【Banner】Ensaio sobre Ankhesenamon

Breve ensaio sobre a Terceira princesa de Amarna – Márcia Jamille N. Costa| Português |

Banner apresentado em 2008 no Workshop de Xingó, ele fala do selo “pa-aton” encontrado na KV-63 ao qual foi sugerido uma ligação com a rainha Ankhesenamon, que outrora chamava-se Ankhesenpaaton.

Ankhesenamon foi a única esposa do faraó Tutankhamon e provavelmente uns dos últimos vínculos da realeza com o período Amarna.

Obtenha o banner: Breve ensaio sobre a Terceira princesa de Amarna

Algumas palavras sobre Ankhesenamon

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille

Algumas palavras sobre Ankhesenamon… Gosto desta frase, pois é mais ou menos assim que Howard Carter inicia sua descrição da rainha em seu livro “A descoberta da tumba de Tutankhamon” [1] publicado pouco tempo após o achado. Ele, que foi o ator principal da peça que foi a descoberta do sepulcro deste famoso faraó, já tinha percebido o potencial da rainha Ankhesenamon, nome que dez anos mais tarde seria homenageado no filme “A Múmia” (1932). Mas cá entre nós, esta mulher tem algo que de fato nos fascina.

Devo mencionar que recebo um bom número de recados de pessoas fazendo verdadeiras declarações de amor a esta figura tão negligenciada na história egípcia e posso dizer, sem receio algum, que me sinto privilegiada por receber tais mensagens dos fãs dela, pois, não é só um sinal de que o meu trabalho está sendo recompensado, mas também porque nos últimos anos me tornei também uma de suas admiradoras. Talvez seja daí que partimos do pressuposto de que temos que esquecer a história do “pesquisador neutro”. Eu me vi tão envolvida com a vida dela que não posso simplesmente chamá-la de “meu objeto de estudo” ou olhar para suas imagens e tratá-la como se fosse um rato de laboratório. Ankhesenamon também já foi humana e acredite tão humana quanto qualquer um de nós, embora na sua época tenha sido posta em um patamar acima de todos os outros seres humanos, ao ponto de ter recebido, com o seu irmão, o direito a governar o Egito ainda quando infantes.

Ankhesenamon (ilustração cortada). Foto: Araldo de Luca.

“Ankhesenamon também já foi humana e acredite tão humana quanto qualquer um de nós, embora na sua época tenha sido posta em um patamar acima de todos os outros seres humanos (…)”

Apesar de hoje nos parecer um equívoco colocar crianças no poder não era um absurdo para algumas sociedades antigas, dentre elas a egípcia. Por viverem em um mundo totalmente diferente do nosso em termos de ideais, Ankhesenamon e seu esposo eram reverenciados como deuses, embora o palácio ainda se recuperasse do trauma do reinado do faraó anterior, Akhenaton. Como podemos ver o jovem casal real não era um simples par de crianças, pois estavam nesta condição de deuses viventes na terra e recebiam orações de pessoas que desejavam que seus corpos vivessem para sempre. Este era o quadro da época em que Ankhesenamon e Tutankhamon começaram o reinado, mas se alguém me questionasse se o séquito que os acompanhava acreditava que de fato seus jovens governantes possuíam uma essência divina eu jamais saberia dizer, isto é quase a mesma coisa que me perguntar se eu acho que os padres do vaticano acreditam que o Papa possui algum propósito sagrado.

Ankhesenamon em Luxor (ilustração cortada). Foto: Lionel Leruste. 2007.

Por muito tempo imaginei como seria possível alguém conseguir adorar outra pessoa (e não falo de Hollywood, ou coisas do gênero), acreditarem que a existência de outro alguém é muito mais importante do que a sua. Relutei um pouco e acredito que neste momento consigo entender. Odeio fazer analogia entre sociedades, mas sendo que agora me é possível: se lembrarmos de Sei Shônagon (Japão) e sua imperatriz Sadako ou da Madame de Noailles e sua exorbitante etiqueta para com a casa real francesa cremos que estas duas figuras acreditavam fielmente que os seus senhores eram enviados divinos e se sentiam extremamente privilegiadas por estar próximos a eles. Shônagon, por exemplo, chega a quase se sentir imoral ao olhar para os imperadores.

“(…) se alguém me questionasse se o séquito que os acompanhava acreditava que de fato seus jovens governantes possuíam uma essência divina eu jamais saberia dizer, isto é quase a mesma coisa que me perguntar se eu acho que os padres do vaticano acreditam que o Papa possui algum propósito sagrado.”

Embora seja ainda tão ignorada pelo o meio acadêmico, ritualisticamente e administrativamente Ankhesenamon toma papeis importantes durante e após o reinado do esposo. Ela, em termos religiosos, é em parte a essência de Tutankhamon e quando este morre a governante participa ativamente dos ritos de passagem do marido para a vida após a vida. Sua imagem está em muitos lugares dentre os artefatos da KV-62, assim, quando unimos esta situação ao fato de que Tutankhamon era um colecionador de lembranças e levou consigo todas as coisas que mais apreciava, não seria incomum que ele levasse também tantas imagens de sua dúplice e consorte.

Mesmo com todo o apelo divino a rainha naturalmente já tem para si um clamor e amor pela a vida sem igual e uma naturalidade e frescor que é tão difícil de encontrar em muitas de suas antecessoras e sucessoras, esta impressão talvez venha dos resquícios da Era Amarna que ainda rondavam a arte palaciana durante o reinado de Tutankhamon.

É incrível como ela ganhou tantos adeptos ao longo dos milênios, desde Tutankhamon a gente comum de alguma cidade em um país qualquer. Depois de quase três anos não consigo parar de me espantar com o tamanho carinho que as pessoas sentem pela Ankhesenamon, uma rainha morta a mais de três milênios, mas que parece continuar viva nos corações de milhares de admiradores.

Ankhesenamon em Luxor (ilustração cortada). Giuseppe. 2000.

[1] Howard Carter inicia a frase com “Agora, uma palavra sobre a sua esposa”. Esta passagem se dá no capítulo especial sobre o rei e sua rainha.

Tutankhamon por todos os lados

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille

Esta minha semana foi particularmente conturbada, desde a segunda estive mais ansiosa do que nunca com os resultados do exame de DNA de Tutankhamon que é prometido desde 2008, são dois anos, uma longa espera. Ocorreu primeiramente uma serie de mudanças de data para liberar o resultado, o que já era até que esperado, afinal uma pesquisa de tal magnitude pode ter vários imprevistos. Foi dito que seria liberado no dia 16/02/2010 embora outras fontes tenham dito que seria em 17/02/2010. Independente a notícia se espalhou no dia 17/02 e o mundo ficou olhando extasiado para a internet enquanto as informações se multiplicavam. O faraó Tutankhamon, mesmo após quase noventa décadas, sabe ainda chamar a atenção.

 

Tutankhamon viveu durante a XVIII Dinastia e reinou até os 18 a 19 anos de idade.

Durante este tempo estive esperando o resultado do exame porque ele traçaria o perfil genético de Tutankhamon e dos fetos do sexo feminino encontrados com ele (que se provou serem suas filhas) e assim tentar encontrar seus parentes entre corpos reais do seu período que ainda não tinham sido identificados. A rainha Ankhesenamon ainda não tinha sido encontrada, logo ela faz parte na preferência pela a procura. Passei estes dois anos esperando, mas infelizmente a espera não acabou.

Foram identificados os pais de Tutankhamon como sendo o esqueleto encontrado na KV-55 (que quase seguramente é de Akhenaton) e a múmia mais nova encontrada na KV-35 (A que em 2003 foi proposta como Nefertiti, mas se provou como sendo muito mais nova que a rainha e é uma das irmãs de Akhenaton). A múmia da senhora mais velha da KV-35 é a rainha Tiye, avó de Tutankhamon.

Múmia da KV-35 identificada como sendo a rainha Tiye, e avó de Tutankhamon.

Múmia da KV-35 identificada como filha de Tiye e mãe de Tutankhamon. Ainda não se sabe o seu nome.

 

Duas múmias encontradas na KV-21 foram também submetidas ao exame, não se sabe quem são, acredita-se que uma delas possa ser Ankhesenamon. Mas é aí que começa a má noticia: uma delas possui maior probabilidade de ser a rainha, mas para uma confirmação segura não há mais dados legíveis no material.

Extrair DNA de corpos tão antigos não é tarefa fácil por diversos fatores, dentre eles a contaminação do material genético e do material ser antigo. Como um resultado seguro é difícil de se obter o Supremo Conselho de Antiguidades do Egito proibiu este tipo de exame por alguns anos, mas o retomou de forma quase insegura e cética. Para que nesta situação não ocorresse o risco de dar um resultado contraditório a equipe responsável pela a análise do material de Tutankhamon se dividiu em subgrupos, onde fariam o exame independentemente. Desta forma o resultado acabou sendo praticamente incontestável.

Depois de anos de especulação a malária, ao lado de uma infecção óssea, foi o veredicto para o rei, mas as pessoas não vão parar de se questionar sobre a sua morte, vão continuar imaginando e especulando. Da mesma forma que foi apontada na década de 60 como causa de seu falecimento uma pancada na cabeça ele poderá ganhar outra causa de morte daqui a algumas décadas, mas por enquanto, com o maximo da tecnologia do nosso tempo este resultado já é bem abrangente e seguro.

Quanto a Ankhesenamon a espera continua.

Um programa da Discovery Channel denominado KING TUT Unwrapped será veiculado este próximo domingo nos EUA (sem previsão para passar no Brasil).

Saiba mais sobre o assunto:

Os Escândalos da Arqueologia Forense com Múmias e Esqueletos Egípcios, 19/02/2010 < www.arqueologiaegipcia.com.br/texto_antrop_escandalos.html>
Pesquisa sobre a terceira princesa de Amarna, 19/02/2010 < www.arqueologiaegipcia.com.br/texto_pesquisa_ankhesenamon.html>

Fontes das imagens:

Tut: Disease and DNA News, 19/02/2010 < http://www.archaeology.org/online/features/tutdna/>