Arqueólogos descobriram parte perdida de templo solar de faraó no Egito

Uma descoberta relativamente recente na região de Abu Gurab (a norte de Abusir), no Egito, está lançando nova luz sobre a arquitetura religiosa e os cultos solares do Antigo Reino. Basicamente arqueólogos de uma missão italiana identificaram grandes partes até então desconhecidas do Templo do Vale ligado ao complexo solar do faraó Niuserre, um dos reis mais importantes da V Dinastia. Embora o templo já fosse conhecido desde o final do século XIX, quando foi explorado entre 1898 e 1901 pelo egiptólogo alemão Ludwig Borchardt, uma parcela significativa da estrutura permanecia soterrada e inacessível, principalmente devido ao lençol freático que, por mais de um século, dificultou o avanço das escavações. Apenas agora, com o emprego de novas tecnologias e métodos de investigação arqueológica, tornou-se possível explorar essa área com maior profundidade e revelar mais da metade da estrutura original do edifício.

A região de Abu Gurab e de Mênfis foi um dos centros políticos e religiosos mais importantes do Egito Antigo. Por exemplo, mesmo após deixar de ser capital, Mênfis manteve grande prestígio religioso, a ponto de faraós estrangeiros, como os cuxitas e posteriormente os governantes ptolomaicos, buscarem legitimação junto ao clero local. Já em relação ao Niuserre, ele reinou por pouco mais de trinta anos durante a V Dinastia, período marcado pela consolidação dos templos solares dedicados ao deus Rá. Seu governo envolveu não apenas a construção de seu próprio complexo funerário, mas também a conclusão de monumentos iniciados por membros de sua família. A pirâmide que mandou erguer é menor do que a de alguns de seus predecessores, o que não indica necessariamente declínio de poder, mas possivelmente limitações espaciais do terreno escolhido.

Faraó Niuserre
Pirâmide de Niuserre

A descoberta:

O templo possui mais de mil metros quadrados, o que por si só já o caracteriza como um complexo monumental, mas o que mais chama atenção é o fato de sua planta arquitetônica apresentar diferenças em relação a outros templos conhecidos da mesma dinastia.

Visão aérea do Templo do Vale do faraó Niuserre, na região de Abu Gurab (Abusir).

A equipe encontrou a entrada principal soterrada sob cerca de 1,2 metro de sedimentos do Nilo, além do piso original, bases de colunas de calcário, parte de uma coluna de granito associada ao pórtico e uma escada interna que levava ao telhado (elemento arquitetônico que sugere práticas rituais realizadas em níveis superiores da construção). Também foi identificada uma rampa inclinada em direção ao rio, característica típica dos chamados Templos do Vale, estruturas que integravam os complexos piramidais e desempenhavam papel fundamental nas cerimônias funerárias dedicadas ao faraó falecido.

Vaso restaurado encontrado nas proximidades do Templo do Vale de Niuserre.
Fragmento de parede identificado durante as escavações no Templo do Vale do faraó Niuserre.
Possíveis peças do jogo senet descobertas na área do Templo do Vale de Niuserre.

Além das estruturas arquitetônicas, a escavação revelou fragmentos de paredes de calcário com hieróglifos, menções nominais ao próprio Niuserre e objetos associados ao cotidiano e à religiosidade, como peças do jogo senet, frequentemente encontradas em contextos funerários.

Estrutura preservada do Templo do Vale do faraó Niuserre, revelada pelas escavações recentes.

Saiba mais sobre esta descoberta no vídeo abaixo: