A múmia da Rainha Nefertari foi mesmo encontrada?

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

A rainha Nefertari (Novo Império; 19ª Dinastia) foi uma das esposas do faraó Ramsés II. Ficou famosa graças ao templo dedicado a ela em Abu Simbel e a sua tumba, uma das mais ricamente decoradas do Egito.

Saiba mais: Lindas imagens dos templos de Ramsés II em Abu Simbel

Nefertari

Rainha Nefertari

Descoberta no Vale das Rainhas por Ernesto Schiaparelli em 1904, a QV-66, sua sepultura, foi saqueada ainda na antiguidade. Contudo, foi possível encontrar no lugar alguns objetos quebrados, inclusive um par de pernas mumificadas, que foram levadas para o Museu Egípcio de Turim. Por estarem no sepulcro da governante, foi subentendido que pertenciam a própria rainha (HABICHT, 2016).

Leia também: A restauração na tumba de Nefertari

Quem foi Nefertari?

Existe muita especulação acerca da sua origem, mas é certo que ela se casou com Ramsés II antes da coroação do mesmo. Possivelmente foi mãe de quatro meninas e quatro meninos. Participou da inauguração dos trabalhos em Abu Simbel no 24º ano de reinado de Ramsés II e provavelmente faleceu no mesmo ano ou no seguinte (O’CONNOR et al, 2007; HABICHT et al, 2016).

Nefertari 4

Templo de Nefertari em Abu Simbel

Dentre os seus títulos estavam os “Esposa do Deus”, “Mãe do Deus”, “Dama Adorável”, “Digna de Louvor”, “Bela de Rosto” e “Doce Amor”. E entre os seus deveres estavam os de cumprir papeis relacionados com a política e a religião (O’CONNOR et al, 2007).

A análise dos restos humanos

Esse ano, 2016, um grupo de pesquisadores (Michael E. Habicht, Raffaella Bianucci, Stephen A. Buckley, Joann Fletcher, Abigail S. Bouwman, Lena M. Öhrström, Roger Seiler, Francesco M. Galassi, Irka Hajdas, Eleni Vassilika, Thomas Böni, Maciej Henneberg, Frank J. Rühli) publicou um artigo na Plos One onde apresentaram os resultados de uma pesquisa realizada com as pernas encontradas na QV-66, com a finalidade de tentar descobrir se, de fato, elas são remanescentes da governante. Os restos foram radiografados, medidos e passaram por uma datação em Carbono 14 (HABICHT et al, 2016).

As pernas mumificadas. Foto: Museo Egizio Turin.

Atualmente em exposição no Museu Egípcio de Turim, as pernas foram catalogadas com o tombo Suppl. 5154 RCGE 14467 e consiste em três partes (HABICHT et al, 2016):

  • Uma parte do fêmur, patela e parte da tíbia;
  • Parte de uma tíbia;
  • Pequena parte de um fêmur.

Foi constatado que os restos pertencem a um adulto do sexo feminino e que, inclusive, fez poucos esforços em vida. Por conta das condições clínicas dos ossos a equipe considerou que essa pessoa possuía entre 40 e 60 anos de idade no momento da sua morte. E através da reconstrução antropométrica foi considerado que possuía de 1,65 a 1,68 cm de altura (HABICHT et al, 2016).

Em relação ao exame de DNA, não foi possível tirar amostras viáveis e a datação por Carbono 14 foi inconclusiva (HABICHT et al, 2016).

Afinal, a quem pertenceu essas pernas?

Ao contrário do que alguns sites estão veiculando, na conclusão do artigo a equipe deixa claro que não existe certeza absoluta de que essas pernas pertenceram a Rainha Nefertari, embora os pesquisadores participantes considerem ser ela o cenário mais provável. Ou seja, o caso ainda está em aberto.

Referências bibliográficas:

HABICHT, Michael E.; BIANUCCI, Raffaella; BUCKLEY, Stephen A.; FLETCHER, Joann; BOUWMAN, Abigail S.; ÖHRSTRÖM, Lena M.; SEILER, Roger; GALASSI, Francesco M.; HAJDAS, Irka; VASSILIKA, Eleni; BÖNI, Thomas; HENNEBERG, Maciej; RÜHLI, Frank J. Queen Nefertari, the Royal Spouse of Pharaoh Ramses II: A Multidisciplinary Investigation of the Mummified Remains Found in Her Tomb (QV66) Published: November 30, 2016 http://dx.doi.org/10.1371/journal.pone.0166571

O’CONNOR, David; FREED, Rita; KITCHEN, Kenneth (b). Ramsés II (Tradução de Francisco Manhães, Marcelo Neves). Barcelona: Fólio, 2007.

RICE, Michael. Who’s Who in Ancient Egypt. Londres: Routledg. 1999

Lindas imagens dos templos de Ramsés II em Abu Simbel

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

É em Abu Simbel onde encontram-se dois dos mais magníficos templos egípcios advindos da época do Novo Império, período considerado por alguns pesquisadores como a “era de ouro” da antiguidade egípcia. Datados da 19ª Dinastia, ambos foram erguidos a mando do faraó Ramsés II e é votivo a ele mesmo, sua esposa Nefertari e aos deuses Amon, Ptah, Hathor e Ra-Harakhte.

Este complexo foi construído na fronteira do Egito com o Sudão (no passado a Núbia). Um dos edifícios, o maior de todos, é composto por grandes estátuas esculpidas na rocha representando o faraó e em seu interior há um corredor que leva até a imagem do rei, que está acompanhada pelas estátuas dos deuses Ptah, Amon e Ra-Harakhte. Um detalhe interessante acerca desse templo é que duas vezes no ano o Sol ilumina a imagem de Amon, Ra-Harakhte e Ramsés. O próximo alinhamento irá ocorrer amanhã, dia 22 de outubro. Há alguns meses gravei um vídeo falando sobre esse evento. Você pode conferi-lo abaixo:

— Aproveite e leia também: Alinhamento solar no templo de Abu Simbel: 22 de fevereiro e 22 de outubro

Eles realmente são templos incríveis, por isso resolvi selecionar algumas fotografias para mostrá-las a vocês:

Abu Simbel

Abu Simbel - Great Temple

Abu Simbel - Small Temple

Sun Temple, Abu Simbel

Abu Simbel temples

Large hall of Abu Simbel

Statue of gods in Abu Simbel

Temple of Hathor

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Novas descobertas arqueológicas no Cairo apontam para um templo de Ramsés II

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Uma equipe de Arqueologia composta por pesquisadores egípcios e alemães encontrou em um sítio arqueológico em Matariya (vide mapa), no Cairo, novos [1] dados que sugerem a existência de um templo pertencente ao faraó Ramsés II, que reinou durante a 19º Dinastia (Novo Império) [2].

O Dr. Mahmud Afifi, coordenador do setor de antiguidades egípcias do Ministério das Antiguidades do país, apontou que essas evidências foram descobertas por acidente cerca de 450 metros a oeste do Obelisco de Senusret I, o maior monumento preservado da antiga cidade Iunu (chamada entre os gregos de “Heliópolis”) [2].

Foto: Wikimedia Commons (user:Neithsabes).

Mais artefatos relacionados ao rei ramsessida foram descobertos a norte desta área e neles ele é identificado como Paramessu, que, a título de curiosidade, foi o antigo nome do seu avô, Ramsés I.

Nomes de Ramsés II. Foto: MSA.

O pesquisador alemão Dietrich Raue, o co-diretor do projeto, explicou que eles também estão escavando e analisando casas e oficinas do Período Ptolomaico (332 a.C.- 30 d. E. C.), época em que os gregos passaram a viver no Egito. Nesta mesma área se encontra o Templo Solar de Heliópolis, dedicado ao deus Rá, uma das maiores divindades do país na época. Infelizmente, muitos dos seus blocos e obeliscos foram saqueados durante o Período Romano e nas dinastias muçulmanas e utilizados para construir edifícios na antiga Roma, Alexandria e Cairo [3].

Imagem encontrada no sítio. Foto: MSA.

Iunu: a cidade sagrada

Conhecida entre dos gregos como Heliopolis (Helios “Sol” + Polis “Cidade”) e chamada na Bíblia de On, a cidade de Iunu possuía templos de destaque dedicados ao deus Rá, Rá-Aton/ Rá-Harakhty. Ela foi considerada um dos locais mais notáveis do ponto de vista religioso, sendo destacada por sua importância na organização da história religiosa e política do país (BAINES; MALEK, 2008). Isso tem relação com a chamada “cosmogonia heliopolitana”, um dos antigos mitos da criação egípcio que aponta Atum (uma das formas do deus Sol) como surgido do Num (oceano primordial) sob um monte de terra (o Benben) na própria Iunu (LESKO, 2002).

Fontes:

[2] Unos bloques enormes excavados en el barrio de Matariya muestran al célebre rey egipcio venerando a una divinidad. Disponível em < http://www.nationalgeographic.com.es/historia/actualidad/hallan-vestigios-templo-ramses-noreste-cairo_10733/3 >. Acesso em 28 de setembro de 2016.

[3] Arqueólogos descubren indicios de un templo de Ramsés II en El Cairo. Disponível em < http://www.abc.es/cultura/arte/abci-arqueologos-descubren-indicios-templo-ramses-cairo-201609271959_noticia.html >. Acesso em 28 de setembro de 2016.

[4] Descubren nuevas evidencias de un templo de Ramses II en un barrio de El Cairo. Disponível em < https://es.noticias.yahoo.com/descubren-evidencias-templo-ramses-ii-barrio-cairo-171839076.html >. Acesso em 28 de setembro de 2016.

New discovery in Matariya points to a King Ramses II temple. Disponível em < http://english.ahram.org.eg/NewsContent/9/40/244730/Heritage/Ancient-Egypt/New-discovery-in-Matariya-points-to-a-King-Ramses-.aspx >. Acesso em 28 de setembro de 2016.

BAINES, John; MALEK, Jaromir. Deuses, templos e faraós: Atlas cultural do Antigo Egito (Tradução de Francisco Manhães, Maria Julia Braga, Michael Teixeira, Carlos Nougué). Barcelona: Folio, 2008.

LESKO, Leonard. “Cosmogonias e Cosmologia do Antigo Egito”. In: SHAFER, Byron; BAINES, John; LESKO, Leonard; SILVERMAN, David. As religiões no antigo Egito (Tradução de Luis Krausz). São Paulo: Nova Alexandria, 2002.


[1] Já se conheciam restos de edificações neste lugar.

(Vídeo) Alinhamento Solar no Templo de Abu Simbel

Por Márcia Jamille | Instagram | @MJamille

O complexo de templos de Abu Simbel foi construído na divisa entre as terras do Egito e o antigo território núbio (hoje Sudão), por Ramsés II a partir de algum momento durante as três primeiras décadas do seu governo. Tratam-se de estruturas gigantes cavadas nas rochas na margem ocidental do Nilo: uma menor dedicada à rainha Nefertari e uma maior, para o próprio Ramsés II. E é deste que comento no vídeo.

Wikimedia Commons | User: Przemyslaw “Blueshade” Idzkiewicz.

Este evento solar ocorre duas vezes no ano e usualmente reuni várias pessoas para testemunhar esta ocorrência. Além do vídeo abaixo, também já escrevi sobre ele aqui no Arqueologia Egípcia: — Alinhamento solar no templo de Abu Simbel: 22 de fevereiro e 22 de outubro.

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(Artigo) Tebas durante el período Ramésida

Tebas durante el período Ramésida: redistribución y circulación de bienes | Andrea Paula Zingarelli | Espanhol

La historia económica de Egipto antiguo ha sido abordada en consonancia con la historia política estatal y comprendida en términos de continuidad y unidad. Esta imagen monolítica ha restringido los abordajes hasta décadas recientes, donde se ha dado lugar a nuevas perspectivas de análisis. En esta última línea interpretativa, inscribimos la propuesta de considerar la existencia de prácticas pseudo-privadas en Egipto durante el período Ramésida.
El presente trabajo se propone analizar la documentación del área tebana durante el período Ramésida, relativa a la producción y circulación de bienes. En particular se considerará el tipo de producción y las relaciones de trabajo en la aldea de trabajadores de Deir el-Medina, así como su conexión con las instituciones estatales. Respecto de la circulación de bienes en Tebas se discurrirá acerca de la existencia del beneficio/lucro, la posible existencia de “dinero” y de precios y la acumulación de excedentes extrainstitucionalmente.

Obtenha o artigo Tebas durante el período Ramésida: redistribución y circulación de bienes.

(Comentários) Novela “Os 10 Mandamentos” (Brasil)

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Desde o início deste ano a Rede Record está veiculando a novela “Os Dez Mandamentos”, cujo enredo baseia-se no mito bíblico do êxodo hebreu, que narra os passos de Moisés, um escravo hebreu que é adotado por uma princesa egípcia e que anos depois liberta o seu povo e os lidera em uma fuga pelo Deserto Oriental. Eu assisti a obra em suas primeiras semanas e ao contrário de “José do Egito” o roteiro me agradou muito, ocorreram até alguns momentos de piadas com termos egípcios, misturando com os nossos, como uma fala da personagem de Yunet, “eu não nasci quando Rá nasceu na manhã de ontem”. Entretanto, com o tempo a história ficou um pouco massante e se estava difícil acompanhar tantos erros históricos, pior ainda estava ter que ver o núcleo feminino dos hebreus falando da importância de casar… Todo o tempo. Abandonei a novela e desde então não tive vontade de voltar a assistir.

Cena da coroação do personagem Ramsés II, interpretado por Sergio Marone. Imagem: Reprodução.

Porém, resolvi escrever este post porque a novela está fazendo um grande desserviço para a Egiptologia; é impressionante o número de gente que está escrevendo para mim com as mais variadas perguntas, algumas sem muito sentido. Vale lembrar que esta novela, assim como “José do Egito” trata-se de uma obra de ficção e que muita coisa apresentada não corresponde com a realidade do Egito faraônico. O próprio mito do Êxodo já é um ponto complicado, porque há alguns anos alguns pesquisadores e teólogos resolveram encaixa-lo no início da 19ª Dinastia, porém esta proposta trata-se de especulação, arqueologicamente falando não existe indícios de escravidão hebreia no Egito (para saber mais leia o texto Êxodo hebreu no Egito: aconteceu ou não?). Mas, ignorando a ausência de indícios, entre esses pesquisadores convencionou-se a encaixar a vida de Moisés no reinado de Seti I e Ramsés II, ponto de vista que foi popularizada por obras cinematográficas, inclusive a própria novela em questão.

Então, para fazer um resumo simples, abaixo estão as atrizes e os atores e os respectivos personagens inspirados em figuras históricas que estão representando (por favor, não caiam no erro da achar que todos os atos deles na trama realmente aconteceram):

Com o enredo planejado com a 19ª Dinastia como plano de fundo, vemos então em “Os Dez Mandamentos” uma série de equívocos na trama, são alguns deles:

☥ Coroação de Seti I: no início da novela temos Seti I reinando enquanto, se não me falha a memória, Ramsés era só uma criança de colo. A realidade é que quando ele foi coroado o príncipe já tinha cerca de nove anos de idade;

☥ Filhas de Seti I: Henutmire não é filha única do casal real (embora alguns pesquisadores nem sequer achem que ela era de fato filha deles), existia ainda outra conhecida, Tyie;

☥ Os pais de Nefertari: Este foi mais um devaneio da obra, já que não conhecemos os nomes e os cargos dos seus pais. Esclarecendo: os personagens Yunet e Paser não existiram;

☥ Dança do Ventre: Esta é uma visão orientalista e anacrônica, totalmente irreal. A Dança do Ventre não tem relação alguma com a antiguidade egípcia;

☥ A Grande Esposa Real e a coordenação de trabalhos domésticos: Checar se a limpeza do quarto do rei estava em ordem não era o trabalho de uma rainha.

☥ Coroação e casamento de Ramsés II: Antes de ser coroado faraó, Ramsés II já possuía duas esposas e vários filhos. Inclusive já era casado com Nefertari.

☥ Quando ocorria o casamento real? O Casal Real casava no dia da coroação.

Outra questão problemática são as roupas, as quais a maioria são casos anacrônicos (não esquecerei tão cedo os biquínis e as roupas de Dança do Ventre), com cores que não eram usadas, cortes e costuras inexistentes na época. Acredito que estes erros grosseiros relacionados com o vestuário tem uma explicação: acho que a ideia era criar uma variedade de imagens, “Os Dez Mandamentos” nunca teve uma finalidade educativa, esta é a realidade, os produtores não estão servindo a um propósito de Educação Patrimonial, é entretenimento. Entretanto, por mais que as roupas egípcias ao longo do faraônico não tenham tido uma variedade de cores, existia uma boa variedade de cortes que poderiam ter sido aproveitados, mas que ironicamente nem sequer aparecem na obra. Uma pena, porque esta seria uma ótima oportunidade de mostrar para as pessoas que a moda egípcia não era monótona. Abaixo alguns exemplos absurdos:

A personagem Nefertari (Camila Rodrigues) e sua mãe Yunet (Adriana Garambone). A roupa da Nefertari tem um corte irreal, mas a da Yunet desconsidere totalmente; do corte a cor, nada disso existia. Imagem: Reprodução.

A princesa Henutmire (Vera Zimmermann) e seu pai e faraó Seti I (Zécarlos Machado). Principalmente nela: ignore toda a roupa. Imagem: Reprodução.

Yunet e Seti I. A roupa dele ainda vai, mas a roupa dela é totalmente século XX, desde a roupa de Dança do Ventre ao chador. Puro orientalismo. Imagem: Reprodução.

Um segurança da guarda real e Seti I. Ainda não sei porque insistem em por armaduras nos soldados, enfim. Já a roupa de Seti I… Esta capa já diz tudo. Imagem: Reprodução.

Mais uma vez tudo errado. Sem brincadeira, o que se salva mesmo aí são os leques de pena. Imagem: Reprodução.

Mais uma vez uma capa, mas não bastava, tinha que ser azul. Meus olhos de arqueóloga verteram lágrimas de sangue. Destaque também para estes arbustos que me lembram árvores de festa natalina. Imagem: Reprodução.

As maquiagens femininas também deprimem. O uso de sombras coloridas provavelmente foi inspirado no Egito Hollywoodiano do filme “Cleópatra” de 1963.

Em relação as joias eu devo tecer alguns elogios; nos primeiros dias da novela eu senti uma pobreza em termos de ligação com a antiguidade e até um erro no mínimo engraçado, onde Seti I aparece usando uma tiara igual ao do Tutankhamon, o que é irônico, visto que Seti I o excluiu da lista de faraós, e ver a personagem do faraó usando um artefato réplica de alguém que ele desvinculou da linhagem real é até cômico. Contudo, com o passar da trama a produção começou a por mais elementos ricos, como peitorais com imagens de deuses, tiaras representando flores, etc. Nesse sentido até que fizeram um bom trabalho.

Esse peitoral usado pelo Ramsés II é perfeito. Ele representa o deus Hórus segurando o símbolo “ouro” em ambas as suas patas. Imagem: Reprodução.

Outro aspecto que foi modificado e para o qual também deixo o meu elogio é sobre a tolerância religiosa: No início era retratado um maniqueísmo entre o povo egípcio e os hebreus, mas com o passar da trama o enredo começou a ficar mais brando e até a explicar um pouco sobre a religião egípcia. Achei ótimo, isto mostra para o público deles que nem todos seguem a mesma religião e que isso não é justificativa para destratar uns aos outros.

Eu tentei assistir a novela mais algumas vezes, mas sinceramente não dá mais. O enredo começou a ficar tolo e nem mesmo os personagens mais cômicos salvam do desastre que são os diálogos sexistas, figurinos e cenários que parecem ter saído de algum filme de gosto duvidoso da década de 1930 a 60 e tantas idéias orientalistas que merecem serem analisadas em algum artigo científico.

Alinhamento solar no templo de Abu Simbel: 22 de fevereiro e 22 de outubro

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

O templo de Abu Simbel foi construído na divisa do antigo território núbio e egípcio provavelmente no ano 24 do reinado de Ramsés II (DAVID, 2007). Sua edificação visava honrar os principais deuses – Amon, Ptah e Ra-Harakhte – além de deificar o próprio Ramsés II. Na época faraônica o edifício empregou um grande número de sacerdotes e servia de aviso para os estrangeiros advindos do Sul, mostrando a magnificência do império egípcio.

Templo de Abu Simbel. Disponível em <http://dailyinspires.com/wp-content/uploads/2013/02/Temple-of-Ramesses-II-Abu-Simbel-Wallpaper.jpg>. Acesso em 22 de outubro de 1922.

Na década de 1960 a UNESCO mobilizou uma grande campanha que arrecadou $40,000,000 para retirar o templo do seu local original e levá-lo para um local seguro, longe das enchentes provocadas pelas represas já existentes no Nilo e da própria Represa de Aswan, que até então estava ainda em projeto.

Dentro do templo de Abu Simbel. Ao final encontra-se o santuário com o quarteto de deuses. Disponível em <http://paradiseintheworld.com/wp-content/uploads/2012/10/abu-simbel-inside.jpg >. Acesso em 22 de outubro de 2014.

Foi reservada muita energia para dar ao edifício um aspecto semelhante ao que ele possuía em seu lugar original, inclusive o efeito solar que o monumento presencia atualmente duas vezes ao ano, um em 22 de fevereiro e outro em 22 de outubro. Entretanto, de acordo com a literatura, o templo original foi projetado para permitir que a luz do sol penetrasse o santuário nos dias 21 dos referidos meses e não no 22.

Quarteto de divindades sob luz artificial. Disponível em <http://hdwallpaperia.com/wp-content/uploads/2013/10/Abu-Simbel-Temple.jpg>. Acesso em 22 de outubro de 2014.

O efeito faria com que três das deidades (exceto Ptah), que ficam no santuário, fossem iluminadas por um feixe de luz. Estas datas são supostamente o aniversário de nascimento e o dia da coroação do rei, respectivamente, mas não há nenhuma evidência para apoiar isso.

Curiosidades:

Para assistir alinhamento solar pessoas invadem templo de Abu Simbel

As forças de segurança de Aswan, na manhã de sábado do dia 22 de fevereiro de 2014, não conseguiram impedir que um grande número de pessoas, que compreendiam desde egípcios a turistas, invadisse o templo. Estima-se que mais de 6,000 indivíduos foram prestigiar o fenômeno que foi associado com um dia religioso denominado “Santo dos Santos”. Enquanto alguns visitantes estavam em clima de festa, outros não ponderaram suas atitudes e forçaram a entrada no santuário.

Para ver mais fotos clique aqui.

Apesar de toda a confusão, de acordo com as fontes oficiais, o templo não sofreu danos.

Abu Simbel já virou um doodle

Para comemorar o evento em 2012 o Google transformou o templo em um doodle (uma daquelas imagens comemorativas que ficam na página inicial do navegador).

Doodle via Google. 2012.

 

Referências:

David O’CONNOR, Rita FREED e Kenneth KITCHEN. Ramsés II (Tradução de Francisco Manhães, Marcelo Neves). Barcelona: Fólio, 2007.
SILIOTTI, Alberto. Viajantes e Exploradores: A Descoberta do Antigo Egito (Tradução de Francisco Manhães, Michel Teixeira). Barcelona: Editora, 2007.

Tumba de vizir de Ramsés II nos arredores de Luxor

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille

 

O achado, realizado pelas equipes da Universidade de Liège e da Universidade Livre de Bruxelas, ocorreu no início deste ano em Sheikh Abdul Gorna (próximo a Luxor).

Remanescentes da pirâmide do vizir Khay. Imagem disponível em < http://english.ahram.org.eg/NewsContent/9/40/65217/Heritage/Ancient-Egypt/Ramsis-II-viziers-tomb-cover-discovered.aspx >. Acesso em 20 de fevereiro de 2013.

 

A tumba do funcionário era uma pirâmide de pedra calcária que poderia ter alcançado 15 metros de altura e 12 de diâmetro.

De acordo com as informações da equipe o nome do vizir era Khay e ele trabalhou para o faraó por 15 anos.

 

Parte do mural remanescente da tumba. Imagem disponível em < http://english.ahram.org.eg/NewsContent/9/40/65217/Heritage/Ancient-Egypt/Ramsis-II-viziers-tomb-cover-discovered.aspx >. Acesso em 20 de fevereiro de 2013.

 

O vizir Khay já era um nome bastante conhecido entre os pesquisadores do Período Raméssida, pois estava presente em vários documentos oficiais da época. Inclusive na página do Arqueologia Egípcia no Facebook já foi realizado o post de uma imagem comentando sobre ele.

 

Estela de pedra de Iuny e Renut representando Khay na parte inferior realizando uma oferenda juntamente a um escriba. Imagem disponível em < http://www.ancient-egypt.co.uk/ashmolean/pages/ashmolean_sep2006_%20327.htm >. Acesso em 25 de fevereiro de 2013.

 

Fontes da notícia:

Pesquisa encontra ruínas de pirâmide sobre túmulo de vizir do Antigo Egito. Disponível em < http://g1.globo.com/ciencia-e-saude/noticia/2013/02/pesquisa-encontra-ruinas-de-piramide-sobre-tumulo-de-vizir-do-antigo-egito.html >. Acesso em 20 de fevereiro de 2013.

Ramsis II vizier’s tomb cover discovered. Disponível em < http://english.ahram.org.eg/NewsContent/9/40/65217/Heritage/Ancient-Egypt/Ramsis-II-viziers-tomb-cover-discovered.aspx >. Acesso em 20 de fevereiro de 2013.

Faraó Merenptah: O 13º filho de Ramsés II

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille

 

Ramsés II morreu aos 90 anos, após um reinado de 67, sobrevivendo a doze dos seus filhos mais velhos. Embora sua esposa favorita fosse Nefertari, nenhum dos filhos dela viveram para ter a oportunidade de assumir o trono. Desta forma foi o 13º herdeiro, Merenptah (ou Merneptah) (Novo Império; XIX Dinastia), dos cerca de noventa filhos do faraó, quem recebeu o direito de reinar quando tinha entre cinquenta e sessenta anos de idade. Sua mãe era a rainha Ísis-Nofret (DAVID; DAVID, 1992; O’CONNOR et al, 2007).

 

Faraó Merenptah. Imagem disponível em < http://www.absolutegipto.com/merenptah-el-rey-anciano/ >. Acesso em 03 de junho de 2013.

 

O reinado de Ramsés II é conhecido pelas incursões militares nos primeiros anos do seu governo e a uma aparente paz nos anos tardios, porém, após assumir o trono, Merenptah precisou enfrenta uma ameaça a autoridade egípcia no Canaã e sul da Síria, a qual abafou com o auxilio do exército. Com a sua vitória celebrou o feito em vários relevos nos muros de Karnak (O’CONNOR et al, 2007).

No seu 5º ano de reinado, os líbios (que já tinham tentado tomar o país no reinado de Seti I) e os Povos do Mar (que posteriormente dominariam parte das sociedades do Mediterrâneo) ultrapassaram a fronteira egípcia ocidental, planejando manter assentamento, levando consigo familiares e posses. Eles foram encontrados no Delta (o local especifico não se sabe – ver mapa) pelo exercito do faraó e durante seis horas os estrangeiros sofreram um massacre cujo número de vítimas fatais contou-se cerca de 6 000, de acordo com as fontes egípcias, que levantavam os dados através das mãos cortadas dos circuncisos ou pelos pênis coletados dos incircuncisos (DAVID; DAVID, 1992; O’CONNOR et al, 2007; BAINES; MALEK, 2008).

 

Provável local de confronto do faraó Merenptah contra os líbios e os Povos do Mar. Mapa: Márcia Jamille Costa. 2013.

 

De acordo este mesmo relato o líder líbio, Merire, conseguiu escapar. As fontes descrevem o que teria ocorrido:

O miserável chefe dos líbios tinha o coração paralisado pelo medo, parou, ajoelhou-se e deixou o arco, a alijava e suas sandálias para trás (O’CONNOR et al, 2007).

Aproveitando desta batalhavam no norte, os servos núbios ao sul, que permaneceram acalmados nas últimas décadas por Ramsés II, se rebelaram contra o faraó (O’CONNOR et al, 2007). Os povos núbios da antiguidade eram descritos como exímios soldados, especialmente graças aos kermanos. Foi esta tradição bélica e as frequentes rebeliões contra os seus mestres egípcios que levaria estes povos sulistas a tomar o poder das duas terras posteriormente, durante o chamado Terceiro Período Intermediário.

 

Esfinge do faraó Merenptah no Penn Museum. Imagem disponível em < http://edtrayes.com/2011/03/lower-egyptian-gallery-penn-museum-philadelphia-pennsylvania-usa/dsc_9883-original-exposure-slphinx-lion-with-human-head-palace-of-merenptah-memphis-egypt-penn-museum-philadelphia-pennsylvania-usa/ >. Acesso em 03 de junho de 2013.

 

Aparentemente Merenptah teve sucesso em sufocar todos os motins que precisou enfrentar em sua gestão, mas embora viesse a ser conhecido como o faraó que liquidou os invasores do norte ele fez questão de deixar registrado um ato de caridade, ao realizar uma doação de cereal aos hititas durante um período de fome (BAINES; MALEK, 2008).

Um dos seus palácios encontrava-se em Mit Rahina, na colina Kom el-Qala, o qual atualmente só existem ruínas. Ele foi escavado por Clarence Stanley Fisher (1876 – 1941) e a missão de arqueologia do University Museum, da Filadélfia (BAINES; MALEK, 2008).

 

Sucessão:

Merenptah reinou por dez anos e foi substituído por Amenemés, que possivelmente não era seu herdeiro direto, mas um dos filhos ainda vivos de Ramsés II ou descendente dos mesmos. De todo modo uma das características do governo de Amenemés foram as constantes lutas familiares e após quatro anos de administração ele foi substituído por Seti-Merenptah, coroado como Seti (II), cujo trono foi herdado por sua esposa Tauseret, que foi coroada faraó (DAVID; DAVID, 1992; O’CONNOR et al, 2007; BAINES; MALEK, 2008).

 

Sepultamento:

Originalmente Merenptah teria sido sepultado em Tebas, na KV-8, mas a sua múmia foi encontrada pelo arqueólogo francês Vitor Loret (1859-1946) em 1898 no esconderijo real locado na tumba do faraó Amenhotep II, no Vale dos Reis (DAVID; DAVID, 1992). Um dos seus sarcófagos foi reutilizado por Psusene I e só foi identificado porque dentre os seus cartuchos apagados somente um na tampa ainda possuía o nome do antigo dono (O’CONNOR et al, 2007).

 

Fragmentos do sarcófago de granito vermelho do faraó Merenptah. Foto disponível em O’CONNOR, David; FREED, Rita; KITCHEN, Kenneth. Ramsés II (Tradução de Francisco Manhães, Marcelo Neves). Barcelona: Fólio, 2007. Pág. 138.

 

A “Estela de Merenptah”:

Em seu templo mortuário foi encontrada uma estela comemorativa enaltecendo as vitórias do faraó em batalhas contra países estrangeiros. Presunçosamente ela é chamada de “Estela de Israel” devido a imagem de dois hieróglifos que representam um homem e uma mulher caminhando e foi deduzido que se trataria de uma comunidade nômade. Permanecendo no caráter subjetivista, foi sugerido que poderia se tratar do povo de Israel, porém a teoria permanece uma especulação.

 

Estela de Merenptah. Retirado de Merneptah Stele. Disponível em < http://www.flickr.com/photos/frankrytell/2155909119/ > Acesso em 24 de Abril de 2011.

 

Originalmente esta estela pertencia ao faraó Amenhotep III (Amenofis III), da XVIII dinastia.

 

Referências:

BAINES, John; MALEK, Jaromir. Deuses, templos e faraós: Atlas cultural do Antigo Egito (Tradução de Francisco Manhães, Maria Julia Braga, Michael Teixeira, Carlos Nougué). Barcelona: Fólio, 2008.

DAVID, Rosalie; DAVID, Antony. A Biographical Dictionary of Ancient Egypt. London: Steaby, 1992.

O’CONNOR, David; FREED, Rita; KITCHEN, Kenneth. Ramsés II (Tradução de Francisco Manhães, Marcelo Neves). Barcelona: Fólio, 2007.

Egito Revelado: Ramsés

 

Documentário: Egito Revelado: Ramsés

Canal: Discovery Channel (Brasil)

Data: 05 de Abril de 2012.

Horário: 22h00

 

Reprise:

 

06 de Abril de 2012 às 03h00.

06 de Abril de 2012 às 16h00.

08 de Abril de 2012 às 13h00.

 

Abaixo a sinopse disponibilizada pelo canal:

 

Existe um faraó egípcio que se destaca dos demais: Ramsés II, um guerreiro formidável, construtor e estadista. Uma nova geração de arqueólogos analisa os vestígios do faraó para descobrir se ele realmente merece ser lembrado como Ramsés, o Grande.

 

Dica da leitora Natália.