Guilherme Gurgel Pereira.

No segundo capítulo, “Decifração dos hieróglifos egípcios”, o autor explica como se deu a queda do uso da escrita hieroglífica e demótica graças a cristianização do Egito e como o grego foi utilizado para a evangelização. Ronaldo ainda cita as tentativas de tradução dos hieróglifos anteriores ao francês Jean-François Champollion, como o caso do jesuíta alemão Athanasius Kircher que século 17 lançou suas suposições sobre como seria possível traduzir os hieróglifos. Porém, suas propostas de traduções se mostraram erradas. Outros nomes importantes são citados, muitos deles desconhecidos do público comum e inclusive acadêmico.

No terceiro capítulo, “Escrita Hieroglífica Egípcia”, são explicadas as grandes mudanças sofridas pela escrita hieroglífica ao longo de todo o faraônico. Ainda somos apresentados para as diferenças entre fonograma, logograma e determinativos, funções importantes para a tradução e que por isso devem ser entendidas pelos alunos no princípio dos seus estudos.

Apesar destes três primeiros capítulos elucidarem vários pontos históricos da escrita egípcia, o leitor deve ser avisado de antemão que, assim como explica o título, este livro trata-se de fato de uma gramática e como tal abordará assuntos como substantivo, prefixos, flexões de gênero e número, morfema, concordância, etc, ou seja, se o interessado não estiver familiarizado com as regras gramaticais da língua portuguesa irá ter muita dificuldade para compreender o assunto. Assim, a partir do Capítulo D (4º) serão tratadas as explicações das regras gramaticais do ponto de vista do faraônico. Um quesito importante é que a obra possui alguns exercícios e suas respectivas respostas.

Particularmente apreciei muito a inclusão de glossários ao final de alguns capítulos, que além de apresentar traduções, auxilia os estudantes a se familiarizarem com os hieróglifos e as suas respectivas transliterações. Devo explicar que em determinados trechos da obra só foi possível compreender o que o autor quis passar porque eu já tinha tido aulas de introdução a hieróglifos na UFS, ou seja, esse livro não é de todo indicado para quem nunca teve um contato prévio com essa linguagem, a não ser que esteja extremamente curioso e disposto a entendê-la sozinho.

Uma dica que dou é que o estudante ao separar as traduções dos textos literários escolha aquelas que estão acompanhadas por suas respectivas transliterações. Assim os ensinamentos do livro tornam-se mais fáceis. Aconselho igualmente que o interessado tente se familiarizar com a história egípcia ou ao menos com a divisão temporal do faraônico.

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Considerações finais:

Uma das maiores reclamações acerca desta obra é o preço, contudo, a maioria dos livros de Egiptologia costumam custar valores a partir de R$90,00, alguns chegam até mesmo ao valor de R$1.000. Levem em consideração que comprar este livro é um investimento em seu futuro acadêmico.

Apesar de volumoso, ele é de um material leve e com folhas amareladas (que deixa a leitura mais agradável), porém o material da capa deixa um pouco a desejar. Mas, no geral, é uma obra magnífica e um marco para o estudo da Egiptologia em língua portuguesa.

Dados do livro:

Título: Gramática Fundamental de Egípcio Hieroglífico

Gênero: Egiptologia

Autor: Ronaldo Guilherme Gurgel Pereira

Editora: Chiado

Ano de Lançamento: 2014

Edição: 1ª Edição

(Resenha – Livro) A vida no Antigo Egito, de Eugen Strouhal

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

A vida no Antigo Egito, de Eugen Strouhal. 2007.

A vida no Antigo Egito (Life in the Ancient Egypt, no original) é um dos livros que eu mais cito em artigos, embora ele não seja do meu agrado. Ele apresenta de forma linear aspectos da vida no Egito faraônico como a concepção da vida, o nascimento, a educação infantil, as brincadeiras, o amor, sexo, trabalho e a morte. O seu autor, o Eugen Strouhal, estudou medicina, arqueologia e antropologia em Praga e Bratislava.  Trabalhou no Egyptological Institute e no Naprstek Museum em Praga e já escavou na Núbia com uma missão checa e no Egito na cidade de Abusir. Também trabalhou com uma missão anglo-holandesa.

Em um contexto geral a obra não decepciona, mas existem algumas questões problemáticas. Uma delas é o aparente machismo do autor, que descreve a vida das mulheres como parte da preocupação econômica dos homens, adotando o discurso de que elas não precisavam trabalhar para se sustentar, embora saibamos que esta é uma ideia equivocada e que leva a diante os discursos propagados por egiptólogos de séculos passados. Em complemento embora sustente o discurso da inferioridade feminina no Egito Antigo, ele consegue contradizer-se em outras sentenças ao falar da liberdade das mulheres egípcias, como escrever contratos de emprego, exercer diferentes cargos desde camponesas a supervisoras e até disponibilizar empréstimos.

Eugen Strouhal.

Da mesma forma é a afirmação da existência de escravidão: ele usa esta definição, embora o conceito de escravidão para o Antigo Egito precise ser revisado porque também foi pensado no início da Arqueologia Egípcia, quando o seu estudo era influenciado ao máximo pelas fontes clássicas e bíblicas.

Outra grande questão identificada são os erros de digitação (letras em falta, palavras escritas com as sílabas separadas) e de ortografia de alguns nomes próprios. A escrita em si também não é muito animadora, sendo por vezes um pouco confusa (como no 1º Capítulo) ou não linear, o que pode confundir até mesmo os leitores mais inteirados na antiguidade egípcia.

Existe também a ausência de referências em meio aos textos para a confirmação de alguns dados, exceto pela lista bibliográfica ao final. Logo, a única fonte de informação acerca de determinados assuntos é o próprio Strouhal, mas este não é um problema único dele, podemos notar isso em muitas outras obras estrangeiras (o que é bem irritante).

Contudo, um dos pontos positivos é justamente a presença de várias informações acerca da vida cotidiana no Egito faraônico, todavia, reiterando, algumas informações são equivocadas e frutos de estereótipos. O outro são os registros fotográficos, o livro é muito bem ilustrado e as fotografias contém em suas legendas informações parciais sobre o sítio de onde se localiza (ou se localizava) o objeto retratado e a datação dele de acordo como período histórico ou dinastia.

Ele também apresenta muitos termos do egípcio antigo, o que pode enriquecer um pouco o conhecimento linguístico dos leitores.

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Reafirmo que no geral ele não decepciona, mas eu aconselho aos interessados a lerem obras de teoria da Arqueologia e criticas ao Orientalismo antes de se dedicar a este livro porque assim será possível entender alguns dos posicionamentos adotados ao longo dos capítulos.

Dados do livro:

Título: A vida no Antigo Egito

Gênero: Egiptologia

Autor: Eugen Strouhal

Tradutores: Iara Freiberg, Francisco Manhães, Marcelo Neves

Editora: Folio

Ano de Lançamento (Brasil): 2007

 

(Resenha – Livro) “Tenemit: A flor de lótus” de João Afonso

Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Lançado em 2008, “Tenemit: A flor de lótus” é um livro infanto-juvenil escrito pelo brasileiro João Afonso e ilustrado por Hare Lanz. Ele conta a história das garotas Tenemit, Ahuri, Vanessa e Juliana e se ambienta a princípio no Egito Antigo, passando depois para o cenário carioca. Quadrinista e amante de Historia, o Afonso  iniciou sua carreira escrevendo roteiros para histórias sobre o Velho Oeste e depois escrevendo o seu primeiro livro, “Sem Resgate”, cujo cenário é o Brasil. Foi graças à uma palestra sobre o Antigo Egito que o interesse pela antiguidade egípcia foi despertado, o que gerou o livro “Tenemit: A flor de lótus”.

Com a consultoria do egiptólogo brasileiro Mauricio Elvis Schneider, o material faz um ótimo e confiável passeio pelo o Egito Antigo, mas não espere uma narrativa profunda, com longos capítulos, afinal, trata-se de um livro para uma faixa etária mais jovem, entretanto, nada impede que adultos curiosos pela a antiguidade o leia, já que o Afonso nos apresenta pontos da vida nas antigas comunidades egípcias de uma forma bem casual.

Obrigada João Afonso pela dedicatória!

O livro não somente nos mostra aspectos da vida no Antigo Egito — a exemplo de como eles se envolviam com a questão da morte, o relacionamento com o papel do faraó, crenças em rezas e amuletos etc —, mas também sobre o quanto a amizade entre meninas pode criar vínculos muito fortes, ao contrário da nossa cultura ocidental que insiste em perpetuar que garotas devem ser inimigas naturais — quem nunca ouviu aquela frase “Uma mulher se veste para provocar outra mulher” e outras barbaridades como que todas as mulheres são falsas umas com as outras? —. Este é para mim um dos maiores bônus do livro e o Afonso trabalhou bem com a questão apresentando situações diferentes quando a Ahuri apoia incondicionalmente a amiga Tenemit e quando nos mostra a amizade incomum entre a extremamente cética Vanessa e a esotérica Juliana.

“Tenemit: a flor de lótus” é uma boa pedida para estimular o conhecimento sobre o Antigo Egito em sala de aula, pois, além de apresentar antiguidade egípcia de forma tão clara, vem com uma cartilha para desenvolver a interpretação do texto.

No sentido visual o livro tem uma capa linda, feita de um material brilhante, mas que não diminui sua qualidade e é amplamente ilustrado por dentro. Fiquei bastante satisfeita com a abordagem e a forma que ele foi desenvolvido, afinal, são poucos os autores que buscam a consultoria de egiptólogos. Dito isto, o indico plenamente.

Informações:

Título: Tenemit: a flor de lótus

Autor: João Afonso

Editora: Saraiva

ISBN:

País: Brasil

Páginas:

Ano: 2008

Perfil no Skoob: http://www.skoob.com.br/livro/131352ED145697

 

(Comentários – Livro) Uma viagem pelo Nilo

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Seria bem injusto e contraditório eu escrever uma resenha do meu próprio livro, então realizei somente comentários acerca da publicação, detalhes e curiosidades da obra. Aqueles que tiverem interesse em ler a introdução ela está disponível neste link.

Uma viagem pelo Nilo. Márcia Jamille. 2014.

Lançado no início de 2014, Uma viagem pelo Nilo é uma apresentação de vários aspectos da sociedade egípcia, como o pensamento base da “dualidade” entre Osíris e Seth e a Maat versus o caos, e que nos auxilia a entender parte do pensamento politico-religioso do Egito faraônico. Comento também as teorias de quem teria sido o unificador do país e proporciono uma imagem do mundo religioso, com direito a um glossário de deuses, a explicação dos diferentes tipos de múmias de animais, comentários sobre o Período Amarniano e até mesmo sobre a ligação transcendental entre as sociedades egípcias com o meio aquático, que vai muito além do seu uso para a subsistência. Acerca deste capítulo devo reconhecer que está muito curto, especialmente porque foi o tema da minha monografia e dissertação. Entretanto, acredito que passei o assunto bem, mostrando os principais pontos que tornavam a água um ambiente especial para os egípcios. Sinceramente é um dos meus tópicos favoritos do livro.

Claro que todas as ciências-humanas são politicas e a Arqueologia e a Egiptologia não estão fora disto: nos dois últimos capítulos apresento um pouco do mundo da Egiptologia como a sua história, que não pode ser dissociada das praticas imperialistas da Europa e que ainda está ligada aos trabalhos realizados atualmente no país, uma posição que necessita urgentemente ser revista.

No livro está incluso um QR code para acesso rápido para o Arqueologia Egípcia através do seu smartphone, tablet ou iPhone. Claro que um livro inspirado em um site teria que ter uma ligação até ele. 😀

Um dos temas os quais fiquei acanhada em citar é acerca dos receios de alguns dos interessados em ganhar a vida com a Arqueologia Egípcia ou a Egiptologia. Explicando de forma simples ambas as disciplinas são extremamente tradicionais e relativamente fechadas — a tal ponto que alguns pesquisadores sentem orgulho em contar nos dedos quantos profissionais podem ser encontrados no seu país —, desta forma, para algumas pessoas pode ser desestimulador tentar seguir a profissão. Escrevi sobre este assunto inspirada na minha própria experiência e escutando relatos de alguns alunos.

Vídeos:

Curiosidades:

☥ Inicialmente a capa iria retratar um Benu, que é um dos animais mitológicos que mais gosto, além de ser um dos temas de uma tattoo que tenho no braço. Contudo no último instante surgiu esta maravilhosa foto de um gato egípcio com um escaravelho na testa. Foi amor à primeira vista porque une dois animais que amo muito (o gato e o escaravelho). Quem assina a fotografia é o Nic MC Phee;

☥ Para ser lançado e divulgado este livro teve três investidores anjos que atuaram em esferas diferentes;

☥ Graças a este livro acabei sendo citada em um jornal espanhol, o “La Vanguardia”, de Barcelona (Espanha).

Links que podem ser do interesse de vocês:

Como comprar: http://arqueologiaegipcia.com.br/umaviagempelonilo/ondecomprar.html
Facebook do Livro: https://www.facebook.com/umaviagempelonilo
Site: http://arqueologiaegipcia.com.br/umaviagempelonilo/
Tumblr: http://umaviagempelonilo.tumblr.com/

(Resenha – Livro) “Egito Antigo”, de Sophie Desplancques

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille | Instagram

Eu tenho este livro fazem quase dois anos pensando em realizar uma resenha para o Arqueologia Egípcia, mas nunca me animei de fato para lê-lo. Creio que isto se deu por meu preconceito com os formatos pockets ao acreditar que livros de verdade precisam ter um tamanho A5 ou superior e mais de oitenta páginas, mas estou tentando trabalhar este meu problema.

Egito Antigo. Sophie Desplancques. 2011.

Egito Antigo. Sophie Desplancques. 2011.

Apesar deste quesito, fui capaz de entender que a principal vantagem deste livro está em seu tamanho, que o faz mais portátil e possível de ser levado para qualquer lugar e ser lido tranquilamente por quem está interessado em conhecer mais acerca da civilização egípcia, mas não tem muito espaço para guardar um livro na bolsa ou mesmo não tem interesse ou disposição física para levar o peso extra de um livro na bagagem. A ideia dos pockets são tentar influenciar os mais variados indivíduos a ter uma proximidade com a leitura (por isto tantos clássicos foram convertidos para tal formato), mas é onde surge o problema do livro “Egito Antigo” (L’égypte Ancienne, título original): ele não é para o deleite, mas sim para realmente fazer uma introdução sem meias palavras do pensamento político e religioso do Egito Faraônico. Ele, definitivamente, é uma tentativa satisfatória de realizar uma apresentação dos principais aspectos das antigas comunidades que viviam no território egípcio, mas sem se aprofundar em individualidades, ou seja, a autora apresenta o Egito Antigo em termos generalistas.

O material foi escrito por Sophie Desplancques, que além de jornalista possui um doutorado em Egiptologia e ensina História da Civilização Egípcia na Associação Papyrus em Lille, na França. Não conheço nenhum outro material dela, mas com este livro sua capacidade em repassar a história faraônica em poucas linhas foi comprovada.

Sophie Desplancques.

Sophie Desplancques.

A leitura não é extenuante, mas para algumas pessoas pode tornar-se confusa com uso de termos que podem soar estranhos para um leigo, a exemplo do uso da definição “Baixa Época”, ou pelo o fato das informações serem tão condensadas. Para se ter uma ideia, na Introdução, que se consiste de três páginas, a autora comenta a ideologia que sustentava a base discursiva por trás da cronologia faraônica e cita como exemplo a queda do Período Amarniano; explica o uso, por parte dos antigos, do passado como um modelo de conduta; identidade egípcia; as fases históricas, a divisão por impérios e as dinastias locais durante os períodos de instabilidade política.

Enquanto que no capítulo 1º ela faz uma abordagem geral da história egípcia, no 2º ela comenta acerca dos estudos da Pré-História e História egípcia: em relação a Pré-História ela realiza um passeio pelo o que até então se sabia sobre as culturas badarianas, Naqada I e Naqada II.

No capítulo 3º ela comenta alguns dos acontecimentos ocorridos a partir da 3ª Dinastia até a invasão hicsa no Segundo Período Intermediário. Acerca deste capítulo é uma pena que ela cite o reinado da faraó Nitócris como o sinal de uma crise pelo o motivo de ter sido uma mulher quem assumiu o trono. Vemos irregularidades dinásticas ocorrerem em períodos antes e depois do reinado desta faraó, com militares ou sacerdotes assumindo o trono em épocas de crises politicas e sucessórias. Além do mais, outras mulheres assumiram as Duas Coroas, mas foram em momentos dispares da história, tanto em épocas intermediarias como durante o Império egípcio.

L’égypte Ancienne. Sophie Desplancques.

L’égypte Ancienne. Sophie Desplancques.

No capítulo 4º ela introduz o início de fato do Império Egípcio e o começo do auge de Karnak e do deus Amon. Aqui ela explica o papel das figuras principais que constituíram este período: os tutméssias, Akhenaton e os raméssidas. Acerca do Período Amarniano ela, ao contrário de muitos outros materiais, cita as intervenções do faraó Akhenaton em outros países, especialmente os da Ásia ocidental (usualmente os materiais especializados tendem a descrever o governo deste como apático em relação às questões da política externa).

No capítulo 5º, Desplancques explica o estado social que se encontrava o Egito a partir do final da 20ª Dinastia e que o levou para os domínios dos governantes estrangeiros na Baixa Época. O leitor deve notar o breve ensaio que a autora faz acerca do cargo da Divina Adoradora de Amon, muito importante na história faraônica (surgida efetivamente no Novo Império), mas que ainda é pouco discutido.

Considerações:

Este não é um livro para quem espera realizar uma leitura despreocupada, mas para aqueles que realmente possuem interesse em tentar começar a entender o que de fato foi a civilização egípcia, como ela começou a surgir, do que se constituiu e quando se deu o seu fim. Porém, de forma semelhante ao Grimal, ela denota pontos elitistas da história egípcia, tradicionalmente utilizados como parâmetro, narrando o passado do ponto de vista da realeza, e raramente comentando acerca da vida do povo comum, que era a maioria e em grande parte iletrada.

Minha ressalva negativa é que em todos os capítulos Desplancques introduz o tema a ser abordado com um resumo, depois, através de subcapítulos, ela comenta os principais aspectos do período abordado e não raramente repete informações que ela já tinha dados em outros pontos.

Em termos gerais o livro é bem escrito e embora seja um pocket ele não decepciona e cumpre o prometido, que é apresentar a história faraônica em termos gerais. Embora seja menor e tenha menos conteúdo, é um bom investimento, visto o preço, que é mais acessível que muitos livros acerca do mesmo tema que são encontrados no mercado.

Este é um dos poucos livros que dou nota máxima (inclusive no Skoob). E em pensar que antes eu não estava dando muita ressalva para ele simplesmente pelo o fato de se tratar de um pocket.

Dados do livro:

Título: Egito Antigo

Gênero: Egiptologia, História Antiga.

Autor: Sophie Desplancques

Tradutora: Paulo Neves

Editora: L&PM Pocket

Ano de Lançamento (Brasil): 2011

Edição: 2ª Edição

Valor do livro impresso: R$ 14,00

Valor do livro digital:  R$ 9,00

Sugestões de livros sobre o Antigo Egito

Por Márcia Jamille Costa | @MJamilleInstagram

Devido ao número excessivo de mensagens que eu recebo de pedidos de sugestões de livros (embora ao final de cada texto eu deixe uma pequena lista de referências), resolvi escrever um post acerca.

Escolhi livros com temas gerais tanto em português como em inglês e planejo por updates sempre que possível.

Por favor, nos comentários não perguntem onde podem comprar, não tenho tais informações.

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Lista:

◘ ALLEN, James. The Ancient Egyptian Pyramid Texts. Atlanta: Society of Biblical Literature, 2005.

◘ BAINES, John; MALEK, Jaromir. Deuses, templos e faraós: Atlas cultural do Antigo Egito (Tradução de Francisco Manhães, Maria Julia Braga, Michael Teixeira, Carlos Nougué). Barcelona: Folio, 2008.

◘ BAGNALL, Roger; BRODERSEN, Kai; CHAMPION, Craige; ERSKINE, Andrew; HUEBNER, Sabine. The Encyclopedia of Ancient History. Oxford: Wiley-Blackwell, 2012.

◘ BARD, Kathryn. An Introduction to the Archaeology of Ancient Egypt. Oxford: Blackwell, 2007.

◘ BRANCAGLION Jr., Antonio. Tempo, material e permanência: o Egito na coleção Eva Klabin Rapaport. Rio de Janeiro: Casa da Palavra – Fundação Eva Klabin Rapaport, 2001.

◘ BUNSON, Margaret R. Encyclopedia of Ancient Egypt. New York: Facts On File, 2002.

◘ COSTA, Márcia Jamille Nascimento. Uma viagem pelo Nilo. Aracaju: Site Arqueologia Egípcia, 2014.

Estela de pedra de Iuny e Renut representando Khay na parte inferior realizando uma oferenda juntamente a um escriba. Imagem disponível em . Acesso em 25 de fevereiro de 2013.

Estela de pedra de Iuny e Renut. Imagem disponível em < http://www.ancient-egypt.co.uk/ashmolean/ pages/ashmolean_ sep2006_%20327.htm >. Acesso em 25 de fevereiro de 2013.

◘ David O’CONNOR, Rita FREED e Kenneth KITCHEN. Ramsés II (Tradução de Francisco Manhães, Marcelo Neves). Barcelona: Fólio, 2007.

◘ DAVID, Rosalie. Religião e Magia no Antigo Egito (Tradução de Angela Machado). Rio de Janeiro: Difel, 2011.

◘ DAVID, Rosalie; DAVID, Antony. A Biographical Dictionary of Ancient Egypt. London: Steaby, 1992.

◘ DESPLANCQUES, Sophie. Egito Antigo (Tradução de Paulo Neves). Porto alegre: L&PM, 2011.

◘ DODSON, Aidan. As Pirâmides do Antigo Império (Tradução de Francisco Manhães, Maria Julia Braga, Carlos Nougué). Barcelona: Folio, 2007.

◘ GRIMAL, Nicolas. História do Egito Antigo (Tradução Elza Marques Lisboa de Freitas. Revisão Técnica Manoel Barros de Motta). Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2012.

◘ IKRAM, Salima. Divine Creatures: Animal Mummies in Ancient Egypt. Cairo: The American University in Cairo, 2005.

◘ KEMP, Barry. El Antiguo Egipto: Anatomía de uma civilización (Tradução de Mònica Tusell). Barcelona: Crítica, 1996.

◘ KI-ZERBO, Joseph (Org.). História Geral da África I: Metodologia e Pré-história da África. (Tradução de MEC – Centro de Estudos afro-brasileiros da Universidade de São Carlos). Brasília: UNESCO, 2011.

◘ LLOYD, Alan, B (Ed). A Companion to Ancient Egypt. England: Blackwell Publishing, 2010.

◘ MARIE, Rose; HAGEN, Rainer. Egipto (Tradução de Maria da Graça Crespo). Lisboa: Taschen, 1999.

◘ MOKHTAR, Gamal. História Geral da África Vol. II: África Antiga (Tradução de MEC – Centro de Estudos afro-brasileiros da Universidade de São Carlos). Brasília: UNESCO, 2011.

◘ MULLER, Hans Wolfgang; THIEM, Esberhard. O ouro dos faraós (Tradução de Carlos Nougué, Francisco Manhães, Maria Julia Braga, Angela Zarate). Barcelona: Folio, 2006.

◘ REEVES, Nicholas; WILKINSON, Richard. The Complete Valley of the Kings. London: Thames & Hudson, 2008.

◘ SHAFER, Byron. Sociedade, moralidade e práticas religiosas (Tradução de Luis Krausz). São Paulo: Nova Alexandria, 2002.

◘ SILIOTTI, Alberto. Viajantes e Exploradores: A Descoberta do Antigo Egito (Tradução de Francisco Manhães, Michel Teixeira). Barcelona: Editora, 2007.

◘ SILIOTTI, Alberto. Primeiros Descobridores: A Descoberta do Antigo Egito (Tradução de Francisco Manhães, Michel Teixeira, Carlos Nougué). Barcelona: Editora, 2007.

◘ STROUHAL, Eugen. A vida no Antigo Egito (Tradução de Iara Freiberg, Francisco Manhães, Marcelo Neves). Barcelona: Folio, 2007.

◘ TALLET, Pierre. A culinária no Antigo Egito (Tradução de Francisco Manhães, Maria Júlia Braga, Joana Bergman). Barcelona: Folio, 2006.

◘ TOLEDANO, Joseph; EL-QHAMID. Erotismo e Sexualidade no Antigo Egito (Suzel Santos, Carlos Nougué). Barcelona, Folio, 2007.

◘ WENDRICH, Willeke (Ed). Blackwell Studies in Global Archaeology: Egyptian Archaeology. New Jersey: Wiley-Blackwell, 2010.

◘ WILDUNG, Dietrich. O Egipto: da pré-história aos romanos (Tradução de Maria Filomena Duarte). Lisboa: Taschen, 2009.

(Resenha – Livro) “História do Egito Antigo” de Nicolas Grimal

Resenhado por Márcia Jamille Costa | @MJamille

 

Histoire de L’Égypte Ancienne. Nicolas Grimal.

Lançado em 1988, História do Egito Antigo (Histoire de L’Égypte Ancienne, no original) leva aos leitores os altos e baixos da civilização egípcia desde os períodos Pré-dinásticos até o domínio de Alexandre Magno em 332 antes da Era Cristã. Seu autor, Nicolas Grimal, foi assistente de Egiptologia em Sorbonne entre 1973 e 1977, depois se tornou membro do Institut français d’archéologie orientale do Cairo (1977-1981), do qual recebeu o cargo de diretor entre 1989 e 1999. Com os seus 64 anos, atualmente ele possui uma agenda cheia, realizando cursos e seminários relacionados ao Antigo Egito.

História do Egito Antigo. Nicolas Grimal. 2012.

Um leitor totalmente leigo ou que só possua informações básicas dos pontos mais relevantes acerca dos acontecimentos em cada período pré e pós-dinástico do Egito não deve investir neste livro, pois, para estas pessoas será necessária a leitura de outros títulos para utilizar como base para este, principalmente porque desde a Introdução até o último capítulo Grimal apresenta momentos históricos de forma compactada e por vezes confusa. Somando a isto, existe a necessidade de que se tenha uma noção preliminar da história da Arqueologia (mas não somente da Arqueologia especializada em Egiptologia, mas também da Clássica) e do que se tratam as Ciências Humanas. Isto irá auxiliar, dentre outras coisas, no bom entendimento em especial da Introdução, caso contrário a leitura será artificial e desleixada. Um dos exemplos onde esta necessidade torna-se visível é quando o autor fala de superioridade tecnológica ao comentar sobre os períodos pré-dinásticos (página 22). Este é um termo que deve ser utilizado com cuidado, principalmente porque oferece uma vida linear ao artefato onde ele passa por processos evolutivos em que o mais antigo não é de boa qualidade e o recente é que é um arquétipo de primor. Graças a esta ideia engessada promulgada nos primórdios da Arqueologia é que surgem comentários como “Os egípcios eram evoluídos para a sua época”, o que, consequentemente, interfere na interpretação dos artefatos.

Nicolas Grimal. Imagem disponível em < http://www.college-de-france.fr/site/nicolas-grimal/index.htm >. Acesso em 30 de Janeiro de 2013.

Embora tenha trabalhado no Institut Français d’Archéologie Orientale, Grimal comete alguns equívocos no que diz respeito ao objeto de estudo das (os) arqueólogas (os) e a forma de gerir o trabalho dos mesmos, isto pode ser observado em sua fixação em dar mais importância a dados relacionados especialmente a fontes escritas (o que pode ser uma interferência da sua formação voltada para a Filologia), como é possível se encontrar na página 11:

Torna-se obsoleto o velho antagonismo entre filologia e arqueologia, ao fim do qual só a primeira se revela capaz de dar conta de uma civilização, já que a segunda não passaria de disciplina auxiliar, relegada às tarefas inferiores de coleta documentária (GRIMAL, 2012, pág. 11).

 

Nesta citação o autor fez um desserviço a Arqueologia que por décadas foi considerada uma disciplina auxiliar da História a qual é tida por muitos como única detentora dos conhecimentos das fontes escritas. Somado a isto, as premissas da Arqueologia Clássica e Egípcia eram calcadas na Filologia (o estudo das fontes escritas antigas). Porém, atualmente os debates que ocorrem na Arqueologia demonstram o contrário: A Arqueologia se utiliza tanto das fontes materiais (onde se incluem as fontes escritas) como as imateriais (costumes de uma determinada população já é um ótimo exemplo) e o que a difere da História são as suas metodologias de trabalho. Ambas as disciplinas possuem a necessidade de um trabalho conjunto, isto porque são visões diferentes em relação aos artefatos, desta forma o antagonismo entre ambas é tão antiquado quanto tentar tecer um maior valor para uma ou para a outra.

Sua preferencia em observar o passado da perspectiva da escrita torna-se visível na página 271, quando ele discorre sobre o mito do Êxodo. Nesta parte ele comenta sobre a falta de comentários acerca do “fato” por parte dos egípcios faraônicos, justificando que por se tratar de uma derrota ninguém queria comentar sobre, o que explicaria a ausência de “provas” da ocorrência deste episódio, mas ele só olha do ponto de vista das fontes escritas, o que torna seu argumento incompleto, uma vez que ele ignora outras fontes (para saber mais sobre o Êxodo e a cultura material clique aqui).

Outro ponto negativo do livro tem relação com as citações diretas, onde em algumas ocasiões não está claro a quem pertence tais menções, além disto, são raros os momentos em que são citadas as referencias bibliográficas no meio do texto (o que não ampara no caso do interessado buscar mais sobre o assunto). O livro possui alguns problemas também em relação aos mapas, onde em alguns as informações estão em francês.

Um dos pontos positivos do livro é a necessidade de Grimal em dar exemplos de trabalhos realizados em sítios de contextos e espaços diferentes o que auxilia o leitor a ter conhecimento da existência, mesmo que pífia, de trabalhos realizados além do Vale dos Reis ou Tebas. Porém o nome dos pesquisadores é dado em forma de sigla, o que pode dificultar a identificação de alguns.

 

Considerações Finais:

O leitor que busca um material de teor mais crítico vai se decepcionar com o História do Egito Antigo. Não há debates, pelo contrário, o que será lido é a apresentação de acontecimentos históricos sem muitos questionamentos.

Pelas informações serem dadas de forma extenuante a leitura não é agradável, mesmo para um livro que busca contextualizar de forma geral os acontecimentos ocorridos durante o Período Faraônico, mas ainda assim é um material bem conveniente.

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(Livro) Religiões que o mundo esqueceu

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille 

 

 

Não há evidência… de que qualquer outro animal seja movido por preocupações religiosas, como o ser humano é desde os seus primórdios”, assim fala o Prof. Dr. Pedro Paulo A. Funari ao iniciar o livro “As religiões que o mundo esqueceu: como os egípcios, celtas, astecas e outros povos cultuavam seus deuses.” (Editora Contexto) que está sob sua organização. Tal material aborda justamente o que mais nos distingue dos demais seres vivos da terra e que nos torna tão únicos: a crença. 

 

 

Capa do livro "As religiões que o mundo esqueceu".

 

Funari define a fé como algo característico da humanidade. Como pensamos de forma variada e vivemos em ambientes tão distintos as manifestações religiosas acabam sendo as mais diversas, principalmente ao longo dos séculos. Assim, este livro trata justamente das religiões que já deixaram de existir, mas que de alguma forma podem lembrar um pouco alguns quesitos da nossa própria cultura. A definição de Ka, advindo do pensamento egípcio e  que é algo próximo do que denominamos de “alma”, é um exemplo.      

O Prof. Dr. Pedro Paulo A. Funari é natural do Brasil, atualmente leciona como professor na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e fez diversas colaborações para a área da Arqueologia no país principalmente no que diz respeito à Arqueologia Histórica. Fez graduação em História pela Universidade de São Paulo (USP), mestrado em Antropologia Social também na USP e doutorado e pós-doutorado em Arqueologia na Illinois State University

O livro está dividido em várias partes que apontam as diferentes culturas que um dia existiu. O primeiro capítulo é dedicado aos egípcios e está sob a autoria do Prof. Dr. Julio Gralha. Esta parte em questão faz um apanhado de forma geral da religião egípcia onde há um breve destaque ao mito da criação.

“As religiões que o mundo esqueceu” é cativante e isto porque traz justamente a palavra de vários acadêmicos de diferentes áreas que, embora denotando culturas tão distintas, tocam em um assunto tão interessante e que nos mexe tanto como é o da crença na existência de forças sobrenaturais.  

 

Fixa técnica: 

Título: As religiões que o mundo esqueceu – Como os egípcios, celtas, astecas e outros povos cultuavam seus deuses. 

Autor: Pedro Paulo A. Funari (Org), Alexandre Navarro, Ana Donnard, Betty Mindlin, Flavia Galli Tatsch, Johnni Langer, Julio Cesar Magalhães, Julio Gralha, Leandro Karnal, Luiz Alexandre Rossi, Paulo Nogueira, Renata Senna e Sergio Alberto.   

Ano de publicação: 2009 

Editora: Contexto 

Cidade: São Paulo 

ISBN: 978-85-7244-431-6 

Palavras chaves: Deuses, sagrado, religião, História 

 

Para quem quer saber mais: 

Em 2008 realizei uma entrevista com o Prof. Funari que está disponível aqui no A.E.

(Livro) “As Egípcias” de Christian Jacq

Por Márcia Jamille Costa

 

“As Egípcias: retratos de mulheres do Egito Faraônico” (Les Egyptiennes) é um dos livros mais populares sobre a antiguidade egípcia no Brasil no que diz respeito ao tema de gênero, e também um dos poucos indicados. O seu autor é Christian Jacq e ele já escreveu romances de renome como a série Ramsés e outros materiais como “A Sabedoria viva do antigo Egito”.

Christian Jacq possui formação em egiptologia, contando inclusive com um doutorado em Sorbonne, mas mesmo com uma formação completa ele é acusado de banalizar a cultura egípcia em seus livros, embora estes possuam várias descrições de aspectos sociais. Em verdade os textos de Jacq se destacam na divulgação de um Egito místico, fantasioso, e o mais interessante: mascarado pela a descrição de fatos reais. Este é o Jaqc romancista, mas o Jacq historiador parece se perder um pouco entre a redação científica e a redação de vulgarização (não em um termo pejorativo, mas em um termo em que fala do que é feito para ser lido pelo o público de fora da academia), mais neste sentido acho que posso interceder por ele. Seus livros são para a massa e não para algo seleto como o corpo de egiptólogos em uma universidade, parece que o autor, com os anos de experiência como romancista, aprendeu a segurar a atenção dos comuns para algumas pesquisas arqueológicas. Este é o caso de parte dos seus livros de levantamento histórico onde está incluso “As Egípcias: retratos de mulheres do Egito Faraônico”.

 

 

Conheci este livro já faz alguns anos, li uma parte e não gostei, até que um parente o deu para mim e resolvi reler. Em um contexto geral ele tem uma escrita bonita e confortável, mas não é bom para usar em sala de aula, mesmo assim, para quem não conhece o assunto ou quiser algumas bibliografias referentes a gênero no antigo Egito pode ler para coletar referencias. Quem sabe, no final, não se interesse por Christian Jacq.

Eu o aconselharia para o público leigo, ou para quem gosta da cultura egípcia faraônica. As descrições que ele faz das mulheres reais e comuns (inclusive as dos campos) são fortes e envolventes, o que mostra claramente a falta de neutralidade científica de Christian Jacq, o que, a meu ver, não é um grande problema, ainda mais porque o seu público de interesse não quer saber de dados arqueológicos como medições de cerâmica ou picos de DNA, querem saber de histórias contadas da forma mais confortável e clara possível.   

Mesmo assim, acredito, ele acaba falhando em outros livros, mas isto já são outros carnavais. 

Fixa técnica:

Titulo original: Les Egyptiennes

Autor: Christian Jacq

Tradução: Maria D. Alexandre

Ano de publicação (Brasil): 2002

Editora: Bertrand Brasil

Cidade: Rio de Janeiro

ISBN: 85-286-0777-1

Palavras-chave: Mulheres, Egito, condições sociais.

 

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