Série TUT irá estrear na The History Channel

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

A série TUT irá realmente passar na The History Channel (como eu já estava prevendo, até falei neste vídeo aqui: https://goo.gl/EqyNQY), mas não foi lançada ainda a data de estréia e nem se será dividida em três episódios (como é originalmente) ou se será feito um novo arranjo com mais episódios. Abaixo o trailer brasileiro:

O DESTINO NÃO SE HERDA, SE CONQUISTA. Em breve, O REI TUT, a épica história de Tutankamón em uma grande superprodução com Avan Jogia e o ganhador do Oscar Ben Kingsley, só no #History

Posted by Canal History Brasil on Quinta, 24 de setembro de 2015

 

Estes são alguns dos links em que comento acerca da produção:

.:: Tutankhamon será o personagem principal em uma série de TV:
http://arqueologiaegipcia.com.br/2014/10/16/tutankhamon-sera-o-personagem-principal-em-uma-serie-de-tv/

.:: (Vídeo) #TutEOValeDosReis: “TUT”, série da Spike TV inspirada em Tutankhamon
http://arqueologiaegipcia.com.br/2015/07/16/video-tuteovaledosreis-tut-serie-da-spike-tv-inspirada-em-tutankhamon/

.:: Série: TUT (2015) – Mais imagens, teaser e trailers
http://arqueologiaegipcia.com.br/2015/07/15/serie-tut-2015-mais-imagens-teaser-e-trailers/

.:: TUT: Novidades e fotos sobre a série inspirada no faraó Tutankhamon
http://arqueologiaegipcia.com.br/2015/05/08/tut-novidades-e-fotos-sobre-a-serie-inspirada-no-farao-tutankhamon/


Notícia enviada por André Luis e Wedja Raquele*.
*Uma leitora enviou o link do trailer, mas não consigo encontrar o nome dela, porém fica meus agradecimentos aqui.

(Vídeo) #TutEOValeDosReis: Quem apagou o nome de Tutankhamon das Listas Reais?

Por Márcia Jamille | Instagram | @MJamille

A intenção deste vídeo não é realizar um inventário de todas as Listas Reais de Faraós, mas explicar quem, de acordo com alguns profissionais da Arqueologia, seria o responsável por excluir o nome de Tutankhamon da história no Período Faraônico.

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(Vídeo) #TutEOValeDosReis: “TUT”, série da Spike TV inspirada em Tutankhamon

Por Márcia Jamille | Instagram | @MJamille

No quadro de vídeos #TutEOValeDosReis do canal do Arqueologia Egípcia no Youtube fiz breves comentários sobre a série TUT da Skipe TV, que estreará no dia 19/07/2015.

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Mais uma série com o tema “‪‎Tutankhamon‬” será lançada

Mais uma série com o tema ‎Tutankhamon‬ será lançada, mas desta vez será internacionalmente (então existe uma grande possibilidade de chegar ao Brasil). Produzida pela ITV Studios, o nome será “Tutankhamun”, mas terá como personagem principal o arqueólogo inglês Howard Carter, descobridor da tumba do faraó em 1922.

O enredo terá início no ano de 1905 e terá como objetivo mostrar os passos do pesquisador até a descoberta que o fez famoso.

As gravações serão realizadas na África do Sul entre o final de 2015 e início de 2016 e a proposta é que a série tenha quatro capítulos.

Outra série que usa o faraó Tutankhamon como tema será lançada no dia 19/07/15. Seu nome é “Tut”. Para saber mais sobre esta clique aqui.

Fonte da notícia: 

Peter Webber to Direct Miniseries ‘Tutankhamun’ for ITV. Disponível em < http://variety.com/2015/tv/global/peter-webber-to-direct-miniseries-tutankhamun-for-itv-1201535849/ >. Acesso em 09 de julho de 2015.

Perguntas e respostas: o pênis de Tutankhamon?

Por Márcia Jamille | Instragram | @MJamille

A leitora Camila enviou uma pergunta bem interessante sobre a mumificação do Tutankhamon e que pouca gente sabe, então achei interessante compartilhar a questão — e minha resposta — aqui:

Márcia, consta teorias com argumentos validos sobre o fato do embalsamento de Tutancâmon envolver tanta controvérsias .. Como por exemplo o órgão reprodutor do mesmo ter sido embalsado de maneira digamos, incomum..? Guardo a resposta.

Grata.

— Camila Domingos, via Facebook

Sim, de acordo com a profa Salima Ikram (uma pesquisadora que respeito profundamente) a múmia parece ter sido sepultada com o pênis ereto, o que seria uma analogia com a mumificação do deus Osíris. Faz parte também da sua proposta (esta parte acho realmente radical, mas que não deve ser descartada) que o desmembramento de Tutankhamon pode já ter ocorrido na antiguidade (e não durante a sua dissecação por parte da equipe de Howard Carter na década de 1920) porque queriam que ele se transformasse em Osíris de fato [lembra do mito em que ele (o Osíris) é  desmembrado e depois reconstruído por Ísis?]. Seria por este motivo que ele foi coberto por tanta resina preta… Para que no outro mundo ele representasse a fertilidade de Osíris. Abraços!

Tutankhamon. Foto: Harry Burton.

Você tem alguma dúvida sobre o Antigo Egito? Pode enviar para mim. Clique aqui e saiba como.

KV-55: uma das mais controversas descobertas feitas no Egito

Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

A Arqueologia egípcia na virada do século XIX para o XX ainda tinha um forte caráter imperialista e antiquarista, estando associada ao fetiche da descoberta do ouro e de belas esculturas. E foi nesse cenário que uma das mais polêmicas descobertas realizadas no Vale dos Reis foi feita, contando com um registro pobre dos artefatos e um relatório pouco confiável.

A temporada teve início no dia 1 de janeiro de 1907 com o arqueólogo Edward Russell Ayrton (1882 – 1914) limpando a área a sul da KV-6 (tumba de Ramsés IX) onde encontrou nos dias seguintes vários jarros grandes datados da 20ª Dinastia e mais adiante, em um nível inferior, a entrada para uma tumba hoje chamada de KV-55 (REEVES; WILKINSON, 1996).

Hortense Schleiter, Edward Russell Ayrton, Theodore Davies e Arthur Weigall.

Mesmo após mais de 100 anos da sua descoberta, a KV-55 é um dos mais controversos achados feitos no Egito, mas não somente devido às dúvidas que levantou acerca dos artefatos, mas dada as circunstâncias adversas em que foi escavada e a confecção do seu relatório de divulgação, que não foi escrito pelo arqueólogo da equipe, o Ayrton, mas por Theodore Davis, um rico empresário norte-americano patrocinador da pesquisa e sem formação em Arqueologia (REEVES, 2008). Aparentemente Davis era um homem caprichoso e não queria que ninguém interferisse em suas opiniões, mesmo que a intromissão fosse de algum profissional da Arqueologia, como uma citação em uma carta do rev. Archibald Henry Sayce (1845 – 1933) para Arthur Weigall (1880 – 1934), supervisor de Davis em nome do Serviço de Antiguidades, sugere:

“Eu estou com medo de que você poderia muito bem tentar parar uma avalanche assim com tentar parar Sr. Davis quando ele está inclinado a fazer uma coisa em particular” (REEVES; WILKINSON, 1996, pág. 78).

Graças a intervenção de Davis o relatório não saiu de acordo com o ponto de vista e análises de Ayrton e até mesmo o registro fotográfico foi comprometido: a ordem foi para que deixasse a bagunça do local mais “apresentável” nas fotografias (JACQ, 2002). Um erro grosseiro.

A KV-55 é compreendida por um corredor que leva até uma câmara funerária onde foi encontrada uma série de artefatos incluindo um santuário de madeira folheado a ouro, um ataúde, quatro vasos canópicos e um conjunto de objetos chamados de “tijolos mágicos”. Provavelmente foi escavada concomitante com a KV-46 (tumba de Yuya e Tuya) e a KV-62 (tumba de Tutankhamon) e um indicio aponta que o local não foi finalizado: foi observado que as paredes e o teto da câmara funerária foram engessados, mas não decorados e uma ostraca pintada com o que parece ter sido o plano original da tumba foi encontrada dentro da KV-55 em 1993, durante as pesquisas da arqueóloga canadense Lyla Pitada Brock. Algumas marcas nas paredes também dão indicações sobre a sua confecção, pois mostram indícios de alargamento deixados pelos pedreiros na entrada, incluindo uma posterior elevação no teto e o número de escadas aumentado[1].

O Período Amarniano:

Para tentar compreender esta sepultura e seus artefatos é necessário entender o Período Amarniano, intervalo temporal que inicia com a coroação do faraó Akhenaton e termina com o reinado do faraó Ay[2]. Filho de Amenhotep III e da rainha Tiye, Akhenaton, outrora chamado de Amenhotep IV, tornou-se notável na Egiptologia por conta de sua revolução religiosa onde passou a ignorar todas as divindades do Egito, exceto uma, Aton, o Disco Solar, e da mudança da capital de Tebas, que recebia a proteção do deus Amon, para Aketaton, cuja tradução é “Horizonte de Aton”.

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Akhenaton, sua esposa Nefertiti e três das suas seis filhas sendo tocadas pelos raios de Aton. Foto: Kenneth Garrett. Abril de 2001.

Sua preferência por Aton ao contrário dos demais deuses foi o que levou anos depois a exclusão tanto do seu nome, como dos seus descendentes, dos inventários de faraós, sendo então apresentada uma lista que dá um pulo do governo de Amenhotep III para o de Horemheb. Porém, entre estes dois conhecemos a existência de ao menos cinco faraós:

☥ Amenhotep IV/Akhenaton: Que inaugurou a capital “Akhetaton” e criou templos para Aton. Construiu uma tumba para si em Tebas e depois em Akhetaton, contudo provavelmente sua sepultura foi relocada para algum lugar em Tebas;

☥ Smenkhará: Sucessor de Akhenaton, mas que só reina por cerca de três a dois anos. Sua tumba não foi encontrada;

☥ Ankheperurá: Farani cuja existência ainda é fruto de muito debate. Sua tumba não foi encontrada;

☥ Tutankhaton/Tutankhamon: Faraó que reinou por nove anos e foi sepultado na KV-62;

☥ Ay: Reinou por cerca de dois anos. Foi sepultado na KV-22.

O declínio do Período Amarniano tem início com o reinado do faraó Tutankhamon, que restituiu o panteão de deuses, mas não dá totalmente as costas para Amarna, relocando sepultamentos da família real para Tebas e a KV-55 parece ser uma dessas tumbas.

Os artefatos encontrados e o corpo no ataúde:  

No local foram encontrados muitos objetos datados como pertencentes ao Período Amarniano. Um dos principais é o santuário que foi originalmente preparado para a rainha Tiye, o que levou Davis a declarar que a KV-55 trata-se da sua tumba e de fato faz sentido, já que este tipo de peça era utilizado para proteger o sarcófago de pedra e o ataúde. Entretanto, foi sugerido através dos exames de DNA realizados entre os anos de 2007 e 2008 que uma das múmias encontradas em um esconderijo em outra tumba, a KV-35, seria a da rainha, uma proposta que não é amplamente aceita, porque mesmo com o resultado apontando que ela trata-se de uma parente sanguineamente próxima ao casal Yuya e Tuya, pais da própria rainha (HAWASS et al, 2010; PARRA, 2011), não é aconselhado realizar análise de DNA em múmias por conta não só da antiguidade do material, mas devido a possibilidade de contaminação que os corpos podem ter sofrido. Caso de fato uma das múmias encontradas na KV-35 seja da rainha Tiye a explicação para o que poderia ter ocorrido é que a sua tumba original (talvez a KV-55) foi comprometida de alguma forma e ela precisou ser relocada para um espaço seguro (REEVES, 2008).

Já os vasos canópicos seguramente foram feitos para a rainha Kiya, uma esposa secundária do faraó Akhenaton, uma vez que estão nominados para ela. Por muito tempo muitos acadêmicos acreditaram que a rainha Kiya era a mãe do faraó Tutankhamon, entretanto, a análise de DNA dos anos de 2007 e 2008 aponta que em verdade a mãe dele seria uma irmã de Akhenaton (HAWASS et al, 2010; PARRA, 2011).

Tampa do vaso canópico da rainha Kiya. Imagem disponível em < https://s-media-cache-ak0.pinimg.com/originals/05/f2/60/05f260fc082f729bcfc514ffeb334e6e.jpg >. Acesso em 27 de janeiro de 2015.

Todavia a identidade do dono do ataúde e do corpo encontrado dentro dele é uma grande incógnita. O problema começa com o próprio ataúde, cujo o nome que se encontrava em um cartouche protetor foi extraído, o que parece ter sido algo deliberado, já que o rosto do sarcófago também foi avariado (REEVES, 2008). De acordo com a crença egípcia, para que o morto não sofresse uma “morte verdadeira” e fosse capaz de realizar sua viagem no “além tumulo” era necessário que a sua múmia estivesse intacta e devidamente nominada. A sua máscara mortuária deveria retratar o seu rosto de tal forma que o individuo pudesse ser reconhecido. Sabendo disto foi sugerido então que quem quer que realizou as mudanças no sarcófago não tinha a mínima intenção de que a pessoa nele sepultada pudesse ingressar no além vida (PARRA, 2011).

Ataúde da KV-55. Imagem disponível em < http://www.ancient-origins.net/ancient-places-africa/mystery-egyptian-tomb-kv55-valley-kings-002608 >. Acesso em 27 de janeiro de 2015.

Uma das primeiras teorias levantadas durante a busca da sua identidade foi apontada pelo famoso filólogo Sir Alan Gardiner (1879 – 1963) que argumentou que as titulações presentes no ataúde eram as de Akhenaton. Outros pesquisadores, no entanto, pontuaram que as inscrições foram alteradas em algum momento na antiguidade e que por isso o corpo sepultado lá poderia não ser o dono original do ataúde. Já o estudioso francês Georges Daressy sugeriu que ele poderia ter sido originalmente feito para a rainha Tiye e que depois foi adaptado para Smenkhkara, um sucessor de Akhenaton que reinou por pouco tempo antes de Ankheperura e Tutankhamon. Outra teoria é de que ele foi feito para Smenkhkara durante o reinado de Akhenaton e que após assumir o trono ele foi modificado[3]. Já Reeves (2008) aponta que o ataúde possivelmente foi preparado originalmente para a rainha Kiya, mas que foi alterado para servir outro dono.

Detalhe do sarcófago da KV-55. Imagem disponível em < http://egyptologist.org/discus/messages/41/7446.html?1046805375 >. Acesso em 27 de janeiro de 2015.

Não é de se espantar que tantos pesquisadores experientes se debatam em razão de qual poderia ser a identidade do dono do ataúde, afinal, quando o olhamos notamos que ele foi feito para alguém da realeza, possuindo o negativo de um cartouche, elemento usado somente para o nome de pessoas da nobreza como o faraó, a rainha e suas crianças, e também possui uma ureus em sua testa; Entretanto, no lugar do tradicional nemes (o toucado de listras), que era um objeto que identificava um faraó ou uma farani, está uma peruca núbia que era usada tanto por mulheres como por homens comuns e inclusive pelos próprios faraós. Ainda nas inscrições remanescentes no corpo do ataúde podemos encontrar a expressão “senhor do Alto e Baixo Egito” (JACQ, 2002), também marcas que apontam ser ali um faraó ou uma farani.

Em relação ao corpo, algumas das pesquisas já realizadas apontaram similaridades físicas e de grupo sanguíneo entre este individuo com a múmia de Tutankhamon (alguns aspectos desse estudo serão apresentados no meu livro “Tutankhamon, 1922 e o Vale dos Reis”); o exame de DNA 2007/2008 apontou um forte grau de parentesco que sugere que ele seria o pai de Tutankhamon e as deduções arqueológicas levam a crer que este homem desconhecido da KV-55 seria o próprio Akhenaton (REEVES, 2008; HAWASS et al, 2010). Todavia, o fato é que ainda não existe consenso acerca da identidade dos restos mortais do individuo encontrado lá, especialmente porque em algum momento ao longo destes mais de 3000 anos a múmia se decompôs e resumiu o corpo a osso os quais atualmente está em um mau estado de conservação a tal ponto que não é possível realizar uma análise osteológica para definir um parâmetro de sua idade no momento da sua morte, sem acabar por confundir a degradação óssea devido à sua antiguidade com uma patologia óssea gerada pelo o envelhecimento do próprio individuo. Desta forma a sua idade já chegou a ser estimada como 25/26 anos, outros acima de 35, e mesmo reduzida para 20 anos (PÉREZ-ACCINO, 2003; REEVES, 2008).

Mais questões problemáticas:

Conhecer a finalidade da KV-55, a identidade do corpo nela encontrado e para quem de fato o ataúde foi confeccionado não são meras curiosidades, ter estas informações podem auxilar os atuais pesquisadores a entender mais os anos finais do Período Amarniano, como por exemplo, além de excluir os nomes dos faraós deste período e se de fato a ideia de danificar o ataúde era para deixar a pessoa nele encerrado sem uma identidade na sua vida no “além-túmulo”, até onde teria ido a perseguição à memória dos principais nomes dessa época?

Entretanto, dado ao trabalho executado com tantas falhas, algumas questões podem não ser respondidas, uma vez que existem casos não solucionados de furtos. Desde a década de 1920 os pesquisadores que tiveram algum contato com os artefatos retirados da tumba não foram coesos em afirmar quais objetos chegaram a sumir após a descoberta. Aparentemente tratam-se de folhas de ouro que teriam sido encontradas dentro do ataúde e que possivelmente um dia enrolou o corpo da múmia. Ao que parece tais folhas foram furtadas em algum momento ligeiramente após a descoberta da KV-55. Porém, mais coisas teriam sido furtadas, como sugeriu o ex-ministro das antiguidades, Zahi Hawass. Segundo ele, há alguns anos, partes dessas folhas, juntamente com elementos do fundo do próprio sarcófago, ressurgiram no Museu de Arte Egípcia, em Munique, na Alemanha e que com a descoberta do crime os objetos foram repatriados para o Egito[3].

O que tudo sugere é que a KV-55 continuará emanando muitos mistérios, pois, independente dos esforços dos atuais pesquisadores, questões e mais questões (algumas de teor sensacionalista) sempre são levantas, demonstrando o fascínio que o senso comum e mesmo acadêmicos sentem por esta descoberta que guarda o corpo de um individuo tão desafortunado, uma vez que o ódio e exclusão de um nome em um ataúde era uma situação gravíssima e indicava que a pessoa não era bem-quista em vida e muito menos na morte.

Referências:

HAWASS, Zahi.  GAD, Yehia Z.  ISMAIL, Somaia. KHAIRAT, Rabab. FATHALLA, Dina. HASAN, Naglaa. AHMED, Amal. ELLEITHY, Hisham. BALL, Markus. GABALLAH, Fawzi. WASEF, Sally. FATEEN, Mohamed. AMER, Hany. GOSTNER, Paul. SELIM, Ashraf. ZINK, Albert. PUSCH, Carsten M. Ancestry and Pathology in King Tutankhamun’s Family. JAMA. 303(7):638-647, 2010.

JACQ, Christian. Nefertiti e Akhenaton: O casal solar (Tradução de Maria D. Alexandre). Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2002.

JAMES, Henry. Tutancâmon (Tradução de Francisco Manhães). 1ª Edição. Barcelona: Editora Folio, 2005.

PARRRA, José Miguel. El verdadero origen del faraón niño: La familia de Tutankamón. Historia. National Geographic. Nº 83.

PÉREZ-ACCINO, José Ramón (c). “Where is the body of Akhenaten?”. In: Manley, Bill. (ed). The Seventy Great Mysteries of Ancient Egypt. United Kingdom: Thames & Hudson, 2003.

O’CONNOR, David; FORBES, Dennis; LEHNER, Mark. Grandes civilizações do passado: Terra de faraós (Tradução de Francisco Manhães). Barcelona: Folio, 2007.

REEVES, Nicholas; WILKINSON, Richard. The Complete Valley of the Kings. London: Thames & Hudson, 1996.

REEVES, Nicholas. The Complete Tutankhamun. London: Thames & Hudson, 2008.


 

[1] KV 55 (Tiye (?) or Akhenaten (?)).  Disponível em < http://www.thebanmappingproject.com/sites/browse_tomb_869.html >. Acesso em 16 de janeiro de 2015.
[2] Alguns autores preferem situar seu fim no reinado do faraó Tutankhamon.
[3] Hawass, Zahi. Mystery of the Mummy from KV55. Disponível em < http://www.guardians.net/hawass/articles/Mystery%20of%20the%20Mummy%20from%20KV55.htm >. Acesso em 16 de janeiro de 2015.

Pedro Paulo Funari assina prólogo do livro “Tutankhamon, 1922 e o Vale dos Reis”

Por Márcia Jamille e João Carlos Moreno de Sousa (Arqueologia e Pré-história)

Foi anunciado no dia 30 de setembro de 2014 o nome do segundo livro da arqueóloga Márcia Jamille, “Tutankhamon, 1922 e o Vale dos Reis”, e desde então algumas das atualizações acerca da edição e curiosidades sobre a descoberta da KV-62 (tumba do faraó Tutankhamon) estão sendo disponibilizadas na página do Facebook dedicada à obra.

Entretanto, o que ainda não tinha sido liberada é a notícia de que o seu prólogo foi assinado pelo historiador e arqueólogo Prof. Dr. Pedro Paulo de Abreu Funari, que é professor titular da Universidade de Campinas (UNICAMP), onde também é coordenador do Núcleo de Estudos e Pesquisas Ambientais (NEPAM) e professor do programa de pós-graduação em Arqueologia do Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE) da Universidade de São Paulo (USP).

Prof. Dr. Pedro Paulo Abreu Funari. Foto: Divulgação.

Na USP ele obteve seu título de Bacharel em História (1981), Mestre em Antropologia Social (1986) e Doutor em Arqueologia (1990). Pela UNICAMP obteve o título de Livre Docente (1996). Possui nove pós-doutorados, obtidos nas seguintes universidades: Illinois State University (1992), University College London (1993 e 1997), Universitat de Barcelona (1995 e 1999), Université de Paris X, Nanterre (2008), Durham University (2009) e Stanford University (2009 e 2013).

Funari também é líder de grupos de pesquisas e assessor científico na Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP). Com mais de 80 livros publicados, mais de 240 capítulos de livros e mais de 500 artigos em revistas e jornais de divulgação científica, Dr. Pedro Paulo Funari acumulou diversas premiações e se tornou referência mundial na Arqueologia.

Sobre o livro: 

“Tutankhamon, 1922 e o Vale dos Reis” apresenta os passos dados pelo arqueólogo inglês Howard Carter e do seu patrocinado Lord Carnarvon até encontrar a KV-62, algumas curiosidades sobre aos trabalhos na sepultura e discute aspectos das pesquisas relacionadas com a vida de Tutankhamon.

Lorde Carnarvon (esquerda) e Howard Carter (direita). Foto disponível em < http://www.thetimes.co.uk/tto/magazine/article3650205.ece >. Acesso em 05 de outubro de 2014.

O livro ainda não tem uma data de lançamento prevista, mas é possível seguir as novidades sobre ele através dos seguintes links:

https://www.facebook.com/tutankhamoneovaledosreis
http://tutankhamoneovaledosreis.tumblr.com/

(Vídeo) Tutankhamon e réplicas de objetos da sua tumba

Embora este vídeo esteja denominado de “A maldição de Tutankamon”, a reportagem em si não toca muito do assunto, comenta somente das circunstâncias da descoberta da sua tumba e a vantagem de fazer uma exposição utilizando réplicas. O vídeo possui 1min37. Como o Canal AFP bloqueou a exibição deste vídeo em sites e blogues (vai lá entender o motivo) você pode clicar aqui para visualizar.

(Guest Post) Entrevista com Howard Carter

Recentemente recebi este texto do leitor Paulo Eduardo Michelotto, que é entusiasta da Arqueologia e é autor do livro “A crônica inca proibida”. Trata-se de uma entrevista fictícia com o Howard Carter, arqueólogo responsável pela descoberta da tumba do faraó Tutankhamon. Não mudei muita coisa no texto, já que ele não é da minha autoria, exceto incluir algumas imagens. Quem também tiver interesse em escrever um Guest Post é só enviar uma mensagem pelo formulário de contato. Abaixo segue o texto “Entrevista com Howard Carter”: 

 

Howard Carter.

Chegando na KV (King’s Valley) 62, pedi licença em meio aos trabalhos, cumprimentei Lorde Carnavon, que também estava lá e Carter. Mas Carnavon, que parecia ainda pior, recebeu-me bem e já me apresentou ao arqueólogo.
— Você veio de muito longe para falar comigo e mostrar as novas descobertas ao seu país e teve a boa proteção da Companhia de Navegação Fantástica. – disse-me Carter, apertando firmemente a minha mão e olhando nos meus olhos.
Carter era um homem um pouco gordo, de bigode e óculos, narigudo, com cabelo penteado à moda antiga e trajava roupas de trabalho. Como toda pessoa importante, cuja fama atravessa séculos, não era muito dado à conversas, era sério e reservado.
Quanto à empresa Fantástica, naquele tempo, a Companhia era de navegação porque era o único meio de transporte intercontinental. Hoje, com certeza, a Companhia Fantástica trata de aviação, como o principal meio de transporte.
— Não quero tomar o tempo do Senhor, sei que o Senhor está trabalhando, mas agradeço a recepção. Podemos começar?
— Sim senhor. A sua Companhia me paga bem e patrocina parte das minhas escavações. Fique o tempo que precisar.
— O Senhor foi o primeiro arqueólogo a trabalhar no Egito?
— Não sou arqueólogo formado em universidade. Os primeiros arqueólogos a trabalharem aqui, no Egito, datam do século XVIII, eram expedições europeias que iniciavam o trabalho científico. Antes eram ladrões de tumbas e aventureiros, séculos que se seguiram ao sepultamento dos faraós.
— Onde e quando o Senhor nasceu?
— Carter me encarou e respondeu:
— Em Kensigton, Londres, Inglaterra, em 09 de maio de 1874.
— Como o Senhor iniciou o trabalho aqui?
— Eu fazia desenhos encontrados nas escavações para as comunidades científicas, desde jovem. Fui assistente de um renomado arqueólogo inglês, o Sr. Flinders Petrie, um dos maiores arqueólogos de todos os tempos e também meu mentor. Com 27 anos, fui inspetor-chefe dos monumentos de Alto Egito e Núbia, e o fato que me ajudou foi eu conhecer vários dialetos árabes. Depois fui trabalhar na Inspetoria do Baixo e Médio Egito.
— Como o Senhor aprendeu a desenhar?
— Meu pai, Samuel Carter, era pintor de retratos de família da região, um artista excepcional. Com ele, aprendi o ofício da pintura.
— Como o Senhor chegou ao Egito?
— Como eu não pretendia seguir os negócios da minha família, aproveitei uma oportunidade para ir ao Egito e trabalhar para a Egyptian Exploration Fund, a fim de fazer cópias dos desenhos e inscrições de documentos para os cientistas desta época. Em outubro de 1891, se não me falha a memória, com 17 anos, cheguei a Alexandria.
— Onde foi o primeiro trabalho, em Alexandria, mesmo?
— Não. Foi em Bani Hassan. Fiquei tão entusiasmado que chegava a trabalhar o dia inteiro e depois dormia com os morcegos em uma tumba” (risos). “ Foi neste momento em que identifiquei minha verdadeira vocação. Como sei que vai me perguntar, trabalhei após nas escavações Deir el Babri, templo da Hatshepsut, onde meus desenhos ficaram famosos, pelos níveis de detalhes e técnicas de restauração de monumentos e também por minhas escavações.
— O Senhor poderia citar outra descoberta importante realizada pelo Senhor?
— Sim, as tumbas de Amen-hotep IV e Tutmés IV, de Hatshepsut, a poderosa mulher faraó, além de ter restaurado outros monumentos.

Faraó Tutancâmon.

— Qual a pista principal que te levou ao faraó Tutancamon?
— Uma das minhas aspirações foi encontrar a tumba de um rei desconhecido, cujas poucas peças encontradas tinha o seu nome gravado. Então desconfiei que ele estava enterrado aqui, no Vale. Alguns potes de cerâmica contendo materiais utilizados durante o funeral de Tutancamon foram encontrados aqui perto, deduzindo que local do túmulo estava perto. Sugeri para o Lorde Carnavon, a quem você já conhece, tomar como ponto de partida, um triângulo formado pelas tumbas de Ransés II, o Grande, Merenptah e Ransés VI”.
— Como foi o trabalho no verão?
— Impossível às escavações. Não conseguimos trabalhar no verão, devido ao calor, então as escavações só foram feitas no inverno.
— Quantos trabalhadores o Senhor utilizou?
— Vinte e seis.
— Quanto tempo durou?
— Sete anos de intenso trabalho, até encontrar este degrau esculpido em rocha viva, ao pé da tumba de Ransés VI. – e Carter mostrou o degrau, que levava para baixo da terra, numa escada de pedra.
— Este degrau era o início desta escada, que levava a um corredor que acabava numa porta selada. De lá, encontramos um corredor cheio de entulho que levava até a uma outra porta. Venha ver, Aventura.

Esquema da tumba de Tutancâmon.

Desci e vi as portas e o corredor. Era realmente emocionante ver tudo aquilo. Imaginem só, na data de hoje, ver tudo que teria embaixo, se não tivessem retirado todo os objetos de ouro achados. Ah, meu Deus, eu veria a tumba do faraó! Minhas pernas tremeram. A tumba de Tutancamon possuía uma escada de dezesseis degraus, um corredor que levava a antecâmara, um anexo atrás da antecâmara, a câmara funerária, onde ficava o sarcófago e a câmara de tesouros. A câmara funerária era a única decorada com desenhos na parede.
E Carter, continuou:
— Descobrimos dezesseis degraus que levavam a um corredor que acabava numa porta selada. Como Carnavon estava na Inglaterra, esperei a sua chegada para abrir a tumba. Encontramos o corredor cheio de entulho, como lhe falei, que levava até outra porta, a dez metros da primeira. Ambas as portas eram seladas. Os selos era de Tutancamon e da necrópole real. Com as mãos trêmulas, abri um pequeno buraco no canto superior esquerdo. Lá introduzi uma barra de ferro que não tocava em nada e olhei o buraco. Carnavon me perguntou o que eu via e eu disse coisas maravilhosas.
— Isto é demais. O que o Senhor viu?
— Vi objetos de ouro, muitos. Onde eu conseguia avistar, era tudo dourado e estátuas de animais e de guardiões, muitos utensílios, brinquedos, estátua de deuses. – disse o arqueólogo, se empolgando – vamos descer para dar uma olhada rápida?
— Demorou – respondi.
— Como? – indagou-me o arqueólogo.
— Vamos, eu quis dizer. – achando que Carter não havia entendido muito bem as gírias do mundo moderno.
Neste momento Lorde Carnavon que nos acompanhava parou e disse:
— Amigos, vou parar por aqui. Pode descer, Paulo, fique à vontade com o nosso cientista e com o rei Tut. Vou dar umas baforadas no meu charuto, por aqui mesmo.
Eu não acreditava que iria conhecer tudo aquilo de perto, bem pouco tempo da descoberta da tumba do rei menino.
Carter segurou numa lanterna, abaixou-se e iniciou a descida e, eu, o acompanhei para ver a tumba recém descoberta.
Os degraus não eram grandes e a porta também não era alta, estava tudo muito escuro e Carter focava para baixo. Minha curiosidade aumentava a cada degrau. Ele estabilizou-se no terreno e eu cheguei junto. Acabaram os degraus e passamos pelo corredor até a porta da antecâmara. Ele focou a parede e o dourado refletido do local e ofuscou-me a vista. Como não pude me conter, exclamei:
— Também vejo coisas maravilhosas.

Imagem da primeira câmara da KV-62.

Havia muitos objetos de ouro, muitos mesmos. De estatuetas a objetos como taças, jarros, enfeites, joias, ornamentos, vasos, esculturas, armas e objetos pessoais, que depois no total, apurou-se mais de cinco mil peças.
Na antecâmara, o primeiro cômodo de 8 por 3,6 metros, havia três divãs ornamentados com cabeças de animais e mais de 700 objetos. Baús, vasos, flechas, tronos, tudo para auxiliar a o faraó no pós-morte, inclusive vinho tinto que o faraó adorava. Havia quatro bigas e três camas funerárias.
Havia dois guardiões, estátuas idênticas ao rei Tut com lança, que cercavam a porta selada, que era realmente de arrepiar e Carter disse-me que ficou impressionado com a sua perfeição.
— O túmulo foi violado apenas aqui, na antecâmara onde os ladrões penetraram ali por duas vezes, quinze anos depois do funeral do rei Tut – disse-me Carter.
Aprofundamos na câmara mortuária, que era o próximo cômodo e ela estava preenchida por quatro capelas em madeira dourada encaixadas umas nas outras, que protegiam um sarcófago em quartzito de forma retangular, próprio de sua dinastia. Em cada um dos cantos do sarcófago estão representadas as deusas Ísis, Néftis, Neit e Selket.
Ísis, a mais conhecida das deusas, é a deusa da maternidade, das mulheres e da magia, deusa do Sul, protetora de Imset (o filho de Hórus que vigiava o frasco canópico contendo o fígado).
Néfis, outra deusa que protege os mortos, deusa do Norte, protetor de Hapi (o filho de Hórus que vigiava o frasco canópico contendo os pulmões).
Neit, deusa da caça e da guerra, deusa do oriente, protetora de Duametef. (o filho de Hórus que vigiava o frasco canópico contendo estômago).
Selket, deusa dos escorpiões, cura e magia e do Ocidente, protetora de Qebhesenuf (o filho de Hórus que vigiava o frasco canópico contendo os intestinos).
Vaso ou frasco canópico ou canopo eram os vasos usados pelos antigos egípcios para guardar as vísceras embalsamadas dos mortos.
— Veja isto, Aventura – disse-me Carter – apontando para a pintura da parede da câmara mortuária – isto é o ritual da abertura da boca, um ritual praticado pelo sacerdote de Anúbis e pelo sucessor do falecido, normalmente o filho mais velho, mas aqui é o sacerdote Ai, vestido de pele de leopardo, que o sucede e que faz o ritual. Mesmo sendo Ai bem mais velho do que Tutancamon.
— Para que servia o ritual?

Ay na KV-62.

Ay na KV-62.

— Acreditavam que poderiam devolver os sentidos da múmia, por isso os olhos e boca da estátua ou caixão e eram tocados com um objeto, um boi era sacrificado e a pata dianteira direita era colocado junto ao falecido.
Carter prosseguiu e eu o acompanhei até onde se encontrava o sarcófago. Dentro dele, havia três caixões antropomórficos, encontrando-se a múmia no último deste caixões e sobre a face da múmia do rei Tut a mais famosa máscara funerária do mundo, toda de ouro, aliás, 11 quilos de ouro. Tut ainda calçava sandálias de ouro e vinte dedais do mesmo metal. Pude observar tudo com o facho da lanterna de Carter.
— Nossa! É incrível! – fiquei todo emocionado. Decorados com o símbolo da realeza (a cobra e o abutre, símbolos do Alto e Baixo Egito, a barba postiça retangular e os cetros reais). O terceiro caixão era todo de ouro.

Múmia de Tutankhamon ainda com sua máscara mortuária.

Carter ia percorrendo com a luz da lanterna todo o sarcófago e eu observava as coisas maravilhosas. Passou a luz sobre três ânforas que posteriormente identificaram como recipientes de três tipos de vinho: tinto, um outro vinho tinto mais doce e vinho branco.
Após, a luz da lanterna foi passada na câmara do tesouro, que nós passamos a última porta selada e adentramos, onde havia estátua de Anúbis, com um xale na cabeça, várias jóias, roupas e uma capela, de novo em madeira dourada, onde foram colocados os vasos canópicos do rei. Também havia duas pequenas múmias correspondentes a dois fetos do sexo feminino, que poderiam ser filhas do rei, nascidas prematuramente.
— Olha, eles embalsamavam até feto!
— Sim. – respondeu Carter, mas à meu modo de ver era horripilante .
Observei com atenção todo detalhe que pude, ele ofereceu a lanterna que carregava e pude dar uma olhada melhor na tumba. Fiquei o tempo que pude, sentido aquele cheiro de mofo até que Carter sinalizou que havia terminado a visita e fez sinal para subirmos.
Dei uma última olhada na tumba, meio horrorizado com a visão dos embalsamentos dos fetos e olhei para a estátua de Anúbis, com o xale na cabeça. Carter acabara de atravessar a porta e fiquei sozinho com o deus dos mortos. Tive a impressão dele ter movimentado os olhos em minha direção e ter um leve movimento de cabeça. Foi o bastante para eu sair de lá.

(…)

「fim」

Trecho extraído do livro “Nas escavações com os arqueólogos”, a ser publicado.
Paulo Eduardo Michelotto é advogado, escritor, autor do livro “A crônica inca proibida”, fã de arqueologia e do site “Arqueologia egípcia”.

(Resenha – Documentário) A Maldição de Tutankamon, da Discovery

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Desde mais nova sempre fui aficionada por documentários, mas raramente eu podia assistir algum. Quando comecei a ter acesso à internet procurava saber o que estava passando nas TVs por assinatura para, quem sabe, um dia ter a sorte de encontrar algum deles à venda. Um desses materiais que fizeram parte do meu sonho de consumo foi “A Maldição de Tutankamon” (The Curse of Tutankhamun), da Discovery, que tinha logo no início da sua sinopse a incrível descrição:

Nas margens do Nilo, um rapaz está morto e um homem está morrendo. Duas mortes separadas por mais de 30 séculos e, ainda assim, agourentamente ligadas. O rapaz, um faraó, sepultado com uma fortuna incalculável. O homem, um nobre inglês, no ímpeto de encontrá-lo. Sua busca disparou a maior caça ao tesouro da História e uma reação de mortes em cadeia. Um a um, aqueles que perturbaram a tumba do faraó pereceram. Até hoje, as casualidades crescem. A Ciência segue um assassino esquivo de três mil anos de idade.

Era difícil, como o é hoje, não ficar curiosa depois de ler isso. Contudo, só cheguei a assistir esse documentário quando ingressei na graduação em Arqueologia e anos depois finalmente consegui comprá-lo.

DVD “A Maldição de Tutankamon”, da Discovery. 1998.

Faz muito tempo que me desgostei de documentários, especialmente os ligados à figura de Tutankhamon por sempre romancear as circunstâncias da sua causa de morte, o que, para mim, desgastou e banalizou muito o assunto.  Felizmente, para a minha sorte e paciência, “A Maldição de Tutankamon” ainda não faz parte da belle époque dos documentários sensacionalistas, apesar do assunto abordado, que é a falaciosa maldição da múmia que teria matado uma série de pessoas ligadas ao achado da sepultura. A produção tenta mostrar que a suposta praga não seria um evento espiritual, mas algo que teria sido perfeitamente evitável.

Tutankhamon foi um rei da 18ª Dinastia (Novo Império) e um dos sucessores de Akhenaton, faraó conhecido por sua tentativa de reforma religiosa. Tutankhamon morreu entre seus 18 e 19 anos e foi sepultado no Vale dos Reis. Sua tumba permaneceu praticamente intacta até a sua descoberta, realizada por um arqueólogo, em 1922. A fita se inicia apesentando o contexto da época da abertura do túmulo, o papel do Lorde de Carnarvon (patrocinador da empreitada) e Howard Carter (arqueólogo responsável pelo achado). É narrado também o episódio da entrada fortuita de Carter, Carnarvon, Mace e da Lady Evelyn no sepulcro na calada da noite e a morte de Carnarvon nas semanas seguintes, circunstância que deu espaço para os tabloides ingleses afirmarem a existência de uma maldição.

Sheryl Munson e o marido no Egito em 1995. Fonte: “A Maldição de Tutankamon”, da Discovery. 1998.

O documentário também aponta a morte da turista Sheryl Munson, em 1995, após sua viajem para o Egito. É narrado que, ignorando as ordens de segurança, ela tocou uma pintura parietal de uma tumba acreditando que aquela era uma oportunidade única. Contudo, após retornar para casa ela desenvolveu um quadro de tosse aguda, fraqueza e falta de ar. Com a piora da sua saúde uma biopsia do seu pulmão foi realizada. Foi identificado então o fungo aspergillus níger, que mais tarde assimilariam o contágio com a viajem de Shery para o Egito e o evento de ter tocado em uma parede num sítio arqueológico de caráter funerário. O material ainda explica que Carnarvon teria cometido erro semelhante anos antes, quando entrou desprotegido na tumba, se expôs aos fungos do local e, após um ferimento no rosto que infeccionou graças ao contágio, entrou em óbito em 10 de abril de 1923.

O interessante da fita é que nela aparecem alguns nomes já conhecidos entre egiptólogos e o público comum como David Silverman, Roselie David e Zahi Hawas (que ironicamente em uma das suas participações comenta que a fama é uma maldição). A participação da profa. David é uma das mais esclarecedoras, já que ela explica que, ao contrário do passado, hoje é possível trabalhar com a “exumação” de múmias em segurança, através do uso de raio-x e o endoscópio, evitando assim o risco de contaminação tanto para o pesquisador como para a própria múmia (é importante lembrar que o depósito de bactérias na superfície ou interior de uma múmia pode acelerar a sua degradação).

Imagem frontal da mascara mortuária de Tutankhamon. Imagem disponível em MULLER, Hans Wolfgang; THIEM, Esberhard. O ouro dos faraós. (Tradução de Carlos Nougué, Francisco Manhães, Maria Julia Braga, Angela Zarate). 1ªEdição. Barcelona: Editora Folio, 2006. pág. 175.

Imagem frontal da mascara mortuária de Tutankhamon. Imagem disponível em MULLER, Hans Wolfgang; THIEM, Esberhard. O ouro dos faraós. (Tradução de Carlos Nougué, Francisco Manhães, Maria Julia Braga, Angela Zarate). 1ªEdição. Barcelona: Editora Folio, 2006. pág. 175.

Mas por que tantas mortes?

Lord Carnarvon.

Quinto Conde de Carnarvon.

Embora uma infecção explique a morte de Carnarvon, a dúvida ainda paira acerca dos outros óbitos que os tabloides relacionaram com a Maldição de Tutankhamon. Mas não existe mistério também nisto: quando a notícia da descoberta da tumba estourou, Carnarvon vendeu os direitos de reportagem para o The Times, um jornal voltado para a elite inglesa. Sem matérias exclusivas e aproveitando o embalo do falecimento do patrocinador, os demais jornais procuravam qualquer definhamento relacionado com algum membro da equipe de escavação, ou mesmo de algum familiar que nem sequer entrou no sepulcro, para assimilar à morte agourenta. Um deles até mesmo inventou que na porta da sepultura existia uma maldição escrita ameaçando todos aqueles que incomodassem o descanso do faraó.

Considerações finais:

Este é um documentário para sanar a curiosidade acerca da Maldição da Múmia, e não apresenta muitos aspectos da vida no Antigo Egito, contudo, faz bem o seu trabalho ao mostrar os riscos de contaminação existentes em túmulos e corpos egípcios.

Meus comentários sobre o DVD “A Maldição de Tutankamon” no Youtube:

Dados do DVD:

Título: A Maldição de Tutankamon

Gênero: Egiptologia, múmias

Diretor: Gary Parker

Distribuidora: Discovery

Ano de Lançamento (Brasil): 1998

Valor: Entre R$19,90 e R$20,90