Uma discussão que parece está em todas as partes do mundo é a que diz respeito às conclusões tiradas pelos os mais diferentes bioarqueologos sobre a identidade e causa da morte de indivíduos egípcios da antiguidade. Neste material vou comentar somente três casos de tumbas do Vale dos Reis cujas múmias ou ossos encontrados levantam questionamentos até hoje.
1.0: Crimes contra múmias
Mais que os artefatos há outras e não menos importantes testemunhas do passado: as múmias. Se utilizando da arqueologia forense é possível identificar sexo, idade e patologias de um indivíduo, e esta ciência está sendo amplamente utilizada pela a arqueologia egípcia. No entanto, antes não era bem assim, múmias eram vendidas como suvenirs para ricos viajantesque se não pudessem levar um corpo inteiro levavam partes como mãos ou pernas. Outros relatos, igualmente bizarros, narram que pó de múmia era utilizado para fins medicinais pela a realeza européia.
Com este tipo de atitude muitas múmias se perderam. No século dezesseis, com a explosão da egiptomania na Europa, para os pesquisadores as múmias não possuíam valor algum, a não ser como figuras místicas, testemunhas caladas de um passado remoto. A princípio o que valia era o ouro e as grandes obras arquitetônicas.
No inicio do século vinte começou a ocorrer certo interesse em se descobrir um pouco mais sobre as múmias dos grandes governantes, embora não se tivesse o cuidado com os corpos da forma que é requisitado hoje em dia. Temos alguns exemplos de pesquisas bem antes da descoberta da tumba de Tutankhamon em 1922, e o primeiro caso da nossa discussão tem relação com uma destas.
Primeiro caso: a KV-55
Descoberta em 1907 por Edward Ayrton (1905 - 1908) que trabalhava para Theodore Davis (1837 –1915), a KV-55 é famosa por ser um esconderijo da era chamada de amarna, além de ter abrigado um dos esqueletos que trás para si um dos maiores enigmas para a arqueologia no Egito: sua identidade. Olhando os artefatos da tumba os pesquisadores da época deduziram que ali poderia ser a última morada da rainha Tiye, mãe de Akhenaton, já que encontraram alguns objetos com o nome dela .

Imagem 01: visão de dentro da KV-55 após sua descoberta. Observe a terceira imagem à direita: mostra que o nome do portador do sarcófago está apagado. Dentro do túmulo havia uma bagunça quase catastrófica.
Na época o esqueleto foi examinado duas vezes, no primeiro, realizado em 1907 foi definido que o individuo era do sexo masculino e tinha entre seus 25 a 30 anos quando morreu, mas esta conclusão só foi publicada em 1910 apos uma dupla examinar o cadáver e deduzir que o individuo era do sexo feminino e tinha os seus 60 anos quando morreu. Depois, em 2000, novamente tornou-se masculino de com entre de 25 a 30. Achou-se então que era Akhenaton, mas por conta da idade do individuo a outra sugestão proposta foi o seu co-regente Smenkharé. Em fevereiro de 2008 o esqueleto foi examinado mais uma vez e foi concluído que teria mais de 60 anos no dia da morte.
Segundo caso: a KV-62
Essa deveria conter uma das múmias mais bem preservadas do Egito, mas por decorrência da manobra do médico responsável por tirar o ouro da múmia o que sobrou foi uma terrível surpresa para a equipe responsável pelo o primeiro raio-x do faraó Tutankhamon em 1968. O corpo do rei estava em pedaços.

Anos mais tarde Greg Cooper e Lieutenant Mike King gravaram o documentário “O Assassinato de Tutankhamon”, como foi chamado aqui no Brasil, onde é levantado que o rei teria Klippel-Feil e foi assassinado com um golpe na cabeça.
- O que é Klippel-Feil?
É uma doença óssea cuja uma das principais características é a fusão das vértebras e escoliose.

Indivíduos com Klippel-Feil não possuem liberdade de movimentos, o que tornaria impossível executar as tão famosas caçadas de Tutankhamon. Como se pode observar na segunda figura em baixo a cor azul mostra as vértebras fusionadas, e acima mostra como é a postura de um portador de Klippel-Feil e a dificuldade de movimentação do pescoço.
No mesmo documentário, com o a chapa de Raio X do faraó foi feita uma reconstituição facial nos EUA.
- A tomografia em 2005 e uma segunda reconstituição facial:
A tomografia feita sob a direção do Dr. Zahi Hawass tirou conclusões que reverteram o quadro da morte, e vida, de Tutankhamon.

Pela a tomografia foi observado que o que seria um ferimento no crânio que teria causado a morte do rei, como mostrava o documentário de anos antes, na verdade era um orifício feito durante a mumificação.

A imagem acima, também da tomografia, mostra o rei por inteiro, sua dentição e a região dos joelhos. Algumas das conclusões foram:
- Tutankhamon teria, de fato, morrido aos 18 a 19 anos (como indica a dentição e a não fusão das epífises);
- Media cerca de 1.70m;
- Sua patela esquerda não se encontra no lugar.
- Possuía um crânio dolicocefalico.
A ausência da patela pode ter contribuído para a sua morte. A teoria seria de que ele se feriu gravemente nessa região, contraiu uma infecção que aí sim levaria a sua morte.
- As reconstituições faciais que deram o que falar:
A segunda reconstituição facial foi feita na França e mostra um Tutankhamon diferente da feita pelos os norte-americanos.

Terceiro caso: a KV-35
Essa tumba foi encontrada por Victor Loret em 1899, mas anos depois é que viria a fazer parte de uma grande confusão. Em 2003, a egiptóloga Joann Fletcher acreditou ter encontrado lá a rainha Nefertiti divulgando uma reconstituição facial da múmia.

Imagem :Na ordem: Nefertiti; a múmia encontrada em um esconderijo da KV-35 e a reconstituição encomendada por Joann Fletcher.
A Dra. Fletcher acreditava ter encontrado a rainha devido a dois furos na orelha esquerda da múmia que, segundo ela, quem só teria seria Nefertiti e uma de suas filhas, além de uma peruca encontrada próximo do cadáver que ela identificou como sendo do modelo usado por Nefertiti. Porem ela contatou primeiro a imprensa em vez de cumprir a lei, que era comunicar primeiramente ao órgão egípcio responsável pelas as descobertas arqueológicas, como então declarou Dr. Zahi Hawass “Indo primeiro à imprensa com o que ela considerava uma grande descoberta, a doutora Fletcher quebrou o acordo" e a proibiu de ter acesso ao patrimônio histórico egípcio.
Um exame posterior de DNA da múmia foi encomendado e constatou-se que na verdade era de um homem. Mas tarde Dr. Hawass pediu para ser feita uma tomografia da múmia e foi constatado mais uma vez que seria uma mulher, mas só que muito mais nova que Nefertiti.
Conclusão
Alguns pesquisadores buscam pela a grande descoberta, mas acabam por se confundir dentre o que realmente é importante para a pesquisa se influenciando não só por outras fontes, como o contexto do local, mas como também por suas próprias convicções que podem ser vazias.
O que chamei de “escândalo” nada mais é que as reviravoltas que a bioarqueologia deu quanto aos diagnósticos sobre o sexo, idade e causa da morte dos indivíduos. Apesar dos incríveis resultados ela ainda pôde cometer seus erros. Esses três casos citados ilustram bem isso.
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De acordo com C. JACQ a escavação não foi bem documentada (JACQ: 211) o que ocasionou em perdas de varias informações.
Referências dos textos e imagens:
Revista História - Múmia Desaparecida, pag 36. Março de 2005
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