DVD “A Maldição de Tutankamon”: comentários

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille | Instagram

Em 2014 realizei aqui para o AE a resenha escrita e em vídeo do DVD “A Maldição de Tutankamon*” (The Curse of Tutankhamun) —  *sim, grafaram o nome do rei desta forma mesmo — . É um ótimo post, mas ao menos o vídeo precisei dar uma atualizada, já que na época em que ele foi gravado não existia a estrutura para gravação que possuímos atualmente.

No post original da resenha além de explicar acerca do documentário comentei o contexto da época em que eu o assisti. Vocês podem dar uma olhada nele na caixa ao final dessa postagem ou clicando aqui.

E abaixo o novo vídeo:


(Resenha – Documentário) A Maldição de Tutankamon, da Discovery

(Resenha – Série) “TUT”, uma série inspirada no faraó Tutankhamon (“Rei Tut”; 2015)

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille | Instagram

Este texto não contém spoiller.

Lançado em 2015, “Rei Tut” (“TUT”, no original), tem o enredo baseado na tentativa do jovem e rebelde faraó Tutankhamon (Avan Jogia) em manter o seu país a salvo, ao mesmo tempo que tenta se manter no trono, que é cobiçado por altos  cortesões e pelo clero tebano do deus Amon.

Assista os comentários em vídeo:

A série ganhou destaque por trazer um Tutankhamon repaginado e inspirado em sua vida militarizada, cujos detalhes estão surgindo graças as descobertas arqueológicas que ocorreram nos últimos anos, em especial os seus talatats que foram encontrados em Luxor e que relatam detalhes de como o exército do jovem rei colocou um fim em uma rebelião na Núbia (atual Sudão) (JOHNSON, 1990).

Porém, como muitas outras produções que envolvem acontecimentos do passado, a série “Rei Tut” não se livrou dos erros históricos, como, por exemplo, apresentar roupas anacrônicas tais como a adoção de túnicas e cortes, cores ou tecidos que não fizeram parte do vestuário egípcio antigo (tema que espero abordar em um futuro próximo, quando o canal do AE no Youtube alcançar 5.000 inscritos; clique aqui e saiba do que estou falando).

É feita também uma confusão em relação aos inimigos do Egito, apresentados na produção como os Mitanis, sendo que o problema naquele período eram os hititas. Explicando de forma rápida: no principio da 18ª Dinastia de fato os mitanis eram inimigos do Egito, no entanto, para estabelecer a paz entre ambos os países, os faraós Tutmés IV e Amenhotep III desposaram princesas desse reino. Entretanto, com o reinado de Akhenaton as coisas não se saíram tão bem, uma vez que o faraó não cedeu auxilio ao mitanis quando esses foram invadidos pelos hititas. Então, com a chegada do governo de Tutankhamon a relação entre essas nações tinha chegado ao fim, em especial devido a derrota anterior mitani (DARNELL, 2007 ).

Outro problema está em o faraó aparecer na frente de várias pessoas sempre. Esta não era uma prática comum, principalmente na época de Tutankhamon.

— Saiba mais: Fatos interessantes sobre os faraós: sua divindade e mais algumas curiosidades

Alguns erros em relação a arquitetura também são apresentados, como o palácio, retratado com andares e colunas em cada um, ou o Vale dos Reis, que está muito longe de parecer geograficamente com o real, além de ter sido montada uma superestrutura [1] para a tumba de Tutankhamon, algo que jamais existiu na realidade.

Como já apresentei anteriormente aqui no site e no canal, alguns dos principais personagens realmente existiram. O primeiro, naturalmente, é o faraó Tutankhamon, sua esposa Ankhsenamon, Akhenaton, seu vizir Ay, seu general Horemheb e dois personagens que na época em que comentei o trailer eu não sabia que tinham sido incluídos, que é o Narkhmind e o rei Tushratta. Os demais, a exemplo dos amantes do casal Tutankhamon e Ankhsenamon, foram inventados para a trama.

O Tutankhamon e a Ankhesenamon da realidade. Para saber como era o rosto dos demais personagens clique aqui. Fonte: STROUHAL, Eugen. A vida no Antigo Egito (Tradução de Iara Freiberg, Francisco Manhães, Marcelo Neves). Barcelona: Folio, 2007.

Tutankhamon e Ankhsenamon.

É citada uma praga no enredo e de fato ela existiu, mas o seu fim em nada tem relação com o desfecho apresentado na trama. Ela, em verdade, se seguiu além da morte de Tutankhamon.

“Rei Tut” estreou no Brasil através da Netflix e do canal fechado The History Channel. E no início de 2016 os seus direitos de exibição na TV aberta foram comprados pela Rede Globo. Contudo, não existe previsão de veiculação.

Fontes: 

JOHNSON, Raymond. The Tutankhamun Talatat. Chicago House Bulletin. Volume 1, N°3, August 15, 1990.
DARNELL, John Coleman; MANASSA, Colleen. Tutankhamun’s Armies: Battle and Conquest During Ancient Egypt’s Late Eighteenth Dynasty. Ney Jersey: John Wiley, 2007.

Links interessantes: 

Nefertiti e Akhenaton: o casal egípcio impossível de ser ignorado
O casal Ankhesenamon e Tutankhamon
7 curiosidades sobre o faraó Tutankhamon
The End of the Amarna Period
Tutankhamun’s War


[1] A “subestrutura” era onde o corpo era sepultado, já a “superestrutura” era a parte externa do túmulo.

Nefertiti e Akhenaton: o casal egípcio impossível de ser ignorado

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille | Instagram

Na virada do século XIX para o XX, não se sabia muita coisa sobre o Período Amarniano — momento da história egípcia em que além de ocorrer uma mudança da capital do Egito, foi feita uma tentativa da elevação do deus Aton como a divindade principal do panteão egípcio — nem sobre os seus patrocinadores, o casal real Nefertiti e Akhenaton.

Foi aos poucos e com a ajuda de descobertas pontuais — tais como as das estelas fronteiriças da cidade de Aketaton, a tumba de Akhenaton, a KV-55, a tumba de Tutankhamon e os talatats em Karnak — que um quadro dessa época única da história egípcia começou a ser formado. Contudo, apesar dos esforços dos arqueólogos egiptólogos, muitos acontecimentos não estão claros.

O primeiro são as circunstâncias em que Akhenaton assumiu o poder: o trono estava destinado ao seu irmão mais velho, Tutmés, mas o herdeiro faleceu quando criança. Akhenaton, que na época chamava-se Amenhotep IV, virou o principal na linha de sucessão. Em 2014, foi anunciado que dentro de uma capela pertencente a um vizir chamado Amenhotep Huy (Capela 28), em Luxor, a equipe do Proyecto Visir Amen-Hotep Huy encontrou uma prova da co-regencia entre o rei Amenhotep III e o príncipe regente Amenhotep IV. Porém, não se sabe se Amenhotep III ainda estava vivo quando o filho saiu de príncipe regente para faraó de fato.

Akhenaton, Nefertiti e três das suas seis filhas. Foto: Wikimedia Commons.

O segundo é a origem da Grande Esposa Real Nefertiti: tem quem crê que ela era uma princesa mitanni que ao chegar ao Egito para casar com o príncipe Amenhotep IV mudou de nome, passando a se chamar Nefertiti — que significa “A bela chegou” —. Outra teoria tem a ver com a sua própria ama-de-leite, Ty; alguns acadêmicos acreditam que ela não era somente sua ama, mas sim a sua mãe. Ty era esposa de Ay, homem que com a morte do rei Tutankhamon viria a se tornar faraó (Imagem).

Primeiros anos de reinado: Aton e a mudança para Aketaton

É certo que quando o até então Amenhotep IV e a Nefertiti assumiram o trono eles moravam em Tebas, onde edificaram em Karnak um templo votivo a Aton. Foi lá onde tiveram suas três primeiras filhas: Meritaton, Meketaton e Ankhesenpaaton. Embora muitas pessoas acreditem que as “raízes” para o culto a Aton na realeza tenha surgido através desse casal ou mesmo que esse deus foi inventado por eles, em verdade essa divindade é antiga, sendo uma das formas de Rá. Em complemento, os primeiros sinais da “revolução” [1] amarninana já estão presentes durante o governo de Amenhotep III e Tiye, pais de Akhenaton.

Nefertiti, Akhenaton e uma de suas filhas prestando homenagens a Aton. Foto: Wikimedia Commons.

Não se sabe os motivos que levou Akhenaton a abandonar Tebas, mas é fato que ele saiu de lá e foi viver em um local deserto, onde criou uma nova cidade que denominou como “Aketaton” (Horizonte de Aton) e lhe deu o título de capital do Egito (BAINES; MALEK, 2008).

Bill Munane, pesquisador da Universidade de Menphis, em uma entrevista a National Geographic, explicou que “Akhenaton não diz com todas as letras o que aconteceu, mas foi algo que o enfureceu” e finalizou com “ele disse que nem ele nem seus ancestrais jamais haviam passado por algo pior” (GORE, 2001).

Aketaton seria um novo começo, mas, que precisava crescer logo. Então os engenheiros do rei tomaram uma medida drástica: as casas seriam construídas com adobe, a exemplo do restante do país. Porém, os templos, em vez de ser construídos com as usuais pedras de calcário, seriam edificados com pequenas pedras de areníticas, cortadas com cerca de 50x25x23 centímetros. São os chamados atualmente de talatats (“três” em árabe, devido ao seu tamanho de três palmos) (STROUHAL, 2007; BAINES; MALEK, 2008).

Exemplo de talatat. Nele está representado Akhanton realizando oferendas a Aton e recebendo a sua proteção.

Por ser de fácil transporte e manuseio, os talatats permitiram que os principais prédios da cidade estivessem aptos para o uso quando Akhenaton foi morar lá.

O local tinha como principal acesso o Rio Nilo e a planície em que a cidade foi edificada é inteiramente cercada por uma cadeia rochosa. A parte central de Aketaton era composta pelos chamados atualmente de Grande Templo e o Grande Palácio, que tinha acesso à residência de Akhenaton através de uma ponte (BAINES; MALEK, 2008).

A cidade não durou muito tempo após a morte do rei, sendo abandonada totalmente menos de vinte anos depois de Akhenaton falecer (BAINES; MALEK, 2008).

A Arte Amarniana:

Não foi somente a capital do país que mudou, mas as convenções artísticas também. Em Aketaton os desenhistas tiveram a liberdade e ir além das convenções artísticas rígidas da época, podendo representar a família real e seus súditos exercendo diferentes atividades (inclusive de cunho mais pessoal), registrando-os com mais leveza em seus movimentos (BRANCAGLION Jr., 2001). Os escultores também beberam dessa novidade realizando moldes de rostos e esculpindo estátuas mais realistas, prezando pela identidade dos clientes (O’CONNOR et al, 2007; STROUHAL, 2007).

Nefertiti. Foto: Wikimedia Commons.

Porém, não é somente a liberdade artística a característica marcante da arte amarniana. Tanto nos desenhos parietais, como nas esculturas é possível encontrar detalhes excêntricos onde a família real e algumas pessoas do seu séquito foram representados com crânios exageradamente alongados e pelve e coxas grossas.

Esse tipo de representação levantou uma série de questionamentos nas últimas décadas, resultando em propostas de que Akhanaton, Nefertiti e suas filhas teriam sofrido de uma patologia terrível. Contudo, além do fato de existir imagens deles representados “normais”, os exames realizados nos remanescentes ósseos desse período, mais especificamente de parentes próximos da família e no suposto corpo de Akhenaton, não apontam nenhuma deformação.

Nefertiti e Akhenaton. Foto: Wikimedia Commons; Guillaume Blanchard.

A morte de Nefertiti e de Akhenaton:

Um dos temas da Egiptologia que mais gera controvérsias é a época da morte de Nefertiti. Convencionou-se, por muitos anos, a se dizer que ela morreu no 14ª de reinado de Akhenaton (GRIMAL, 2012). Contudo, a descoberta de uma pequena inscrição em uma pedreira de calcário datada do 16ª ano de reinado de Akhanaton indica que ela ainda estava viva [2]. Isso só fez fomentar a suposição de alguns egiptólogos de que ela teria sobrevivido ao marido e reinado como uma faraó chamada Ankhkheperurá (REEVES, 2008; ALLEN, 2009). Uma proposta que, todavia, está mais no campo da especulação.

— Saiba mais sobre Ankhkheperura: Mulheres faraós #AntigoEgito https://www.youtube.com/watch?v=jL1D45uR-Q8&t=10s

Assim como muitos corpos desse período, a múmia de Nefertiti ainda não foi encontrada ou identificada, apesar das várias tentativas de busca por parte de alguns pesquisadores tais como Zahi Hawass, Joann Fletcher e Nicholas Reeves.

Já Akhenaton, sabemos que ele faleceu no 17ª ano de reinado. Com sua morte ele foi precedido por Smenkhará e provavelmente depois por Ankhkheperurá (ou vice-versa) (REEVES, 2008; ALLEN, 2009). Sua tumba foi encontrada em Amarna e os restos do seu sarcófago de pedra encontra-se no Museu Egípcio do Cairo. Contudo, o seu corpo não foi identificado com 100% de certeza. Arqueólogos que trabalharam na busca dos parentes do faraó Tutankhamon através de análises de DNA entre 2007 e 2009 acreditam que os remanescentes ósseos descobertos da KV-55, dentro de um ataúde com o nome apagado, seria ele. Mas essa não é uma certeza absoluta. Porém, caso esses ossos tenham outrora sido Akhenaton então, de acordo com esses mesmos exames de DNA, ele foi pai de Tutankhamon (HAWASS et al, 2010).

Sarcófago de Akhenaton. Foto: Wikimedia Commons.

Poucos anos após a morte de ambos, durante o reinado do faraó Horemheb, teve início uma campanha para apagar seus nomes e os dos seus sucessores (inclusive Tutankhamon e Ay) das paredes dos templos de Karnak, além do desmantelamento gradual da cidade de Aketaton. Porém, isso não foi o bastante: a arqueologia cada vez mais tem conseguido organizar os passos de ambos e os acontecimentos desse período único na história do Egito.

Para saber mais: Em meu livro, “Uma viagem pelo Nilo”, dedico um capítulo, “A análise dos talatats de Akhenaton”, para tratar da descoberta dos talatats do templo de Akhenaton em Karnak. Também apresento os principais acontecimentos dessa época em relação a mudança da capital.

Referências bibliográficas:

[1] As atuais pesquisas acerca desse período estão discutindo que os acontecimentos patrocinados por esse casal não possuem uma característica de uma revolução, mas sim, um golpe de estado.

[2] Dayr al-Barsha Project featured in new exhibit ‘Im Licht von Amarna’ at the Ägyptisches Museum und Papyrussammlung in Berlin. Disponível em < http://www.dayralbarsha.com/node/124 >. Acesso em 21 de dezembro de 2012.

[3] Algo que é bastante questionável já que observando o contexto da época é possível encontrar aspectos dos demais deuses, mesmo em Aketaton.

ALLEN, James. “The Amarna Succession”. In: BRAND, Peter; COOPER, Louise. Causing his Name to Live: Studies in Egyptian Epigraphy end History in Memory of William J. Murnane. Netherlands: Koninklijke Brill (Brill Academic Publishers), 2009.

BAINES, John; MALEK, Jaromir. Deuses, templos e faraós: Atlas cultural do Antigo Egito (Tradução de Francisco Manhães, Maria Julia Braga, Michael Teixeira, Carlos Nougué). Barcelona: Folio, 2008.

BRANCAGLION Jr., Antonio. Tempo, material e permanência: o Egito na coleção Eva Klabin Rapaport. Rio de Janeiro: Casa da Palavra – Fundação Eva Klabin Rapaport, 2001.

GORE, Rick. Os faraós do sol. National Geographic Brasil, São Paulo, Abril. 2001.

GRIMAL, Nicolas. História do Egito Antigo (Tradução Elza Marques Lisboa de Freitas). Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2012.

HAWASS, Zahi; GAD, Yehia Z; ISMAIL, Somaia; KHAIRAT, Rabab; FATHALLA, Dina; HASAN, Naglaa; AHMED, Amal; ELLEITHY, Hisham; BALL, Markus; GABALLAH, Fawzi; WASEF, Sally; FATEEN, Mohamed; AMER, Hany; GOSTNER, Paul; SELIM, Ashraf; ZINK, Albert; PUSCH, Carsten M. Ancestry and Pathology in King Tutankhamun’s Family. JAMA. 303(7):638-647, 2010.

O’CONNOR, D.; FORBES, D.; LEHNER, M. Grandes civilizações do passado: terra de faraós. Tradução de Francisco Manhães. 1ª Edição. Barcelona: Ed. Folio, 2007.

STROUHAL, Eugen. A vida no Antigo Egito (Tradução de Iara Freiberg, Francisco Manhães, Marcelo Neves). Barcelona: Folio, 2007.

REEVES, Nicholas. The Complete Tutankhamun. London: Thames & Hudson, 2008.

O garoto que “descobriu” a tumba de Tutankhamon: entenda o caso

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille | Instagram

A história da descoberta da tumba do faraó Tutankhamon é quase mitológica: ela foi encontrada no Vale dos Reis pelo arqueólogo inglês Howard Carter que, por quase uma década, estava na esperança de fazer uma grande descoberta. Isso dependendo do dinheiro e da paciência do seu mecenas, Lord Carnarvon, um nobre inglês que, a essa altura, já tinha dado um ultimato ao pesquisador, deixando claro que aquele ano seria o último da busca.

Coincidentemente, após quatro dias de iniciados os trabalhos, em 04 de novembro de 1922 o primeiro degrau da sepultura, identificado mais tarde pelo número tombo 433, foi encontrado (JAMES, 2005). E quando a primeira câmara foi aberta em 26 de novembro e os artefatos vislumbrados pela primeira vez em 3 mil anos, já estava claro que aquela seria considerada uma das maiores descobertas arqueológicas do século. Claro que como tudo o que chama atenção uma série de especulações começaram a surgir.

Tut Ankh Amon Sarcophagus, Egyptian Museum, Cairo, Egypt

Ataúde de Tutankhamon.

Tumba de Tutankhamon - Harry Burton - KV-62

Primeira câmara da tumba com os artefatos ainda em seus lugares originais. Foto: Harry Burton.

Enquanto eu escrevia o meu livro, “Tutankhamon, 1922 e o Vale dos Reis”, eu soube de algumas delas. Uma era a de que Carter teria recebido uma dica da localização da tumba por parte de um homem da família Abd-el-Rassul, famosa por roubos de sepulturas. A denúncia foi realizada pelo o próprio filho desse homem, Housein (MULLER; THIEM, 2006). Uma acusação infundada, afinal, a tumba estava completamente oculta por cascalhos e cabanas de operários datadas do Período Faraónico. Era simplesmente impossível alguém saber da existência do túmulo.

Hag Mahmoud Abd El-rassul segurando a foto de Hussein (idoso e criança). Autor da foto: desconhecido.

Hag Mahmoud Abd El-rassul segurando a foto de Hussein (idoso e criança). Autor da foto: desconhecido.

Agora em 2016 foi lançada uma matéria no El Mundo intitulada El niño que descubrió la tumba de Tutankamón (O garoto que descobriu a tumba de Tutankhamon). Garoto esse que a reportagem revela mais tarde ser o Housein. De acordo com a notícia, um homem chamado Mohamed Abd-el-Rassul afirma que foi seu avô, o Housein, quem encontrou o sepulcro enquanto levava água para membros da expedição.

De fato, o menino Housein encontrou o primeiro degrau, isso não é segredo (os livros mais completos sobre a história da descoberta não deixam de citá-lo, inclusive), mas ele não deve levar todo o crédito de ser o responsável por encontrar a tumba. Quando analisei os registros de Carter foi possível observar que ele anotava tudo o que considerava relevante sobre os trabalhos do dia, inclusive sobre como separou o Vale em seções e deu a ordem aos trabalhadores para que escavassem até a rocha. Também é conhecido que era (e ainda é) um costume os arqueólogos que trabalham no país raramente efetuar as escavações com as suas próprias mãos, deixando que esse seja o papel dos auxiliares[1] (o que sou totalmente contra), logo, se não fosse o menino, qualquer outra pessoa da equipe limpando a área encontraria o degrau. Não foi por perspicácia ou conhecimento prévio que ele encontrou a escada, ele só estava no lugar certo na hora perfeita.

Housein usando um dos colares de Tutankhamon (clique aqui para conhecer a história por trás dessa foto). Foto: Harry Burton.

Para homenagear Housein os seus descendentes criaram um mini museu para resgatar a sua memória. Não existe nada de errado nisso, até porque a arqueologia egípcia é extremamente injusta com os nativos e o Housein deve ser sim rememorado, mas não da forma como estão o vendendo: a imagem de uma pessoa com um conhecimento prévio da localização da tumba e injustiçado pela história.

Saiba um pouco mais sobre o faraó Tutankhamon:

Referências bibliográficas:

ALLEN, Susan J. Tutankhamun’s Tomb: The thrill of discovery. New York: Metropolitan Museum of Art, 2006.

JAMES, Henry. Tutancâmon (Tradução de Francisco Manhães). Barcelona: Folio, 2005.

MULLER, Hans Wolfgang; CRESCIMBENE, Simonetta. Egito. (Tradução de Leila Mascioli). São Paulo: Manole, 1998.

REEVES, Nicholas. The Complete Tutankhamun. London: Thames & Hudson, 2008.

El niño que descubrió la tumba de Tutankamón. Disponível em < http://www.elmundo.es/cronica/2016/04/17/57122f87ca4741f0148b463d.html >. Acesso em 18/04/2016.


[1] Os auxiliares sempre são egípcios contratados para retirar a areia do local e mesmo para efetuar a própria escavação arqueológica.

Confira o trailer da série “Tutankhamun”

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Produzida pela ITV Studios e sob a direção de Peter Webber, a série “Tutankhamun” terá como personagem principal o arqueólogo inglês Howard Carter, descobridor da tumba do faraó Tutankhamon em 1922. Composta por quatro episódios, o enredo tem início em 1905, nos mostrando os caminhos de um jovem Carter até a descoberta da sepultura que o fez famoso.

Foto: Divulgação.

— Saiba mais sobre o faraó Tutankhamon: Tutankhamon, 1922 e o Vale dos Reis.

No início deste ano (2016) mostrei a primeira fotografia liberada dos atores Sam Neill e Max Irons caracterizados como o Lorde Carnarvon e Howard Carter, agora trago para vocês o trailer oficial:

Infelizmente não existe previsão de estreia no Brasil.

— Leia também: Mais uma série com o tema “‪‎Tutankhamon” será lançada e Novidades sobre a série “Tutankhamun”, com Sam Neill e Max Irons.

Novidades sobre a série “Tutankhamun”, com Sam Neill e Max Irons

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Ano passado (2015) divulguei aqui no Arqueologia Egípcia que uma série sobre a busca pela tumba do faraó Tutankhamon estava sendo produzida e gravada na África do Sul. Pois bem, já foi liberada a primeira fotografia dos atores Sam Neill e Max Irons caracterizados como o Lorde Carnarvon e Howard Carter, respectivamente:

Foto: Divulgação.

Sam é bastante conhecido no Brasil pelo o seu papel como o paleontólogo Dr. Alan Grant no filme Jurassic Park (1993) e o Max está no filme Red Riding Hood (2011).

Como uma série de quatro episódios, a história terá início em 1905 e nos mostrará os caminhos de um jovem Carter até a descoberta da tumba que o fez famoso.

Ela está sendo produzida pela ITV Studios e sob a direção de Peter Webber. Infelizmente não existe previsão de estréia no Brasil.

(Vídeo) Sobre as supostas câmaras ocultas na tumba de Tutankhamon

Semana passada liberei mais um post acerca das pesquisas realizadas na tumba do faraó Tutankhamon (clique aqui para conferir e aqui para ver todas as postagens escritas sobre o assunto). Agora disponibilizo no site o vídeo onde respondo algumas questões bem gerais que tais estudos despertaram no público.

Tutankhamon na KV-62. Foto: Factum Arte.

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Foi Maya a irmã mais velha de Tutankhamon?

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Sabemos poucos detalhes da história do faraó Tutankhamon e da sua família e bem menos da vida de membros do seu séquito o qual conhecemos alguns nomes. Dentre estas pessoas estava uma mulher chamada Maya, cujo cargo era um dos mais importantes da corte: ela foi a ama-de-leite do rei.

Sabemos disso graças a sua tumba encontrada em 1996 no sítio de Bubastis, na cidade de Saqqara, que na antiguidade possuía uma das necrópoles mais importantes do Egito.

A tumba de Maya é dividida em dois níveis onde no superior existem duas câmaras para cultos e no inferior câmaras funerárias; é na primeira capela do nível superior onde encontra-se uma breve biografia da Maya, inclusive uma das suas imagens mais famosas onde ela tem em seu colo um garoto, o próprio Tutankhamon (Imagem 1)[2].

— Conheça mais sobre esta sepultura: Sobre leão achado no Egito em 2001.

O cargo de ama-de-leite na realeza não era dado a qualquer pessoa, afinal a mulher escolhida ia dar do seu leite para uma criança divina beber e sabemos que esse alimento possuía uma conotação religiosa notável. Maya foi então a escolhida pelos pais (ou representantes) de Tutankhamon, mas não sabemos de onde ela surgiu, somente que certamente era uma mulher da nobreza.

Imagem 1: Maya com o faraó Tutankhamon sentado em seu colo. Qui fut véritablement maïa? La nourrice de Toutânkhamon! En égypte ancienne!. Disponível em < http://www.aime-free.com/2100/12/qui-fut-veritablement-maya-la-nourrice-de-toutankhamon-en-egypte-ancienne.html >. Acesso em 26 de janeiro de 2016.

Contudo, recentemente surgiu uma teoria para ela. O descobridor do seu sepulcro, o arqueólogo francês Alain Zivie, e o Ministro das Antiguidades do Egito, Mamdouh El-Damaty, têm sugerido que esta mulher seria, em verdade, Meritaton [1][2], filha mais velha de Akhenaton e Nefertiti e irmã mais velha da esposa de Tutankhamon, Ankhesenamon e alguns sugerem que até do próprio Tutankhamon.

Maya. Fonte: Tomb of Tutankhamun’s wet-nurse opened to tourists. Disponível em < http://www.euronews.com/2015/12/20/tomb-of-tutankhamun-s-wet-nurse-opened-to-tourists/ >. Acesso em 26 de janeiro de 2016.

A ideia baseia-se no fato da existência de um fragmento de vaso cerâmico, encontrado durante a limpeza da tumba de Maya. Nele está um título honorífico, o de “Superiora do Harém”, o que indica que ela tinha um espaço privilegiado na corte real. Entretanto, Zivie e El-Damaty estão se apoiando na ideia de que era um título demasiado grande para uma simples ama [3], mas como foi pontuado no início deste texto, amas-de-leite da família real não eram simplesmente escolhidas entre mulheres comuns (embora não possamos descartar que para toda regra existe uma exceção).

Eles também se justificam fazendo uso de uma imagem encontrada na tumba de Meketaton, uma das irmãs de Meritaton e que morreu de forma prematura. A imagem retrata uma mulher segurando um bebê. A sugestão dos dois é que aquela trata-se da princesa Meritaton segurando em seu colo Tutankhamon. Contudo, esta afirmação não pode ser confirmada porque não existe nada na tumba que sugira quem são aqueles dois indivíduos.

Zivie ainda se justifica assinalando a semelhança facial entre Maya e Tutankhamon, mas sabe-se que quando um faraó chegava ao poder não era incomum que os artistas (aparentemente especialmente durante o Novo Império) adaptassem alguns dos seus traços faciais ao rosto de membros da família real e da alta nobreza. É exatamente por isso que muitas pessoas de determinados períodos se parecem tanto.

Entretanto, existe um ponto em que a teoria de que Maya poderia ser alguém da realeza faria algum sentido. Em entrevista ao “Diario La Prensa” Zivie declarou que interpretou a famosa imagem de Tutankhamon e Maya como que ela estaria sentada em um trono real [4], o que explicaria o fato dela ter sido retratada com o faraó em seu colo em um período que o contato físico mais próximo que uma pessoa comum teria com o rei é beijar a terra que ele pisou (não estou sendo poética, isso é verídico). Encontrei em um fórum estrangeiro uma fotografia que um dos usuários postou do livro “Les Tombes Du Bubasteion À Saqqara”, do próprio Zivie. Nela está um croqui da imagem do faraó com sua ama que está sentada em uma cadeira que possui entre os seus pés o “sema-taouy”, um símbolo que significa a união do Alto e Baixo Egito. Logo, a proposta de que esta estaria sentada em um trono real faz algum sentido. Por outro lado, se vocês observarem com atenção, o sema-taouy parece estar sob os pés do Tutankhamon e não no trono de fato. Ainda assim é uma questão a se pensar.

Link do fórum < http://www.perkemet.be/viewtopic.php?f=11&t=987 >. Acesso em 26 de janeiro de 2016. User que postou: Rozette. Livro: Les Tombes Du Bubasteion À Saqqara; La tombe de Maïa, mère nourricière du roi Toutânkhamon et grande du harem. Autor: Alain Zivie; pagina 105.

O outro problema nessa teoria é que não existe um motivo lógico para se escolher uma herdeira ao trono como ama-de-leite; as princesas destinadas ao trono quase não amamentavam seus próprios filhos, por que amamentariam o filho dos outros? Outra questão é que os registros escritos arqueológicos apontam que Meritaton e seu esposo Smenkhara tinham sido escolhidos como co-regentes de Akhenaton. A princesa até substituiu a própria mãe, enquanto ela ainda estava viva, em deveres da Grande Esposa Real. Então, qual seria o motivo de torna-se uma ama-de-leite ou uma “Superiora do Harém”?

Por fim, para ter leite no seio é necessário que a mulher tenha concebido um bebê, então, caso Meritaton fosse ama-de-leite de Tutankhamon, onde estaria o seu próprio filho? Zivie ainda sugere que a mãe de Tutankhamon poderia ser a falecida Meketaton [4], que ainda era uma pré-adolescente quando faleceu, entretanto, o exame de DNA de 2010 aponta que uma múmia de uma mulher adulta encontrada na KV-35 seria a sua mãe.

Tutanhkamon retratado ainda criança. Autor da imagem: Desconhecido.

Desta forma, logo se vê o porquê de o meio acadêmico não ter dado muita atenção para esta proposta.

A partir deste mês de janeiro (2016), a tumba de Maya estará aberta para a visita de não acadêmicos. Foi pensada nesta determinação como uma tentativa de alavancar a economia do Egito, em parte sustentada pelo turismo, que sofreu um grande dano após a revolução de 2011.

Fontes:

[1] ¿Fue Maya la hermana mayor de Tutankhamón? Disponível em < http://www.nationalgeographic.com.es/articulo/historia/actualidad/11000/fue_maya_hermana_mayor_tutankhamon.html >. Acesso em 27 de dezembro de 2015.

[2] Another King Tut’s related discovery would change chapters in history books. This time in Sakkara Disponível em < http://luxortimesmagazine.blogspot.com.eg/2015/12/another-king-tuts-related-discovery.html >. Acesso em 27 de dezembro de 2015.

[3] Egipto inaugura la tumba de la nodriza de Tutankamón. Disponível em < http://cultura.elpais.com/cultura/2015/12/24/actualidad/1450970687_880613.html >. Acesso em 27 de dezembro de 2015.

[4] Tumba egipcia era de la hermana y no de la nodriza de Tutankamón, dice arqueólogo. Disponível em < http://www.lagranepoca.com/ciencia-y-tecnologia/35733-tumba-egipcia-era-de-la-hermana-y-no-de-la-nodriza-de-tutankamon-dice-arqueologo.html >. Acesso em 27 de dezembro de 2015.

Egipto abre al público en Saqqara la tumba de Maya, el ama de crianza de Tutankamón. Disponível em < http://es.euronews.com/2015/12/20/egipto-abre-al-publico-en-saqqara-la-tumba-de-maya-el-ama-de-crianza-de/ >. Acesso em 27 de dezembro de 2015.

Egyptian pharaoh Tutankhamun’s wet nurse might have been his sister. Disponível em < http://www.theguardian.com/culture/2015/dec/21/egyptian-pharaoh-tutankhamuns-wet-nurse-might-have-been-his-sister >. Acesso em 27 de dezembro de 2015.

El otro misterio del faraón Tutankamón que deja perplejos a los científicos. Disponível em < http://www.periodistadigital.com/america/cultura/2015/12/23/el-otro-misterio-del-faraon-tutankamon-que-deja-perplejos-a-los-cientificos.shtml?utm_medium=twitter&utm_source=twitterfeed >. Acesso em 27 de dezembro de 2015.

Otro misterio del faraón Tutankamón deja perplejos a los científicos. Disponível em < https://actualidad.rt.com/ciencias/194916-faraon-tutankamon-tumba >. Acesso em 27 de dezembro de 2015.

Tomb of Tutankhamun’s wet nurse in Egypt’s Saqqara opened to public. Disponível em < http://english.ahram.org.eg/News/174009.aspx >. Acesso em 27 de dezembro de 2015.

Tutankhamun’s half-sister Meritaten might have also been his wet nurse, archaeologists say. Disponível em < http://www.independent.co.uk/news/science/archaeology/tutankhamuns-half-sister-meritaten-might-have-also-been-his-wet-nurse-archaeologists-say-a6781231.html >. Acesso em 27 de dezembro de 2015.