Tutankhamon, Zahi Hawass e Nicholas Reeves: quais são as últimas novidades sobre a tumba do faraó

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille | Instagram

O Ministro das Antiguidades do Egito, Jaled al Anani, deu no início de fevereiro uma entrevista para o jornal El Mundo falando sobre a nova fase das pesquisas na tumba do faraó Tutankhamon (KV-62), cujo objetivo é procurar por espaços vazios que estariam atrás de suas paredes. A possibilidade da existência desses espaços foi sugerida pelo egiptólogo britânico, Nicholas Reeves, em um artigo acadêmico que pontuava sinais que indicariam lugares ocos por trás de duas paredes da câmara funerária do rei, e que eles seriam um segundo túmulo. Ele ainda declarou que o proposto sepulcro poderia pertencer a ninguém menos que a rainha Nefertiti, figura celebre do Período Amarniano.

— Saiba mais sobre essa governante: Nefertiti e Akhenaton: Rainha e faraó

Tutankhamon, Hawass e Reeves.

Embora tais indícios sejam circunstanciais, o anterior Ministro das Antiguidades, Mamdouh al-Damaty, resolveu averiguar, dando início a um verdadeiro hype, deixando a imprensa internacional em polvorosa. Nesse período duas inspeções com radar foram realizadas: a primeira, feita por um pesquisador chamado Hirokatsu Watanabe no início de 2016, apontou a certeza da existência de câmaras ocultas, porém a apresentação do resultado dos seus estudos não convenceu arqueólogos e especialistas em radar ao redor do mundo. Então uma segunda equipe, organizada pela National Geographic, foi averiguar a tumba. Porém, ao contrário do Watanabe, eles foram proibidos de liberar seus resultados.

golden mask king tutMáscara mortuária de Tutankhamon.

Foi nesse meio tempo que o Ministro das Antiguidades foi mudado e dessa vez a pesquisa entrou nos eixos. Isso porque o atual exerceu o seu papel como cientista, pensando como um arqueólogo e não como um correspondente para a imprensa.

Tempos depois uma mesa em um evento de arqueologia foi realizada no Cairo para debater o assunto. Nela participaram o próprio Watanabe, o ex-ministro, Yasser El Shayb, Nicholas Reeves e Zahi Hawass. Na ocasião Watanabe acabou expondo que o seu aparelho tinha sido customizado e por isso os seus pares não seriam capazes de analisar as informações coletados por ele. Esse tipo de comentário no meio cientifico é impensável. Não é análise científica se somente uma pessoa é capaz de ler os dados. Isso é um quesito básico na nossa profissão: desenvolver métodos e técnicas que sejam possíveis de serem utilizados e entendidos por outros profissionais.

Tomb of TutEntrada para a tumba do faraó.

A situação ficou mais complicada quando dias após o evento o jornalista Owen Jarus lançou uma matéria explicando que os dados da National Geographic não tinham sido liberados porque a analise deles apontou que não existia espaços ocos algum. No vídeo abaixo fiz um resumo de tudo isso o que falei aqui, utilizando, inclusive, algumas imagens:

Agora em 2017, meses após essa conferência, foi anunciada que uma equipe italiana iria investigar também a tumba. Outra novidade é a de que Reeves não fará parte desse novo estudo. “A teoria foi elaborada por Reeves, mas a tumba de Tutankhamon pertence ao Egito”[1], declarou o ministro acerca desse assunto. “O projeto não foi cancelado, mas prefiro tratar com instituições científicas. Nos chegou uma proposta séria da Itália. O comitê permanente a estudou e ela foi aprovada” [1]. E ele continuou “Tem que se diferenciar entre a teoria e a pessoa que a formulou. Estamos trabalhando sobre a tese de que pode existir algo”[1], ainda expôs “O senhor Reeves não está relacionado com o novo projeto e não está desenvolvendo nenhuma investigação sobre a tumba no momento, mas, como qualquer outro especialista, pode enviar uma solicitação e será examinada. Até o momento não recebemos nenhuma proposta de uma instituição que leve o nome de Reeves. Para nós é crucial tratar com instituições”.[1]

O ministro também confirmou que a pesquisa teria início no final de fevereiro e começo de março (2017) e ela realizará uma varredura com um radar nas paredes da tumba.

Inside the tomb of the boy king, TutankhamenCâmara funerária da KV-62.

As experiencias anteriores deixaram o público empolgado, mas, muitos arqueólogos preocupados. A arqueologia é uma ciência social que trata do passado da humanidade e não deve ser tratada como uma notícia caça-níquel; ela requer muita paciência e cuidado em suas análises, algo que pode durar meses ou anos e esse foi o erro crucial no caso dessas buscas por câmaras ocultas na tumba de Tutankhamon. Misturar a pressa e até mesmo o sensacionalismo com a Arqueologia pode acabar enterrando carreiras. Essa parece ser uma preocupação semelhante a do atual ministro, que na mesma entrevista salientou: “Temos que dar tempo para a ciência e seus métodos. As expectativas ou os sentimentos não funcionam aqui. Minha esperança é encontrar algo na [tumba] de Tutankhamon e em qualquer outra sepultura do Egito, mas tem que se distinguir entre esperanças e emoções. É tão possível que existam essas cavidades como não ter nada” e continuou “Eu sou um acadêmico. Primeiro teremos que certificar que existe cavidade e, se existe, devemos especificar se é simplesmente um espaço vazio ou uma tumba. No caso do segundo, o seguinte seria investigar a quem pode pertencer”[1].

ToutânkhamonReconstituição da localização dos artefatos encontrados na tumba de Tutankhamon, que foi descoberta em 1922 praticamente intacta pelo arqueólogo inglês Howard Carter.

Ele ainda falou do seu antecessor e suas afirmativas sobre a sua certeza acerca da existência de uma segunda sepultura na KV-62: “Eu sou somente responsável por minhas palavras, mas creio que existe uma diferença entre o que ele disse e o que se entendeu. Al Damati me disse que jamais havia dito dos 90% nesses termos. Simplesmente se limitou a informar de que o especialista do radar afirmava que tinha essa porcentagem de probabilidades de existir algo”[1]. Por fim ele deixou um recado sensato “os procedimentos científicos devem ser respeitados e seguidos com cuidado porque teremos uma credibilidade no mundo”[1].

O jornal El Mundo ainda tentou contato com o professor Reeves, mas não obteve resposta. Fui averiguar no site do pesquisador, mas desde a minha consulta no dia 11 de fevereiro (2017) até o momento ele permanece fora do ar.

Zahi Hawass:

O mundialmente famoso arqueólogo egípcio Zahi Hawass nos últimos dias teceu em sua página no Facebook algumas palavras acerca da possibilidade de existir câmaras ocultas na tumba de Tutankhamon. Abaixo sua mensagem na integra (tradução nossa):

Ancient Egypt Dr. zahi HawassZahi Hawass

Você acredita que a múmia de Nefertiti está no Museu do Cairo, nas câmaras ocultas no túmulo do rei Tut, ou ainda está para ser descoberta?

Eu realmente não acho que a rainha Nefertiti está na KV-62 — o túmulo de Tutankhamon — por muitas razões: um, eu não acho que os sacerdotes de Amon jamais deixariam a rainha que seguiu seu marido Akhenaton ao adorar o Aton ser enterrada no Vale dos Reis; Dois, por que o rei Tut seria enterrado em um túmulo que pertencia à sua mãe? E três: o estilo do túmulo e a cena do Imyduat é exatamente o mesmo estilo encontrado no túmulo de Ay; isto poderia provar que este túmulo foi feito originalmente para Ay e quando Tutankhamon morreu repentinamente, ele deu-lhe essa tumba. Além disso, por que alguém entraria no túmulo e bloquearia o que estava por trás? — isso nunca aconteceu. A evidência mais importante que refuta esta teoria é que quando eu peguei as leituras de radar japonês e as dei a um especialista em radar americano, ele me escreveu oficialmente dizendo que essa leitura não mostra nada. Eu realmente acredito que Nefertiti foi originalmente enterrada em Amarna, e assim como o esqueleto na KV-55 — que descobrimos ser Akhenaton — foi movida, sua múmia poderia ter sido movida mais tarde para algum lugar no Vale dos Reis. Talvez eu esteja certo, talvez eu esteja errado, mas acho que a múmia com uma cabeça encontrada na KV-21 poderia ser Nefertiti. Por quê? Porque os egípcios sempre enterraram uma mãe e uma filha, como na KV-35 onde a múmia da rainha Tiye foi enterrada ao lado de sua filha, a mãe de Tutankhamon. Encontramos algumas evidências de que a múmia sem cabeça na KV-21 poderia ser Ankhesenamon. Portanto, talvez a outra múmia seja Nefertiti.

Para saber o que mais publiquei aqui no Arqueologia Egípcia sobre o assunto clique aqui.

Fontes:

[1] Egipto aparta al arqueólogo Reeves de la investigación de la tumba de Tutankamón. Disponível em < http://www.elmundo.es/ciencia/2017/02/10/589c9bf7ca4741f1318b4639.html >. Acesso em 10 de fevereiro de 2017.

[2] Question 10 – Do you believe Nefertiti’s mummy is in the Cairo Museum, in the hidden chambers in King Tut’s tomb, or it is yet to be discovered? Disponível em < https://www.facebook.com/112384738789408/photos/a.195047590523122.52414.112384738789408/1538410116186856/?type=3&theater >. Acesso em 10 de fevereiro de 2017.

 

O surpreendente esconderijo de múmias de faraós encontrado no século XIX em Deir el-Bahari (TT320)

Quando os primeiros exploradores europeus chegaram ao Egito em busca dos seus tesouros arqueológicos —  fossem eles estátuas, imagens parietais, sarcófagos e, claro, joias — descobriram que todas as tumbas reais tinham sido saqueadas em algum momento da antiguidade[1].  Desta forma, foi uma surpresa quando nas décadas de 1870-80 artefatos com nomes de faraós e alguns dos seus parentes começaram a aparecer no mercado de antiguidades (DAVID, 2011).

Os registros dessa época somente passam uma ideia geral dos acontecimentos, mas, temos ciência de que a polícia egípcia, após algumas investigações, chegou até um homem chamado Ahmed Abd er-Rassul, que àquela altura era suspeito de violar sepulturas antigas (O’CONNOR et al, 2007).

— Saiba um pouco mais sobre essa história assistindo ao vídeo “Esconderijo de múmias reais de Deir el-Bahari.

Ahmed em frente a tumba. Foto disponível em REEVES, 2008.

Apesar de ter sofrido um duro interrogatório —  que incluiu tortura — Ahmed negou a acusação.  Porém, um parente seu, um senhor chamado Mohamed, o denunciou para as autoridades e revelou de onde estavam saindo os artefatos:  eles tinham sido encontrados dez anos antes, em 1871, em uma sepultura da época dos faraós, que possuía vários corpos (HAGEN et al, 1999; O’CONNOR et al, 2007; DAVID, 2011). A revelação foi um grande choque, em especial porque quando os arqueólogos entraram no lugar descobriram que dentro dos caixões estavam pouco mais de 40 múmias [2] e algumas delas eram as de grandes personalidades do passado tais como Ahmés-Nefertari, Seti I e Ramsés II (O’CONNOR et al, 2007).

A sepultura, cujo dono é desconhecido — parte dos egiptólogos estão divididos entre Inhapi ou Ahmose Merytamen —, foi construída próximo ao templo mortuário da faraó Hatshepsut, em Deir el-Bahari, literalmente do outro lado do Vale dos Reis e possui dois corredores e duas câmaras. Por conta da sua localização a priori foi catalogada como DB320 (Deir el-Bahari 320), mas na atualidade ela é chamada de TT320 (Tumba Tebana 320).

Ilustração representando Gaston Maspero em frente da tumba.

Localização da sepultura do ponto de vista dos templos mortuários de Hatshepsut e Mentuhotep. Fonte: Wikimedia.

Entrada da TT320. Fonte: Wikimedia.

Apesar da magnitude do achado o arqueólogo responsável pela remoção dos corpos e dos artefatos, Emil Brugsch (1842 – 1930), não realizou nenhum registro do sítio (O’CONNOR et al, 2007), algo que é impensável nos dias de hoje. Isso acaba comprometendo as análises futuras e consequentemente retira as chances de conseguir respostas para questões feitas atualmente acerca do sepulcro e das múmias e artefatos depositados lá dentro.

Entrando na Sepultura:

Para entrar no tal sepulcro, Brugsch precisou descer um poço com uma corda e passar por uma abertura com cerca de um metro de altura. O primeiro ataúde que viu pertencia a um sumo-sacerdote e mais adiante encontrou mais outros três. Necessitou avançar passando por um corredor com algumas pequenas antiguidades e seguiu por um pequeno lance de escadas até uma saleta.  Foi lá que, sob a luz de velas, encontrou enormes ataúdes e em alguns deles com o nome de grandes faraós.  Mais tarde ele declarou:

“Percebi a situação com o ofego e apressei-me a sair ao ar livre a fim de não me deixar vencer pelo o que via e que o glorioso achado, ainda não revelado, se perdesse para a ciência” [3] (O’CONNOR et al, 2007, p. 23).

Após esta saleta existe mais um corredor que leva até a câmara mortuária onde estavam mais corpos.

Temendo mais saques ele contratou cerca de 300 homens e embarcou todos os objetos em embarcações com destino ao Cairo.  Mas, não foi uma viagem silenciosa:  ao longo do Nilo homens atiravam com seus rifles para o céu e as mulheres lamentavam alto, um sinal de respeito e luto pelos antigos governantes falecidos. Já no Cairo a resposta foi menos respeitosa:  na alfândega o funcionário responsável pelo recebimento da carga registrou as múmias como ” peixe seco” (O’CONNOR et al, 2007).

Autópsia e análise das múmias:

Tempos depois da chegada dos corpos, Gaston Maspero (1846 – 1916), supervisor geral do Serviço de Antiguidades, liberou as autópsias —  que no caso das múmias é o que chamamos comumente de “desenfaixar” —.  O primeiro faraó a passar por esse processo foi Tutmés III.  As bandagens do Rei já tinham sido perturbadas em outro momento pelos Abd er-Rassul, que fizeram um buraco no seu peito.  Quando os arqueólogos abriram o restante do envoltório encontraram a múmia quebrada na área do pescoço e nas pernas (O’CONNOR et al, 2007).

Múmia de Tutmés III ainda coberta. Na área do seu peito está um buraco, feito por saqueadores.

Dias depois foi a vez de Ramsés II, que ao contrário do seu antecessor longínquo estava inteiro, em perfeito estado de conservação, inclusive contendo cabelos. Ramsés II tinha sido posto em um sarcófago de madeira que o identificava através de inscrições escritas em negro (O’CONNOR et al, 2007).

Primeiras notas sobre a múmia de Ramsés II. Fonte: Wikimedia.

A próxima múmia possuía um enorme sarcófago bem trabalhado. Descobriu-se que o grande artefato pertenceu à Rainha Ahmés-Nefertari.  Porém, quando as bandagens foram retiradas do corpo o que se seguiu foi uma surpresa desagradável.  Nas palavras do próprio Maspero:

“Mas, assim que o corpo foi exposto ao ar externo, desapareceu literalmente num estado de putrefação, dissolvendo-se numa matéria escura que exalou um odor insuportável” (O’CONNOR et al, 2007, p. 25).

Existem duas fotografias que nos mostram a múmia da rainha na época em que foi descoberta, mas o destino do corpo na atualidade é incerto. De acordo com um relato da época, por conta do mau cheiro a múmia foi sepultada no interior do Museu Egípcio. Algo que não foi confirmado na atualidade e nenhuma das bibliografias consultadas deu uma resposta definitiva.

Ahmés-Nefertari. Foto: E. Smith.

Sarcófago de Ahmés-Nefertari.

Ramsés III foi o próximo, contudo, o seu rosto estava coberto por um revestimento betuminoso que escondia suas feições (O’CONNOR et al, 2007). Nos últimos dez anos o rei passou por análise que apontam que antes da sua morte ele sofreu um ataque violento que certamente teria causado a sua morte [4].

Nos dias seguintes mais oito múmias da realeza foram desembrulhadas.  O arqueólogo francês Eugène Lefebure escreveu sobre esse trabalho, enaltecendo as emoções da época: “Quase todas as múmias estavam cobertas com grinaldas secas e lótus murchos que tinham permanecido intocados durante milhares de anos, e não havia melhor forma de compreender a suspensão do tempo e o freio a decomposição que ver essas flores imortais sobre os corpos eternizados” e complementou ” era a imagem de um sono interminável” (O’CONNOR et al, 2007, p. 26).

Alguns dos corpos que se encontram no sepulcro não foram identificados, outros, porém, com o auxílio de métodos invasivos e não invasivos, foram relacionados com outras múmias reais, a exemplo do “Homem Desconhecido E”, identificado através de um exame de DNA como um dos filhos de Ramsés III. Abaixo está uma tabela apontando o número de múmias e seus respectivos nomes, quando possível:

Nome Dinastia Título Observações
Ahmés-Inhapi 17ª Rainha Irmã de esposa de Seqenenre Tao II.
Ahmés-Henutemipet 17ª Princesa Filha de Seqenenre Tao II.
Ahmés-Henuttamehu 17ª Princesa Filha de Seqenenre Tao II.
Ahmés-Meritamon 17ª Princesa Provavelmente filha de Seqenenre Tao II.
Ahmés-Nefertari 18ª Rainha
Ahmés-Sipair 17ª Principe Provável filho de Seqenenre Tao II ou Ahmose I.
Ahmés-Sitkamose 17ª Princesa Provavelmente filha de Kamose, é possível que tenha casado com Ahmose I.
Amenhotep I 18ª Faraó
Ahmose I 18ª Faraó
Baket/Baketamon? 18ª Princesa
Djedptahiufankh 21ª Quarto Profeta de Amon Casou com a filha de  Pinudjem II e Neskhons,  Nesitanebetashru.
Duathathor-Henuttawy 21ª Rainha Esposa de Pinedjem I
Isetemkheb 21ª Chefe do harém de Amon-Rá Irmã e esposa de Pinedjem II.
Maatkare 21ª Esposa Divina de Amon Filha de Pinedjem I.
Masaharta 21ª Sumo Sacerdote de Amon Filho de Pinedjem I.
Nebseni
Neskhos
Nesitanebetashru 21ª Rainha Esposa de Djedptahiufankh.
Nodjmet 21ª Rainha Esposa de Herihor.
Pinedjem I 21ª Sumo Sacerdote de Amon
Pinedjem II 21ª Sumo Sacerdote de Amon
Rai 18ª Enfermeira Real Enfermeira de Ahmés-Nefertari.
Ramsés II 19ª Faraó
Ramsés III 20ª Faraó
Ramsés IX 20ª Faraó
Seqenenre Tao II 17ª Faraó
Seti I 19ª Faraó
Siamon 18ª Príncipe Filho de Ahmés-Nefertari e Ahmés I.
Sitamon 18ªª Princesa Filha de Ahmés e irmã de Amenhotep I
Tayuheret 21ª Cantora de Amon Possível esposa de Masaharta.
Tutmés I 18ª Faraó
Tutmés II 18ª Faraó
Tutmés III 18ª Faraó
Desconhecido Desconhecido E
Desconhecida Possivelmente rainha Tetisheri, mãe de Tao II, Ahmose Nefertari e possivelmente Kamose.
Desconhecida
Desconhecido
Desconhecido
Desconhecido
Desconhecido

Tabela realizada de acordo com REEVS, 2008 e RICE 1999.

Resquícios de outros indivíduos, tais como sarcófagos, vasos canópicos, joias, etc, foram identificados espalhados pela tumba. Tudo o que foi encontrado posteriormente a denúncia de Mohamed encontra-se hoje no Museu do Cairo. Entretanto, os objetos saqueados pelos Abd er-Rassul jamais foram recuperados. Provavelmente atualmente estão em alguma coleção particular ou na galeria de um grande museu identificado como possuindo “procedência desconhecida”.

Referências bibliográficas:

DAVID, Rosalie. Religião e Magia no Antigo Egito (Tradução de Angela Machado). Rio de Janeiro: Difel, 2011.

MARIE, Rose; HAGEN, Rainer. Egipto (Tradução de Maria da Graça Crespo). Lisboa: Taschen, 1999.

O’CONNOR, D.; FORBES, D.; LEHNER, M. Grandes civilizações do passado: terra de faraós. Tradução de Francisco Manhães. 1ª Edição. Barcelona: Ed. Folio, 2007.

REEVES, Nicholas; WILKINSON, Richard. The Complete Valley of the Kings. London: Thames & Hudson, 2008.

RICE, Michael. Who’s Who in Ancient Egypt. 1ª Edição. Londres: Editora Routledg. 1999.


[1] Foi somente no início do século 20 que este quadro mudou com a descoberta da tumba do faraó Tutankhamon e parte do acervo fúnebre de Psusenes I

[2] Contando aqui tanto os corpos inteiros, como partes, como são o caso dos órgãos dentro dos vasos canópicos.

[3] Ele declarou isso possivelmente com medo de que as velas que o grupo carregava pudesse causar um incêndio.

[4] Ramsés III foi morto durante um ataque de mais de um assassino, diz pesquisadores.

Nefertiti e Akhenaton: o casal egípcio impossível de ser ignorado

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille | Instagram

Na virada do século XIX para o XX, não se sabia muita coisa sobre o Período Amarniano — momento da história egípcia em que além de ocorrer uma mudança da capital do Egito, foi feita uma tentativa da elevação do deus Aton como a divindade principal do panteão egípcio — nem sobre os seus patrocinadores, o casal real Nefertiti e Akhenaton.

Foi aos poucos e com a ajuda de descobertas pontuais — tais como as das estelas fronteiriças da cidade de Aketaton, a tumba de Akhenaton, a KV-55, a tumba de Tutankhamon e os talatats em Karnak — que um quadro dessa época única da história egípcia começou a ser formado. Contudo, apesar dos esforços dos arqueólogos egiptólogos, muitos acontecimentos não estão claros.

O primeiro são as circunstâncias em que Akhenaton assumiu o poder: o trono estava destinado ao seu irmão mais velho, Tutmés, mas o herdeiro faleceu quando criança. Akhenaton, que na época chamava-se Amenhotep IV, virou o principal na linha de sucessão. Em 2014, foi anunciado que dentro de uma capela pertencente a um vizir chamado Amenhotep Huy (Capela 28), em Luxor, a equipe do Proyecto Visir Amen-Hotep Huy encontrou uma prova da co-regencia entre o rei Amenhotep III e o príncipe regente Amenhotep IV. Porém, não se sabe se Amenhotep III ainda estava vivo quando o filho saiu de príncipe regente para faraó de fato.

Akhenaton, Nefertiti e três das suas seis filhas. Foto: Wikimedia Commons.

O segundo é a origem da Grande Esposa Real Nefertiti: tem quem crê que ela era uma princesa mitanni que ao chegar ao Egito para casar com o príncipe Amenhotep IV mudou de nome, passando a se chamar Nefertiti — que significa “A bela chegou” —. Outra teoria tem a ver com a sua própria ama-de-leite, Ty; alguns acadêmicos acreditam que ela não era somente sua ama, mas sim a sua mãe. Ty era esposa de Ay, homem que com a morte do rei Tutankhamon viria a se tornar faraó (Imagem).

Primeiros anos de reinado: Aton e a mudança para Aketaton

É certo que quando o até então Amenhotep IV e a Nefertiti assumiram o trono eles moravam em Tebas, onde edificaram em Karnak um templo votivo a Aton. Foi lá onde tiveram suas três primeiras filhas: Meritaton, Meketaton e Ankhesenpaaton. Embora muitas pessoas acreditem que as “raízes” para o culto a Aton na realeza tenha surgido através desse casal ou mesmo que esse deus foi inventado por eles, em verdade essa divindade é antiga, sendo uma das formas de Rá. Em complemento, os primeiros sinais da “revolução” [1] amarninana já estão presentes durante o governo de Amenhotep III e Tiye, pais de Akhenaton.

Nefertiti, Akhenaton e uma de suas filhas prestando homenagens a Aton. Foto: Wikimedia Commons.

Não se sabe os motivos que levou Akhenaton a abandonar Tebas, mas é fato que ele saiu de lá e foi viver em um local deserto, onde criou uma nova cidade que denominou como “Aketaton” (Horizonte de Aton) e lhe deu o título de capital do Egito (BAINES; MALEK, 2008).

Bill Munane, pesquisador da Universidade de Menphis, em uma entrevista a National Geographic, explicou que “Akhenaton não diz com todas as letras o que aconteceu, mas foi algo que o enfureceu” e finalizou com “ele disse que nem ele nem seus ancestrais jamais haviam passado por algo pior” (GORE, 2001).

Aketaton seria um novo começo, mas, que precisava crescer logo. Então os engenheiros do rei tomaram uma medida drástica: as casas seriam construídas com adobe, a exemplo do restante do país. Porém, os templos, em vez de ser construídos com as usuais pedras de calcário, seriam edificados com pequenas pedras de areníticas, cortadas com cerca de 50x25x23 centímetros. São os chamados atualmente de talatats (“três” em árabe, devido ao seu tamanho de três palmos) (STROUHAL, 2007; BAINES; MALEK, 2008).

Exemplo de talatat. Nele está representado Akhanton realizando oferendas a Aton e recebendo a sua proteção.

Por ser de fácil transporte e manuseio, os talatats permitiram que os principais prédios da cidade estivessem aptos para o uso quando Akhenaton foi morar lá.

O local tinha como principal acesso o Rio Nilo e a planície em que a cidade foi edificada é inteiramente cercada por uma cadeia rochosa. A parte central de Aketaton era composta pelos chamados atualmente de Grande Templo e o Grande Palácio, que tinha acesso à residência de Akhenaton através de uma ponte (BAINES; MALEK, 2008).

A cidade não durou muito tempo após a morte do rei, sendo abandonada totalmente menos de vinte anos depois de Akhenaton falecer (BAINES; MALEK, 2008).

A Arte Amarniana:

Não foi somente a capital do país que mudou, mas as convenções artísticas também. Em Aketaton os desenhistas tiveram a liberdade e ir além das convenções artísticas rígidas da época, podendo representar a família real e seus súditos exercendo diferentes atividades (inclusive de cunho mais pessoal), registrando-os com mais leveza em seus movimentos (BRANCAGLION Jr., 2001). Os escultores também beberam dessa novidade realizando moldes de rostos e esculpindo estátuas mais realistas, prezando pela identidade dos clientes (O’CONNOR et al, 2007; STROUHAL, 2007).

Nefertiti. Foto: Wikimedia Commons.

Porém, não é somente a liberdade artística a característica marcante da arte amarniana. Tanto nos desenhos parietais, como nas esculturas é possível encontrar detalhes excêntricos onde a família real e algumas pessoas do seu séquito foram representados com crânios exageradamente alongados e pelve e coxas grossas.

Esse tipo de representação levantou uma série de questionamentos nas últimas décadas, resultando em propostas de que Akhanaton, Nefertiti e suas filhas teriam sofrido de uma patologia terrível. Contudo, além do fato de existir imagens deles representados “normais”, os exames realizados nos remanescentes ósseos desse período, mais especificamente de parentes próximos da família e no suposto corpo de Akhenaton, não apontam nenhuma deformação.

Nefertiti e Akhenaton. Foto: Wikimedia Commons; Guillaume Blanchard.

A morte de Nefertiti e de Akhenaton:

Um dos temas da Egiptologia que mais gera controvérsias é a época da morte de Nefertiti. Convencionou-se, por muitos anos, a se dizer que ela morreu no 14ª de reinado de Akhenaton (GRIMAL, 2012). Contudo, a descoberta de uma pequena inscrição em uma pedreira de calcário datada do 16ª ano de reinado de Akhanaton indica que ela ainda estava viva [2]. Isso só fez fomentar a suposição de alguns egiptólogos de que ela teria sobrevivido ao marido e reinado como uma faraó chamada Ankhkheperurá (REEVES, 2008; ALLEN, 2009). Uma proposta que, todavia, está mais no campo da especulação.

— Saiba mais sobre Ankhkheperura: Mulheres faraós #AntigoEgito https://www.youtube.com/watch?v=jL1D45uR-Q8&t=10s

Assim como muitos corpos desse período, a múmia de Nefertiti ainda não foi encontrada ou identificada, apesar das várias tentativas de busca por parte de alguns pesquisadores tais como Zahi Hawass, Joann Fletcher e Nicholas Reeves.

Já Akhenaton, sabemos que ele faleceu no 17ª ano de reinado. Com sua morte ele foi precedido por Smenkhará e provavelmente depois por Ankhkheperurá (ou vice-versa) (REEVES, 2008; ALLEN, 2009). Sua tumba foi encontrada em Amarna e os restos do seu sarcófago de pedra encontra-se no Museu Egípcio do Cairo. Contudo, o seu corpo não foi identificado com 100% de certeza. Arqueólogos que trabalharam na busca dos parentes do faraó Tutankhamon através de análises de DNA entre 2007 e 2009 acreditam que os remanescentes ósseos descobertos da KV-55, dentro de um ataúde com o nome apagado, seria ele. Mas essa não é uma certeza absoluta. Porém, caso esses ossos tenham outrora sido Akhenaton então, de acordo com esses mesmos exames de DNA, ele foi pai de Tutankhamon (HAWASS et al, 2010).

Sarcófago de Akhenaton. Foto: Wikimedia Commons.

Poucos anos após a morte de ambos, durante o reinado do faraó Horemheb, teve início uma campanha para apagar seus nomes e os dos seus sucessores (inclusive Tutankhamon e Ay) das paredes dos templos de Karnak, além do desmantelamento gradual da cidade de Aketaton. Porém, isso não foi o bastante: a arqueologia cada vez mais tem conseguido organizar os passos de ambos e os acontecimentos desse período único na história do Egito.

Para saber mais: Em meu livro, “Uma viagem pelo Nilo”, dedico um capítulo, “A análise dos talatats de Akhenaton”, para tratar da descoberta dos talatats do templo de Akhenaton em Karnak. Também apresento os principais acontecimentos dessa época em relação a mudança da capital.

Referências bibliográficas:

[1] As atuais pesquisas acerca desse período estão discutindo que os acontecimentos patrocinados por esse casal não possuem uma característica de uma revolução, mas sim, um golpe de estado.

[2] Dayr al-Barsha Project featured in new exhibit ‘Im Licht von Amarna’ at the Ägyptisches Museum und Papyrussammlung in Berlin. Disponível em < http://www.dayralbarsha.com/node/124 >. Acesso em 21 de dezembro de 2012.

[3] Algo que é bastante questionável já que observando o contexto da época é possível encontrar aspectos dos demais deuses, mesmo em Aketaton.

ALLEN, James. “The Amarna Succession”. In: BRAND, Peter; COOPER, Louise. Causing his Name to Live: Studies in Egyptian Epigraphy end History in Memory of William J. Murnane. Netherlands: Koninklijke Brill (Brill Academic Publishers), 2009.

BAINES, John; MALEK, Jaromir. Deuses, templos e faraós: Atlas cultural do Antigo Egito (Tradução de Francisco Manhães, Maria Julia Braga, Michael Teixeira, Carlos Nougué). Barcelona: Folio, 2008.

BRANCAGLION Jr., Antonio. Tempo, material e permanência: o Egito na coleção Eva Klabin Rapaport. Rio de Janeiro: Casa da Palavra – Fundação Eva Klabin Rapaport, 2001.

GORE, Rick. Os faraós do sol. National Geographic Brasil, São Paulo, Abril. 2001.

GRIMAL, Nicolas. História do Egito Antigo (Tradução Elza Marques Lisboa de Freitas). Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2012.

HAWASS, Zahi; GAD, Yehia Z; ISMAIL, Somaia; KHAIRAT, Rabab; FATHALLA, Dina; HASAN, Naglaa; AHMED, Amal; ELLEITHY, Hisham; BALL, Markus; GABALLAH, Fawzi; WASEF, Sally; FATEEN, Mohamed; AMER, Hany; GOSTNER, Paul; SELIM, Ashraf; ZINK, Albert; PUSCH, Carsten M. Ancestry and Pathology in King Tutankhamun’s Family. JAMA. 303(7):638-647, 2010.

O’CONNOR, D.; FORBES, D.; LEHNER, M. Grandes civilizações do passado: terra de faraós. Tradução de Francisco Manhães. 1ª Edição. Barcelona: Ed. Folio, 2007.

STROUHAL, Eugen. A vida no Antigo Egito (Tradução de Iara Freiberg, Francisco Manhães, Marcelo Neves). Barcelona: Folio, 2007.

REEVES, Nicholas. The Complete Tutankhamun. London: Thames & Hudson, 2008.

A “Lei da Frontalidade”: entendendo as pinturas egípcias

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille | Instagram

Quando se pensa na antiguidade egípcia é comum lembrar de imagens tais quais as pirâmides, múmias e claro, das pinturas parietais. Para quem não está acostumado, as pinturas egípcias poderão despertar um certo estranhamento e até desconforto, porém, está reservado a elas igualmente muita admiração.

Embora popularizada na atualidade graças a cultura popular — principalmente devido a Egiptomania —, é um grande fato que a arte egípcia é composta, em sua maioria esmagadora, de artistas anônimos (BRANCAGLION Jr., 2001). Não conhecemos muitos nomes responsáveis pelas belas peças que hoje encontram-se em museus ao redor do mundo e os poucos que temos ciência não foram por assinar suas obras (o que não era uma prática), mas porque seus nomes foram descobertos acidentalmente em seus ateliês, durante escavações arqueológicas.

As pinturas parietais — tema desse post — possuíram um importante papel para essa civilização que se desenvolveu às margens do Nilo. Elas foram utilizadas como uma forma de comunicação e até uma maneira de auxiliar ou garantir que os falecidos alcançassem seus desejos ou sonhos no além-vida.

Exemplo de ilustração egípcia. Imagem disponível em EINAUDI, Silvia. Coleção Grandes Museus do Mundo: Museu Egípcio Cairo (Tradução de Lúcia Amélia Fernandez Baz). 1º Título. Rio de Janeiro: Folha de São Paulo, 2009. p. 94.

Embora pareça bastante complexa, a pintura egípcia costumava seguir alguns padrões como, por exemplo, a cor de pele poder variar de acordo com o gênero da pessoa (homens com um tom avermelhado, quase cobre e mulheres com um tom amarelado) e os indivíduos de classes mais altas ou considerados como o mais importante na cena representados maiores (HAGEN et al, 1999; GOMBRICH, 2008).

Outro padrão tem a ver com a tradição de registrar uma pessoa ou divindade de lado, em uma postura bastante rígida. Na arqueologia egípcia não existe um termo especifico para este tipo de retrato, mas nos estudos de arte convencionou-se a chamar esse tipo de representação como “Lei da Frontalidade”. Nela os personagens são mostrados com a cabeça, os braços e pernas de perfil (1), mas, com os olhos, os ombros e tronco de frente (2), criando assim uma combinação de a visão frontal e a lateral (CASSON, 1983; HAGEN et al, 1999).

Imagem disponível em CASSON, Lionel. O Antigo Egito. Rio de Janeiro: José Olympio, 1983.

Os motivos para esse tipo de reprodução são desconhecidos. Alguns já sugeriram que poderia ser uma ausência de perícia dos antigos artistas, outros que seria uma tentativa de passar uma mensagem de onipotência e existe os que a defendem como possuidora de um arranjo excepcional (CASSON, 1983; BRANCAGLION Jr., 2001; GOMBRICH, 2008). Me utilizo aqui das palavras de Gombrich:

Vale a pena pegar um lápis e tentar reproduzir um desses desenhos egípcios “primitivos”. Nossas tentativas vão sempre parecer inábeis, assimétricas e deformadas. Pelo menos, as minhas parecem. Pois o sentido egípcio de ordem em todos os detalhes é tão poderoso que qualquer variação, por mínima que seja, parece desorganizar inteiramente o conjunto (GOMBRICH, 2008, p. 64).

Como eram feitas:

O trabalho era efetuado por um grupo de desenhistas (sesh[1], em egípcio antigo) ou os “desenhistas escultores” (sesh kedut) e cada um ficava responsável em efetuar uma determinada tarefa (STROUHAL, 2007):

Ilustração: Lloyd K. Townsend.

(1) A parede era nivelada e usualmente coberta por uma camada de estuque, que era polida (STROUHAL, 2007);

(2) Então um quadriculado era pintado, para dar apoio ao futuro desenho. Essa técnica permitia que o desenhista se guiasse e pudesse transmitir a ilustração, que provavelmente já estava feita em uma superfície menor (um pedaço de pedra ou uma madeira coberta de estuque), para a parede (HAGEN et al, 1999; STROUHAL, 2007; GOMBRICH, 2008);

(3) Alguns remanescentes arqueológicos nos sugerem que um rabisco era feito primeiro e depois era corrigido por um desenhista mais experiente (STROUHAL, 2007);

(4) As cores eram obtidas de minerais tais como ocre ou sulfato de arsênico (para o amarelo-claro), malaquita e cal (para verde), carvão (para preto), óxido de ferro ou hematita (para vermelho), silicato de cobre ou sais de cobalto (para azul); esses materiais eram misturados com clara de ovo ou cera de abelha para criar uma consistência pastosa (CASSON, 1983; STROUHAL, 2007).

Parede da tumba do faraó Horemheb. Foto: Kodansha Ltd. Imagem disponível em STROUHAL, Eugen. A vida no Antigo Egito (Tradução de Iara Freiberg, Francisco Manhães, Marcelo Neves). Barcelona: Folio, 2007. p. 164.

Como em qualquer sociedade, naturalmente o Egito Antigo possuía as suas exceções. Nem todas as mulheres eram representadas mais claras que os homens, assim como nem todas as imagens eram representadas de perfil. Ademais, os estilos de pinturas variaram com o tempo. Em dados períodos será possível encontrar representações mais naturalistas, em outros com um caráter mais relaxado, sem a rigidez que o cânone artístico comumente empregava. É necessário que os estudantes estejam cientes da variedade da arte egípcia e seus autores, apesar do que a tradição artística pode sugerir, a exemplo da própria “Lei da Frontalidade”.

Musicistas e dançarinas trabalhando em uma festa. Autor da foto: desconhecido.

Tenha em casa: A Edições Del Prado, uma editora especializada em vendas de fascículos com imagens colecionáveis, possui uma coleção intitulada “Cenas do Egito Antigo”. Em uma delas são retratados personagens realizando a atividade descrita aqui: a pintura em parede.

Clique aqui para conferir a peça ou aqui para ver as demais cenas.

Referências bibliográficas:

BRANCAGLION Jr., Antonio. Tempo, material e permanência: o Egito na coleção Eva Klabin Rapaport. Rio de Janeiro: Casa da Palavra – Fundação Eva Klabin Rapaport, 2001.

CASSON, Lionel. O Antigo Egito. Rio de Janeiro: José Olympio, 1983.

GOMBRICH, E. H. A História da Arte. Rio de Janeiro: Livros Técnicos e Científicos Editora S.A., 2008.

HAGEN, Rainer; MARIE, Rose. Egipto (Tradução de Maria da Graça Crespo). Lisboa: Taschen, 1999.

STROUHAL, Eugen. A vida no Antigo Egito (Tradução de Iara Freiberg, Francisco Manhães, Marcelo Neves). Barcelona: Folio, 2007.


[1] Sesh também significa “escriba”.

Importantes descobertas de embarcações em tumbas egípcias

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille | Instagram

Em 2013, após dois anos de pesquisas, finalmente apresentei a dissertação que me deu o título de mestra em arqueologia. O tema era relacionado com a discussão da importância de se estudar os artefatos ligados de alguma forma com os ambientes aquáticos durante o Período Faraônico. Nesse mesmo trabalho levantei propostas de análises e exemplos de artefatos. Afinal, é um fato que os seres humanos convivem com a água desde sempre, de uma forma ou de outra.

Os egípcios, por exemplo, tinham uma série de simbolismos em relação aos líquidos como o vinho, a cerveja e claro, a água (POO, 2010). Mas, essa última possuiu um patamar diferente, pois os aspectos imaginários ligados a ela são muito mais complexos, ao ponto de os artefatos relacionados com os ambientes aquáticos ou húmidos possuírem, em alguns casos, um status sagrado. É aqui onde entram as embarcações.

Nas palavras de George Bass, o pioneiro da Arqueologia Subaquática, o papel das embarcações no progresso humano não deve ser subestimado. Em várias e diferentes sociedades elas foram as responsáveis por transportar matérias-primas e ideias. Capazes de deslocar pessoas com rapidez, o seu uso permitiu chegar a ilhas e continentes, abrindo assim cada vez mais o horizonte humano (BASS, 1969).

Recentemente, uma equipe de arqueólogos encontrou, gravadas na parede de um fosso em Abidos, gravuras representando uma frota egípcia. No local, que fica próximo ao túmulo do faraó Sesostris III (Médio Império; 12ª Dinastia) [1], outrora tinha sido encontrada uma embarcação com cerca de 20 metros [2].

Foto: Josef Wegner

Na iconografia foram contados 120 navios, desenhados sobre uma superfície de gesso. Alguns são bem detalhados, contendo informações como remos e timões [2].

Foto: Josef Wegner

Não se sabe quem realizou tais registros. O arqueólogo responsável pelo estudo do local, Josef Wegner, apresentou várias teorias do que poderia ter ocorrido, mas, salientando que nenhuma é uma certeza: talvez foram feitos pelos próprios construtores do local, foram parte de uma cerimônia religiosa ou invasores fizeram isso. A única coisa que é garantia é que em algum momento posterior ao sepultamento do faraó um grupo de ladrões invadiram o recinto e levaram tábuas que pertenciam a embarcação que um dia esteve lá [2].

Foto: Josef Wegner

145 peças de cerâmicas também foram encontradas no espaço, provavelmente para guardar algum líquido. “As oferendas líquidas foram parte integral do culto funerário pessoal nas práticas mortuárias egípcias, mas não aparecem associadas normalmente a objetos inanimados” comentou o Wegner no seu artigo “A Royal Boat Burial and Watercraft Tableau of Egypt’s 12th Dynasty (c.1850 BCE) at South Abydos“, publicado na Online Library [2].

Muitas outras descobertas envolvendo embarcações:

Em sítios arqueológicos egípcios foi possível encontrar desenhos representando embarcações durante o Pré-dinástico (5300-3000 a. E. C.) e a pratica se seguiu com força durante o faraônico, mas desta vez também através de pequenos modelos ou de embarcações propriamente dita. Um ótimo exemplo, sem dúvidas, são as barcas do rei Khufu, descobertas em 1955. Uma delas, a Khufu I, encontra-se montada próximo a sua pirâmide (HAWASS, 1992; O’CONNOR, 2007).

Khufu Boat Museum, Giza, Egypt.

Khufu I

Khufu solar boat

Khufu I

Muitos anos antes, em 1894, na área de Dashur foram descobertas seis embarcações próximas a pirâmide de Sesostris III[1]. De todas somente o paradeiro de quatro é conhecido: duas permanecem no Egito e as demais nos EUA (DELGADO, 1996).

Dashur Boat

Um dos barcos de Dashur

Em 1920 um arqueólogo norte-americano encontrou durante a limpeza da tumba de um homem chamado Meketra, em Deir-el-Bahari, um esconderijo que continha uma série de modelos que representavam pessoas em diferentes atividades e uma delas era a de navegação (O’CONNOR et al, 2007). A ideia deste tipo de representação provavelmente tinha relação com a crença de que aquelas cenas se tornariam vivas no além. A outra proposta é a de que seriam somente objetos favoritos do Meketra e que, como tal, os queria em sua nova vida.

Traveling Boat Rowing Dynasty 12 early reign of Amenemhat I from tomb of Meketre Thebes 1981-1975 BCE (4)

Um dos modelos de Meketra

Achados desse tipo também se fez presente na tumba de Tutankhamon, descoberta em 1922, temos exemplos de alguns modelos, 35 no total. Alguns certamente foram postos lá com uma intenção ritual, utilizados como um transporte mágico para o além (JAMES, 2005; O’CONNOR et al, 2007). Remos também foram encontrados, todos depositados na câmara mortuária.

Modelo de embarcação encontrada na tumba de Tutankhamon. Foto: Harry Burton.

E em 2012, um uma equipe de arqueólogos encontrou em Abu Rawash uma barca funerária de madeira que pode ter sido usada durante o governo do faraó Den (também chamado de Udimu), da 1ª Dinastia.

O que todas essas descobertas possuem em comum é que elas não só nos dão informações sobre o ponto de vista religioso egípcio, mas, também sobre a tecnologia de construção desse tipo de transporte, tripulação e design.

Para saber mais: Publiquei um artigo intitulado “Por uma Arqueologia egípcia mais ‘aquática’” na Revista Labirinto, onde mostro alguns dos aspectos mais marcantes destas antigas comunidades que demonstram que a água durante o faraônico foi mais do que um espaço para a captação de recursos e que ela deve receber uma atenção maior por parte da Arqueologia.

Fontes:

[2] Hallan una flota de más de 120 barcos grabada junto a la tumba del faraón Sesostris III. Disponível em < http://www.abc.es/cultura/abci-hallan-flota-mas-120-barcos-grabada-junto-tumba-faraon-sesostris-201611021401_noticia.html >. Acesso em 02 de novembro de 2016.

BASS, George, Fletcher. Arqueologia Subaquática. Lisboa: Editorial Verbo, 1969.

DELGADO, James. Encyclopedia of Underwater and Maritime Archaeology. London: British Museum, 1996.

HAWASS,  Zahi. “A  Burial  with  an  Unusual  Plaster  Mask  in  the  Western  Cemetery  of Khufu’s  Pyramid”.  In:  FRIEDMAN,  Renée;  ADAMS,  Barbara. The  Followers  of  Horus: Studies Dedicated to Michael Allen Hoffman. Oxford: Editora Oxbow, 1992.

JAMES, Henry. Tutancâmon (Tradução de Francisco Manhães). Barcelona: Folio, 2005.

O’CONNOR, D.; FORBES, D.; LEHNER, M. Grandes civilizações do passado: terra de faraós. Tradução de Francisco Manhães. 1ª Edição. Barcelona: Ed. Folio, 2007.

POO, Mu-chou. “Liquids in Temple Ritual”. In: DIELEMAN, Jacco; WENDRICH, Willeke; FROOD, Elizabeth; BAINES, John. UCLA Encyclopedia of Egyptology. Los Angeles: UC Los Angeles, 2010.


[1] Sesostris III possuiu duas sepulturas: uma em Abidos e outra em Dashur. Certamente uma delas foi um cenotáfio.

 

A franquia de filmes “A Múmia” da Universal Studios

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille | Instagram

Quando o cinema surgiu no final do século XIX o público já estava, de certa maneira, acostumado com as imagens da Antiguidade egípcia em detrimento da Egiptomania, surgida graças a invasão napoleônica ao Egito em 1798. Por conta disso, alguns filmes lúdicos foram gravados, todos trazendo um passado cheio de mistério, exotismo e misticismo. Essa ainda era a época do cinema mudo.

The Haunted Curiosity Shop [A loja de curiosidades assombrada ] (R.W. Paul, 1901)

The Haunted Curiosity Shop [A loja de curiosidades assombrada ] (R.W. Paul, 1901)

— Saiba mais: O Antigo Egito e os primórdios do cinema

Em 1922 ocorreu a descoberta da tumba do faraó Tutankhamon o que deu um patamar novo para o passado egípcio no mundo ocidental: esse país não era mais somente um lugar cheio de tesouros arqueológicos, para algumas pessoas os seus artefatos poderiam conter a “maldição da múmia”, ideia popularizada pela morte do Lorde Carnarvon, patrocinador da descoberta do túmulo de Tutankhamon.

Paralelamente, a Universal Studios estava investindo em filmes de horror. Duas das suas grandes realizações tinha sido “Drácula” (1931), com Béla Lugosi e “Frankenstein” (1931) com Boris Karloff. Ambos trazendo atrama de homens que voltaram da morte. Foi com um princípio parecido que “A Múmia”, de 1932, estrelado também por Boris Karloff, foi pensado.

Ambientado na própria década de 1930, a fita conta a história do sacerdote Imhotep, que foi sepultado vivo como uma punição por um crime terrível. Ressuscitado no século XX, ele tenta então trazer a sua amada à vida, custe o que custar.

Anos depois foi lançado “A Mão da Múmia” (1940), onde é a vez do antigo egípcio Kharis despertar. O caminho de maldade de Kharis resultou em mais três filmes: “A Tumba da Múmia” (1942), “O Fantasma da Múmia” (1944) e “A Praga da Múmia” (1944).

“O Fantasma da Múmia” (1944). Foto: Divulgação.

Então, com a chegada de 1955, é a vez da comédia “Abbott e Costello caçando múmias no Egito”. Depois dessa produção o público precisou esperar 44 anos para poder ver “A Múmia” (1999) novamente nas telas do cinema, mas agora com um remake do filme de 1932. O personagem Imhotep foi repaginado com magias muito mais poderosas, novos personagens também foram criados. No entanto, a trama central permanece: ele fará de tudo para trazer de volta ao mundo dos vivos a sua amada. Esse novo “A Múmia” gerou duas continuações: “O Retorno da Múmia” (2001) e “A Múmia: tumba do Imperador Dragão” (2008).

“A Múmia” (1999). Foto: Divulgação.

Como é possível ver, esse monstro parece ser uma fonte inesgotável de inspiração. E é exatamente por isso que a Universal irá estrear nesse ano de 2017 um novo “A Múmia”, em que o monstro será uma princesa egípcia chamada Ahmanet.

“A Múmia” (2017). Foto: Divulgação.

— Veja mais: A espera acabou! Saiu o trailer de “A Múmia”, com Tom Cruise e Sofia Boutella

Em menos de 20 anos essa franquia completará 100 e aparentemente continuará a encontrar as gerações seguintes. Arrecadando milhares de fãs ao redor do mundo ela, apesar de apelar para o lado lúdico e muitas vezes errando feio ao representar a cultura faraônica, tem encantado várias pessoas de diferentes idades, algumas das quais acabaram, inclusive, se apaixonando pela verdadeira história do Egito. De um sacerdote egípcio apaixonado a uma princesa egípcia com sede de vingança, até onde o monstro “A Múmia” nos levará? ☥

 

Os gatos no Egito antigo

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille | Instagram

Que os egípcios antigos possuíam uma ligação especial com os animais não é novidade. Com os deuses com forma antropozoomórfica — ou seja, uma mistura de feições humanas com as de outros animais — essa sociedade deu destaque social e divino para várias espécies. Uma delas são os felídeos, a exemplo dos gatos.

Gatos são retratados em desenhos e estátuas no Egito desde o Período Pré-dinástico, época anterior ao governo dos faraós. Notável foi o apreço das pessoas por esses animais que uma importante divindade ganhou a sua forma. O seu nome era Bastet, protetora da música, alegria e maternidade. Ela era a filha do deus Rá e de acordo com uma das versões do seu mito ela o auxiliava na sua luta diária contra a serpente Apep (em grego “Apophis”) (CASTEL, 2001; SILIOTTI, 2006; BAINES; MALEK, 2008; DAVID, 2011).

The British Museum-Ancient Egyptian Cat

Deusa Bastet

Deusa Bastet

Essa deusa tinha até mesmo uma importante cidade votiva a ela denominada de Per-Bastet, em tradução livre “Casa de Bastet”. Nos períodos finais do faraônico essa cidade ficou conhecida como Bubasteion (Bubastis). Localizada nas proximidades das atuais Aváris e Tânis, é lá onde se encontra a maior necrópole de gatos do país, que abriga até hoje as múmias em vários felinos que foram lá depositados por seus donos ou por devotos da deusa para que esses intercedessem pelo humano, funcionando quase como um ex-voto (ZIVIE et al 2004; BAINES; MALEK, 2008).

Múmia de gato (British Museum). Foto: Mario Sanchez.

Mummified Cats

Vaso de cosmético com forma de gato. Foto: Met Museum.

Uma curiosidade sobre essas múmias é que enquanto algumas eram embrulhadas com invólucros simples, outras ganhavam até ataúdes em forma de gato (BRANCAGLION Jr., 2001). Centenas foram destruídas por exploradores no século 19 e 20, mas, vários espécimes ainda estão disponíveis para análise e até mesmo para a visitação em museus a redor do mundo, a exemplo do Museu Nacional do Rio de Janeiro (Brasil).

Para saber mais: O meu livro, Uma Viagem pelo Nilo, tem um capítulo, “Necrópole para animais”, onde dedico uma parte para falar sobre as múmias de animais e sobre a cidade de Bubastis.

Referências:

CASTEL, Elisa. Gran Diccionario de Mitología Egipcia. Madrid: Aldebarán, 2001.

DAVID, Rosalie. Religião e Magia no Antigo Egito (Tradução de Angela Machado). Rio de Janeiro: Difel, 2011.

BRANCAGLION Jr., Antonio. Tempo, material e permanência: o Egito na coleção Eva Klabin Rapaport. Rio de Janeiro: Casa da Palavra – Fundação Eva Klabin Rapaport, 2001.

IKRAM, Salima. “Divine Creatures”. In: IKRAM, Salima. Divine Creatures. Cairo: The American University in Cairo, 2005.

SILIOTTI, Alberto. Grandes Civilizações do Passado: Egito (Tradução de Francisco Manhães). Barcelona: Folio, 2006.

ZIVIE, Alain; CALLOU, Cécile; SAMZUN, Anaïck. A lion found in the Egyptian tomb of Maïa. Nature, Vol. 427, 15 January, 2004.

O garoto que “descobriu” a tumba de Tutankhamon: entenda o caso

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille | Instagram

A história da descoberta da tumba do faraó Tutankhamon é quase mitológica: ela foi encontrada no Vale dos Reis pelo arqueólogo inglês Howard Carter que, por quase uma década, estava na esperança de fazer uma grande descoberta. Isso dependendo do dinheiro e da paciência do seu mecenas, Lord Carnarvon, um nobre inglês que, a essa altura, já tinha dado um ultimato ao pesquisador, deixando claro que aquele ano seria o último da busca.

Coincidentemente, após quatro dias de iniciados os trabalhos, em 04 de novembro de 1922 o primeiro degrau da sepultura, identificado mais tarde pelo número tombo 433, foi encontrado (JAMES, 2005). E quando a primeira câmara foi aberta em 26 de novembro e os artefatos vislumbrados pela primeira vez em 3 mil anos, já estava claro que aquela seria considerada uma das maiores descobertas arqueológicas do século. Claro que como tudo o que chama atenção uma série de especulações começaram a surgir.

Tut Ankh Amon Sarcophagus, Egyptian Museum, Cairo, Egypt

Ataúde de Tutankhamon.

Tumba de Tutankhamon - Harry Burton - KV-62

Primeira câmara da tumba com os artefatos ainda em seus lugares originais. Foto: Harry Burton.

Enquanto eu escrevia o meu livro, “Tutankhamon, 1922 e o Vale dos Reis”, eu soube de algumas delas. Uma era a de que Carter teria recebido uma dica da localização da tumba por parte de um homem da família Abd-el-Rassul, famosa por roubos de sepulturas. A denúncia foi realizada pelo o próprio filho desse homem, Housein (MULLER; THIEM, 2006). Uma acusação infundada, afinal, a tumba estava completamente oculta por cascalhos e cabanas de operários datadas do Período Faraónico. Era simplesmente impossível alguém saber da existência do túmulo.

Hag Mahmoud Abd El-rassul segurando a foto de Hussein (idoso e criança). Autor da foto: desconhecido.

Hag Mahmoud Abd El-rassul segurando a foto de Hussein (idoso e criança). Autor da foto: desconhecido.

Agora em 2016 foi lançada uma matéria no El Mundo intitulada El niño que descubrió la tumba de Tutankamón (O garoto que descobriu a tumba de Tutankhamon). Garoto esse que a reportagem revela mais tarde ser o Housein. De acordo com a notícia, um homem chamado Mohamed Abd-el-Rassul afirma que foi seu avô, o Housein, quem encontrou o sepulcro enquanto levava água para membros da expedição.

De fato, o menino Housein encontrou o primeiro degrau, isso não é segredo (os livros mais completos sobre a história da descoberta não deixam de citá-lo, inclusive), mas ele não deve levar todo o crédito de ser o responsável por encontrar a tumba. Quando analisei os registros de Carter foi possível observar que ele anotava tudo o que considerava relevante sobre os trabalhos do dia, inclusive sobre como separou o Vale em seções e deu a ordem aos trabalhadores para que escavassem até a rocha. Também é conhecido que era (e ainda é) um costume os arqueólogos que trabalham no país raramente efetuar as escavações com as suas próprias mãos, deixando que esse seja o papel dos auxiliares[1] (o que sou totalmente contra), logo, se não fosse o menino, qualquer outra pessoa da equipe limpando a área encontraria o degrau. Não foi por perspicácia ou conhecimento prévio que ele encontrou a escada, ele só estava no lugar certo na hora perfeita.

Housein usando um dos colares de Tutankhamon (clique aqui para conhecer a história por trás dessa foto). Foto: Harry Burton.

Para homenagear Housein os seus descendentes criaram um mini museu para resgatar a sua memória. Não existe nada de errado nisso, até porque a arqueologia egípcia é extremamente injusta com os nativos e o Housein deve ser sim rememorado, mas não da forma como estão o vendendo: a imagem de uma pessoa com um conhecimento prévio da localização da tumba e injustiçado pela história.

Saiba um pouco mais sobre o faraó Tutankhamon:

Referências bibliográficas:

ALLEN, Susan J. Tutankhamun’s Tomb: The thrill of discovery. New York: Metropolitan Museum of Art, 2006.

JAMES, Henry. Tutancâmon (Tradução de Francisco Manhães). Barcelona: Folio, 2005.

MULLER, Hans Wolfgang; CRESCIMBENE, Simonetta. Egito. (Tradução de Leila Mascioli). São Paulo: Manole, 1998.

REEVES, Nicholas. The Complete Tutankhamun. London: Thames & Hudson, 2008.

El niño que descubrió la tumba de Tutankamón. Disponível em < http://www.elmundo.es/cronica/2016/04/17/57122f87ca4741f0148b463d.html >. Acesso em 18/04/2016.


[1] Os auxiliares sempre são egípcios contratados para retirar a areia do local e mesmo para efetuar a própria escavação arqueológica.

A múmia da Rainha Nefertari foi mesmo encontrada?

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

A rainha Nefertari (Novo Império; 19ª Dinastia) foi uma das esposas do faraó Ramsés II. Ficou famosa graças ao templo dedicado a ela em Abu Simbel e a sua tumba, uma das mais ricamente decoradas do Egito.

Saiba mais: Lindas imagens dos templos de Ramsés II em Abu Simbel

Nefertari

Rainha Nefertari

Descoberta no Vale das Rainhas por Ernesto Schiaparelli em 1904, a QV-66, sua sepultura, foi saqueada ainda na antiguidade. Contudo, foi possível encontrar no lugar alguns objetos quebrados, inclusive um par de pernas mumificadas, que foram levadas para o Museu Egípcio de Turim. Por estarem no sepulcro da governante, foi subentendido que pertenciam a própria rainha (HABICHT, 2016).

Leia também: A restauração na tumba de Nefertari

Quem foi Nefertari?

Existe muita especulação acerca da sua origem, mas é certo que ela se casou com Ramsés II antes da coroação do mesmo. Possivelmente foi mãe de quatro meninas e quatro meninos. Participou da inauguração dos trabalhos em Abu Simbel no 24º ano de reinado de Ramsés II e provavelmente faleceu no mesmo ano ou no seguinte (O’CONNOR et al, 2007; HABICHT et al, 2016).

Nefertari 4

Templo de Nefertari em Abu Simbel

Dentre os seus títulos estavam os “Esposa do Deus”, “Mãe do Deus”, “Dama Adorável”, “Digna de Louvor”, “Bela de Rosto” e “Doce Amor”. E entre os seus deveres estavam os de cumprir papeis relacionados com a política e a religião (O’CONNOR et al, 2007).

A análise dos restos humanos

Esse ano, 2016, um grupo de pesquisadores (Michael E. Habicht, Raffaella Bianucci, Stephen A. Buckley, Joann Fletcher, Abigail S. Bouwman, Lena M. Öhrström, Roger Seiler, Francesco M. Galassi, Irka Hajdas, Eleni Vassilika, Thomas Böni, Maciej Henneberg, Frank J. Rühli) publicou um artigo na Plos One onde apresentaram os resultados de uma pesquisa realizada com as pernas encontradas na QV-66, com a finalidade de tentar descobrir se, de fato, elas são remanescentes da governante. Os restos foram radiografados, medidos e passaram por uma datação em Carbono 14 (HABICHT et al, 2016).

As pernas mumificadas. Foto: Museo Egizio Turin.

Atualmente em exposição no Museu Egípcio de Turim, as pernas foram catalogadas com o tombo Suppl. 5154 RCGE 14467 e consiste em três partes (HABICHT et al, 2016):

  • Uma parte do fêmur, patela e parte da tíbia;
  • Parte de uma tíbia;
  • Pequena parte de um fêmur.

Foi constatado que os restos pertencem a um adulto do sexo feminino e que, inclusive, fez poucos esforços em vida. Por conta das condições clínicas dos ossos a equipe considerou que essa pessoa possuía entre 40 e 60 anos de idade no momento da sua morte. E através da reconstrução antropométrica foi considerado que possuía de 1,65 a 1,68 cm de altura (HABICHT et al, 2016).

Em relação ao exame de DNA, não foi possível tirar amostras viáveis e a datação por Carbono 14 foi inconclusiva (HABICHT et al, 2016).

Afinal, a quem pertenceu essas pernas?

Ao contrário do que alguns sites estão veiculando, na conclusão do artigo a equipe deixa claro que não existe certeza absoluta de que essas pernas pertenceram a Rainha Nefertari, embora os pesquisadores participantes considerem ser ela o cenário mais provável. Ou seja, o caso ainda está em aberto.

Referências bibliográficas:

HABICHT, Michael E.; BIANUCCI, Raffaella; BUCKLEY, Stephen A.; FLETCHER, Joann; BOUWMAN, Abigail S.; ÖHRSTRÖM, Lena M.; SEILER, Roger; GALASSI, Francesco M.; HAJDAS, Irka; VASSILIKA, Eleni; BÖNI, Thomas; HENNEBERG, Maciej; RÜHLI, Frank J. Queen Nefertari, the Royal Spouse of Pharaoh Ramses II: A Multidisciplinary Investigation of the Mummified Remains Found in Her Tomb (QV66) Published: November 30, 2016 http://dx.doi.org/10.1371/journal.pone.0166571

O’CONNOR, David; FREED, Rita; KITCHEN, Kenneth (b). Ramsés II (Tradução de Francisco Manhães, Marcelo Neves). Barcelona: Fólio, 2007.

RICE, Michael. Who’s Who in Ancient Egypt. Londres: Routledg. 1999

Fatos interessantes sobre os faraós: sua divindade e mais algumas curiosidades

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille | Instagram

Devido a Egiptomania (a reinterpretação de aspectos do Antigo Egito fazendo uso de valores da atualidade) propagada pelas produções cinematográficas e a literatura, muitas pessoas têm impressões equivocadas sobre os faraós. E foi exatamente tais impressões o que levou muita gente a criar certo fetiche ao redor desse cargo. Não é à toa que existem tantas pessoas alegando ser a reencarnação de governantes tais como Ramsés II ou Akhenaton. Até mesmo alguns grupos étnicos e religiosos tentam procurar vínculos com eles. Tal fascínio exótico e nostálgico, apontou o egiptólogo brasileiro Ciro Flamarion Cardoso (1982), é causado por alguns dos elementos culturais do Egito faraônico, a exemplo do caráter divino da realeza e a sua religião, tão profundamente interessada na imortalidade.

Akhenaten

Faraó Akhenaton.

É certo que não sabemos quase nada sobre o oficio dos faraós, pior ainda sobre a sua vida particular. Foram poucos os que nos deixaram a chance de saber, mesmo que de forma superficial, sobre a sua vida. A maioria, em verdade, possuiu a preocupação de deixar um legado de esmero e sucesso: registros da humanidade dos reis são bastante raros; usualmente eles eram retratados como a representação do que os egípcios antigos interpretavam como a extrema perfeição, de forma idealizada (BRANCAGLION Jr., 2001; MORRIS, 2010).

— Aproveite para assistir: 6 curiosidades sobre os faraós

O rei, quando exercendo seu papel de governante do Alto e Baixo Egito, era definido como nsw, enquanto que o seu eu físico era referido como ḥm, “encarnação”, de uma divindade. Eles também usualmente eram chamados de “bom deus” (nṯr nfr) ou ocasionalmente de “o grande deus” (nṯr ‘3). Essa proposta da divindade do faraó é relacionada com a de que ele, além de filho de Rá (divindade solar), seria a representação do próprio deus Hórus, uma ideia existente desde mesmo antes da unificação do Egito, durante o Período Pré-dinástico (MORRIS, 2010).

Kefren

Faraó Kefren protegido pelo deus Hórus.

A lenda de Hórus só chegou até nós praticamente completa graças ao grego Plutarco, que viveu nos anos finais do Período Faraônico. Em sua obra “De Ísis e Osíris” ele relata que o deus Osíris governou como rei do Egito ao lado da sua irmã Ísis. Porém, ambos possuíam mais dois irmãos, o casal Néftis e Seth. Esse último tinha muita inveja Osíris então o assassinou para usurpar o trono. Para evitar que o seu corpo fosse resgatado, Seth desmembrou Osíris e espalhou cada parte sua pelo Egito, o que levou Ísis a realizar uma longa jornada para reaver cada parte do marido, juntá-lo com o auxílio de bandagens e trazê-lo de volta a vida por meio de magia. Após uma série de tentativas de reanimar a múmia do marido, Ísis finalmente obtém sucesso e recriando o pênis de Osíris copula com ele, engravidando assim de Hórus, que, anos mais tarde, viria a lutar contra o tio Seth para assumir o seu lugar de direito como rei do Egito (MORRIS, 2010).

Este mito representava, dentre muitas coisas, o poder que a legitimidade real possuía e a alta importância que a mesma tinha para os egípcios. Por isso, existiu muita preocupação em relação ao assunto. Assim, para evitar problemas com a legitimação real, os reis e as rainhas casavam-se com parentes muito próximos, tais como irmãos ou filhos. Essa prática não tinha somente como princípio afastá-los do mundo dos mortais, se assemelhando assim ao casal de irmãos divinos Ísis e Osíris, mas, garantir que o sangue do herdeiro real fosse “puro” (MORRIS, 2010).

Porém, isso nem sempre foi possível.

Desta forma, quando um governante não era o original herdeiro do trono, para legitimá-lo ele poderia recorrer a profecias ou apagar os registros dos reis anteriores, como foi o caso de Hatshepsut e Tutmés III (MORRIS, 2010). A primeira, quando assumiu o trono, declarou em seu templo mortuário em Deir el-Bahari, que era a filha (ou melhor, filho) do próprio deus Amon-Rá, já o segundo, para legitimar a ascensão ao trono do seu filho, apagou os registros históricos da existência da sua antecessora.

— Saiba mais: Um vislumbre da faraó-mulher Hatshepsut

Quando um rei assumia ao trono, era realizada uma viagem cerimonial por todo o Egito, onde ele visitava templos e recebia presentes. Essa viagem era conhecida como “A criação da ordem nas províncias”. Ainda tinha o jogo dos mistérios da sucessão, uma performance para mostrar a consideração do novo rei para com o antigo. Apesar dessa jornada, as saídas do faraó do seu palácio real eram bastante raras [1], ocorrendo somente durante atividades muito especiais — eventos religiosos ou batalhas importantes, por exemplo —.

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Ramsés II – Museu Egípcio de Turim.

Deir el-Bahari, Hatschepsut-Tempel

Faraó Hatshepsut. 

Contudo, quando essas saídas ocorriam, altos cortesãos beijavam o chão pelo qual ele passaria para simbolizar respeito e resignação. Nós encontramos registros escritos desse ato em alguns exemplos literários como o “Conto do Naufrago” e Sinuhe. Também temos o texto de um sacerdote de Khnum, que registrou que “beijou a terra antes do senhor da catarata[2]” (BREASTED, 1988 apud MORRIS, 2010). A prática de beijar o chão foi uma tradição tão importante que existiu, por exemplo, durante o Antigo Reino um escritório chamado “supervisor dos beijos no solo” (STRUDWICK, 2005 apud MORRIS, 2010). Agora, se beijar o chão foi considerado um prestigio importante, beijar os seus pés era um extremo privilégio, digno de ser citado no túmulo de quem fez a ação (MORRIS, 2010).

Referências bibliográficas:

BAKOS, Margaret (org). Egiptomania: O Egito no Brasil. Rio de Janeiro: Paris Editorial, 2004.

BRANCAGLION Jr., Antonio. Tempo, material e permanência: o Egito na coleção Eva Klabin Rapaport. Rio de Janeiro: Casa da Palavra – Fundação Eva Klabin Rapaport, 2001.

CARDOSO, Ciro Flamarion S. O Egito Antigo. São Paulo: Brasiliense, 1982.

DESPLANCQUES, Sophie. Egito Antigo (Tradução de Paulo Neves). Porto alegre: L&PM, 2011.

MORRIS, Ellen. “The Pharaoh and Pharaonic Office”. In: LLOYD, Alan, B. A Companion to Ancient Egypt. England: Blackwell Publishing, 2010.


[1] E ainda assim estátuas do rei poderiam ser utilizadas para representar o próprio.

[2] Referente às cataratas do Nilo.