Algumas palavras sobre Ankhesenamon

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille

Algumas palavras sobre Ankhesenamon… Gosto desta frase, pois é mais ou menos assim que Howard Carter inicia sua descrição da rainha em seu livro “A descoberta da tumba de Tutankhamon” [1] publicado pouco tempo após o achado. Ele, que foi o ator principal da peça que foi a descoberta do sepulcro deste famoso faraó, já tinha percebido o potencial da rainha Ankhesenamon, nome que dez anos mais tarde seria homenageado no filme “A Múmia” (1932). Mas cá entre nós, esta mulher tem algo que de fato nos fascina.

Devo mencionar que recebo um bom número de recados de pessoas fazendo verdadeiras declarações de amor a esta figura tão negligenciada na história egípcia e posso dizer, sem receio algum, que me sinto privilegiada por receber tais mensagens dos fãs dela, pois, não é só um sinal de que o meu trabalho está sendo recompensado, mas também porque nos últimos anos me tornei também uma de suas admiradoras. Talvez seja daí que partimos do pressuposto de que temos que esquecer a história do “pesquisador neutro”. Eu me vi tão envolvida com a vida dela que não posso simplesmente chamá-la de “meu objeto de estudo” ou olhar para suas imagens e tratá-la como se fosse um rato de laboratório. Ankhesenamon também já foi humana e acredite tão humana quanto qualquer um de nós, embora na sua época tenha sido posta em um patamar acima de todos os outros seres humanos, ao ponto de ter recebido, com o seu irmão, o direito a governar o Egito ainda quando infantes.

Ankhesenamon (ilustração cortada). Foto: Araldo de Luca.

“Ankhesenamon também já foi humana e acredite tão humana quanto qualquer um de nós, embora na sua época tenha sido posta em um patamar acima de todos os outros seres humanos (…)”

Apesar de hoje nos parecer um equívoco colocar crianças no poder não era um absurdo para algumas sociedades antigas, dentre elas a egípcia. Por viverem em um mundo totalmente diferente do nosso em termos de ideais, Ankhesenamon e seu esposo eram reverenciados como deuses, embora o palácio ainda se recuperasse do trauma do reinado do faraó anterior, Akhenaton. Como podemos ver o jovem casal real não era um simples par de crianças, pois estavam nesta condição de deuses viventes na terra e recebiam orações de pessoas que desejavam que seus corpos vivessem para sempre. Este era o quadro da época em que Ankhesenamon e Tutankhamon começaram o reinado, mas se alguém me questionasse se o séquito que os acompanhava acreditava que de fato seus jovens governantes possuíam uma essência divina eu jamais saberia dizer, isto é quase a mesma coisa que me perguntar se eu acho que os padres do vaticano acreditam que o Papa possui algum propósito sagrado.

Ankhesenamon em Luxor (ilustração cortada). Foto: Lionel Leruste. 2007.

Por muito tempo imaginei como seria possível alguém conseguir adorar outra pessoa (e não falo de Hollywood, ou coisas do gênero), acreditarem que a existência de outro alguém é muito mais importante do que a sua. Relutei um pouco e acredito que neste momento consigo entender. Odeio fazer analogia entre sociedades, mas sendo que agora me é possível: se lembrarmos de Sei Shônagon (Japão) e sua imperatriz Sadako ou da Madame de Noailles e sua exorbitante etiqueta para com a casa real francesa cremos que estas duas figuras acreditavam fielmente que os seus senhores eram enviados divinos e se sentiam extremamente privilegiadas por estar próximos a eles. Shônagon, por exemplo, chega a quase se sentir imoral ao olhar para os imperadores.

“(…) se alguém me questionasse se o séquito que os acompanhava acreditava que de fato seus jovens governantes possuíam uma essência divina eu jamais saberia dizer, isto é quase a mesma coisa que me perguntar se eu acho que os padres do vaticano acreditam que o Papa possui algum propósito sagrado.”

Embora seja ainda tão ignorada pelo o meio acadêmico, ritualisticamente e administrativamente Ankhesenamon toma papeis importantes durante e após o reinado do esposo. Ela, em termos religiosos, é em parte a essência de Tutankhamon e quando este morre a governante participa ativamente dos ritos de passagem do marido para a vida após a vida. Sua imagem está em muitos lugares dentre os artefatos da KV-62, assim, quando unimos esta situação ao fato de que Tutankhamon era um colecionador de lembranças e levou consigo todas as coisas que mais apreciava, não seria incomum que ele levasse também tantas imagens de sua dúplice e consorte.

Mesmo com todo o apelo divino a rainha naturalmente já tem para si um clamor e amor pela a vida sem igual e uma naturalidade e frescor que é tão difícil de encontrar em muitas de suas antecessoras e sucessoras, esta impressão talvez venha dos resquícios da Era Amarna que ainda rondavam a arte palaciana durante o reinado de Tutankhamon.

É incrível como ela ganhou tantos adeptos ao longo dos milênios, desde Tutankhamon a gente comum de alguma cidade em um país qualquer. Depois de quase três anos não consigo parar de me espantar com o tamanho carinho que as pessoas sentem pela Ankhesenamon, uma rainha morta a mais de três milênios, mas que parece continuar viva nos corações de milhares de admiradores.

Ankhesenamon em Luxor (ilustração cortada). Giuseppe. 2000.

[1] Howard Carter inicia a frase com “Agora, uma palavra sobre a sua esposa”. Esta passagem se dá no capítulo especial sobre o rei e sua rainha.

Márcia Jamille

Arqueóloga formada pela UFS com a monografia “Egito Submerso: a Arqueologia Marítima Egípcia” e mestra em Arqueologia também pela UFS com a pesquisa “Arqueologia de Ambientes Aquáticos no Egito: uma proposta de pesquisa das sociedades dos oásis do Período Faraônico”. É administradora do Arqueologia Egípcia e autora do livro "Uma viagem pelo Nilo". [Leia seu perfil]

14 comentários sobre “Algumas palavras sobre Ankhesenamon

  1. Oi Marcia,estou cada vez mais fascinada pelo egito,até mesmo
    fui em um museu intinerante de um,amei!
    Adoro principalmente a história destes reis tão famosos,
    o Tut,e a Ank(achei que assim ficaria legal o nome dela é muito comprido),e estou escrevendo uns textos ficticios sobre isso.Será que
    por acaso não sabe onde posso encontrar textos sobre duas figuras desta história:Horemheb e Ayi(achei este nome como sendo o do sacerdote que ocupou o trono depois de Tut),se puder ajudar eu agradeço.
    Ps:Adoro seus textos!

    • Olá Natália,

      Primeiramente obrigada pela visita.

      Existem vários textos tanto sobre Ay como sobre Horemheb. Mas normalmente são textos curtos. Não recomendo que você se baseie em documentários, o melhor é ver os vários tipos de fontes e você mesma desenvolver sua critica sob esta história.

      – Se você lê em inglês tem um livro chamado “Tutankhamun’s Armies” (que já comentei por alto aqui no site, mas vou fazer ainda um texto sobre o mesmo), os autores deste livro tem em mente uma roupagem nova para Tutankhamon e sobre a figura de Horemheb.

      – O Casal Solar (acho que é assim o título) de C. Jacq que toca em vários pontos da era amarna e não trata o Ay como “O Vilão”. Este livro é interessante para quem está começando, mas tem que lembrar que o Jacq põe muito da visão dele (na verdade nenhum autor do tema consegue ser neutro).

      – Tem “A vida no antigo Egito” de Eugen Strouhal que fala de vários aspectos da vida dos egípcios e em um dado momento ele comenta sobre a esposa de Horemheb.

      – Você pode tentar também o livro “Egito: terra de faraós” que possui um capítulo intitulado “O faraó que a história não consegue esquecer” que é bem bacana.

      – Você pode olhar sites como o Theban Mapping Project (http://www.thebanmappingproject.com/) e procurar informações sobre o tumulo de ambos no vale dos Reis. (KV57 para Horemheb e KV-23 Ay).

      – Amarna Project: http://www.amarnaproject.com/ . As vezes eles liberam alguns artigos ou papers.

      Em breve planejo por um vídeo do Ay aqui no site, então pode ajudar também #propaganda
      Tem outros materiais, mas são os velhos “mais do mesmo”.

      E… Que bom que gosta dos meus textos!! Fico grata!

  2. Marcia,muito obrigada pela ajuda!!!!
    E valeu pelas dicas,é realmente bom falar com quem
    gosta e entende do assunto.
    E uma dúvida,em um materia sobre o Tut,escreveste sobre um “bastonete” o que seria isso?
    Quero que minha história se aproxime ao máximo,obrigada de novo.

    • O faraó Tutankhamon tinha uma grande coleção de bengalas (os bastonetes) os quais não se sabe a serventia, alguns acreditam que era devido a uma inflamação em uma das pernas que ele adquiriu no final da vida e outros que tinha um objetivo ritual (afinal se você observar as imagens dos deuses não vai ser incomum vê-los hora ou outra segurando um cajado, ou um báculo).
      O pessoal faz muito alarde porque Tutankhamon tinha dezenas destes bastões, mas não sabemos se isto também era comum entre os outros faraós ou qual a real serventia destas peças para Tutankhamon. Cada um está tirando suas próprias conclusões (alguns muitos sem nem sequer nunca ter visto pessoalmente quaisquer uma das peças).

      Abaixo uma exemplo de bastonete retirado da tumba dele, infelizmente não encontrei nenhum dos exemplos mais simples:

      http://arqueologiaegipcia.com.br/wp-content/uploads/bastao_tutankhamon_arqueologia_egipcia.jpg

  3. Parabéns Marcia.A excelência do seu site e das suas matérias em particular se põem como os melhores divulgadores, ao menos no Brasil,da maravilhosa história do Antigo Egito.Nas suas matérias recentes, notei a sua ênfase na abordagem do Novo Império.Meu nome é Francisco Alves Machado.Por favor, Permitas falar-lhe acerda da hipótese que apresento em alguns dos meus livros. Mostro que o Novo Império consistiu,no contexto do processo geral de expansão do grande mercado, na primeira escala imperial de espansão na era pós-diluviana. Neste contexto o Novo Império é representado no signo set, segundo uma antiga teoria. Caso lhe seja confortável, posso lhe enviar um ou outro desses livros.Eles podem ser consultados no meu site “tribodossantos.com” ou no “clubedosautores.com”

  4. Oi, pra falar a verdade, é a primeira vez que acesso o site, pois acabei de ler um livro e quis pesquisar um pouco sobre Ankhesenamon. Bom,primeiramente quero esclarecer que os objetos que Tutankhamon “levou consigo” não era porque ele era um colecionador, mas sim porque as pessoas acreditavam que quando chegassem do outro lado da vida levariam tudo aquilo que colocassem em suas tumbas. E também quero recomendar um livro para quem gosta da história do antigo Egito, o livro é espírita e conta com riqueza de detalhes tudo o que se passou desde o reinado de Akhenaton, passando pelo reinado de Tutankhamon (pai e marido de Ankhesenamon, respectivamente), até o reinado de Horemheb. É o livro “Akhenaton A Revolução Espiritual do Antigo Egito”, a leitura é esclarecedora e fascinante!!!!!

    • Tainara,

      Primeiramente obrigada pela visita, terei que pontuar algumas coisas acerca da sua mensagem:

      – Sim, eu sei qual o propósito do faraó em levar alguns objetos para a sua tumba, porém meu texto em questão fala sobre alguns objetos do espólio funerário, em especial as bengalas e as “relíquias familiares” (talvez tenha sido erro meu não ter explanado mais sobre).

      – Embora livros espíritas sejam bem interessantes eles não são usados em Arqueologia, mas fico feliz que um deles tenha te trazido ao meu site.

      – Fico extremamente admirada que embora seja a primeira vez que visita o site você escreveu sua mensagem em um tom didático… Isto foi no mínimo intrigante (confessa que você nem leu meu perfil vai!).

      Abraços.

  5. Prezada Márcia. É com muita admiração e felicidade que leio e acompanho o seu trabalho sobre este fascinante universo Egípcio. Como entusiasta sobre tudo que se relaciona ao Egito Antigo, posso afirmar sem medo de errar que seu trabalho é passível de todos os elogios. Seu conhecimento sobre o assunto assim como a incansável procura de mais detalhes e conhecimentos sobre o Egito Antigo faz do seu trabalho, uma obra única e ímpar, essencial para todos aqueles que querem estar informados sobre tão fascinante assunto. Parabéns pelo ótimo texto e todos os demais, anteriormente publicados para todos que, assim como eu tenho verdadeiro fascínio por tudo que se relaciona ao Egito Antigo..

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