A revolta virou contra Hawass

Márcia Jamille Costa | @MJamille

 

Discovery Channel, BBC, The History Channel National Geographic, estas são só algumas das emissoras que já receberam Dr. Zahi Hawass para lhes dar algumas de suas palavras. Famoso por suas investidas em nome da repatriação de peças arqueológicas já foi dado como uma das pessoas mais influentes do mundo. Polêmico e arrogante, Hawass ao nível que ganhava uma legião de fãs embolsava detratores.

 

Historicamente o Supremo Conselho de Antiguidades era regido por estrangeiros. Quando Mostafa Amer tornou-se o primeiro egípcio a tomar a posição de diretor do SCA o acontecimento tornou-se notório, desde então somente egípcios têm assumido o cargo, e uma Arqueologia Imperialista deu lugar a uma Arqueologia Nacionalista desesperada pelos fundos retirados do turismo e preocupada com a preservação do passado dos faraós. Hawass – ou Big Boss como anos atrás era chamado – surgiu neste cenário primeiramente recatado e com o objetivo maior de levar de volta ao Egito as peças arqueológicas tidas como “únicas” como a Pedra de Roseta e o busto de Nefertiti, esta sua determinação o tornou famoso e requisitado, principalmente com a descoberta do sepulcro das chamadas “múmias douradas”. Em menos de dez anos Hawass tornou-se o arqueólogo mais conhecido do mundo e era o favorito para aparecer em programas de TVs e entrevistas.

 

 

Dr. Zahi Hawass. Foto: Meghan E. Strong. Retirado de: Dr. Hawass. Disponível em: < http://www.drhawass.com/blog/press-release-pieces-amenhotep-iii-and-tiye-statue-found>. Acesso em 13 de Janeiro de 2011.

 

 

Hoje sua popularidade o coloca na berlinda, muitos acadêmicos ligados a área da Arqueologia Egípcia olham com repudia suas freqüentes aparições na impressa que não raramente são seguidas por algum comentário polêmico. O apelido Big Boss hoje foi substituído por recriminações ligadas ao seu “estrelismo”, críticos começaram a surgir de todos os lados, inclusive de pessoas que nunca sequer trabalharam em escavações no país. Mas a crítica maior surgiu esta semana no próprio Egito saindo dos seus próprios conterrâneos: jovens arqueólogos preocupados com o desemprego na sua área de atuação.

 

Um dos grandes problemas no Egito é a falta de emprego que atinge também vários arqueólogos do país, profissionais que na teoria deveriam trabalhar para o governo, mas que na prática, alegam, nunca receberem uma oportunidade por parte de Hawass. “Ele não quer saber de nós”, disse o recém formado Gamal El-Hanafy de 22 anos – que se formou na Universidade do Cairo em 2009 – carregando em uma pasta seus certificados, “Ele só se preocupa com a propaganda”. Gamal El-Hanafy, assim como cerca de 150 formandos em arqueologia se reuniram nesta segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011, em frente a cede do Supremo Conselho de Antiguidades onde Hawass tem um escritório. Eles argumentam que a indústria de turismo alimenta a economia, mas não sabem como é que este dinheiro é gasto e assim acusam o Ministério de corrupção.

 

Embora não exista afirmações que confirmem, sugere-se que parte da revolta tem amarração com a ligação de Hawass com Mubarak. Hawass aceitou o cargo de Ministro das Antiguidades durante a paralisação quando o ex-presidente tentava amenizar os ânimos dos protestantes demitindo o antigo conselho e criando um novo. Outro problema está em alguns dos comentários de Hawass que pareciam apoiar Mubarak a exemplo do último dado após a saída do ditador e Hawass constatar que peças do Museu Egípcio do Cairo estariam sumidas: “Eu disse que se o Museu Egípcio é seguro, então o Egito é seguro. No entanto, eu agora temo que o Egito não é seguro” frase que acabou coincidido com algumas das afirmações de Mubarak de que manteria o Egito protegido. Especulações à parte, muitas das críticas contra Hawass são de cunho pessoal, mas que tomaram carona na onda de protestos que cercaram o Egito. Não se sabe ainda qual a posição dos demais trabalhadores da área da arqueologia que estão espalhados pelo o resto do país, mas o grupo reunido da segunda-feira, e que foi disperso, prometeu retornar para frente do Supremo Conselho de Antiguidades e protestar de forma pacifica pelo o direito a uma oportunidade de trabalho.

 

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Fonte:

Protesters target Egypt’s antiquities chief. Disponível em: http://www.google.com/hostednews/ap/article/ALeqM5gNv6IKRhurEYPmjAzVk86a0tsX8g?docId=d818e386afeb449d988b51bc767e96d7 Acesso em 15 de Fevereiro de 2011.

 

  

Márcia Jamille

Arqueóloga formada pela UFS com a monografia “Egito Submerso: a Arqueologia Marítima Egípcia” e mestra em Arqueologia também pela UFS com a pesquisa “Arqueologia de Ambientes Aquáticos no Egito: uma proposta de pesquisa das sociedades dos oásis do Período Faraônico”. É administradora do Arqueologia Egípcia e autora do livro “Uma viagem pelo Nilo”.
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3 comentários sobre “A revolta virou contra Hawass

  1. Prezada Jamille:
    Vejo com muito orgulho o quanto você está evoluindo em sua carreira.
    Um dia brincamos que você seria a “Arqueóloga Intergalática”… Por enquanto minhas congratulações por sua dedicação ao Egito, principalmente ao tio Tut.
    Quanto ao Dr. Hawass, pelo que posso observar(corrija-me se estiver enganado), ele moralizou a questão das Antiguidades Egípcias, era inflexível em sua defesa pelos interesses da Arqueologia, da História e deste Patrimônio inestimável de seu País. E um homem assim torna-se inconveniente para muitos outros interesses. Ele merece o respeito e a admiração daqueles que prezam o legado da Civilização Egípcia.
    Abraço.

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