A história do Museu Nacional e o Egito Antigo no Brasil

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Na época da minha graduação não era incomum encontrarmos referências ao Museu Nacional da Quinta da Boa Vita (RJ) enquanto estudávamos sobre a história da Arqueologia Brasileira. O Museu Nacional é uma das instituições cientificas mais antigas do Brasil. Seu acervo é composto por peças de diferentes culturas que foram coletadas pelos antigos imperadores, D. Pedro I e D. Pedro II, ou presenteadas por outros colecionistas e frutos de escavações arqueológicas no país.

Museu Nacional

A priori a área do prédio pertencia ao comerciante Elias Antônio Lopes [1] e era composta por um casarão. A propriedade, porém, foi “presenteada” ao rei D. Joaõ VI em março de 1808 e a partir de 1817 tornou-se oficialmente a morada da Família Real (BAKOS, 2004; ECHEVERRIA, 2014). O nome Quinta da Boa Vista se deu pelo fato de que naquela época era possível ver o mar de um dos seus ângulos, do outro a floresta da Tijuca e o Corcovado (ECHEVERRIA, 2014). Foi lá onde viveu D. Pedro I e nasceu D. Pedro II e a sua herdeira, a princesa Isabel (ECHEVERRIA, 2014). Essa última no exílio descreveu como era esta região:

O palácio de S. Cristóvão fica situado num arrabalde do Rio, numa pequena elevação, ao centro de grande e belo parque, que durante minha infância se destacava pelas alamedas ensobradas de mangueiras, tamarineiros e outras árvores. (…) Mais tarde, por inspiração de meu pai, traçou Glaziou a grande avenida em linha reta, margeada de árvores, conduzindo ao pátio fronteiro à bela fachada do Palácio. Dos andares superiores desse paço avista-se um trecho de mar do lado do Caju: de dois outros lados, descobre-se o esplêndido panorama que tem por fundo a Tijuca e o Corcovado. (A vista do alto desta montanha é uma das mais belas que conheço.) (ECHEVERRIA, 2014; pág. 26, 27)

Um jornalista alemão chamado Carl von Koseritz igualmente comentou como era o lugar neste período:

O parque, muito grande, oferece à vista de quem chega bonitas perspectivas de paisagem, mas está malcuidado, primeiro pelas circunstâncias de penúria da Corte e depois porque é público o que faz com que centenas de famílias — que gozam da generosidade e da bondosa permissão do casal imperial — se tenham nele estabelecido e o ocupem na plantação de suas couves. Existem assim numerosas casas, grandes e pequenas, com suas cercas, jardins, etc. que se espalham por toda a Quinta, assim como escolas e estabelecimentos industriais — enfim, uma espécie de pequeno mundo, que a ilimitada inclinação para fazer o bem do casal imperial ali criou, talvez nem sempre para a segurança da propriedade imperial, como certos episódios ainda há pouco mostram. No palácio propriamente não existem guardas; estes se encontram em uma casa guarda, que fica do lado direito, a alguma distância. (ECHEVERRIA, 2014; pág. 204)

Também era lá onde foram realizados os festejos da família. Em época de São João, por exemplo, D. Pedro II armava no parque grandes fogueiras e brincava com as suas filhas e as amigas delas. As crianças do bairro e os filhos dos criados igualmente eram convidados, criando uma grande festa (ECHEVERRIA, 2014).

Durante a Terceira Regência (entre 1887 e 1889), período em que ficou mais clara não somente as convicções abolicionistas da Princesa Isabel, mas que a própria fazia parte de um esquema para ajudar a esconder escravos fugidos, soube-se que um dos lugares em que ela mantinha ocultas essas pessoas era o próprio Palácio da Quinta da Boa Vista. Um fato inusitado, visto que o Brasil, último país que viria a abolir a escravidão no Ocidente, transformou o seu próprio palácio imperial em um quilombo improvável (ECHEVERRIA, 2014).

Os imperadores e o Egito Antigo:

Paralelamente a vida pacata no palácio e sem muitas frivolidades, como relatam os visitantes da época, D. Pedro II se prestava como mecenas, realizando doações para ações culturais e era muito curioso em relação aos avanços tecnológicos e às histórias advindas da Antiguidade. Sua esposa, D. Teresa, embora mais introspectiva que o marido e tida por muitos historiadores equivocadamente como “invisível” e “sem muitas qualidades”, possuía bastante interesse pelo antiquarismo e Arqueologia. Sabia, por exemplo, da importância do artesanato indígena e importou para o Brasil artefatos clássicos (ECHEVERRIA, 2014).

Estátua da imperatriz D. Teresa e as princesas Leopoldina e Isabel.

O casal imperial fez três viagens ao exterior (abrindo espaço para a Primeira, a Segunda e a Terceira Regência da Princesa Isabel). A primeira em 1871, ocasião em que além de conhecer alguns países europeus tiveram a oportunidade de ir ao Egito; e a segunda teve início em 1876 (BAKOS, 2004), cuja turnê mais uma vez foi até este país africano.

Estátua de D. Pedro II.

Sabe-se que ao menos na segunda viagem D. Pedro II cultivou um diário onde se mostrava bastante encantado com a nação que outrora foi comandada por faraós. Seu interesse o fez se corresponder com famosos egiptólogos da época. Foi desta segunda viagem que ele trouxe ao Brasil um sarcófago lacrado como souvenir (BAKOS, 2004). A prática da compra ou o oferecimento de artefatos era comum nesta época, além de vista como uma atividade diplomática admirável. Neste período era comum também que reis ou as pessoas necessariamente ricas possuíssem em seus palácios, palacetes ou mansões um gabinete para curiosidades, criados não somente para o deleite pessoal, mas para demonstrar o poder aquisitivo e influência cultural do seu dono.

O casal imperial e comitiva no platô de Gizé (Egito).

O casal imperial e comitiva no platô de Gizé (Egito).

Mas o sarcófago trazido por D. Pedro II não foi o primeiro artefato adquirido para ser exposto em solo brasileiro: o seu pai, D. Pedro I, comprou no Brasil, em 1827, a coleção de um estrangeiro que estava em passagem pelo país. Ainda na época os artefatos foram doados para o Museu Real, que tinha sido fundado anos antes, em 6 de junho de 1818 e que no reinado de D. Pedro II, em 1842, passou a ser chamado de Museu Nacional (BRANCAGLION JR., 2004).

Em 1889, após sofrer um golpe por parte dos militares, o casal imperial e a princesa regente foram mantidos sob cerco no Paço Imperial e em meio a surdina da madrugada deportados pelo poder provisório. Não tiveram a oportunidade de visitar pela última vez o Palácio da Quinta da Boa Vista, que passou então a ser a cede da Assembleia Constituinte e em 25 de junho de 1892 torna-se o Museu Nacional. Durante estes mais de 100 anos o interior do edifício foi desfigurado, não permitindo saber com certeza absoluta a antiga serventia de cada cômodo ainda existente.

Em seu papel como museu parte da coleção egípcia dos imperadores — inclusive a que estava no Museu Real — hoje está disponível para a visitação, com destaques para uma múmia de uma mulher de procedência desconhecida, datada do Período Greco-Romano, o ataúde selado da cantora Shaamonemsu, o sarcófago de um homem chamado Hori, múmias de animais e algumas estelas funerárias (BRANCAGLION JR., 2004).

O primeiro pesquisador a tentar fazer um catálogo das peças e um levantamento histórico das mesmas foi o russo Alberto Childe, então em seu papel de curador do museu entre os anos de 1912 e 1938 (BRANCAGLION JR., 2004). Depois temos o egiptólogo inglês Kenneth Kitchen, que em 1990, ao lado da arqueóloga brasileira Maria Beltrão, lançou um catálogo da coleção intitulado “Catálogo da coleção do Egito Antigo existente no Museu Nacional, Rio de Janeiro”.

Em 1995 uma forte tempestade fez com que a água da chuva invadisse parte da reserva técnica molhando a múmia de Hori (BRANCAGLION JR., 2004) e despertando severas críticas por parte da opinião pública sobre a capacidade do museu de poder cuidar de tais peças. Ainda hoje é possível encontrar pelos fóruns da internet menções a este acidente, mas como se ele tivesse ocorrido há poucos dias, tamanha é a falta de comprometimento de algumas pessoas de procurar saber ao menos o ano das notícias. Contudo, na atualidade, os artefatos egípcios encontram-se em áreas arejadas e devidamente climatizadas. As múmias, por exemplo, estão agora em invólucros especiais capazes de manter sua integridade física.

Múmia do Período Greco-Romano cuja identidade é desconhecida. Autor da fotografia e ano: Desconhecido. Foto disponível no livro “O Antigo Egito”, Editora Livraria José Olympio. 1983.

Desde a década de 1990 o estudo dos artefatos provenientes deste acervo gerou uma série de artigos e conclusões de curso e atualmente conta com um laboratório dedicado exclusivamente ao estudo da Antiguidade egípcia e que, em sociedade com uma equipe argentina, realiza trabalhos no Egito, em uma tumba tebana.

O museu também tem atraído a atenção de pesquisadores estrangeiros; ele é citado no livro “Cultural Atlas of Ancient Egypt” de John Baines e Jaromir Malek como uma das instituições mundiais que cuidam de artefatos egípcios, assim como no livro “The Scientific Study of Mummies” de Arthur Aufderheide. Também já foi tema em um dos capítulos do programa “Mummy Autopsy” onde a múmia feminina do Período Greco-Romano foi analisada.

Referências bibliográficas:

BAKOS, Margaret. “Como o Egito chegou ao Brasil”. In: Egiptomania: O Egito no Brasil. Rio de Janeiro: Paris Editorial, 2004.

BRANCAGLION JR., Antônio. “Coleções egípcias no país”. In: Egiptomania: O Egito no Brasil. Rio de Janeiro: Paris Editorial, 2004.

ECHEVERRIA, Regina. A história da Princesa Isabel: amor, liberdade e exilio. Rio de Janeiro: Versal, 2014.


[1] Saiba mais sobre a história do terreno onde encontra-se o Museu Nacional através do seguinte link: Linha do Tempo – produção do SAE, homenagem ao aniversário do MN.

Márcia Jamille

Arqueóloga formada pela UFS com a monografia “Egito Submerso: a Arqueologia Marítima Egípcia” e mestra em Arqueologia também pela UFS com a pesquisa “Arqueologia de Ambientes Aquáticos no Egito: uma proposta de pesquisa das sociedades dos oásis do Período Faraônico”. É administradora do Arqueologia Egípcia e autora do livro "Uma viagem pelo Nilo". [Leia seu perfil]