Trabalho no Egito antigo: greves, maus-tratos e direitos

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille | Instagram

A sociedade egípcia era extremamente hierarquizada. São raros os exemplos de pessoas de determinadas classes sociais mais baixas que ascenderam na vida[1]. O comum era que o pai/mãe ensinasse a sua função para os seus filhos porque tinham a certeza de que seriam sucedidos por eles (FROOD, 2010; SPENCER, 2010).

A maioria das funções tinha como objetivo suprir as necessidades do Estado tanto no âmbito político-religioso – como era o caso dos sacerdotes, escribas, militares, artesãos, etc. – como para a subsistência/sobrevivência – agricultores, administradores, médicos, etc.-.

Algo que se tem que levar em consideração é que cargos isolados nos dias de hoje no Egito Antigo poderiam ser exercidos por somente um indivíduo, por exemplo, um general estaria apto a exercer também o cargo de arquiteto ou escriba.

Todos recebiam pagamento, que eram feitos através de escambo ou da permuta. É aqui onde entra a questão da escravidão no Egito, tão impregnada no senso comum graças a décadas de uma literatura acadêmica não revisada sobre o tema. Esse é, assim como muitos outros, um assunto muito nebuloso e que requer mais atenção por parte dos pesquisadores. Existia no país um sistema de servidão imposto tanto para o indivíduo egípcio como para o estrangeiro. A servidão nesta área do mundo é algo que necessita ser pensada a parte de outras sociedades as quais eles foram contemporâneos, principalmente porque o sentimento de liberdade entre os egípcios era visto de uma forma diferente, especialmente para os parâmetros modernos.

Já outro tema tem recebido muito mais atenção: alguns artigos e livros têm discutido nos últimos anos a importância do gênero em relação as divisões de trabalho. Não existe um consenso sobre, por exemplo, as limitações que poderiam ser impostas às mulheres, embora saibamos que profissões usualmente vistas como femininas nos dias de hoje não o era na antiguidade egípcia, como era o caso do cozinheiro ou camareiro.

Em algumas iconografias crianças podem ser vistas exercendo algumas atividades ao lado dos pais. Elas começavam com coisas fáceis e simples e com o tempo exerciam atividades mais complexas. Contudo, sabe-se de um caso de trabalho infantil durante o final do Novo Império que foi questionado por seus contemporâneos, onde uma família foi criticada por manter uma criança como empregada doméstica (FROOD, 2010).

 

Direito para os trabalhadores:

Os remanescentes ósseos nos proporcionaram algumas surpresas desagradáveis em relação a populações mais simples, em especial aqueles indivíduos relacionados com as grandes construções: no sítio arqueológico de Amarna, por exemplo, foram encontradas nos ossos marcas de stress provocadas por grandes esforços físicos e anemia severa (ROSE, 2006). E em Gizé exemplos de ossos fraturados por conta de acidentes de trabalho foram identificados [2].

Apesar da visão pouco amistosa que esses trabalhos mais pesados nos proporcionam, no próprio platô de Gizé foi notado que alguns desses mesmos ferimentos foram imediatamente tratados. Evidências arqueológicas inclusive sugerem que médicos estavam disponíveis para tratar os trabalhadores [2].

Pesquisas arqueológicas também nos mostram que mulheres durante a sua menstruação eram liberadas por seus empregadores, que por sua vez davam uma baixa explicando o motivo do afastamento (WILFONG, 2010).

Apesar da visão de mundo que os egípcios possuíam de que era uma honra servir e obedecer ao faraó, alguns momentos históricos nos mostram que não era bem assim. Um importante exemplo é a greve realizada por trabalhadores de Deir el-Medina durante o reinado de Ramsés III (RICE, 1999). Graças a ausência de recebimento de suprimentos os construtores do rei se negaram a exercer suas atividades até que seus direitos fossem respeitados. Eles, inclusive, ocuparam um templo. O resultado? O faraó cedeu [3].

A arqueologia ainda tem um longo caminho pela frente para tentar entender mais acerca de como o trabalho era visto na antiguidade egípcia. Mas o panorama para os próximos anos é favorável, visto o número cada vez mais crescente de bibliografias revisadas e trabalhos mais críticos sobre o assunto.

 

Referências bibliográficas:

Frood, Elizabeth. Social Structure and Daily Life: Pharaonic. In: LLOYD, Alan, B (Ed). A Companion to Ancient Egypt. England: Blackwell Publishing, 2010.

ROSE, Jerome C. Paleopathology of the commoners at Tell Amarna, Egypt, Akhenaten’s capital city. Memórias do Instituto Oswaldo Cruz (Suppl. II), 2006.

Spencer, Neal. Priests and Temples: Pharaonic. In: LLOYD, Alan, B (Ed). A Companion to Ancient Egypt. England: Blackwell Publishing, 2010.

STROUHAL, Eugen. A vida no Antigo Egito (Tradução de Iara Freiberg, Francisco Manhães, Marcelo Neves). Barcelona: Folio, 2007.

WILFONG, T. G. “Gender in Ancient Egypt”. In: WENDRICH, W. (Ed). Blackwell Studies in Global Archaeology: Egyptian Archaeology. New Jersey: Wiley-Blackwell, 2010.

[2] The Pyramid Builders. Disponível em < http://ngm.nationalgeographic.com/ngm/data/2001/11/01/html/ft_20011101.5.fulltext.html >. Acesso em 01 de maio de 2017.

[3] Records of the strike in Egypt under Ramses III, c1155BC. Disponível em < https://libcom.org/history/records-of-the-strike-in-egypt-under-ramses-iii >. Acesso em 01 de maio de 2017.


[1] O conceito de classe social surgiu na contemporaneidade, aqui está sendo utilizado de forma meramente ilustrativa.

Márcia Jamille

Arqueóloga formada pela UFS com a monografia “Egito Submerso: a Arqueologia Marítima Egípcia” e mestra em Arqueologia também pela UFS com a pesquisa “Arqueologia de Ambientes Aquáticos no Egito: uma proposta de pesquisa das sociedades dos oásis do Período Faraônico”. É administradora do Arqueologia Egípcia e autora do livro "Uma viagem pelo Nilo". [Leia seu perfil]