Passado e presente: Tubo para guardar Kohl

 

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille

 

Todos os dias, ao sair de casa, as pessoas que viviam no Egito se deparavam com o calor solar do deserto do Saara, somado a isto estava o fato de que as nuvens eram praticamente inocorrentes, dando poucas possibilidades de sombra fresca. Para prevenir quaisquer problemas com a saúde da pele ou dos olhos criou-se elaborados unguentos e pastas, estas últimas para as pálpebras.

Foram pensadas misturas diferentes para os olhos, mas por fim foi obtido e adotado o mesdemet, que nada mais era que uma pasta negra utilizada para cobrir as pálpebras (às vezes também sobrancelhas) humanas, formando o efeito que corriqueiramente observamos representado nas estátuas e desenhos egípcios:

 

 

O mesdemet era amplamente utilizado entre homens e mulheres e a crença dita que além da sua utilidade estética serviria para reter parte da luz solar e a poeira do deserto, impedindo-os de chegar aos olhos propriamente ditos (RICE, 1999). Sua importância era tamanha que não era incomum que ele composse as listas de oferendas durante o Antigo Império (STROUHAL, 2007).

A bibliografia é um pouco contraditória no que diz respeito a composição deste material. Em alguns casos é sugerido que na antiguidade ele era obtido através da malaquita triturada e em outros diz-se que era misturado com ardósia, esteatito e grauvaque (RICE, 1999), ou mesmo que era obtido através da estibinita ou da galena, esta última sendo a composição do atual kohl (palavra de origem semítica), disponível para comércio no Egito, ou através de distribuidores, e que é tido de uma forma geral como uma maquiagem remanescente do Período Faraônico, é tanto que se habituou a chamar o mesdemet simplesmente de kohl (STROUHAL, 2007).

 

Passado e presente: armazenamento do cosmético para olhos

De forma cônica, o tubo apresentado mais a diante servia para armazenar este tipo de maquiagem. Este em questão é feito com faiança azulada e possui o prenome de Amenhotep III e o nome da Grande Esposa Real Tiye o que levanta a probabilidade de ter pertencido a um (a) alto (a) funcionário (a), um membro da realeza ou ao próprio casal real. Atualmente ele pertence ao acervo do Brooklyn Museum.

 

Tubo de Kohl com os nomes de Amenhotep III e Tiye. Fotografia digitalmente modificada para melhorar a visualização. Imagem disponível em < http://ancientstandard.com/2010/12/08/ancient-cosmetics-the-beautiful-killer/ >. Acesso em 28‎ de ‎maio‎ de ‎2013.

 

Para retirar a pasta do seu interior era utilizada uma pequena vara de madeira ou de faiança, maneira de uso que lembra os nossos atuais modelos de recipientes de cosméticos para olhos:

 

Exemplo de recipiente de um delineador disponível atualmente no mercado.

 

Apesar da leve semelhança no armazenamento, os cosméticos comumente disponíveis em lojas especializadas naturalmente em nada tem a ver com o kohl, mas não só na composição, como também na textura e cor: enquanto hoje existem produtos líquidos, em gel, pasta ou vendidos em forma de lápis, ambos em diferentes cores, o kohl não raramente deveria possuir uma textura provavelmente granulada (se sua matéria prima fosse mal triturada) e a única cor disponível era o preto.

O azul encontrado nas pálpebras e sobrancelhas de em algumas imagens estava relacionado com o lado místico da sociedade egípcia, onde os cabelos das divindades seriam azulados.

Referências:

RICE, Michael. “Glossary”. In: RICE, Michael. Who’s Who in Ancient Egypt. Londres: Routledg, 1999.

STROUHAL, Eugen. A vida no Antigo Egito. (Tradução de Iara Freiberg, Francisco Manhães, Marcelo Neves). Barcelona: Folio, 2007.

 

Márcia Jamille

Arqueóloga formada pela UFS com a monografia “Egito Submerso: a Arqueologia Marítima Egípcia” e mestra em Arqueologia também pela UFS com a pesquisa “Arqueologia de Ambientes Aquáticos no Egito: uma proposta de pesquisa das sociedades dos oásis do Período Faraônico”. É administradora do Arqueologia Egípcia e autora do livro "Uma viagem pelo Nilo". [Leia seu perfil]