Tumba de mais de 3.000 de um “tesoureiro real” é descoberta no Egito

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Esta semana tivemos mais um anúncio de uma descoberta arqueológica realizada no Egito, desta vez é na área de Tuna Al-Gabal em Minya. Lá uma equipe egípcia de arqueologia descobriu a tumba de um supervisor do tesouro real chamado Ba di ist.

Foto: Ministério de Turismo e Antiguidades

Mustafa Waziry, Secretário-Geral do Supremo Conselho de Antiguidades e chefe da missão, explicou que o túmulo consiste em um poço de sepultamento que contém 10 metros de profundidade. Tal poço leva a uma grande sala com nichos esculpidos na rocha. Nesse espaço foram encontradas duas estátuas: uma representando uma mulher e outra representando o deus Ápis, divindade em forma de um touro.

Foto: Ministério de Turismo e Antiguidades

O grande destaque está em quatro jarros canópicos (recipientes onde os órgãos das múmias eram guardados) feitos com alabastro e que estão em ótimo estado de conservação. Caso queria conhecer um pouco sobre o que são vasos canópicos e sua serventia, tem um vídeo no nosso canal:

Outros artefatos foram encontrados, dentre eles 400 ushabtis de faiança azul e verde com o nome do falecido. Ushabtis são estatuetas que eram colocadas nos túmulos para que pudessem exercer trabalhos manuais no além em nome do morto.

Foto: Ministério de Turismo e Antiguidades

Não ficou de todo claro no comunicado de imprensa, mas aparentemente mais seis sepultamentos de membros da família de Ba di ist — contendo cerca de 1.000 ushabtis de faiança e outros grupos jarros canópicos, foram encontrados na região. Além disso, 4 sarcófagos de pedra foram descobertos intactos, ainda selados com argamassa. Esses sepultamentos foram datados como pertencentes a 26ª e 30ª dinastias.

Fonte:

Egypt- Tomb of ancient Royal Treasury Supervisor uncovered in Minya Governorate. Disponível em < https://menafn.com/1101011944/Egypt-Tomb-of-ancient-Royal-Treasury-Supervisor-uncovered-in-Minya-Governorate >, acesso em 28 de outubro de 2020.

O que são os “vasos canópicos”?

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Durante a antiguidade egípcia a crença, de uma forma geral, era que após a morte os falecidos realizariam uma viagem que os levariam ao paraíso. Entretanto, para que esta jornada pudesse ocorrer, eram necessários alguns procedimentos para dar ao morto a chance de realizar esta passagem. Um deles era que o seu corpo fosse mumificado, situação em que alguns dos seus órgãos seriam postos em recipientes que atualmente são chamados de “vasos canopos” ou “vasos canópicos”.

— Assista também: 8 curiosidades sobre múmias egípcias.

Para falar deste assunto postei um vídeo no canal do Arqueologia Egípcia no Youtube. Para conferir assista abaixo. Aproveite e inscreva-se no canal.

Para ocorrer a mumificação era necessário que o corpo fosse ressecado, entretanto, os órgãos possuem muito líquido e para que eles não comprometam o embalsamamento usualmente eles eram retirados do corpo, mumificados separadamente e depositados em recipientes chamados atualmente de vasos canópicos, exceto o cérebro e o coração: o primeiro era jogado fora e o segundo mumificado também, mas posto de volta no corpo (BIERBRIER, 2008).

Imagem 1: Desenho de vaso canópico. Fonte: Revista Segredo das Múmias.

Não foi encontrado durante as pesquisas bibliográficas qual seria o fim dado para o útero ou outros órgãos. Há quem sugira que poderiam ser considerados como “intestinos” e postos no recipiente Kebehsenuef, mas isso carece de confirmação.

Usualmente podemos reconhecer esses objetos graças ao seu formato peculiar que traz as cabeças dos chamados “4 filhos de Hórus” (Imagem 2), cuja mitologia não nos é clara. Quando depositados na tumba eles eram protegidos também por mais quatro divindades, femininas todavia, e obedeciam aos pontos cardeais (BIERBRIER, 2008). Confiram o quadro a seguir:

Vasos Canópicos

Deusas protetoras Pontos Cardeais Vísceras Iconografia Filhos de Hórus
Neit Leste Estômago Chacal Duamutef
Néftis Norte Pulmões Babúino Hapi
Ísis Sul Fígado Homem Imseti
Selket Oeste Intestinos Falcão Kebehsenuef

Imagem 2: Vasos canópicos com o tema dos “4 Filhos de Hórus”, pertencente a um sacerdote de Amon, Padiuf (Terceiro Período Intermediário; XXII Dinastia). Fonte: Revista Egiptomania.

Imagem 3: Vasos canópicos datados da Baixa Época (MARIE; HAGEN, 1999, p. 154).

Voltando aos “4 filhos de Hórus”, apesar da imagem dos vasos canópicos serem tão reconhecíveis graças a esses deuses a verdade é que estes artefatos podem ser encontrados em outras formas: durante o Antigo Reino eles eram potes simples (Imagem 4) e especialmente durante o Novo Império podemos encontrá-los enfeitados somente com cabeças humanas (BIERBRIER, 2008; JIRÁSKOVÁ, 2015).

Imagem 3: Vaso canópico do Antigo Reino. Foto: M. Frouz (JIRÁSKOVÁ, 2015).

Imagem 5: Exemplo de vaso canópico do Novo Império com cabeça humana. Este pertence a rainha Kiya. Fonte: Revista Egiptomania.

Acerca da sua confecção, os tipos de matérias-primas utilizadas para fazer este artefato não variavam muito, sendo usualmente feitos de rochas derivadas do calcário e em alguns casos é possível encontrá-los feitos com alabastro, que era mais nobre (JIRÁSKOVÁ, 2015).

Curiosidades:

O nome “canópico” não é egípcio, ele foi dado para estes vasilhames porque os antiquários do século XIX os associaram com um herói mitológico grego, Canopus, que de acordo com a lenda teria sido sepultado em uma urna com cabeça humana (BIERBRIER, 2008; DAVID, 2011). É um dos muitos casos em que a cultura clássica influenciou a interpretação histórica do Egito faraônico por parte dos olhos modernos.

 Em algumas situações foi visto que os órgãos não foram postos em vasos. Assim como o coração eles poderiam ser mumificados e devolvidos para o interior do falecido (BIERBRIER, 2008).

Referências bibliográficas:

BIERBRIER, Morris L. Historical dictionary of Ancient Egypt. Maryland: The Scarecrow Press, Inc, 2008.

DAVID, Rosalie. Religião e Magia no Antigo Egito (Tradução de Angela Machado). Rio de Janeiro: Difel, 2011.

JIRÁSKOVÁ, L. Damage and repair of the Old Kingdom canopic jars: the case at Abusir. PES XV, 2015.

MARIE, Rose; HAGEN, Rainer. Egipto (Tradução de Maria da Graça Crespo). Lisboa: Taschen, 1999.