(Artigo) Senhora da casa, divindade e faraó as várias imagens da mulher do Antigo Egito

Senhora da casa, divindade e faraó as várias imagens da mulher do Antigo Egito – Julio Gralha | Português |

O presente artigo é um breve trabalho sobre o papel (em boa parte através da iconografia), desempenhado pela mulher no Antigo Egito tomando por base três aspectos que consideramos significativos. O primeiro, relativo ao cotidiano da egípcia comum como ― senhora da casa (nbt-pr). O segundo como divindade, notadamente membros da família real, tanto após a morte (mais comum) quanto em vida. Por último a mulher na condição de monarca, Rei do Alto e Baixo Egito (nsw bity).

Obtenha o artigo Senhora da casa, divindade e faraó as várias imagens da mulher do Antigo Egito.

Casamento e virgindade no Antigo Egito

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

O ocidente se criou sob a sombra das famílias patriarcais, onde a “honra imaculada” da mulher era muito presada. Esta foi uma regra comum entre os membros da elite, que além de apoiar o domínio dos pais, irmãos e futuramente os maridos, procurava garantir que o patrimônio não seria dado para uma criança gerada de outro homem. E foi inspirado neste pensamento que os primeiros egiptólogos começaram a interpretar o casamento no Egito Antigo, modelo esse que é seguido ainda hoje, sem críticas mais apuradas. Por exemplo, a interpretação do papel de cada conjugue no casamento parece ter sido “infectado” pelo o ponto de vista da nossa contemporaneidade.

Usualmente é descrito que homens eram os mantedores da casa, enquanto a mulher era a responsável pela a organização do lar e o cuidado dos filhos. Temos até textos clássicos que são usados para afirmar isto, como o “Ensino de Ptahhotep” (ZABA, 1956 apud TOIVARI-VIITALA, 2013) em que um rapaz é aconselhado a fundar uma família quando ainda é jovem para poder ter crianças. Ele deve amar sua esposa, respeitá-la e mantê-la sob controle, mas este texto é proveniente da elite e não parece ter sido adotado como uma regra geral, mas somente um conselho entre partidários. O próprio Strouhal (2007), que será amplamente citado neste texto, defende uma visão arcaica do que teria sido o casamento no Egito Antigo, contudo, observando os indícios escritos e arqueológicos de uma forma mais questionadora observamos que a realidade poderia ter sido um pouco mais diferente. De fato o cuidado com a criança parecia ser uma prioridade da mãe, contudo, a gerência do lar poderia ser do homem ou da mulher.

Cena familiar no Antigo Egito. Imagem disponível em < http://artehistoriaegipto.blogspot.com.br/2012_01_22_archive.html >. Acesso em 10 de setembro de 2014.

No Período Faraônico, a palavra utilizada para designar esposa foi Hmt e marido hay (TOIVARI-VIITALA, 2013). Estas menções foram encontradas em vários objetos que tinham como uma de suas funções apresentar ao receptor a ligação matrimonial entre um homem e uma mulher e são vistos deste os primórdios das dinastias. As referências textuais ao casamento mais antigas são provenientes do Antigo Reino em edifícios, túmulos da realeza e artefatos móveis, usualmente derivados da elite. Tais referências consistem na descrição de algum título que indica o estado civil dos citados, ou seja, a condição deles de casados (TOIVARI-VIITALA, 2013).

Merit e seu esposo Maya. Imagem disponível em < http://www.rmo.nl/english/collection/highlights/egyptian-collection/statue-of-maya-and-merit >. Acesso em 08 de julho de 2014.

Embora anteriormente à 16ª Dinastia (Segundo Período Intermediário) as mulheres gozassem de certa liberdade — o que para gregos e romanos era considerado algo escandaloso (EL-QHAMID; TOLEDANO, 2007) —, quem definia se o homem que elas tinham escolhido era o ideal era o pai e na ausência deste um tio, contudo, após este período, elas tinham voz em suas decisões, embora casamentos arranjados tenham existido até o final do Faraônico (STROUHAL, 2007).

Algo como “noivado”, ou um acordo prévio que tratasse o casamento como uma promessa entre um casal é desconhecido, mas o par estava livre para namorar e mesmo ter relações sexuais (STROUHAL, 2007). O enlaço sexual, tanto antes, como posterior ao casamento, era aconselhado para que ocorresse somente após a puberdade de ambos os jovens e no caso de uma gravidez indesejada, embora o aborto não fosse bem visto (já que a ideia era perpetuar a linhagem da família), existiam receitas para realizar o que chamavam de “desvio de gravidez” (STROUHAL, 2007).

Contudo, quando se tratava de um futuro casal da realeza, a aliança poderia ocorrer muitos anos antes da maturação sexual do casal, visando não o amor ou a harmonia entre os casados, mas a conveniente união entre famílias e ordens religiosas.

Tutankhamon e Ankhesenamon. Imagem disponível em < http://www.ancient-egypt.co.uk/luxor/images/luxor_2004_027.jpg >. Acesso em 10 de setembro de 2014.

Sabe-se que era popular o matrimônio incestuoso tanto dentro da realeza, como entre as camadas mais populares, no entanto, tal prática tornou-se de fato obrigatória durante o Período Ptolomaico, quando a nobreza tentou agregar para si uma identidade semelhante aos dos deuses (STROUHAL, 2007). Porém, não necessariamente um casal que chamam um ao outro de “irmã (o)” de fato tinham uma ligação sanguínea. Em verdade tal termo buscava explanar algo carinhoso, indicando um forte vínculo com quem se amava (STROUHAL, 2007).

A festa para comemorar a nova vida juntos usualmente consistia em um banquete que reunia o casal com seus familiares e amigos. Um acordo social — escrito e assinado na presença de testemunhas — definia quais eram os bens da mulher e do homem antes do casamento, em uma eventual separação era necessária a correta divisão dos bens segundo este acordo. Contudo, no caso de grandes discórdias, eram feitas seções para decidir o que cada um tinha por direito (STROUHAL, 2007).

Nebamun e sua esposa. Imagem disponível em < http://www.flickr.com/photos/menesje/sets/72157622616113777/ > Acesso em 14 de maio de 2011.

Como o sexo era permitido antes do matrimonio, naturalmente é de considerar que a virgindade não era um tabu ou algo necessário. O que se esperava é que a esposa não estivesse grávida de outro homem. Embora uma criança com uma ligação sanguínea com a família fosse desejada, a adoção foi um ato cultural e existem registros de testamentos tanto de mulheres como de homens que deixaram seus bens para filhos adotivos (STROUHAL, 2007).

O adultério era condenável para ambos os lados. Caso o casal julgado fosse condenado, ambos eram chicoteados publicamente ou marcados e existiram penas que iam desde o exílio para a Núbia até cortar o nariz ou as orelhas (STROUHAL, 2007). Se levarmos a sério os textos ficcionais como o Papiro Westcar, podemos crer que a pena de morte para estes casos no Antigo Reino era aceitável. Nele, um sacerdote traído pede auxílio ao Faraó, que por sua vez condena o amante da esposa a ser devorado por um crocodilo feito de cera (que se transforma em um animal de verdade) e a mulher a ser queimada e tuas cinzas jogadas no Nilo (EL-QHAMID; TOLEDANO, 2007). Acontecimento semelhante é contato na história dos irmãos Bata e Anúbis: este último, ao descobrir que a esposa assediava o irmão, pede o assassinato da mesma e que o seu corpo seja jogado aos cães (STROUHAL, 2007). Contudo, ao contrário desses textos, nem todas as traições terminavam de forma dramática, alguns documentos citam o divórcio por tais motivos sem incidentes (STROUHAL, 2007; LORTON, 1977; GALPAZ-FELLER, 2004; TOIVARI-VIITALA, 2001 apud TOIVARI-VIITALA, 2013).

Entretanto, a violência contra o gênero feminino também foi registrada em textos não fictícios, como atesta um documento onde a mulher denuncia o crime:

“Meu esposo me bate com um látego, e quebrou meu braço como se fosse um junco. Meu primogênito me deu um pontapé, e esta manhã não pude levantar-me da cama” (EL-QHAMID; TOLEDANO, 2007, pág 111).

Outro motivo para o divórcio poderia ser a não satisfação sexual: a esposa poderia acusar o marido de não satisfazê-la sexualmente e assim dar entrada na separação (EL-QHAMID; TOLEDANO, 2007). Procurando evitar isto alguns homens acionavam médicos que cuidavam do seu problema, definido como “doença de homem” (EL-QHAMID; TOLEDANO, 2007).

União homossexual:
Alguns pesquisadores têm se empenhado, desde o início da Egiptologia, em negar a existência da prática homossexual no Egito Antigo, a exemplo de Frank Fortis que na década de 1950 tendia a negar veemente o enlace sexual entre pessoas do mesmo gênero, ao mesmo tempo que afirmava que tal prática era tolerada. Além deste discurso contraditório ele possuía uma visão preconceituosa, afirmando que as mulheres e homens egípcios eram miseráveis sexualmente e limitados culturalmente (EL-QHAMID; TOLEDANO, 2007).

Mas, a despeito da negativa, existem textos egípcios que apresentam a homossexualidade tais como o do Papiro Prisse (Médio Reino), em posse da Biblioteca Nacional de Paris e o Papiro 10509, sob a custódia do Museu Britânico (EL-QHAMID; TOLEDANO, 2007).

Referências:

COELHO, Liliane Cristina; BALTHAZAR, Gregory da Silva. As múltiplas sensibilidades do feminino na literatura egípcia do Reino Novo (c. 1550-1070 a.c.). In: CANDIDO, Maria Regina [org.] Mulheres na Antiguidade: Novas Perspectivas e Abordagens. Rio de Janeiro: UERJ/NEA; Gráfica e Editora-DG ltda, 2012.
EL-QHAMID; TOLEDANO, Joseph. Erotismo e sexualidade no Antigo Egito (Tradução de Suzel Santos, Carlos Nougué). Barcelona: Folio, 2007.
STROUHAL, Eugen. A vida no Antigo Egito (Tradução de Iara Freiberg, Francisco Manhães, Marcelo Neves). Barcelona: Folio, 2007.
TOIVARI-VIITALA, J. “Marriage and Divorce”. UCLA Encyclopedia of Egyptology, 1-17. Retirado de https://escholarship.org/uc/item/68f6w5gw (2013)

A faraó Hatshepsut precisou se portar em tempo integral como um homem?

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

 

Faraó Hatshepsut usando adereços masculinos. Imagem retirada de MARIE, Rose; HAGEN, Rainer. Egipto. (Tradução de Maria da Graça Crespo) 1ª Edição. Lisboa: Editora Taschen, 1999.

Faraó Hatshepsut usando adereços masculinos. Imagem retirada de MARIE, Rose; HAGEN, Rainer. Egipto. (Tradução de Maria da Graça Crespo) 1ª Edição. Lisboa: Editora Taschen, 1999.

O leitor e aluno de Arqueologia da UFS, José Nicolas Santos, deixou uma pergunta interessante no post sobre a faraó Hatshepsut. Ele quer saber se por conta dela se fazer representar fisicamente como um homem nos templos e mitos após se tornar faraó, se ela também o fazia em frente aos súditos e teria inclusive que se portar tal como um homem. Eu o respondi lá no próprio post, mas coloco também a resposta aqui com algumas informações complementares:

Ao contrário de outras faraós, aparentemente a Hatshepsut foi a única que utilizou todo um vestuário masculino (outras tendiam a utilizar somente alguns objetos, uma delas, a Sobekneferu, usava a roupa masculina por cima da feminina) ao se fazer representar como Faraó. Ela, inclusive, era registrada em imagens totalmente como a aparência da biologia masculina, mas provavelmente não adotou um modo de vida como um homem, afinal, não teve uma Grande Esposa Real, o que era usual para aqueles que exerciam o cargo régio.

Outras faraós também não adotaram Grandes Esposas Reais, o que levou à conclusão por parte de alguns acadêmicos de que como as Faraós eram mulheres assumindo roupagens masculinas elas já englobavam a dualidade masculina e feminina que unidas criavam o equilíbrio, assim não era necessário ter uma Grande Esposa Real, o que, inclusive, tendia a criar um problema de sucessão, exceto para Hatshepsut, que já tinha Tutmés III para substituí-la.

Sobre aparecer para o povo, não era comum ao faraó se mostrar para a população, independente se eram das classes mais baixas ou da nobreza, alias isto era algo extremamente honroso, só para ter uma ideia era tão incomum alguém olhar para a figura do faraó que quando uma pessoa tinha o privilégio de beijar a areia que ele acabou de pisar (já que usualmente era o local que eles poderiam olhar) achava digno registrar isto em sua tumba.

Hatshepsut (esquerda) realizando oferendas para Amon-Min. Foto disponível em: MARIE, Rose; HAGEN, Rainer. Egipto. (Tradução de Maria da Graça Crespo) 1ª Edição. Lisboa: Editora Taschen, 1999.

Hatshepsut (esquerda) realizando oferendas para Amon-Min. Foto disponível em: MARIE, Rose; HAGEN, Rainer. Egipto. (Tradução de Maria da Graça Crespo) 1ª Edição. Lisboa: Editora Taschen, 1999.

Além do mais, no caso da Hatshepsut, a população comum em peso era iletrada e não tinha acesso aos templos para saber bem o que estava ocorrendo, exceto o básico, que Hórus estava reinando, mas de fato para muitos, inclusive de fora do ambiente sacerdotal, não era segredo que Hatshepsut era uma mulher e aparentemente conviviam bem com isto: ela era a filha de um deus, sua acessão ao trono era um programa divino e o país estava cada vez mais rico sob sua gerencia. Em resumo, ela estava cuidando bem da manutenção da Maat, ou seja, do equilíbrio.

Já no seio familiar não sabemos se ela adotava este discurso, se ela utilizava roupas masculinas ou femininas. Infelizmente a iconografia desta época era voltada basicamente para a ideologia religiosa. Mas para não se pensar que tudo era somente paz, especula-se no meio da Egiptologia que um grafite encontrado em uma pedreira egípcia, próxima a Deil el Bahari, registrando uma mulher com uma coroa real (mais especificamente o Nemes) tendo relações sexuais com um homem poderia se tratar de Hatshepsut e Senenmut, o que mostra que poderiam existir fofocas acera da relação da Faraó com um homem de fora da casa real.

Haréns egípcios

 Por Márcia Jamille Costa | @MJamille

Os haréns sempre despertaram a curiosidade ocidental europeia onde a poligamia, além de tabu, é proibida legalmente. Quem já não viu alguma imagem em filmes como “O Escorpião Rei” (2002 – The Scorpion King no original) em que o herói cai em um harém cheio de lindas moças ou reproduções europeias que em parte retratam jovens mulheres num recinto durante o banho. Apesar do apelo, o harém poderia ser bem menos libidinoso do que a imaginação indica, começando pela a desmistificação da imagem da odalisca: diz-se que elas serviam sexualmente ao sultão, mas em suma elas eram as escravas das concubinas do senhor do palácio e, obedecendo à rígida escala hierárquica do harém, elas serviam somente sua senhora.

 

Moça egípcia tocando um instrumento.

Parte da contradição acerca destes lugares começa pelo o nome. “Harém” (حريم – harîm – no árabe) define atualmente qualquer lugar onde existiriam várias mulheres para a satisfação sexual de um só homem, mas hoje, em alguns casos, o termo está sendo utilizado de forma equivocada, como é com os próprios “haréns” dos faraós, que embora tenham relação com a virilidade do rei, era permitido o acesso de qualquer pessoa, sendo onde, inclusive, era realizada a educação de príncipes e princesas. Estes edifícios eram palácios oficiais onde também poderia ser feita a diplomacia e resolvidas questões de sucessão real. Logo, o emprego do termo harém, que significa “proibido” não se adéqua a esta situação, mas já foi tão popularizado que hoje não há uma preocupação em mudar a forma de chamar.

Já no Egito de 1516 a 1798 AP, época em que esta parte da África era dominada pelo o Império Otomano, os homens mais celebres cultivavam um aposento com dezenas de moças e senhoras. As mulheres deste tipo de ambiente eram mantidas em salas isoladas ou em cômodos escondidos por portas falsas. Este é o verdadeiro harém, cujo objetivo era ser composto pelas esposas e concubinas do proprietário da casa. Os únicos homens permitidos em seu interior eram os eunucos.

 

Danças de moças de um harém egípcio. Pintura de De Montaut.

Longe do convívio com outras pessoas as mulheres passavam o tempo experimentando roupas, escutando música, dançando e cantando, vivendo desta forma praticamente em um universo à parte do masculino, assim, para retratar o interior destes lugares alguns artistas trabalhavam com descrições de terceiros, como no caso da Imagem 02 que contou com a ajuda da mãe do desenhista, por ter sido a única a possuir permissão para entrar no local.

Assim, ao nos reportarmos à visão do harém sempre acabamos relacionando a palavra à submissão feminina e virilidade masculina, e por mais que seja aceitável para alguns ou cruel para outros estes lugares eram (e o é em alguns países) um traço da sociedade e que devido à imaginação fértil de curiosos acabaram recebendo complementações alegóricas e embora desperte muito interesse ainda é um ambiente extremamente misterioso para nós que estamos de fora.

 

Referências das Imagens 01 e 02:

01: Siliotti, A. 2007 Viajantes e exploradores: a descoberta do Antigo Egito. Folio, pp 77

02: Siliotti, A. 2007 Viajantes e exploradores: a descoberta do Antigo Egito. Folio, pp 113

 

Para saber mais:

Mitos y realidades sobre el harén: mujer y autoridad en el Imperio Otomano, 09/05/2010 <http://www.libreria-mundoarabe.com/Boletines/n%BA72%20Jun.09/MitosRealidadesHaren.htm>

Um mundo distante: As Damas do Harém, 09/05/2010 <http://leopoldina-emummundodistante.blogspot.com/2009/05/as-damas-do-harem.html>