Estudando Arqueologia no exterior e decorando nomes egípcios

Esta é mais uma edição do “Respondendo Perguntas” dos explorers. Espero sanar parte da curiosidade de vocês acerca de temas nem tão acadêmicos assim tais como a minha tatuagem (que são hieroglifos), minha monografia e como se familiarizar com a leitura de temas históricos.

hieroglyphs

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Algumas novidades para a Egiptologia em língua portuguesa: Revista Aegyptologus

O site Aegyptologus liberou o primeiro volume da sua revista digital de divulgação científica. A publicação conta com onze artigos e duas resenhas (Uma sobre o livro “Gramática Fundamental de Egípcio Hieroglífico” e a outra sobre “Uma Viagem pelo Nilo”).

No geral vocês encontrarão textos escritos por acadêmico sobre religião egípcia, questões sociais tais como matrimônio, diferenças de “classes” e gênero, espaços funerários e língua egípcia.

Aegyptologus. Foto: Reprodução.

Os interessados em ler a publicação podem clicar aqui e ler online ou baixar.

O surpreendente esconderijo de múmias de faraós encontrado no século XIX em Deir el-Bahari (TT320)

Quando os primeiros exploradores europeus chegaram ao Egito em busca dos seus tesouros arqueológicos —  fossem eles estátuas, imagens parietais, sarcófagos e, claro, joias — descobriram que todas as tumbas reais tinham sido saqueadas em algum momento da antiguidade[1].  Desta forma, foi uma surpresa quando nas décadas de 1870-80 artefatos com nomes de faraós e alguns dos seus parentes começaram a aparecer no mercado de antiguidades (DAVID, 2011).

Os registros dessa época somente passam uma ideia geral dos acontecimentos, mas, temos ciência de que a polícia egípcia, após algumas investigações, chegou até um homem chamado Ahmed Abd er-Rassul, que àquela altura era suspeito de violar sepulturas antigas (O’CONNOR et al, 2007).

— Saiba um pouco mais sobre essa história assistindo ao vídeo “Esconderijo de múmias reais de Deir el-Bahari.

Ahmed em frente a tumba. Foto disponível em REEVES, 2008.

Apesar de ter sofrido um duro interrogatório —  que incluiu tortura — Ahmed negou a acusação.  Porém, um parente seu, um senhor chamado Mohamed, o denunciou para as autoridades e revelou de onde estavam saindo os artefatos:  eles tinham sido encontrados dez anos antes, em 1871, em uma sepultura da época dos faraós, que possuía vários corpos (HAGEN et al, 1999; O’CONNOR et al, 2007; DAVID, 2011). A revelação foi um grande choque, em especial porque quando os arqueólogos entraram no lugar descobriram que dentro dos caixões estavam pouco mais de 40 múmias [2] e algumas delas eram as de grandes personalidades do passado tais como Ahmés-Nefertari, Seti I e Ramsés II (O’CONNOR et al, 2007).

A sepultura, cujo dono é desconhecido — parte dos egiptólogos estão divididos entre Inhapi ou Ahmose Merytamen —, foi construída próximo ao templo mortuário da faraó Hatshepsut, em Deir el-Bahari, literalmente do outro lado do Vale dos Reis e possui dois corredores e duas câmaras. Por conta da sua localização a priori foi catalogada como DB320 (Deir el-Bahari 320), mas na atualidade ela é chamada de TT320 (Tumba Tebana 320).

Ilustração representando Gaston Maspero em frente da tumba.

Localização da sepultura do ponto de vista dos templos mortuários de Hatshepsut e Mentuhotep. Fonte: Wikimedia.

Entrada da TT320. Fonte: Wikimedia.

Apesar da magnitude do achado o arqueólogo responsável pela remoção dos corpos e dos artefatos, Emil Brugsch (1842 – 1930), não realizou nenhum registro do sítio (O’CONNOR et al, 2007), algo que é impensável nos dias de hoje. Isso acaba comprometendo as análises futuras e consequentemente retira as chances de conseguir respostas para questões feitas atualmente acerca do sepulcro e das múmias e artefatos depositados lá dentro.

Entrando na Sepultura:

Para entrar no tal sepulcro, Brugsch precisou descer um poço com uma corda e passar por uma abertura com cerca de um metro de altura. O primeiro ataúde que viu pertencia a um sumo-sacerdote e mais adiante encontrou mais outros três. Necessitou avançar passando por um corredor com algumas pequenas antiguidades e seguiu por um pequeno lance de escadas até uma saleta.  Foi lá que, sob a luz de velas, encontrou enormes ataúdes e em alguns deles com o nome de grandes faraós.  Mais tarde ele declarou:

“Percebi a situação com o ofego e apressei-me a sair ao ar livre a fim de não me deixar vencer pelo o que via e que o glorioso achado, ainda não revelado, se perdesse para a ciência” [3] (O’CONNOR et al, 2007, p. 23).

Após esta saleta existe mais um corredor que leva até a câmara mortuária onde estavam mais corpos.

Temendo mais saques ele contratou cerca de 300 homens e embarcou todos os objetos em embarcações com destino ao Cairo.  Mas, não foi uma viagem silenciosa:  ao longo do Nilo homens atiravam com seus rifles para o céu e as mulheres lamentavam alto, um sinal de respeito e luto pelos antigos governantes falecidos. Já no Cairo a resposta foi menos respeitosa:  na alfândega o funcionário responsável pelo recebimento da carga registrou as múmias como ” peixe seco” (O’CONNOR et al, 2007).

Autópsia e análise das múmias:

Tempos depois da chegada dos corpos, Gaston Maspero (1846 – 1916), supervisor geral do Serviço de Antiguidades, liberou as autópsias —  que no caso das múmias é o que chamamos comumente de “desenfaixar” —.  O primeiro faraó a passar por esse processo foi Tutmés III.  As bandagens do Rei já tinham sido perturbadas em outro momento pelos Abd er-Rassul, que fizeram um buraco no seu peito.  Quando os arqueólogos abriram o restante do envoltório encontraram a múmia quebrada na área do pescoço e nas pernas (O’CONNOR et al, 2007).

Múmia de Tutmés III ainda coberta. Na área do seu peito está um buraco, feito por saqueadores.

Dias depois foi a vez de Ramsés II, que ao contrário do seu antecessor longínquo estava inteiro, em perfeito estado de conservação, inclusive contendo cabelos. Ramsés II tinha sido posto em um sarcófago de madeira que o identificava através de inscrições escritas em negro (O’CONNOR et al, 2007).

Primeiras notas sobre a múmia de Ramsés II. Fonte: Wikimedia.

A próxima múmia possuía um enorme sarcófago bem trabalhado. Descobriu-se que o grande artefato pertenceu à Rainha Ahmés-Nefertari.  Porém, quando as bandagens foram retiradas do corpo o que se seguiu foi uma surpresa desagradável.  Nas palavras do próprio Maspero:

“Mas, assim que o corpo foi exposto ao ar externo, desapareceu literalmente num estado de putrefação, dissolvendo-se numa matéria escura que exalou um odor insuportável” (O’CONNOR et al, 2007, p. 25).

Existem duas fotografias que nos mostram a múmia da rainha na época em que foi descoberta, mas o destino do corpo na atualidade é incerto. De acordo com um relato da época, por conta do mau cheiro a múmia foi sepultada no interior do Museu Egípcio. Algo que não foi confirmado na atualidade e nenhuma das bibliografias consultadas deu uma resposta definitiva.

Ahmés-Nefertari. Foto: E. Smith.

Sarcófago de Ahmés-Nefertari.

Ramsés III foi o próximo, contudo, o seu rosto estava coberto por um revestimento betuminoso que escondia suas feições (O’CONNOR et al, 2007). Nos últimos dez anos o rei passou por análise que apontam que antes da sua morte ele sofreu um ataque violento que certamente teria causado a sua morte [4].

Nos dias seguintes mais oito múmias da realeza foram desembrulhadas.  O arqueólogo francês Eugène Lefebure escreveu sobre esse trabalho, enaltecendo as emoções da época: “Quase todas as múmias estavam cobertas com grinaldas secas e lótus murchos que tinham permanecido intocados durante milhares de anos, e não havia melhor forma de compreender a suspensão do tempo e o freio a decomposição que ver essas flores imortais sobre os corpos eternizados” e complementou ” era a imagem de um sono interminável” (O’CONNOR et al, 2007, p. 26).

Alguns dos corpos que se encontram no sepulcro não foram identificados, outros, porém, com o auxílio de métodos invasivos e não invasivos, foram relacionados com outras múmias reais, a exemplo do “Homem Desconhecido E”, identificado através de um exame de DNA como um dos filhos de Ramsés III. Abaixo está uma tabela apontando o número de múmias e seus respectivos nomes, quando possível:

Nome Dinastia Título Observações
Ahmés-Inhapi 17ª Rainha Irmã de esposa de Seqenenre Tao II.
Ahmés-Henutemipet 17ª Princesa Filha de Seqenenre Tao II.
Ahmés-Henuttamehu 17ª Princesa Filha de Seqenenre Tao II.
Ahmés-Meritamon 17ª Princesa Provavelmente filha de Seqenenre Tao II.
Ahmés-Nefertari 18ª Rainha
Ahmés-Sipair 17ª Principe Provável filho de Seqenenre Tao II ou Ahmose I.
Ahmés-Sitkamose 17ª Princesa Provavelmente filha de Kamose, é possível que tenha casado com Ahmose I.
Amenhotep I 18ª Faraó
Ahmose I 18ª Faraó
Baket/Baketamon? 18ª Princesa
Djedptahiufankh 21ª Quarto Profeta de Amon Casou com a filha de  Pinudjem II e Neskhons,  Nesitanebetashru.
Duathathor-Henuttawy 21ª Rainha Esposa de Pinedjem I
Isetemkheb 21ª Chefe do harém de Amon-Rá Irmã e esposa de Pinedjem II.
Maatkare 21ª Esposa Divina de Amon Filha de Pinedjem I.
Masaharta 21ª Sumo Sacerdote de Amon Filho de Pinedjem I.
Nebseni
Neskhos
Nesitanebetashru 21ª Rainha Esposa de Djedptahiufankh.
Nodjmet 21ª Rainha Esposa de Herihor.
Pinedjem I 21ª Sumo Sacerdote de Amon
Pinedjem II 21ª Sumo Sacerdote de Amon
Rai 18ª Enfermeira Real Enfermeira de Ahmés-Nefertari.
Ramsés II 19ª Faraó
Ramsés III 20ª Faraó
Ramsés IX 20ª Faraó
Seqenenre Tao II 17ª Faraó
Seti I 19ª Faraó
Siamon 18ª Príncipe Filho de Ahmés-Nefertari e Ahmés I.
Sitamon 18ªª Princesa Filha de Ahmés e irmã de Amenhotep I
Tayuheret 21ª Cantora de Amon Possível esposa de Masaharta.
Tutmés I 18ª Faraó
Tutmés II 18ª Faraó
Tutmés III 18ª Faraó
Desconhecido Desconhecido E
Desconhecida Possivelmente rainha Tetisheri, mãe de Tao II, Ahmose Nefertari e possivelmente Kamose.
Desconhecida
Desconhecido
Desconhecido
Desconhecido
Desconhecido

Tabela realizada de acordo com REEVS, 2008 e RICE 1999.

Resquícios de outros indivíduos, tais como sarcófagos, vasos canópicos, joias, etc, foram identificados espalhados pela tumba. Tudo o que foi encontrado posteriormente a denúncia de Mohamed encontra-se hoje no Museu do Cairo. Entretanto, os objetos saqueados pelos Abd er-Rassul jamais foram recuperados. Provavelmente atualmente estão em alguma coleção particular ou na galeria de um grande museu identificado como possuindo “procedência desconhecida”.

Referências bibliográficas:

DAVID, Rosalie. Religião e Magia no Antigo Egito (Tradução de Angela Machado). Rio de Janeiro: Difel, 2011.

MARIE, Rose; HAGEN, Rainer. Egipto (Tradução de Maria da Graça Crespo). Lisboa: Taschen, 1999.

O’CONNOR, D.; FORBES, D.; LEHNER, M. Grandes civilizações do passado: terra de faraós. Tradução de Francisco Manhães. 1ª Edição. Barcelona: Ed. Folio, 2007.

REEVES, Nicholas; WILKINSON, Richard. The Complete Valley of the Kings. London: Thames & Hudson, 2008.

RICE, Michael. Who’s Who in Ancient Egypt. 1ª Edição. Londres: Editora Routledg. 1999.


[1] Foi somente no início do século 20 que este quadro mudou com a descoberta da tumba do faraó Tutankhamon e parte do acervo fúnebre de Psusenes I

[2] Contando aqui tanto os corpos inteiros, como partes, como são o caso dos órgãos dentro dos vasos canópicos.

[3] Ele declarou isso possivelmente com medo de que as velas que o grupo carregava pudesse causar um incêndio.

[4] Ramsés III foi morto durante um ataque de mais de um assassino, diz pesquisadores.

A “Lei da Frontalidade”: entendendo as pinturas egípcias

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille | Instagram

Quando se pensa na antiguidade egípcia é comum lembrar de imagens tais quais as pirâmides, múmias e claro, das pinturas parietais. Para quem não está acostumado, as pinturas egípcias poderão despertar um certo estranhamento e até desconforto, porém, está reservado a elas igualmente muita admiração.

Embora popularizada na atualidade graças a cultura popular — principalmente devido a Egiptomania —, é um grande fato que a arte egípcia é composta, em sua maioria esmagadora, de artistas anônimos (BRANCAGLION Jr., 2001). Não conhecemos muitos nomes responsáveis pelas belas peças que hoje encontram-se em museus ao redor do mundo e os poucos que temos ciência não foram por assinar suas obras (o que não era uma prática), mas porque seus nomes foram descobertos acidentalmente em seus ateliês, durante escavações arqueológicas.

As pinturas parietais — tema desse post — possuíram um importante papel para essa civilização que se desenvolveu às margens do Nilo. Elas foram utilizadas como uma forma de comunicação e até uma maneira de auxiliar ou garantir que os falecidos alcançassem seus desejos ou sonhos no além-vida.

Exemplo de ilustração egípcia. Imagem disponível em EINAUDI, Silvia. Coleção Grandes Museus do Mundo: Museu Egípcio Cairo (Tradução de Lúcia Amélia Fernandez Baz). 1º Título. Rio de Janeiro: Folha de São Paulo, 2009. p. 94.

Embora pareça bastante complexa, a pintura egípcia costumava seguir alguns padrões como, por exemplo, a cor de pele poder variar de acordo com o gênero da pessoa (homens com um tom avermelhado, quase cobre e mulheres com um tom amarelado) e os indivíduos de classes mais altas ou considerados como o mais importante na cena representados maiores (HAGEN et al, 1999; GOMBRICH, 2008).

Outro padrão tem a ver com a tradição de registrar uma pessoa ou divindade de lado, em uma postura bastante rígida. Na arqueologia egípcia não existe um termo especifico para este tipo de retrato, mas nos estudos de arte convencionou-se a chamar esse tipo de representação como “Lei da Frontalidade”. Nela os personagens são mostrados com a cabeça, os braços e pernas de perfil (1), mas, com os olhos, os ombros e tronco de frente (2), criando assim uma combinação de a visão frontal e a lateral (CASSON, 1983; HAGEN et al, 1999).

Imagem disponível em CASSON, Lionel. O Antigo Egito. Rio de Janeiro: José Olympio, 1983.

Os motivos para esse tipo de reprodução são desconhecidos. Alguns já sugeriram que poderia ser uma ausência de perícia dos antigos artistas, outros que seria uma tentativa de passar uma mensagem de onipotência e existe os que a defendem como possuidora de um arranjo excepcional (CASSON, 1983; BRANCAGLION Jr., 2001; GOMBRICH, 2008). Me utilizo aqui das palavras de Gombrich:

Vale a pena pegar um lápis e tentar reproduzir um desses desenhos egípcios “primitivos”. Nossas tentativas vão sempre parecer inábeis, assimétricas e deformadas. Pelo menos, as minhas parecem. Pois o sentido egípcio de ordem em todos os detalhes é tão poderoso que qualquer variação, por mínima que seja, parece desorganizar inteiramente o conjunto (GOMBRICH, 2008, p. 64).

Como eram feitas:

O trabalho era efetuado por um grupo de desenhistas (sesh[1], em egípcio antigo) ou os “desenhistas escultores” (sesh kedut) e cada um ficava responsável em efetuar uma determinada tarefa (STROUHAL, 2007):

Ilustração: Lloyd K. Townsend.

(1) A parede era nivelada e usualmente coberta por uma camada de estuque, que era polida (STROUHAL, 2007);

(2) Então um quadriculado era pintado, para dar apoio ao futuro desenho. Essa técnica permitia que o desenhista se guiasse e pudesse transmitir a ilustração, que provavelmente já estava feita em uma superfície menor (um pedaço de pedra ou uma madeira coberta de estuque), para a parede (HAGEN et al, 1999; STROUHAL, 2007; GOMBRICH, 2008);

(3) Alguns remanescentes arqueológicos nos sugerem que um rabisco era feito primeiro e depois era corrigido por um desenhista mais experiente (STROUHAL, 2007);

(4) As cores eram obtidas de minerais tais como ocre ou sulfato de arsênico (para o amarelo-claro), malaquita e cal (para verde), carvão (para preto), óxido de ferro ou hematita (para vermelho), silicato de cobre ou sais de cobalto (para azul); esses materiais eram misturados com clara de ovo ou cera de abelha para criar uma consistência pastosa (CASSON, 1983; STROUHAL, 2007).

Parede da tumba do faraó Horemheb. Foto: Kodansha Ltd. Imagem disponível em STROUHAL, Eugen. A vida no Antigo Egito (Tradução de Iara Freiberg, Francisco Manhães, Marcelo Neves). Barcelona: Folio, 2007. p. 164.

Como em qualquer sociedade, naturalmente o Egito Antigo possuía as suas exceções. Nem todas as mulheres eram representadas mais claras que os homens, assim como nem todas as imagens eram representadas de perfil. Ademais, os estilos de pinturas variaram com o tempo. Em dados períodos será possível encontrar representações mais naturalistas, em outros com um caráter mais relaxado, sem a rigidez que o cânone artístico comumente empregava. É necessário que os estudantes estejam cientes da variedade da arte egípcia e seus autores, apesar do que a tradição artística pode sugerir, a exemplo da própria “Lei da Frontalidade”.

Musicistas e dançarinas trabalhando em uma festa. Autor da foto: desconhecido.

Tenha em casa: A Edições Del Prado, uma editora especializada em vendas de fascículos com imagens colecionáveis, possui uma coleção intitulada “Cenas do Egito Antigo”. Em uma delas são retratados personagens realizando a atividade descrita aqui: a pintura em parede.

Clique aqui para conferir a peça ou aqui para ver as demais cenas.

Referências bibliográficas:

BRANCAGLION Jr., Antonio. Tempo, material e permanência: o Egito na coleção Eva Klabin Rapaport. Rio de Janeiro: Casa da Palavra – Fundação Eva Klabin Rapaport, 2001.

CASSON, Lionel. O Antigo Egito. Rio de Janeiro: José Olympio, 1983.

GOMBRICH, E. H. A História da Arte. Rio de Janeiro: Livros Técnicos e Científicos Editora S.A., 2008.

HAGEN, Rainer; MARIE, Rose. Egipto (Tradução de Maria da Graça Crespo). Lisboa: Taschen, 1999.

STROUHAL, Eugen. A vida no Antigo Egito (Tradução de Iara Freiberg, Francisco Manhães, Marcelo Neves). Barcelona: Folio, 2007.


[1] Sesh também significa “escriba”.

(Vídeo) Portas Falsas: uma ligação entre os mortos e os vivos

Não! Definitivamente as “portas falsas” do Egito Antigo não tem nada a ver com armadilhas escondidas em pirâmides! Na verdade, foi um componente religioso muito importante para a religião egípcia.

Porta Falsa de Mereruka. Foto: Wikimedia Commons.

A sua ideia era simular uma ligação entre o mundo dos vivos e dos mortos, ou seja, que através dela o Ka (uma das partes que constitui o indivíduo; no vídeo explico) poderia passear livremente.

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Aha: o “Falcão Guerreiro”

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Aha, faraó do Período Arcaico, 1ª Dinastia, provavelmente foi o pioneiro das práticas das quais emergiram a monarquia, como a construção de templos votivos aos deuses e campanhas militares de unificação do Sul e Norte do Egito (RICE, 1999). A identidade dos seus pais é motivo de debates, uma vez que não se sabe se era filho de Narmer ou somente um sucessor escolhido a dedo por ele ou mesmo se era o próprio (RICE, 1999); em relação a sua mãe não sabemos se era filho, consorte [1] ou ambos da rainha Neithotep (BUNSON, 2002; WILKINSON, 2010).

Governo e atividades políticas:

Também chamado de Hor-Aha (Hórus Aha), o “Falcão Guerreiro” (DAVID, R.; DAVID, A., 1992; BUNSON, 2002), durante o seu reinado a arquitetura começou a ser de uma notável qualidade; em adição aos templos que ele diz ter construído, existem evidências de monumentos funerários substanciais, de um tamanho e caráter marcadamente diferente dos do Período Pré-dinástico (RICE, 1999).

Vaso cilíndrico do rei Aha, por Einsamer SchützeObra do próprio. Licenciado sob CC BY-SA 3.0 via Wikimedia Commons.

Seu nome é citado nas placas de marfim que foram usadas para registrar os eventos mais significativos do governo dos primeiros reis (RICE, 1999). Na “placa de Abidos”, por exemplo, o seu nome já é mostrado dentro de um serekh e menciona a fundação do templo da deusa Neith, um santuário, a captura de um touro selvagem e uma representação de barcos que navegaram indo para antigas cidades nas margens do Nilo (RICE, 1999).

No topo, bem no centro, está um serekh com o nome do rei Aha. TIRADRITTI, Francesco. Tesouros do Egito do Museu do Cairo. São Paulo: Manole, 1998. pág. 42.

Datado do seu período também está a tumba 3503 de Saqqara que provavelmente pertenceu a um dos seus ministros. Nela foi encontrada uma maquete mostrando celeiros e outras construções do tipo que teriam estado em uso na época do rei (RICE, 1999).

Morte e sepultamento:

De acordo com a cronografia de Manetho, Aha viveu até os seus 63 ou 64 anos de idade e diz-se que faleceu devido aos ferimentos sofridos durante uma caça a um hipopótamo (RICE, 1999; BUNSON, 2002). Foi enterrado em Saqqara, em uma tumba com 27 armazéns no nível do solo e cinco câmaras subterrâneas. No local foi encontrado um barco solar (BUNSON, 2002), o que o torna um dos mais antigos indícios deste tipo de prática funerária. No local foi encontrado igualmente o corpo de um homem jovem, que acredita-se que tenha praticado suicídio para acompanhar o rei. Outro detalhe é que ele foi sepultado também com leões, animal que viria a compor um importante simbolismo para a manutenção do poder monárquico (BUNSON, 2002; MORRIS, 2010; COSTA, 2014).

Parte da tumba de Aha. B10-B15-B19 em Umm el Ga’ab em Abydos. Foto disponível em < http://profidom.com.ua/poleznoe/148-vseobshhaja-istorija-arkhitektury/489-drevnij-jegipet-ranneje-carstvo-period-i-ii-dinastij-nachalo-iii-tys-do-ne >. Acesso em 29 de junho de 2015.

Entretanto ele erigiu também um cenotáfio, mas em Abidos, onde um considerável número de pessoas jovens, presumivelmente serviçais do rei, todos eles com menos de 25 anos de idade, foram sepultados — não se sabe se assassinados ou se cometeram suicídio —, para atendê-lo no além-vida. Este costume foi difundido durante a 1ª Dinastia (RICE, 1999; BUNSON, 2002).

Com a sua morte o trono foi assumido por seu filho Djer, cuja mãe provavelmente foi uma rainha chamada Khenthap.

Seria ele Narmer?

De acordo com os registros escritos egípcios, a união das “Duas Terras” foi alcançada com a vitória de um rei do Alto Egito (Sul), sob o Baixo Egito (Norte). Tal rei seria um homem chamado Meni (em grego, Menés), que após a sua vitória inaugurou Ineb-hedj, mais conhecida entre nós como Menphis, como capital do reino (DAVID, R.; DAVID, A., 1992; LESKO, 2002; MOKHTAR; VERCOUTTER, 2011; COSTA, 2014). Contudo, outros dois nomes surgiram como possíveis unificadores: Namer e Aha (LESKO, 2002; COSTA, 2014).

Fragmento de faiança vitrificada com o nome de Aha.  Fotografia licenciada sob CC BY-SA 3.0 via Wikimedia Commons.

Namer foi sugerido como unificador devido a “Paleta de Namer”, descoberta em 1897 pelo arqueólogo James Quibell (DAVID, R.; DAVID, A., 1992; DAVID, R., 2011). Nesse artefato o rei é apresentado em dois momentos distintos, usando separadamente as coroas do Alto e Baixo Egito, que, nos anos seguintes, passaram a ser representadas sobrepostas. É em razão da existência deste artefato que alguns pesquisadores apontam que Meni seria em verdade Narmer (BAINES; MALEK, 2008; COSTA, 2014).

Por outro lado, outros pesquisadores apontam que seria Aha o rei Meni, isto porque foi encontrada em Nagada, através das pesquisas de Jean-Jacques de Morgan em 1897, uma tábua onde o nome de ambos foram grafados no mesmo objeto (DAVID, R.; DAVID, A., 1992; BUNSON, 2002; COSTA, 2014).

Para aumentar a confusão foram encontrados em Abidos alguns artefatos com o nome de Meni e Narmer associados (David 1992).

A relação entre Aha com Narmer é totalmente especulativa (DAVID, R.; DAVID, A., 1992; BUNSON, 2002; WILKINSON, 2010; COSTA, 2014). O túmulo da sua mãe — ou esposa — encontra-se em Abidos e trata-se de uma longa e elaborada estrutura. Dentre os artefatos remanescentes foi encontrada uma pequena placa de marfim que mostra Aha e Meni lado a lado (BUNSON, 2002).

Outro rótulo parece ligar Aha com Meni. Ele foi o primeiro rei egípcio a usar o nome nebty em honra “às duas senhoras”, deusas do Alto e Baixo Egito, em sua titulação: neste caso o nome escolhido aparentemente foi Men, o que contribui para que alguns egiptólogos acreditem que ele em verdade seja o lendário Meni (RICE, 1999; BUNSON, 2002).

Referências bibliográficas:

BAINES, John; MALEK, Jaromir. Deuses, templos e faraós: Atlas cultural do Antigo Egito (Tradução de Francisco Manhães, Maria Julia Braga, Michael Teixeira, Carlos Nougué). Barcelona: Folio, 2008.

BUNSON, Margaret R. Encyclopedia of Ancient Egypt. New York: Facts On File, 2002.

COSTA, Márcia Jamille Nascimento. Uma viagem pelo Nilo. Aracaju: Site Arqueologia Egípcia, 2014.

DAVID, Rosalie; DAVID, Antony. A Biographical Dictionary of Ancient Egypt. London: Steaby, 1992.

DAVID, Rosalie. Religião e Magia no Antigo Egito (Tradução de Angela Machado). Rio de Janeiro: Difel, 2011.

LESKO, Leonard. “Cosmogonias e Cosmologia do Antigo Egito”. In: SHAFER, Byron; BAINES, John; LESKO, Leonard; SILVERMAN, David. As religiões no antigo Egito (Tradução de Luis Krausz). São Paulo: Nova Alexandria, 2002.

MOKHTAR, Gamal; VERCOUTTER, Jean. “Introdução Geral”. In: MOKHTAR, Gamal (Org.). História Geral da África Vol. II: África Antiga (Tradução de MEC – Centro de Estudos afro-brasileiros da Universidade de São Carlos). Brasília: UNESCO, 2011.

MORRIS, Ellen F. “The Pharaoh and Pharaonic Office”. In: LLOYD, Alan, B (Ed). A Companion to Ancient Egypt. England: Blackwell Publishing, 2010.

RICE, Michael. Who’s Who in Ancient Egypt. Londres: Routledg. 1999

WILDUNG, Dietrich. O Egipto: da pré-história aos romanos (Tradução de Maria Filomena Duarte). Lisboa: Taschen, 2009.

WILKINSON, Toby. “The Early Dynastic Period”. In: LLOYD, Alan, B (Ed). A Companion to Ancient Egypt. England: Blackwell Publishing, 2010.


[1] Provavelmente também foi casado com outras duas rainhas: Khenthap e Benerib.

Deuses egípcios: Aha

Por Márcia Jamille | @Mjamille | Instagram

Seu surgimento é datado a partir do Reino Antigo, quando começa a ser citado no “Livro das Pirâmides” (CASTEL, 2001), contudo, o nome de um dos primeiros reis do Egito, o Hór-Aha (ḥrw-ˁḥ3), tem a grafia semelhante ao desse deus, o que pode indicar um surgimento anterior.

Ele é definido como “O pigmeu das danças do deus”, já nos “marfins mágicos” do Médio Reino é chamado de “O Lutador” e tem funções protetoras (CASTEL, 2001).

Na iconografia é representado como uma mistura de pigmeu com rabo, orelhas e juba de leão, segurando uma serpente em cada mão. Dada a essas características alguns tendem a assimilar Aha com o deus Bés, entretanto, a partir do Novo Império ele é absorvido por Ptah (CASTEL, 2001).

Transliteração: ˁḥ3

Em hieróglifos: 

Referências:

CASTEL, Elisa. Gran Diccionario de Mitología Egipcia. Madrid: Aldebarán, 2001.

COSTA, Márcia Jamille Nascimento. Uma viagem pelo Nilo. Aracaju: Site Arqueologia Egípcia, 2014.

Deuses egípcios: Abdyu

Por Márcia Jamille | @Mjamille | Instagram

 

De acordo com a teologia heliopolitana (da cidade de Heliópolis em grego, Iunu em egípcio), Abdyu era um dos deuses condutores da Barca Solar durante a sua viagem noturna no submundo (CASTEL, 2001). Ele é citado no “Hino a Rá”, como mostrado no Capítulo 15 do “Livro dos Mortos” do papiro de Ani (RODRÍGUEZ, 2003):

Deves ser benévolo comigo para que possa ver suas belezas, ser próspero sobre a terra, golpear os asnos e afugentar a maldade depois de destruir a serpente Apep[1] no momento da ação e ver peixe abdyu transformado em seu tempo e o peixe inet, […] sendo o barco inet em seu lago (RODRÍGUEZ, 2003, pág 145 Tradução nossa).

Como o próprio hino sugere, na iconografia ele é representado por um peixe.

A palavra “Abdyu” também denominava a cidade de Abidos, consequentemente a transliteração do nome da divindade é semelhante a desta milenar cidade.

Transliteração: ȝbḏw
Em hieróglifos

 

Referências:

CASTEL, Elisa. Gran Diccionario de Mitología Egipcia. Madrid: Aldebarán, 2001.

RODRÍGUEZ, Ángel Sánchez. La Literatura en el Egipto Antiguo: Breve antología. Servilla: Ediciones Egiptomanía S.L, 2003.


 

[1] Apophis em grego. Era a serpente maligna que todas as noites tentava devorar o deus Rá em sua viagem.