Imagens legais inspiradas em Nefertiti no Instagram

Por Márcia Jamille | @MJamille |@Instagram

 

Ultimamente uma das minhas ferramentas favoritas da web é o aplicativo Instagram. Para quem me segue lá já deve ter percebido que eu curto de tudo. Na verdade acho tão divertido quanto publicar fotos é passear pela rede vendo o que as pessoas andam compartilhando. É incrível como podemos encontrar muitas coisas criativas e algumas até mesmo inspiradoras.

No início de fevereiro (2014) eu estava navegando com a tag “Nefertiti” e encontrei algumas fotografias especiais que eu acho que vale mostrar para vocês:

 

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De acordo com reanálise de DNA a Rainha Tiye e o Faraó Amenhotep III eram primos

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille | Instagram

As investigações que se seguiram após as análises de DNA das múmias reais, publicadas em Fevereiro de 2010, proporcionaram materiais para uma nova árvore genealógica da Família Real do final da XVIII Dinastia.

Após debates acerca da confiabilidade das sugestões laçadas naquela época, um exame minucioso destes resultados levou este ano à conclusão de que alguns elos genéticos não foram notados pela a equipe responsável pelo exame em 2010.

Estátuas de Amenhotep III e Tiye. Salão principal do Museu Egípcio do Cairo. Retirado de: Chapter 20: Amenhotep the Magnificent. Disponível em: . Acesso em 12 de Janeiro de 2011.

Estátuas de Amenhotep III e Tiye. Salão principal do Museu Egípcio do Cairo. Retirado de: Chapter 20: Amenhotep the Magnificent. Disponível em: < http://www.answersingenesis.org/articles/utp/amenhotep-the-magnificent>. Acesso em 12 de Janeiro de 2011.

De acordo com a revisão do estudo, o fato mais significativo é que foi descoberto que Yuya, pai da Grande Esposa Real Tiye, compartilhou com seu genro, Amenhotep III, cerca de 1/3 de herança genética. Como consequência está sendo proposto que Yuya é um tio de Amenhotep III por parte de mãe, o que aponta que em verdade a rainha Tiye era prima de Amenhotep III e não uma plebeia, como muito se afirmou.

Faraó Amenhotep III. Imagem disponível em . Acesso em 12 de outubro de 2013.

Faraó Amenhotep III. Imagem disponível em < http://www.cis.nctu.edu.tw/~ whtsai/Egypt%20Trip/Summary %20of%20Trip/Part%20I%20—%20 Days%2001~04/Part%20I%20—%20By% 20Browsing/page_05.htm >. Acesso em 12 de outubro de 2013.

Rainha Tiye. Imagem disponível em . Acesso em 12 de outubro de 2013.

Rainha Tiye. Imagem disponível em < http://www.pinterest.com/pin/2476 2767948 4031042/ >. Acesso em 12 de outubro de 2013.

Outra sugestão da pesquisa é que a “Jovem Mulher”, encontrada com a múmia da rainha Tiye e já identificada como mãe do faraó Tutankhamon, trata-se de Nefertiti, já que possui um grau de parentesco próximo tanto com Yuya e sua esposa Tuya, como também com Tiye e Amenhotep III. Mas esta última teoria está mais baseada na possibilidade de que Nefertiti poderia ser filha de Ay, que por sua vez poderia ser filho de Yuya e Tuya.

A última conclusão da análise é que uma das mulheres encontradas na KV-21 se trataria de Mutemuiya, mãe de Amenhotep III.

Referência:

Marc Gabolde, « L’ADN de la famille royale amarnienne et les sources égyptiennes », ENiM 6, 2013, p. 177-203. Disponível em < http://www.osirisnet.net/news/n_09_13.htm  >. Acesso em 10 de Outubro de 2013.

Imagem das costas do busto de Nefertiti

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille

Nefertiti é uma das figuras mais icônicas para os (as) fãs do Antigo Egito e é tomada por muitos (as) como um exemplo da beleza egípcia antiga graças ao seu busto encontrado em 06 de dezembro de 1912 no ateliê do artista Tutmés, em Aketaton (atual Amarna).

 

Nefertiti. Fonte da imagem AFP. Disponível em . Acesso em 02 de Outubro de 2012.

Nefertiti. Fonte da imagem AFP. Disponível em <http://www.google.com/hostednews/afp/article/ ALeqM5hdhUI4kP9k3k4OlCPPxsxKIKID_Q>. Acesso em 02 de Outubro de 2012.

 

Já apresentei no post “(Imagem) Busto de Nefertiti” a imagem deste artefato propriamente dito e em “Alguns detalhes do busto da rainha Nefertiti” comento acerca de determinados pontos interessantes a serem observados neste objeto.

Porém, a curiosidade que trago hoje é acerca das costas do item, uma das partes deste artefato que raramente, ao menos para quem nunca viu esta peça pessoalmente, é possível dar uma olhada:

Costas do busto da rainha Nefertiti. Foto de Teresa Soria Trastoy.

Costas do busto da rainha Nefertiti. Foto de Teresa Soria Trastoy.

O busto de Nefertiti pode ser visitado atualmente no Neues Museum de Berlim.

 

Nefertiti viveu mais anos do que antes se supunha

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille

Notícia enviada por Robson Cruz, via Facebook.

Assim que um novo faraó assumia o trono, uma nova contagem de ano se iniciava. É possível fazer estas datações pela própria cultura material escrita em iconografias, documentos oficiais ou etiquetas de vinho (algumas cerâmicas que continham este líquido poderiam ter algo escrito como “vinho das uvas coletadas no ano 10 do reinado do faraó ‘x’”). É desta forma que muitas das datações do Período Amarniano, época do reinado do faraó Akhenaton até a morte de Tutankhamon (alguns Egiptólogos sugerem que este tempo poderia ser estendido até a morte de Ay) também são realizadas.

Ordem de sucessão: Ainda não está claro de que forma ocorreu o decurso de Akhenaton até Tutankhamon.

Alguns dos eventos ocorridos neste período podem ser afirmados, outros, no entanto, ainda são alegados com ressalvas. Um exemplo são aqueles ocorridos no ano 14 do reinado de Akhenaton, que é conhecido por ter sido a época em que seguramente a segunda filha do faraó, Meketaton, faleceu, já que a cerimônia relativa ao seu sepultamento é registrada na tumba da família real, localizada em Amarna. Porém, outro evento não desperta tanta certeza, é o ano de morte da rainha Nefertiti, a qual tem o seu nome substituído em edifícios por o de sua filha mais velha, Meriaton, também no ano 14. Pelo motivo de o seu nome torna-se ausente nos registros arqueológicos supôs-se que ela teria falecido.

Nefertiti. Imagem disponível em < http://www.csmonitor.com/World/Global-News/2009/1102/germany-time-for-egypts-nefertiti-bust-to-go-home >. Acesso em 17 de Julho de 2011.

No dia 06 de Dezembro (2012) foi anunciada a descoberta anterior, pelo Dayr al-Barsha Project de uma inscrição proveniente de uma pedreira de calcário datado do ano 16 do reinado de Akhenaton e que traz o nome da rainha Nefertiti e do esposo, o que abre novas interpretações para este período, principalmente porque Ankhenaton morre no seu 17º ano de reinado, para então ser substituído por sua filha Meriaton, casada com uma figura incógnita chamada Smenkhara.

Alguns arqueólogos e historiadores, dentre eles Nicholas Reeves, defendem que a rainha Nefertiti, em algum momento após do ano 14 teria mudado o seu nome e reinado como faraó, para depois ser substituída por Tutankhamon e outra de suas filhas, Ankhesenamon. Suas suposições, em alguns casos, são ligadas a artefatos pertencentes a KV-62 (tumba de Tutankhamon) que antes de mudar de dono foram dedicados a um indivíduo denominado Ankhkheperura, nome de batismo de Neferneferuaton. Porém “Ankhkheperura” e “Neferneferuaton” diz-se ter sido o nome de Smenkhara, enquanto o de Nefertiti era “Neferneferuaton Nefertiti”.

Provavelmente Nefertiti casou-se na sua infância e com o título de Grande Esposa Real deu a luz a seis meninas. Na ordem de nascimento (as com o nome em negrito tornaram-se rainhas): Meriaton, Meketaton, Ankhesenpaton (mais tarde Ankhesenamon), Neferneferuaton Tasherit, Neferneferura e Setepenra.

Alguns detalhes do busto da rainha Nefertiti

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille

Já discuti em outros posts acerca da rainha Nefertiti: em “O Sol e a Família Real de Amarna (IMAG.)” mostro uma imagem dela acompanhada por seu marido Akhenaton e três das suas seis filhas. Em “(Imagem) Busto de Nefertiti” o leitor pode visualizar algumas fotos do famoso busto da rainha que se encontra desde 1912 na Alemanha e que foi solicitado formalmente pelo o governo egípcio em 2011, tendo sido então o pedido negado.

Homenageada por uma marca de cigarros e ganhando até uma customização feita em uma boneca Barbie, pouco se sabe sobre a vida de Nefertiti, mas podemos ter uma ideia a partir das análises feitas da iconografia presente nos talatats encontrados em 1926 em Karnak.

Este busto foi encontrado no dia 06 de dezembro de 1912 no ateliê do artista Tutmés, em Aketaton, acompanhado por outras imagens igualmente realistas tanto da rainha Nefertiti como de alguns cidadãos da corte de Akenaton, os quais a identidade é desconhecida.

Nefertiti. Fonte da imagem AFP. Disponível em <http://www.google.com/hostednews/afp/article/ ALeqM5hdhUI4kP9k3k4OlCPPxsxKIKID_Q>. Acesso em 02 de Outubro de 2012.

Alguns pontos para a observação:

 

 

(1) O núcleo da imagem é feita em pedra calcária onde foi esculpido um rosto rebuscado da rainha e que foi coberto por uma camada de gesso, que serviu para retocar a imagem áspera e como a base para a tinta que imita a cor da pele e os adereços da rainha. No objeto não existe uma identificação nominal que indique que seja Nefertiti, mas o que a identifica como tal é a sua “Coroa Azul”, amplamente utilizada por esta governante.

(2) Outrora na parte frontal da “Coroa Azul” existia uma ureus, uma naja que simbolicamente protegia a divindade (neste caso a Nefertiti). Tanto a serpente, como parte das orelhas e a parte de trás da coroa foram danificadas devido o passar dos séculos.

(3) O olho esquerdo da rainha é inexistente, mas isto não aponta uma deficiência.  Teorias já foram levantadas para tentar justificar a ausência deste olho, uma delas é de que ele não teria sido posto no lugar devido a pressa em se abandonar Amarna (embora seja bem possível que com os reinados de Smenkhará e Tutankhamon o abandono tenha se dado de forma gradual e não imediato) ou de forma proposital, uma vez que o busto só seria uma escultura utilizada como modelo no lugar da rainha quando a presença dela não fosse possível no momento de se fazer outras imagens.

(4) Dependendo de que forma o busto é iluminado é possível ver as rugas da governante, principalmente próximo aos olhos e na área das bochechas, o que faz jus a definição de “realista”, quando definimos alguns dos momentos da arte amarniana.

Você possui uma sugestão de texto para o Arqueologia Egípcia? Entre em contato através de um dos perfis no twitter @ArqEgipciaInfo ou @MJamille, da página no Facebook ou pelo formulário de contato.

A análise dos talatats de Akhenaton

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille

A análise dos talatats de Amenhotep IV: A resposta dada por um vestígio em contexto [1].

Akhenaton e sua filha Meriaton. Foto: Kenneth Garrett. Abril de 2001.

Em 1926, enquanto ocorria a reforma no complexo de Karnak, foi encontrado dentro de pilonos do Templo de Amon pedaços de pedra com figuras deformadas. Era de um santuário do faraó Amenhotep IV (em grego Amenófis IV) [2] que foi outrora desmontado para tornar-se entulho de preenchimento de obras posteriores a sua morte. Este achado acabou revelando o que foi uma destruição intencional e sistemática de todo o reinado de um governante pouco querido, mas ironicamente, esta atitude que procurava apagar de vez este rei da história foi o que o preservou para a posterioridade.

A obra de restauração encomendada pelo o Serviço de Antiguidades Egípcio, e patrocinada pela a França, estava sob a direção do arqueólogo Henri Chevrier, que durante a exploração recuperou do esconderijo cerca de 20.000 blocos que mediam quase três palmos, o que lhes proporcionou o nome de “talatat” (“três” em árabe). Logo se percebeu que estes artefatos, que continham várias imagens rituais e “cotidianas” retratadas, faziam parte de outra estrutura mais ampla, pois tinham cenas que pareciam poder se encaixar com alguma outra perdida.

Fonte: O’CONNOR, David; FORBES, Dennis; LEHNER, Mark. Grandes civilizações do passado: Terra de faraós. (Tradução de Francisco Manhães). 1ª Edição. Barcelona: Editora Folio, 2007. p. 81. Sobre o peso: Documentário “Expedições de Josh Bernstein: Amarna”, da Discovery Channel.

É fato que ninguém, a princípio, soube explicar o que afinal aquilo significava, mais vestígios com o nome de Amenhotep IV tinham sido encontrados em outros pontos, inclusive provas de que alguns colossos deste mesmo rei tinham sido adulterados de seus lugares. De acordo com a análise, as figuras que estavam ali tinham sido derrubadas de seus pedestais (O’CONNOR et al, 2007, p. 84). Até mesmo o rosto do faraó e sua esposa, retratados nas pedras encontradas nos pilonos, foram mutilados.

Apesar do ato de violência contra a figura de Amenhotep IV os talatats, segundo o escritor e egiptólogo Christian Jacq, foram guardados de forma sistemática, ele ainda afirma que se os arqueólogos que trabalharam no local fossem “(…) seguindo a lógica do sistema, teria sido fácil então reconstituir os tabiques pelos os quais os mesmos eram compostos” (JACQ, 2002, p. 217), e de acordo com O’Connor (et al) parece que ocorreu um especial interesse em arruinar a imagem da rainha, pois “Os retratos da rainha consorte de Amenhotep , Nefertiti, tinham sido sistematicamente mutilados; alguns deles, amontoados uns sobre os outros, tinham sido evidentemente colocados de modo que a rainha ficasse de cabeça para baixo” (O’CONNOR et al, 2007, p. 82).

O que motivou esta tentativa de esconder da memória egípcia o faraó Amenhotep IV? Esta questão pode ser explicada pelo o estudo dos dezessete anos de reinado do mesmo: Ele não foi criado a principio para ser rei, quem estava destinado a este cargo era o seu irmão mais velho, Tutmés (em grego Tutmoses), mas o rapaz faleceu ainda quando era um garoto. Amenhotep IV, que possivelmente estava treinando para ser sacerdote, já que não era príncipe regente, torna-se o próximo na sucessão. Quando ascendeu ao trono dando início ao seu primeiro ano de reinado, ele já estava começando a dar sinais de que não seguiria os passos dos seus predecessores e mandou que construíssem um templo a um deus pouco citado, mas de forma alguma desconhecido em Karnak [3], Aton.

Neste período de tempo algo ocorreu em Tebas causando consternação em Amenhotep IV [4] que então procurou como uma resposta pratica a criação de uma nova capital onde ele poderia cultuar o deus Aton e ignorar a existência das demais divindades.

Durante os anos de reinado de Amenhotep IV ocorreram muitas baixas na política interna e externa egípcia: a medida que o faraó se fechava na sua nova capital, o Egito perdia terreno para os seus inimigos, e os acordos diplomáticos iam enfraquecendo. Já entre os próprios nativos, nem todos estavam mais contentes com a nova ordem religiosa de Aton o que obrigou Amenhotep IV, que a esta altura já tinha modificado seu nome para “Akenaton”, a mandar que se apagassem o nome do deus rival Amon das paredes de Karnak.

Em duas décadas de reinado, a nova capital já estava pronta e fervilhante, isto se deu porque foram justamente os talatats o que compôs as paredes dos templos e parte dos palácios da cidade de Amenhotep IV e não os grandes blocos de pedra calcária comumente utilizada na construção dos templos egípcios. As casas populares eram feitas de adobe (o que já era totalmente normal em termos de construção). Pareceu que este novo lugar, de onde ele regeria o Egito, seria a brecha para coisas novas: a arte egípcia agora teria parâmetros diferentes, os templos eram feitos de forma nova [5] e até o rei mudou o seu nome para Akenaton no dia da inauguração do local como se fosse a abertura para um Egito totalmente novo. Outro motivo que causou descontentamento foi o fato de que Akenaton dava poucos donativos aos templos dos demais deuses, ao contrário dos templos de Aton que sempre recebia em estupores (CARREIRA, 2004).

Após a sua morte, porém, a sua capital que se chamava Aketaton (“Horizonte de Aton”) foi abandonada, os seus sucessores provavelmente tiveram problemas para manter a sua “revolução”. Primeiramente ele foi substituído por sua filha Meritaton e uma figura o qual pouco se sabe chamado Smenkhará, mas os dois somem dos registros e logo vemos surgir nas fontes documentais Tutankhaton e Ankhesenpaaton que eram crianças na época cuja coroação ofereceu a brecha para o restabelecimento dos antigos deuses. Assim, é erguida a “Estela da Restauração”, em que o novo faraó apresenta-se como apaziguador e critica a atitude do outro governante ao deixar os templos e deuses abandonados. Desta forma, para voltar a normalidade egípcia, os nomes das crianças são mudados para Tutankhamon e Ankhesenamon. De forma irônica, igualmente a Amenhotep IV, que optou por mudar o próprio nome para dar início a uma nova era, os seus filhos precisaram de semelhante atitude para dar um fim a mesma.

Agora os arqueólogos talvez tivessem uma explicação para a atitude de se querer apagar de vez um faraó da história do país, mas restava saber quem era o autor da ação contra Amenhotep IV.

As pesquisas com as pedras continuaram a decorrer até que em 1965 que um diplomata norte americano aposentado chamado Ray Winfield Smith utilizou um computador para tentar montar o grande quebra-cabeça, a ideia compunha-se de formar um banco de dados com fotos dos talatats, tanto quanto fosse possível, já que alguns estavam em coleções estrangeiras. Assim teve início o “Projeto Templo de Akenaton” que tempos depois sob a coordenação do egiptólogo canadense Donald Redford fez escavações em Karnak, onde encontrou mais estruturas que denunciavam os primórdios do monoteísmo em Tebas e claro, o esforço para erradicá-lo. As escavações arqueológicas revelaram que o Templo de Aton foi desmontado e preencheu os pilares do Grande Templo de Amon, e literalmente os limites deste último passa por cima do negativo do outro.

Planta do hipostilo e negativo do templo de Akhenaton. O’CONNOR, David; FORBES, Dennis; LEHNER, Mark. Grandes civilizações do passado: Terra de faraós. (Tradução de Francisco Manhães). 1ª Edição. Barcelona: Editora Folio, 2007. p. 84)

Funcionários egípcios trabalham em remoção dos talatats no 9º Pilone. Fonte: O’CONNOR, David; FORBES, Dennis; LEHNER, Mark. Grandes civilizações do passado: Terra de faraós. (Tradução de Francisco Manhães). 1ª Edição. Barcelona: Editora Folio, 2007. P. 85.

Exemplo de Talatats. Fonte: O’CONNOR, David; FORBES, Dennis; LEHNER, Mark. Grandes civilizações do passado: Terra de faraós. (Tradução de Francisco Manhães). 1ª Edição. Barcelona: Editora Folio, 2007. P. 87.

A Arqueologia apontou outro fato importante: a pessoa que ordenou a depredação do templo foi o sucessor de Ay, que por sua vez foi sucessor de Tutankhamon. Supõe-se que Ay poderia ser pai de Nefertiti [6], o que já seria uma desculpa para que ele pudesse acender ao trono, no entanto quem o substitui é o general Horemheb que não tem vínculos reais. Para tentar entender por que Horemheb pôde se tornar rei se sugeriu que sua esposa Mutnodjmet seria irmã de Nefertiti. Sabe-se que ele foi o responsável por tentar excluir Amenhotep IV da memória egípcia porque um pedaço de arremete com o seu selo foi encontrado dentre os talatats. Seus motivos podem ter sido semelhantes ao de Tutmoses III anos antes, que necessitou apagar a existência de Hatshepsut dos murais para proteger a acessão do seu filho ao trono [7], como pode ter sido também para “julgar” a faraó que abandonou a normalidade egípcia para recorrer as suas próprias convicções.

Assim sendo, o estudo com os talatats puderam revelar de forma inesperada ocorrências do passado. Não foi só unicamente feita a análise iconográfica ou medições das pedras, mas também a observação do contexto em que elas foram escondidas e até mesmo o olhar averiguador durante a retirada do material revelando assim o principal suspeito de ser o autor daquela obra incomum.

[1] Este texto de minha autoria foi publicado em meados de 2009 no Arqueologia Egípcia, mas foi arquivado posteriormente. Faço aqui uma publicação revisada com mudanças de nomes gregos para o egípcio faraônico.
[2] “Amenhotep” significa “Amon está satisfeito”.
[3] Amenhotep IV e a corte real egípcia já tinha contato com o deus Aton, ele era evidenciado em alguns cultos no palácio de Malqata, que foi construído por Amenhotep III, pai de Amenhotep IV.
[4] Não se sabe o que aconteceu, mas escritos sugerem quem o faraó se aborreceu com algo. O acadêmico da Universidade de Memphis Bill Murnane em entrevista comentou que “Akhenaton não diz com todas as letras o que aconteceu, mas foi algo que o enfureceu” e complementa com “Ele disse que nem ele nem seus ancestrais jamais haviam passado por algo pior” (MURNANE apud GORE, 2001, p. 31).
[5] Não tinham tetos, já que o alvo de culto estava no céu, e não em quartos escuros.
[6] Sua esposa Tey é a ama de leite da rainha Nefertiti, o que não quer dizer que era a sua mãe, já que era costume que as damas mais ricas contratassem mulheres para amamentar seus filhos.
[7] Foi descoberto que a negligência as imagens de Hatshepsut ocorreram cerca de vinte anos depois da sua morte, a dedução então é que Tutmés III precisava reforçar a legitimidade de seu filho Amenófis II. Hatshepsut era quem possuía mais proximidade com a “pureza” real, enquanto que o seu enteado era filho de uma esposa secundaria (BROWN, 2009).

 

Bibliografia:

Brown, Chip. “ O rei está nu(a)”. National Geographic Brasil. Editora Abril, Abril 2009.
CARREIRA, Paulo.Textos da religião de Aton. Revista lusófona de ciência das religiões. Ano III, nº 5/6 (2004), p. 231-262.
CHRISTIAN, Jacq. Nefertiti e Akhenaton (Tradução de Maria Alexandre). Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2002
Gore, Rick.“Os faraós do sol”. National Geographic Brasil. Editora Abril, Abril 2001
O’CONNOR, David; FORBES, Dennis; LEHNER, Mark. Grandes civilizações do passado: Terra de faraós. (Tradução de Francisco Manhães). 1ª Edição. Barcelona: Editora Folio, 2007.

100 Anos de Nefertiti

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille

 

O Museu Egípcio (o site não explica qual) e o Papyrus Collection estão organizando a exposição “Amarna 2012 – 100 Years of Nefertiti” (“Amarna 2012 – 100 anos de Nefertiti”). Tal exposição busca comemorar o 100º Aniversário de descoberta do busto da rainha (ocorrida em 06 de Dezembro de 1912).

 

Nefertiti. Imagem disponível em < http://www.csmonitor.com/World/Global-News/2009/1102/germany-time-for-egypts-nefertiti-bust-to-go-home >. Acesso em 17 de Julho de 2011.

 

A exposição ocorrerá no Neues Museum de 07 de dezembro de 2012 até 13 de Abril de 2013 e apresentará várias peças do Período Amarna.

 

Veja também:

 

Imagens do busto de Nefertiti

Quatro imagens para os leitores poderem visualizar.

 

Nefertiti é solicitada formalmente

Este texto além de apontar sobre a tentativa do Egito em repatriar o busto da rainha mostra também porque sua saída do seu país natal levanta tanta polemica.

 

◘ Site do Neues Museum

 http://www.neues-museum.de/

 

Fonte da notícia disponível em < http://www.smb.museum/smb/kalender/details.php?lang=en&objID=29934 >. Acesso em 09 de Abril de 2012.

Futura página da exibição: http://berlin-meets-the-uk.com/en/event/amarna-2012-100-years-nefertiti . Acesso em 09 de Abril de 2012.

 

Camisetas do Arqueologia Egípcia

Por Márcia Jamille Costa | @Mjamille

 

Eu já tinha anunciado no Twitter @ArqEgipciaInfo  que o Arqueologia Egípcia traria algumas novidades para 2012, uma delas são as já divulgadas camisas daqui do site.

Todas são temáticas com alguns dos aspectos do site como o blog “AEgícia” ou a logomarca do próprio Arqueologia Egípcia. Por acaso todos os desenhos são meus, o que me permite dizer que foi pensado com muito zelo e obviamente faço questão de explicar de onde veio a inspiração para cada um:

 As camisas e o que significa cada tema:

Arqueologia Egípcia – Logomarca

Logomarca do Arqueologia Egípcia: Além da preta é possível encontrá-la em outras cores e está disponível tanto para homens como mulheres. O desenho mostra a ave Benu (símbolo do renascimento) em meio a duas formas onduladas que representam o mar primordial (local que os egípcios da antiguidade acreditavam ter surgido a vida). Toda a imagem da logo foi feita para que lembrasse um “Serekh”, símbolo que guardava o nome dos primeiros faraós. Clique aqui para ver o modelo tradicional (Feminino e masculino) e aqui para ver o Babylook.  Atrás tem o endereço do Arqueologia Egípcia.

AEgípcia

Imagem com o nome “AEgípcia” e perfil de deusa: É possível encontrá-la em outras cores e está disponível tanto para homens como mulheres. O desenho é uma logo especial contendo a imagem da personificação da deusa Amonet (contraparte feminina de Amon, um dos deuses padroeiros de Tebas) que estampa o topo do site Arqueologia Egípcia. Na minha opinião é uma deusa no mínimo bem interessante, tanto que dentre várias opções escolhi ela para identificar o site. Clique aqui para ver o modelo tradicional (Feminino e masculino) e aqui para ver o Babylook.  Atrás tem a logo do Arqueologia Egípcia.

Nefertiti

Rainha Nefertiti: Disponível somente em cor branca esta camiseta foi feita exclusivamente para as crianças. A imagem reproduz o famoso busto da rainha Nefertiti, esposa do faraó Akhenaton (acredita-se que era a madrasta de Tutankhamon) e foi retratada em varias cenas de família cuidando de suas filhas. Clique aqui e observe o modelo. Atrás tem a logo do Arqueologia Egípcia.

Bastet

Deusa Bastet: É possível encontrá-la em outras cores, porém só está disponível como Babylook. Este desenho mostra a deusa Bastet cuja figura desempenhava um papel importante para os egípcios da era faraônica, pois, além de representar a doçura ela também poderia combater o mal. Esta imagem na camisa foi utilizada em um papel de parede fornecido pelo Arqueologia Egípcia em 2011. Clique aqui para ver o modelo. Atrás tem a logo do Arqueologia Egípcia.

Especial

Uma especial: Somente na cor branca e disponível somente como Babylook, esta foi feita em homenagem ao twitter e a hashtag “EgyptianArchaeology” que normalmente utilizo no microblog quando quero falar especificamente do site. A princípio ela não estaria disponível, mas voltei atrás na decisão e a deixarei de modo temporário. Clique aqui para vê-la. Atrás tem a logo do Arqueologia Egípcia.

Elas são o fruto de uma parceria com a VitrinePix, a única loja que se enquadrou com as necessidades do Arqueologia Egípcia. Desta forma toda e qualquer dúvida quanto a forma de pagamento, qualidade/cor do produto e prazo de entrega deve ser reportada ao Vitine. Fique sempre de olho porque o site da empresa normalmente lança promoções.

E eu não poderia deixar de postar uma já pronta:

Foto: Márcia Jamille Costa

 

Como comprar:

– Primeiramente é necessário estar cadastrado na VitrinePix. Com este cadastro você poderá acompanhar o passo a passo da sua compra até o momento em que é expedida;

Ao efetuar sua compra você receberá um e-mail com o número do seu pedido e um link que te levará para uma página com as informações necessárias para que você possa acompanhar seu pedido.

– Ao escolher a camiseta selecione a cor do tecido na paleta de cores, o tamanho e a quantidade. Para saber o tamanho ideal consulte a tabelinha de medidas. Note que a largura não é a circunferência da sua barriga, mas a largura mesmo da camiseta (Para quem não entendeu: se estender alguma camiseta em superfície plana verá a largura dela).

Procure as opções de cores, tamanho e quantidade de camisas antes de efetuar a compra.

– Após efetuar o pagamento a loja enviará para o seu e-mail o status do seu pedido.

 

 

 

Reparos no Palácio Norte de Amarna

Tradução: Márcia Jamille Costa | @MJamille

Reparos no Palácio Norte – 2011

Em 1997, o Amarna Project iniciou um programa para registrar e restaurar um dos edifícios mais importantes da antiga cidade: O Palácio Norte. No início de outubro de 2011, nos retornamos ao local com o objetivo de trabalhar uma grande área: a conclusão dos reparos da Suíte Real, uma parte do trabalho que marcará o fim do trabalho de restauro do Palácio Norte, ao menos por enquanto.

O apoio financeiro para a campanha de 2011 veio via campanha de angariação de fundos através do Justgiving [1]. Muito obrigado a todos que doaram, seja pouco ou muito dinheiro [2], e nos torcemos para que vocês aproveitem as fotografias do trabalho que carregaremos aqui no final das próximas semanas.

Equipe Amarna Project

[1] Justgiving é um site para doações com um termômetro de porcentagem contando quanto foi doado.

[2] whether a few pounds or many. Resolvi mudar um pouco a tradução, mas o sentido é o mesmo.

Read more for English version

 

 

North Palace Repairs 2011

In 1997, the Amarna Project began a programme to record and restore one of the ancient city’s most important buildings: the North Palace. In early October 2011, we returned to the site with the aim of meeting a major milestone: the completion of repairs to the Royal Suite, a piece of work that will mark the end of restoration work at the North Palace, for now at least.

Financial support for the 2011 campaign came via a fundraising campaign through Justgiving. Many thanks to everyone who donated, whether a few pounds or many, and we hope you enjoy the photographs of the work that will be uploaded here over the next few weeks.

The Amarna Project Team

 

Algumas fotos já publicadas:

 

Reparos no Palácio Norte – 2011

 

Reparos no Palácio Norte – 2011

 

O funeral de Tutancâmon (comentários)

O funeral de Tutancâmon da National Geographic Brasil: uma idéia boa, mas mal direcionada.  

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille

 

Desde que a tumba de Tutankhamon foi encontrada em 1922 o frenesi sobre a sua descoberta despertou a curiosidade de vários espectadores, alguns dos quais simples curiosos que pouco sabiam sobre a Arqueologia ou de quem se tratava Tutankhamon, mas que estavam dispostos a visualizar aquele universo tão misterioso que era a de uma tumba milenar intacta e cheia de tesouros. Este faraó falecido em 1322 a. C. desperta ainda hoje o interesse de muitos por sua morte tão prematura e os artefatos (a maioria feito de ouro e pedras semipreciosas) encontrados na sua tumba. Esta curiosidade nada acanhada tem se tornado cada vez mais freqüente desde que as primeiras imagens de seu espólio funerário foram lançadas ao mundo, fazendo assim com que o interesse por esta figura antiga esteja cada vez mais gritante. Este fato está refletido mais fortemente nos muitos documentários veiculados por canais fechados onde uma simples menção ao nome do “faraó-menino” está sendo obrigatória. Indo de acordo com a moda da “Tutmania” é onde entra o documentário “O funeral de Tutancâmon” (“Burying King Tut” no original, ano de lançamento 2009) da National Geographic.

Embora realizado para a National Geographic Channel, o documentário em si é quase um fiasco, mas não no que diz respeito ao trabalho de alguns dos pesquisadores presentes, mas da forma como a história foi construída e organizada. O desconhecimento de aspectos da egiptologia por parte da produção da fita é visível a cada momento, principalmente nas montagens ligadas ao historiador Nicholas Reeves (Egiptólogo e autor de “The Conplete Tutankhamun”, sem tradução para o Brasil) que por sinal foi mal encaixado: suas falas além de polêmicas excluem o público de uma grande discussão que existe não só por trás deste, mas de outros documentários agraciados por sua participação, como, por exemplo, a sua teoria de que os pequenos esquifes que guardam as vísceras de Tutankhamon (VER IMAGEM) na verdade pertenciam a Nefertiti. De fato estas imagens não possuem o nome de Tutankhamon, e sim de Smenkará (Smenkaré), porém Reeves afirma categoricamente que neles está o nome da rainha Nefertiti, mas isto devido a uma de suas teorias desenvolvidas há alguns anos onde ele defende que Smenkará, que foi co-regente de Akhenaton e esposo de Meriaton (filha mais velha da rainha), na verdade seria Nefertiti, já que a governante possuía o mesmo sobrenome desta incógnita figura.

Mini esquife que apesar de ter guardado as vísceras de Tutankhamon é nominado em nome de seu antecessor Smenkara. Fonte da imagem: JAMES, Henry. Tutancâmon (Tradução de Francisco Manhães). 1ª Edição. Barcelona: Editora Folio, 2005. P. 109.

Reeves sugere também que os vasos canopos (VER IMAGEM) não eram verdadeiramente de Tutankhamon porque os rostos presentes nas peças são femininos e ele ainda aponta que seriam também de Nefertiti. Esta é a hipótese dele e que particularmente não é possível concordar plenamente uma vez que : (a) em primeiro lugar ele está sendo muito simplista ao sugerir que “por se tratar de imagens femininas” automaticamente não foram encomendadas por Tutankhamon. Para levantar hipóteses poderiam ser a representação mágica das deusas que protegem as suas vísceras e que estão presentes na arca que guardavam outrora estes canopos ou até mesmo uma representação da sua esposa, a Ankhesenamon, que na tumba toma o papel de deusas funerárias ao conduzir em vários momentos o marido no além túmulo. (b) Em segundo Tutankhamon era um rapaz cuja morfologia craniana é grácil, ele possuía feições finas. O canopo possui um rosto um pouco andrógeno e apontar justamente para uma mulher pode acabar sendo mais uma vez simplista, mas, apesar de ser uma possibilidade, ainda sim a face nos canopos não parecem muito com ele, assim é algo que fica em aberto.

Outros apontamentos de Reeves são sobre a possibilidade de que Akhenaton também fosse o dono de algumas das peças encontradas, a exemplo do peitoral com a imagem de um abutre que ele suspeita ser deste rei devido a um título deste faraó presente na peça: “bom soberano, senhor das duas terras”. Caso este artefato tenha sido de fato pertencente a Akhenaton só o seria nos primeiros anos do seu reinado, já que nele está presente uma menção a deusa Nut (JAMES, 2005), que foi uma das muitas divindades excluídas do círculos de rituais anuais e cotidianos durante o ápice do reinado deste faraó.

Face dos canopos de Tutanlhamon. Foto: Acervo National Geographic. Kenneth Garrett. 1995.

Parte da teoria de Reeves – de que algumas das peças da tumba originalmente não são de Tutankhamon – tem como base a presença do “símbolo solar” nos aparelhos funerários, a exemplo dos férreos que guardavam os sarcófagos. Para o egiptólogo estes símbolos são exclusivos de Akhenaton, porém sabemos que até certo limite Tutankhamon seguia uma ideologia atoniana. Sobre esta situação é importante citar uma das falhas do documentário no momento em que Reeves está assinalando um dos “símbolos solares”, na cena o pesquisador está apontando para os hieróglifos que significam “eternidade”, o que não justifica de forma alguma ser uma assinatura atoniana. Reeves é um egiptólogo experiente e creio que não cometeria um erro tão primário, assim, imagino que foi um erro da edição da fita. O egiptólogo também aponta para a possibilidade de que um dos sarcófagos de Tutankhamon onde o rei é representado com um toucado cuja ponta lembra um motivo trançado seria de Akhenaton. Esta é outra idéia que não é possível sair do campo das hipóteses, uma vez que padroniza os toucados como se fossem uma identidade para determinados indivíduos. Um exemplo é uma antiga discussão sobre o sarcófago do indivíduo da KV-55 o qual já foi levantada a conjetura de que deveria ser da rainha Tiye, uma vez que o toucado do caixão lembrava as perucas que a soberana utilizava em vida. Sendo desta forma, o caixão seria também de Kiya, Nefertiti e assim por diante?

Máscara mortuária de Tutankhamon (Sem o tradicional cavanhaque). Foto: Acervo Griffith Institute, University of Oxford. Harry Burton. Disponível em < http://www.griffithinstituteprints.com/image/433271/harry-burton-the-gold-mask-of-tutankhamun-3-4-view > Acesso em 26 de setembro de 2011.

Outra crença de Reeves é de que a máscara funerária (VER IMAGEM) também não foi feita a princípio para Tutankhamon. Esta é mais uma história particular deste pesquisador: quando “O funeral de Tutancâmon” foi lançado pela primeira vez no Brasil fiquei impressionada em ver que desta vez Nicholas Reeves estava considerando que o rosto pertencia a Tutankhamon, porém não o toucado, já que anteriormente ele acreditava que a máscara também seria de Nefertiti (usando a mesma teoria dos canopos). Com este documentário ele mudou a abordagem, mas não deixa de ser inconsistente e reducionista já que desta vez argumenta que o toucado não seria do Tutankhamon pelo fato das pedras azuis da máscara em si e do toucado serem de materiais diferentes. Para aqueles que não assistiram ao documentário ou para quem não entendeu onde Reeves queria chegar é que provavelmente os rostos das máscaras mortuárias reais eram feitas separadamente do toucado em si e eram reunidos posteriormente. O problema da hipótese de Reeves é que ele desconsidera que os objetos poderiam ter sido encomendados em épocas diferentes ou feitos por ourives diferentes, não precisando necessariamente ter pertencido à outra pessoa e o responsável pela encomenda da tumba (no caso da proposta da fita ser este o Ay, vizir de Tutankhamon) ter simplesmente “por falta de tempo” resolvido saquear bens de terceiros, embora esta seja a idéia do documentário já que a muito tem sido impensável para alguns egiptólogos e amadores a possibilidade de que Tutankhamon, praticamente uma criança, ao menos para os nossos padrões ocidentais, ter tido tão pouco tempo para arrecadar tantos artefatos preciosos e de manufatura tão complexa. Ignora-se que Tutankhamon já era adulto a partir do momento que fora coroado e que o nosso conceito de infância é atual.

Um dos momentos mais interessantes do documentário, mas que deixou muito a desejar devido à metodologia aplicada, é quando o arqueólogo Denys Stocks (Arqueólogo Experimental) se questiona se o sarcófago de quartzito poderia ser feito em 70 dias (período tido como base para os preparativos funerários). Na época de Tutankhamon já existiam ferramentas de bronze que ilusoriamente adiantaria o trabalho, no caso do documentário eles utilizaram uma de pedra, que se mostrou mais eficiente. Com a ajuda do artista Dave Willett, Stocks chega à conclusão de que, a partir de uma estimativa com o auxílio de cálculos, uma pessoa sozinha levaria 06 anos para concluir todo o sarcófago, mas como estes trabalhos eram feitos em equipe (de 08 a 10 trabalhando, de acordo com a estimativa de Willett) levariam 08 meses (isto sem contar o tempo para se escavar o interior do bloco de quartzito que de acordo com Stocks levariam 18 meses), o que é inconcebível para quem tinha pouco mais de dois meses para sepultar o faraó. A falha no quesito metodológico se dá devido ao artista ter feito somente um rosto e só uma vez, esperando comparar este experimento com a técnica de pessoas já especializadas no assunto. O experimento foi válido, mas no sentido de Arqueologia Experimental possui falhas. Para sustentar a hipótese de que o sarcófago não teria terminado a tempo entra na fita Marianne Eaton-Krauss (Autora de “The Sarcophagus in the Tomb of Tutankhamun“, sem tradução para o Brasil) apontando que algumas das deusas que protegem o sarcófago estão incompletas já que enquanto partes delas estão entalhadas outras estão simplesmente pintadas. Marianne também aponta a possibilidade de que o sarcófago poderia ter sido reaproveitado, ou seja, não foi feito originalmente para Tutankhamon, uma vez que existem incoerências nos entalhamentos, a exemplo de hieróglifos que parecem terem sido suplantados ou ocultados pelas asas das deusas. Outra sugestão de que o funeral de Tutankhamon teria ocorrido às pressas é o fato das imagens da sua tumba terem sido feitas tão grandes (VEJA O VÍDEO NO FINAL DO TEXTO), na espera que sobrassem menos espaços para se ilustrar. Porém, imagens de tal tamanho não relatam nada incomum, a tumba da rainha Nefertari, conhecida por seu primor artístico, possuem imagens enormes, assim como a de Seti I, e ambos tiveram anos de vida para planejar seu sepulcro.

Salima Ikram no documentário “O funeral de Tutancâmon”. Captura da imagem: Márcia Jamille Costa.

A participação mais interessante parte da Dra. Salima Ikram onde vemos uma das raras vezes em que ela opina sobre o estado do corpo de Tutankhamon. Ikram é amplamente conhecida entre egiptólogos devido ao projeto Múmias de Animais e seus experimentos com conservação de corpos de animais. De acordo com a Dra. a múmia de Tutankhamon parece ter sofrido, aparentemente, uma mumificação deficiente e que antes do processo de conservação o corpo já teria começado a se deteriorar. Outro detalhe apontado é a ambulância de óleo e resina que acabou carbonizando a pele do faraó, a quantidade é tanta que explicaria a “ausência” do coração do rapaz nas chapas de Raios-X, uma vez que a substancia estaria ocultando o órgão. É importante citar que esta quantia excessiva já tinha sido notada quando a múmia de Tutankhamon começou a ser desenfaixada logo após a abertura do sarcófago. Tamanho foi o trabalho do médico responsável pela remoção que ele teve que esquentá-la para tentar desgrudar os artefatos do corpo do rei. Um detalhe importante (e que teria sido interessante se abordado no documentário) é que sabemos de histórias de faraós embebidos em resina através de um texto de relatos de ladrões de tumbas onde o saqueador explica que para soltar as jóias do corpo do falecido precisou atear fogo na múmia, desgrudando assim a resina.

A proposta do documentário é mostrar que Tutankhamon, que morreu jovem e sem filhos vivos, necessitava urgentemente de um herdeiro para o seu trono, desencadeando assim uma corrida pela sucessão por parte de Ay, seu até então vizir que, aproveitando-se da ausência do general do rei, Horemheb, se proclama faraó (a despeito dos inúteis esforços da rainha viúva, Ankhesenamon) se utilizando das mais variadas artimanhas para sepultar Tutankhamon o mais breve o quanto fosse possível. Seguindo este pensamento o Dr Kent R. Weeks (Diretor do Theban Mapping Project) e Dr Peter J. Brand (Egiptólogo da Universidade de Menphis) acreditam que a KV-62 não pertencia primordialmente a Tutankhamon, e sim a KV-23, onde Ay foi sepultado. Outra linha que o documentário segue é de que Tutankhamon teria transformado Horemheb em seu herdeiro, embora isto possa não ter sido verdade, já que Horemheb armou várias justificativas para estar no trono, se declarando, inclusive, herdeiro direto de Amenhotep III, avô de Tutankhamon, e excluindo tanto o seu jovem falecido amo, assim como Ay, Akhenaton (filho de Amenhotep III) e Smenkará da linhagem real.

 

 

A fita possui vários pontos negativos que embora atrativo para um espectador comum não será visto com bons olhos pela academia (a exemplo do fato do Dr. Zahi Hawass entrar no férreo de ouro, evento que poderia ser desastroso para o artefato). Este é um material relativamente ruim onde poucos aspectos podem salvá-lo, como a participação da Dra. Salima Ikram. Não ignoro o fato (ou possibilidade) de alguns dos artefatos da KV-62 terem sido “terceirizados”, mas pela forma como o documentário foi conduzido é difícil poder se levar muita coisa a sério, principalmente porque “O funeral de Tutancâmon” parece ser mais um dos afãs frutos da “moda Rei-Tut” que andam enchendo o currículo de vários pesquisadores. No final das contas, quando observamos as metodologias aplicadas pela maioria dos convidados da fita o documentário em si acaba não possuindo muito de substancial no final das contas.

Veja também:

Página Oficial do documentário: Burying King Tut: < http://natgeotv.com/asia/burying-king-tut >, Acesso 17/09/2011.

JAMES, Henry. Tutancâmon (Tradução de Francisco Manhães). 1ª Edição. Barcelona: Editora Folio, 2005.