O Ministério do Turismo e Antiguidades do Egito anunciou a descoberta, ao sul do deserto do Sinai, de um abrigo rochoso com mais de 10 mil anos. Mas a notícia mal foi divulgada e já levantou questionamentos pertinentes…
Pois bem, o achado ocorreu em Umm Arak, em um abrigo com cerca de 100 metros de comprimento, 3 metros de profundidade e 1,5 metro de altura. As imagens registradas no local retratam diferentes cenas e teriam sido produzidas ao longo de um amplo recorte temporal, desde a Antiguidade até o período islâmico. Entre elas, está a figura de um caçador acompanhado por dois cães, pessoas montadas em cavalos segurando armas, além de padrões geométricos como “x”, círculos e quadrados.

A localização do abrigo é estratégica: ele fica próximo às minas de cobre e turquesa, recursos extremamente importantes para os antigos egípcios. E é possível que o espaço tenha sido utilizado como ponto de descanso ao longo das rotas ligadas à exploração mineral.
Registros rupestres no Sinai não são incomuns, existem outros sítios arqueológicos espalhados pela região. Mas, o que chama atenção neste caso é a idade atribuída às pinturas. Algumas imagens são mais recentes, mas as consideradas mais antigas, localizadas no teto e feitas com pigmento vermelho, teriam cerca de 10 mil anos, remontando a um período cerca de 5.000 anos antes do surgimento da civilização faraônica. De acordo com o comunicado oficial, essa datação foi proposta a partir da análise estilística das ilustrações.

E é justamente aí que surge o ponto de debate! Porque o arqueólogo John Darnell, que possui certa experiencia em registros rupestres no Egito, afirmou em entrevista à Live Science que, com base nas imagens divulgadas até o momento, os desenhos parecem corresponder ao final da Antiguidade ou até possivelmente à Idade Média, ou seja, teriam menos de 2 mil anos.

Então, em busca de esclarecimentos, o portal entrou em contato com a equipe responsável pela descoberta, mas até o momento não obteve resposta. E isso pode ser um pouco frustrante, principalmente diante do cenário de algumas pesquisas no Egito que apresentam descobertas extraordinárias, mas não disponibilizam os artigos de forma acessível ao público acadêmico mais amplo e até mesmo à imprensa. Os artigos dessas pesquisas podem até existir, mas não estão de fácil acesso.
Essa foi, inclusive, uma crítica abordada por mim há alguns anos, em entrevista ao O Globo, “Em meio a críticas de pesquisadores, Egito turbina arqueologia por turismo”, e que precisa, sim, ser feita.
Eu vivi uma situação muito semelhante na época do documentário “Segredos de Saqqara”, disponibilizado pela Netflix. Embora seja um documentário belíssimo, ele me levantou muitos questionamentos. Por isso, entrei em contato com um dos pesquisadores em busca de esclarecimentos ou da disponibilização do artigo resultante da pesquisa, mas nunca obtive resposta. Este é um cenário realmente preocupante.

Quando existem casos como o meu ou o de John Darnell, onde questionamos algum ponto de uma pesquisa apresentada à imprensa, não se trata de implicância, excesso de preciosismo ou de “querer ser chato”. Trata-se de rigor científico. Anúncios extraordinários exigem dados sólidos. É justamente por isso que pesquisas desse tipo precisam estar acompanhadas das publicações acadêmicas correspondentes, para evitar dúvidas extremas e interpretações precipitadas.
Mas de qualquer maneira, independentemente da datação final das pinturas, este sítio arqueológico é importante para ampliar nosso entendimento sobre as populações que ocuparam o Sinai e suas dinâmicas no ambiente desértico, incluindo atividades como caça e exploração de matérias-primas.

Além das pinturas, foram encontradas ferramentas de pedra, cerâmicas do Médio Reino e do Período Romano, indícios de lareira e grande quantidade de esterco animal. Tudo isso indica que o abrigo foi utilizado ao longo de milênios tanto por grupos humanos quanto por animais, funcionando como proteção contra as intempéries e espaço de repouso.
Fontes:
Post de Ministry of Tourism and Antiquities وزارة السياحة والآثار. Disponível em < https://www.facebook.com/tourismandantiq/posts/pfbid0XhjS12wuWN4u6Rgwo5GV7UE9uwa8mhky5hZhUARYNcpo133gpx9MTMJaiFXLFXJql >. Acesso em 20 de fevereiro de 2026.
Egyptian archaeological team uncovers Umm Arak plateau in South Sinai. Disponível em < https://sis.gov.eg/en/media-center/news/egyptian-archaeological-team-uncovers-umm-arak-plateau-in-south-sinai/ >. Acesso em 20 de fevereiro de 2026.
Ancient rock art depicting hunters and geometric shapes discovered in Egypt’s Sinai Desert — and it spans a period of 10,000 years. Disponível em < https://www.livescience.com/archaeology/ancient-egyptians/ancient-rock-art-depicting-hunters-and-geometric-shapes-discovered-in-egypts-sinai-desert-and-it-spans-a-period-of-10-000-years >. Acesso em 20 de fevereiro de 2026.
