Múmias em seus sarcófagos são encontradas flutuando em esgoto no Egito

Por Márcia Jamille | Instagram | @MJamille

De acordo com o “The Daily News Egypt” três ataúdes datados do período greco-romano foram encontrados flutuando no canal Nasseriya, no povoado de Auda Basha, próximo da cidade de Minya. Para o ministro das antiguidades do Egito, Youssef Khalifa, as múmias foram descobertas provavelmente durante uma escavação ilegal realizada por caçadores de tesouros. O abandono poderia ter sido resultado de descarte por parte dos próprios ladrões, que tentaram se livrar dos furtos provavelmente por medo de serem descobertos pela polícia.

Foto via Monica Hanna. 2015.

Assaltantes de sítios arqueológicos só realizam este tipo de atividade porque possuem compradores, seja um turista qualquer nas ruas do Egito, algum museu mal intencionado ou (e principalmente) pessoas influentes financeiramente.

Os objetos são feitos totalmente em madeira e mantêm parte da sua coloração original. Infelizmente nenhum deles contém textos hieroglíficos, mas dentro de dois foram encontradas múmias envoltas em linho, o terceiro estava vazio.

AFP

Os ataúdes estão em um péssimo estado de conservação, possivelmente devido ao seu contato com o esgoto e agora estão passando por um processo de restauro. Após essa intervenção os sarcófagos e suas respectivas múmias serão enviados para o Minya’s Hermopolis Museum.

Fonte:
Holy sh*t! Mummies float in Egyptian sewage! Disponível em < http://www.greenprophet.com/2015/02/holy-sht-mummies-float-in-egyptian-sewage/ >. Acesso em 09 de fevereiro de 2015.
Múmias são encontradas no esgoto no Egito. Disponível em < http://noticias.terra.com.br/mundo/africa/mumias-sao-encontradas-no-esgoto-no-egito,a727ef9a7296b410VgnCLD200000b1bf46d0RCRD.html >. Acesso em 09 de fevereiro de 2015.
Aparecen flotando en un canal de Minya (Egipto) tres sarcófagos de época greco-romana. Disponível em < http://terraeantiqvae.com/profiles/blogs/aparecen-flotando-en-un-canal-de-minya-egipto-tres-sarcofagos-de-#.VNkaDvnF8_b >. Acesso em 09 de fevereiro de 2015.
New mummies discovered floating in sewage in Upper Egypt. Disponível em < http://www.dailynewsegypt.com/2015/02/03/new-mummies-discovered-floating-sewage-upper-egypt/ >. Acesso em 09 de fevereiro de 2015.
Múmias são encontradas no esgoto no Egito. Disponível em < http://g1.globo.com/ciencia-e-saude/noticia/2015/02/mumias-sao-encontradas-no-esgoto-no-egito.html >. Acesso em 09 de fevereiro de 2015.

Ministério de Antiguidades do Egito nega que um cemitério com “um milhão de múmias” foi encontrado

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Nos últimos dias viralizou na internet a notícia de que a equipe de arqueologia da Universidade de Brigham Young, de Utah, EUA, descobriu na área de Fayum um cemitério com um milhão de múmias, achado sem precedentes no Egito.

De acordo com as matérias, o local trata-se de um espaço de sepultamento de pessoas comuns, que acabaram sendo mumificadas artificialmente. Entretanto, ao contrário do que os títulos dizem, o coordenador da missão, o professor Kerry Muhlestein, não deixa claro o número de corpos encontrados, como ele explicou em seu texto de divulgação, “Estamos quase certos de que há mais de um milhão de enterramentos dentro desse cemitério. É grande e denso”[1], o que deu margem para a interpretação equivocada da imprensa. É o que diz o Ministério de Antiguidades do Egito, que lançou ontem uma declaração oficial negando que “um milhão de múmias” foram encontradas em Fayum e salientou que a notícia espalhada pela mídia trata-se de “rumores”. Com a nota foi noticiado também que a missão da BYU teve sua concessão de escavação cancelada por ter feito declarações para a imprensa sem consentimento do MSA, o que fere os regulamentos do acordo para escavar no Egito [2].

Mão mumificada de uma criança. Foto: divulgação. “BYU in Egypt”. “Arqueólogos encontram cemitério com ‘um milhão de múmias’ no Egito”. Disponível em < http://oglobo.globo.com/sociedade/ciencia/arqueologos-encontram-cemiterio-com-um-milhao-de-mumias-no-egito-14856533 >. Acesso em 18 de dezembro de 2014.

Explicando de modo simples, todos os coordenadores de escavações que trabalham no Egito são proibidos de comentar suas descobertas com terceiros — principalmente com a mídia — sem a aprovação do relatório de pesquisa que deve ser entregue ao MSA em todo o final de temporada.

Outras polêmicas:

Fiz uma breve pesquisa na internet para entender o professor Kerry Muhlestein. Em um blog li que ele foi protagonista em uma polêmica que envolveu um conjunto de fragmentos denominado de “Papiro Joseph Smith” e o chamado de “Livro de Abrão”. O burburinho teve início com uma série de vídeos que Muhlestein lançou na internet, onde afirma que existem conexões entre Abrão (personagem bíblico) e a antiguidade egípcia, entretanto, os vídeos apresentam argumentos contraditórios onde até mesmo a ligação entre o “Papiro Joseph Smith” e o “Livro de Abrão” não é sólida o que rendeu uma série de críticas por parte de alguns dos seus colegas que definiram suas conclusões como inviáveis [3][4].

Um dos depoimentos escritos pela Dr. Kara Cooney, que leciona na mesma Universidade em que Muhlestein se formou, a UCLA, acerca deste ocorrido é um pouco preocupante:

“Eu assisti aos três vídeos, e eu não concordo com nada disso. Os antigos egípcios não tinha noção de Abraão, então eu não sei de onde ele tira essas comparações… e não, a maioria dos egiptólogos não concorda, apesar do que Kerry diz. Eu conheço Kerry, mas eu não tenho muito respeito pelo seu trabalho. Agora eu tenho menos ainda. O fato de que ele está escavando no Egito é ainda mais preocupante … Seu PhD foi concedido antes de eu chegar na UCLA, embora eu saiba que Kerry terminou sua dissertação, baseada em textos, depois de apenas dois anos de treinamento em língua egípcia, o que é bastante ridículo”[3].

No blog onde foi divulgada a mensagem da egiptóloga está clara a preferência pelas interpretações de Muhlestein, embora as mesmas tenham mais afinidade com a Egiptofilia do que com a Egiptomania [4].

Escavação em Fayum. Foto: “BYU in Egypt”. “AExperts Make Massive Discovery Under the Sand of the Egyptian Desert — and It’s Left Them Puzzled”. Disponível em < http://www.theblaze.com/stories/2014/12/17/experts-make-massive-discovery-under-the-sand-of-the-egyptian-desert-and-its-left-them-puzzled/ >. Acesso em 19 de dezembro de 2014.

Área de sepulturas. Foto: “BYU in Egypt”. “AExperts Make Massive Discovery Under the Sand of the Egyptian Desert — and It’s Left Them Puzzled”. Disponível em < http://www.theblaze.com/stories/2014/12/17/experts-make-massive-discovery-under-the-sand-of-the-egyptian-desert-and-its-left-them-puzzled/ >. Acesso em 19 de dezembro de 2014.

Também procurei pelo perfil no Facebook “BYUEgyptExcavation” e não encontrei resultados. Igualmente consultei por “BYU in Egypt” (onde estavam disponíveis algumas fotografias da campanha), mas a página foi apontada como “indisponível”.

Fonte da notícia:

[1] Arqueólogos encontram cemitério com ‘um milhão de múmias’ no Egito. Disponível em < http://oglobo.globo.com/sociedade/ciencia/arqueologos-encontram-cemiterio-com-um-milhao-de-mumias-no-egito-14856533 >. Acesso em 18 de dezembro de 2014.
[2] Mummy Curse Strikes Again: MSA Stops BYU Mission. Disponível em < http://luxortimesmagazine.blogspot.com.br/2014/12/mummy-curse-strikes-again-msa-stops-byu.html?m=1 >. Acesso em 19 de dezembro de 2014.
Reverend Spalding Strikes Again: A Response to Internet Criticism of Kerry Muhlestein’s Book of Abraham Videos. Disponível em < http://blog.fairmormon.org/2013/03/06/reverend-spalding-strikes-again-a-response-to-internet-criticism-of-kerry-muhlesteins-book-of-abraham-videos/ >. Acesso em 19 de dezembro de 2014.
BYU professor speaks on unnoticed assumptions about the Book of Abraham. Disponível em < http://www.deseretnews.com/article/865608559/BYU-professor-speaks-on-unnoticed-assumptions-about-the-Book-of-Abraham.html?pg=all>. Acesso em 19 de dezembro de 2014.

 

(Resenha – Documentário) A Maldição de Tutankamon, da Discovery

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Desde mais nova sempre fui aficionada por documentários, mas raramente eu podia assistir algum. Quando comecei a ter acesso à internet procurava saber o que estava passando nas TVs por assinatura para, quem sabe, um dia ter a sorte de encontrar algum deles à venda. Um desses materiais que fizeram parte do meu sonho de consumo foi “A Maldição de Tutankamon” (The Curse of Tutankhamun), da Discovery, que tinha logo no início da sua sinopse a incrível descrição:

Nas margens do Nilo, um rapaz está morto e um homem está morrendo. Duas mortes separadas por mais de 30 séculos e, ainda assim, agourentamente ligadas. O rapaz, um faraó, sepultado com uma fortuna incalculável. O homem, um nobre inglês, no ímpeto de encontrá-lo. Sua busca disparou a maior caça ao tesouro da História e uma reação de mortes em cadeia. Um a um, aqueles que perturbaram a tumba do faraó pereceram. Até hoje, as casualidades crescem. A Ciência segue um assassino esquivo de três mil anos de idade.

Era difícil, como o é hoje, não ficar curiosa depois de ler isso. Contudo, só cheguei a assistir esse documentário quando ingressei na graduação em Arqueologia e anos depois finalmente consegui comprá-lo.

DVD “A Maldição de Tutankamon”, da Discovery. 1998.

Faz muito tempo que me desgostei de documentários, especialmente os ligados à figura de Tutankhamon por sempre romancear as circunstâncias da sua causa de morte, o que, para mim, desgastou e banalizou muito o assunto.  Felizmente, para a minha sorte e paciência, “A Maldição de Tutankamon” ainda não faz parte da belle époque dos documentários sensacionalistas, apesar do assunto abordado, que é a falaciosa maldição da múmia que teria matado uma série de pessoas ligadas ao achado da sepultura. A produção tenta mostrar que a suposta praga não seria um evento espiritual, mas algo que teria sido perfeitamente evitável.

Tutankhamon foi um rei da 18ª Dinastia (Novo Império) e um dos sucessores de Akhenaton, faraó conhecido por sua tentativa de reforma religiosa. Tutankhamon morreu entre seus 18 e 19 anos e foi sepultado no Vale dos Reis. Sua tumba permaneceu praticamente intacta até a sua descoberta, realizada por um arqueólogo, em 1922. A fita se inicia apesentando o contexto da época da abertura do túmulo, o papel do Lorde de Carnarvon (patrocinador da empreitada) e Howard Carter (arqueólogo responsável pelo achado). É narrado também o episódio da entrada fortuita de Carter, Carnarvon, Mace e da Lady Evelyn no sepulcro na calada da noite e a morte de Carnarvon nas semanas seguintes, circunstância que deu espaço para os tabloides ingleses afirmarem a existência de uma maldição.

Sheryl Munson e o marido no Egito em 1995. Fonte: “A Maldição de Tutankamon”, da Discovery. 1998.

O documentário também aponta a morte da turista Sheryl Munson, em 1995, após sua viajem para o Egito. É narrado que, ignorando as ordens de segurança, ela tocou uma pintura parietal de uma tumba acreditando que aquela era uma oportunidade única. Contudo, após retornar para casa ela desenvolveu um quadro de tosse aguda, fraqueza e falta de ar. Com a piora da sua saúde uma biopsia do seu pulmão foi realizada. Foi identificado então o fungo aspergillus níger, que mais tarde assimilariam o contágio com a viajem de Shery para o Egito e o evento de ter tocado em uma parede num sítio arqueológico de caráter funerário. O material ainda explica que Carnarvon teria cometido erro semelhante anos antes, quando entrou desprotegido na tumba, se expôs aos fungos do local e, após um ferimento no rosto que infeccionou graças ao contágio, entrou em óbito em 10 de abril de 1923.

O interessante da fita é que nela aparecem alguns nomes já conhecidos entre egiptólogos e o público comum como David Silverman, Roselie David e Zahi Hawas (que ironicamente em uma das suas participações comenta que a fama é uma maldição). A participação da profa. David é uma das mais esclarecedoras, já que ela explica que, ao contrário do passado, hoje é possível trabalhar com a “exumação” de múmias em segurança, através do uso de raio-x e o endoscópio, evitando assim o risco de contaminação tanto para o pesquisador como para a própria múmia (é importante lembrar que o depósito de bactérias na superfície ou interior de uma múmia pode acelerar a sua degradação).

Imagem frontal da mascara mortuária de Tutankhamon. Imagem disponível em MULLER, Hans Wolfgang; THIEM, Esberhard. O ouro dos faraós. (Tradução de Carlos Nougué, Francisco Manhães, Maria Julia Braga, Angela Zarate). 1ªEdição. Barcelona: Editora Folio, 2006. pág. 175.

Imagem frontal da mascara mortuária de Tutankhamon. Imagem disponível em MULLER, Hans Wolfgang; THIEM, Esberhard. O ouro dos faraós. (Tradução de Carlos Nougué, Francisco Manhães, Maria Julia Braga, Angela Zarate). 1ªEdição. Barcelona: Editora Folio, 2006. pág. 175.

Mas por que tantas mortes?

Lord Carnarvon.

Quinto Conde de Carnarvon.

Embora uma infecção explique a morte de Carnarvon, a dúvida ainda paira acerca dos outros óbitos que os tabloides relacionaram com a Maldição de Tutankhamon. Mas não existe mistério também nisto: quando a notícia da descoberta da tumba estourou, Carnarvon vendeu os direitos de reportagem para o The Times, um jornal voltado para a elite inglesa. Sem matérias exclusivas e aproveitando o embalo do falecimento do patrocinador, os demais jornais procuravam qualquer definhamento relacionado com algum membro da equipe de escavação, ou mesmo de algum familiar que nem sequer entrou no sepulcro, para assimilar à morte agourenta. Um deles até mesmo inventou que na porta da sepultura existia uma maldição escrita ameaçando todos aqueles que incomodassem o descanso do faraó.

Considerações finais:

Este é um documentário para sanar a curiosidade acerca da Maldição da Múmia, e não apresenta muitos aspectos da vida no Antigo Egito, contudo, faz bem o seu trabalho ao mostrar os riscos de contaminação existentes em túmulos e corpos egípcios.

Meus comentários sobre o DVD “A Maldição de Tutankamon” no Youtube:

Dados do DVD:

Título: A Maldição de Tutankamon

Gênero: Egiptologia, múmias

Diretor: Gary Parker

Distribuidora: Discovery

Ano de Lançamento (Brasil): 1998

Valor: Entre R$19,90 e R$20,90

ATENÇÃO Rio de Janeiro: 8Th Congress on Mummy Studies – 6 a 9 de agosto

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille

 

Estará ocorrendo esta semana (entre os dias 6 e 9 de agosto de 2013) no Museu Nacional do Rio de Janeiro o 8Th Congress on Mummy Studies. O evento já tinha sido divulgado aqui no site, mas vale dar um up.

A Dra. Salima Ikram estará presente. Ocorreu uma tentativa em trazer o Dr. Bob Brier também, mas aparentemente ele não comparecerá.

Link do evento: http://www.museunacional.ufrj.br/novidades/8o-congresso-mundial-de-estudos-de-mumias\

Página no Facebook: https://www.facebook.com/8thwcms

Obrigada ao leitor Luiz Fernando P. Sampaio por relembrar o evento.