Um “aventureiro” ou um “explorador”?

 

Certa vez vi que um apresentador de documentários da Discovery Channel se fez a mesma pergunta, sendo que ele mesmo só pensou nisto após um amigo levantar tal questionamento.

Embora em arqueologia ambos os termos não sejam muito bem vistos devido ao contexto que se desenrolou no século 19 durante o nascimento da disciplina, ambas as definições possuem significados diferentes. Um aventureiro, como a própria palavra diz, está em busca de uma aventura, quer somente a adrenalina, ele se preocupa mais em tirar fotos para dizer “eu estive lá”, já um explorador é aquele que viaja para conhecer lugares e até cultiva um diário de viagem onde descreve os locais que conheceu e as pessoas, além de se preparar exaustivamente (seja lendo sobre o local, ou economicamente) antes de embarcar rumo a outros lugares.

Pensando sobre isto acabei lembrando de alguns textos que o meu pai tinha guardado sobre o coronel Percy Fawcett (1867 – 1925), um inglês que se perdeu na Amazônia em busca de uma cidade de ouro. Alguns o classifica como explorador, já que veio ao Brasil com fins de documentação, mas eu o considero mais um aventureiro, já que ele não avaliou bem os perigos e mesmo quando percebeu que a viajem dele não tinha mais nenhum sentido seguiu em frente, enviando assim ele mesmo, um amigo e seu filho para a morte.

 

 

Percy Fawcett

 

Outra coisa que achei muito interessante é que para algumas pessoas estas duas definições se aplicam ao trabalho de arqueologia, embora, o aspecto “aventureiro” não tenha relação com qualquer arqueólogo atualmente (ok, muito embora andar de bermuda em meio a caatinga como alguns fazem é ser aventureiro até de mais).

Já alguém que considero um ótimo exemplo de explorador, ou melhor, exploradora, é a fotografa Ulla Lohmann, que fez um trabalho incrível com a tribo Anga (Papua Nova Guiné) documentando imagens deste povo africano e suas múmias, cuja existência seria posta ao esquecimento sem a sua intervenção.

 

 

Ulla Lohmann

 

Quando penso nestes dois exemplos penso em alguns e-mails que recebo de pessoas que querem seguir a carreira de arqueólogo usando a justificativa de que está em busca de “aventura”, acredito que a maior aventura que você terá é efetuar uma escavação sem o consentimento do IPHAN e ser autuado por isto…

Márcia Jamille

Arqueóloga formada pela UFS com a monografia “Egito Submerso: a Arqueologia Marítima Egípcia” e mestra em Arqueologia também pela UFS com a pesquisa “Arqueologia de Ambientes Aquáticos no Egito: uma proposta de pesquisa das sociedades dos oásis do Período Faraônico”. É administradora do Arqueologia Egípcia e autora do livro "Uma viagem pelo Nilo". [Leia seu perfil]